Everton de Oliveira Maraldi

>   Dissociação, Crença e Identidade: Uma Perspectiva Psicossocial

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Everton de Oliveira Maraldi
>  Dissociação, Crença e Identidade: Uma Perspectiva Psicossocial

 

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Tese entregue ao Instituto de Psicologia da USP como parte do processo para a obtenção do título de Doutor no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e do Trabalho.
Área de concentração: Psicologia Social Orientador: Prof. Dr. Wellington Zangari
São Paulo 2014

 

RESUMO

Introdução e justificativa.
A dissociação pode ser definida como a temporária desconexão (patológica ou não patológica) entre módulos psíquicos e / ou motores que se encontram, em geral, sob o controle voluntário ou acesso direto da consciência, do repertório comportamental usual e / ou do autoconceito. Incluem-se nessa definição fenômenos tanto cognitivos (e.g., envolvimento imaginativo, amnésia psicogênica) quanto conversivos e somatoformes, os quais se relacionam, historicamente, ao diagnóstico de histeria. As pesquisas internacionais têm sustentado sua recorrente associação com determinadas crenças e experiências alegadamente paranormais e / ou de cunho religioso (como transe mediúnico, dons carismáticos e vivências místicas). Tais crenças e experiências estão também frequentemente correlacionadas com outras variáveis ligadas à dissociação, como sintomas depressivos e ansiógenos, queixas somáticas, trauma infantil e transliminaridade (uma medida de alterações de consciência e experiências anômalas). O fato de algumas pessoas apresentarem características psicológicas que as predispõem a tais ocorrências sugere a importância de se compreender melhor como nelas se dá a formação da identidade, seu desenvolvimento cognitivo, emocional e social, de modo a permitir uma abordagem mais ampla de outros aspectos envolvidos nessas alegações e na assunção de várias das crenças relacionadas. A revisão da literatura internacional indica grande quantidade de estudos quantitativos e poucos estudos de natureza qualitativa, com a consequente ausência de aprofundamento em aspectos biográficos e sociais. Até o momento, não existem estudos brasileiros sobre as relações entre dissociação, crença religiosa e transliminaridade.

Objetivos.
Investigar as relações existentes entre dissociação (e seus tipos específicos), crença e formação da identidade em grupos religiosos e não religiosos de participantes brasileiros; Pesquisar os possíveis fatores etiológicos das experiências dissociativas e das crenças e experiências paranormais, bem como suas interações, a partir do estudo de variáveis psicopatológicas e psicossociais diversas; Investigar o papel dos processos inconscientes na formação e manutenção das crenças e experiências religiosas e paranormais; Verificar a extensão e o impacto dos processos dissociativos e das crenças e práticas paranormais e religiosas na formação da identidade e na história de vida, com especial atenção ao desenvolvimento afetivo / emocional e social do indivíduo; Aprofundar a compreensão do contexto grupal e social de inserção dos participantes, de modo a averiguar como tal contexto contribui na construção de suas crenças e experiências, e de como estas afetam ou determinam, em contrapartida, esse mesmo contexto; Pesquisar empiricamente o nível de adesão a crenças religiosas tradicionais e outras categorias de crença paranormal em grupos religiosos e não religiosos de participantes brasileiros.

Método.
De modo a permitir certa generalização para os dados obtidos na pesquisa, bem como, paralelamente, um aprofundamento nos processos individuais e coletivos de construção da identidade, utilizou-se de uma proposta de investigação tanto quantitativa quanto qualitativa. Por meio de questionário sociodemográfico e escalas, compôs-se a frente quantitativa do estudo. No que diz respeito à frente qualitativa, empregou-se entrevistas biográficas abertas, questionário semi-dirigido sobre experiências anômalas / paranormais e observações de campo. Pressupondo-se que determinados contextos religiosos são aparentemente mais receptivos e estimuladores de vivências dissociativas, e que afiliações religiosas mais tradicionais ou mesmo grupos ateístas tenderiam a estimular menos esse tipo de experiências, os participantes do estudo foram divididos em três grupos, com vistas a uma análise mais detalhada dessas diferenças: grupo um (espíritas, umbandistas, membros de círculos esotéricos e ocultistas) , grupo dois (outros religiosos e pessoas sem afiliação definida) e grupo três (ateus e agnósticos), abrangendo um total de 1450 respondentes para a frente quantitativa. O único critério de exclusão foi a idade (18 anos ou mais). O número de entrevistas biográficas (22) e de observações de campo (31) foi determinado com base no critério de saturação. No caso das entrevistas, considerou-se também certo equilíbrio em termos de gênero, idade e número de participantes acima e abaixo da nota de corte utilizada para diferenciar high e low scorers em dissociação (>=20). Para efetuarmos a análise dos dados, recorremos às hipóteses propaladas na literatura psicológica e sociológica recente acerca das crenças e experiências paranormais e de sua relação com os fenômenos dissociativos, buscando avaliar até que ponto nossos dados confirmavam ou não tais modelos hipotéticos. Nossas avaliações também tiveram como pano de fundo trabalhos que versam sobre os processos de construção psicossocial da identidade no mundo contemporâneo e sobre as transformações mais recentes na família e na religião (Bauman, 2005, 2007; Castells, 1999; Giddens, 2002; Paiva, 2007; Poster, 1979), bem como sobre novas formas de subjetivação e sofrimento psíquico (Roudinesco, 2006), incluindo contribuições de teorias psicodinâmicas atualmente em voga, em particular a teoria do apego (Granqvist & Kirkpatrick, 2008) e a teoria da gestão do terror (Pyzscynski, Solomon & Greenberg, 2003).

Principais resultados.
O grupo um e o grupo dois não diferiram entre si em termos de dissociação cognitiva (e.g., despersonalização, envolvimento imaginativo, