Espiritualidade e Sociedade





Rafael Meneses


>    Sócrates, Espiritismo e Revolução Conceptual

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Rafael Meneses
>   Sócrates, Espiritismo e Revolução Conceptual

 

 

 

Objetivo: Compreender a diferença filosófica entre conceito e opinião, o processo de representação conceptual da realidade e de como o autoconhecimento converge pedagogia e terapia da alma.

 

"A filosofia é um treino de morrer e estar morto" Sócrates - Fédon

1- Como podemos associar o autoconhecimento pregado por Sócrates com a Filosofia Espírita?

Com os sofistas o conhecimento se torna uma espécie de invenção da medida humana, isto é, da faculdade de julgar que submete todas as coisas aos seus critérios particulares. Então, o conhecimento é um conjunto de opiniões razoáveis acerca de qualquer assunto e a legitimidade dessas opiniões se sustentam em critérios subjetivos e retóricos e não em critérios objetivos e lógicos. O conhecimento cujo referencial é puramente subjetivo não permite uma unidade do saber e das ideias no tocante aos problemas e objetos universais da experiência humana, tais como: coragem, destino, felicidade, justiça, dever, beleza, virtude, etc.

Assim, Sócrates, em um primeiro momento, se preocupa com o conjunto das opiniões que dominam a mente das pessoas, opiniões que elas defendem e nem sabem por quê e qual o seu fundamento. Então, convida o indivíduo a mergulhar em sua própria interioridade. Através do diálogo, insta-o a fazer uma introspecção investigativa, analisando o seu próprio pensamento, sua visão de mundo, as noções morais que acalenta e se há realmente uma compreensão dessas noções. Desse modo, faz perceber que no fundo de seu saber há uma ignorância originária, que é precisamente perigosa por não ser percebida ou confusamente camuflada, escondida.

Esse autoconhecimento que Sócrates propõe faz com que o indivíduo, ao invés de ficar proferindo uma avalanche de opiniões e ideias, segundo as conveniências e os interesses particulares do momento, sem se preocupar com a ética do discurso, antes perceba a confusão de seu pensamento, a inconsistência de suas ideias, em uma palavra, em perceber que de fato não sabe praticamente nada e que é necessário passar da postura de mero opinador ao sujeito que detém o conceito do objeto de que se quer tratar.

Na Filosofia Espírita a interioridade, cujo núcleo essencial é a consciência, também é fator preponderante para o conhecimento e vivência da verdade. Pois o objetivo de Sócrates com a maiêutica, que leva ao autoconhecimento, é fazer com que o indivíduo manifeste sua própria razão a fim de julgar a si mesmo com coerência e reconhecer os limites que lhe são próprios e, na Filosofia Espírita, a consciência encerra em si mesma os princípios éticos universais que devem orientar o homem na sua existência. Assim, o homem deve conhecer a si mesmo, ou seja, pela reflexão, debruçar sobre si mesmo e reconhecer as paixões que o dominam, as inferioridades que tisnam seu caráter e, orientado pelos imperativos salutares da consciência, iniciar sua educação, seu melhoramento, efetivamente, seu desenvolvimento intecto-moral.

Tanto em Sócrates como na Filosofia Espírita, o autoconhecimento tem um aspecto pedagógico e terapêutico: ambos querem libertar o homem da ignorância do verdadeiro Bem e da Verdade, e curar, por assim dizer, o homem das doenças morais e fazê-lo alcançar a felicidade pela prática da virtude (areté). O conhecimento tem uma finalidade ética, diferente dos sofistas que querem uma promoção do sujeito a qualquer custo, mesmo em detrimento da Verdade.

 

2- Sócrates distingue os predicados essenciais dos predicados acidentais do sujeito. Como podemos associar tal concepção com o pensamento cristão?

Ao abordar o homem, Sócrates se detém naquilo que o determina e o permite ser tal como é. Então, os predicados essenciais são concernentes as qualidades fundamentais do homem, de maneira que sem essas determinações ele não existiria. De outro modo, os predicados acidentais se referem aos elementos contingentes da constituição humana, sem os quais não alteram em nada seu verdadeiro ser.

Como vimos, em face do relativismo sustentado pelos sofistas, Sócrates propõe que o conhecimento e antes a sua busca seja baseada na apreensão da essência do objeto, superando com isso a mera opinião no esforço dialético de dizer o que é tal coisa. À pergunta: o que é? Interroga-se pela essência, por aquilo que permite o objeto ser.

Assim, a essência do homem é a alma, sem a qual ele deixa de ser; seu corpo pode sofrer inúmeras transformações, como sofre, seja pelo fluir natural ou por patologias várias, e isso caracteriza os predicados acidentais, contudo ele não deixa de ser humano. Na perspectiva do pensamento cristão isso é extremamente importante, pois se aborda o homem também a partir de sua essência, de sua realidade fundamental. Sócrates prepara as bases do pensamento cristão, oferecendo elementos conceptuais para a ideia de igualdade, fundamentada na realidade essencial do homem e não nas suas variações biológicas, fisiológicas e sociais; para a ética igualmente voltada ao essencial e para uma possível relação com o corpo de modo a evitar escravidão, submissão e aviltamento da realidade fundamental humana, a saber, a alma.

 

3- Em que medida os conceitos socráticos de alma e de Deus preparam o pensamento espírita?

Vemos os princípios elementares da Filosofia Espírita serem elaborados lentamente no próprio processo histórico do conhecimento, tanto nos pré-socráticos como agora com Sócrates, pois esse concebia não só a independência da alma em relação ao corpo, como a sua pré existência e que seu destino também está sujeito a palingenesia (vidas sucessivas).

 

4- Em que consiste o conceito? A Filosofia Espírita é conceptual? Exemplifique.

O conceito consiste precisamente em apreender a essência do objeto, ele é uma representação mental tanto de fatos como de valores. Por apreender a essência, ele se detém nos aspectos gerais e universais do objeto, por isso o conceito, quando é realmente concebido, ele se mostra atemporal, não é passível de mudança, pois seus sentido repousa na representação conceptual da essência. Dizemos – quando é concebido – porque nos mantemos na perspectiva do método socrático. Com efeito, Sócrates, através do diálogo, insta o interlocutor a executar dois movimentos no processo de autoconhecimento: primeiro a descida, em que purga a mente das opiniões e ideias confusas; segundo, a ascese, em que, por meio de interrogações sucessivas, faz a alma ascender paulatinamente à visão do objeto a ser concebido, então, concebe o conceito do objeto, porque vislumbrou sua realidade sem a deturpação das opiniões que lhe embaralhavam a mente.

A filosofia é esse exercício lento, rigoroso e meticuloso do conjunto dos conceitos com os quais tentamos conhecer a nós mesmos e toda a realidade, pois geralmente as ideias e os conceitos que acalentamos na mente são concebidos de forma errônea, sem exame, sem reflexão, são inconsistentes e representam de forma muito vaga e imprecisa a realidade do objeto.

Há posições filosóficas que sustentam que os conceitos são fabricados, são invenções, elaborações da mente humana, porque o que existe é apenas o particular, o contingente, o singular, o inapreensível pelas categorias da razão, e o conceito pretende abarcar os aspectos universais do objeto e aquilo que o fundamenta. A representação conceptual da realidade é uma representação fixista e incapaz de apreender as contingências dos objetos particulares – e é só isso que na verdade existe.

Todavia, a Filosofia Espírita é conceptual, isto é, pensa a realidade, os fatos e os valores por meio dos conceitos. Fundamentada em princípios da razão, seja por dedução de regras gerais e axiomas ou por indução, através de inferências da observação da realidade e de experiências mediúnicas, elabora conceitos, mas não reduz o real à representação conceptual, pois admite a intuição como meio de conhecer aquilo que o conceito não apreende. Não compreende o conceito tão somente como invenção, no sentido de que não revela ou não corresponde a uma realidade em si mesma e passível de ser apreendida, tanto na ordem dos fatos como na ordem dos valores. Se mantém na posição socrática: o intelecto pode gradativamente apreender a totalidade das coisas que são em si mesmas, independes da mente; a ordem do pensamento deve se ajustar a ordem do ser; o logos do indivíduo pode se ajustar ao logos imanente do Cosmos.

Por isso que o campo de batalha do Espiritismo é precisamente no campo da ideias, dos conceitos que encerram a mente humana na perspectiva materialista e organocêntrica. Sua missão é promover uma revolução conceptual, ou seja, uma renovação completa das ideias, dos princípios, da concepção de vida, dor e destino.

O conceito é como um intermediário entre sujeito e realidade. O sujeito só poder acessar o real pela representação conceptual. Quando o conceito não apreende de fato o real, se estabelece uma esquizofrenia intelectual, e o Espiritismo vem precisamente estreitar essa relação do sujeito com sua realidade espiritual, reelaborando o conceito de vida, corpo, espírito, destino, etc., para que seu intelecto se adeque verdadeiramente a realidade em que ele está inserido ontológica e existencialmente, mas que não pode ainda perceber pela inconsistência e imprecisão das ideias que pavoneiam em sua mente e que devem sofrer rigoroso exame à luz dos fatos mediúnicos, donde dimana toda a Filosofia Espírita.

O Espiritismo, renovando a concepção geral da vida e estabelecendo o paradigma imortal do Espírito, é também a força propulsora e a substância de um novo ciclo civilizatório que se inicia e uma transformação imponderável de todas as ramificações da cultura, porque repousa nos fundamentos do real, instituídos por Deus.

 

 

Bibliografia

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, ALLAN . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

KARDEC, ALLAN. A Gênese. São Paulo: Lake, 1999.

MORENTE, M. G. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.



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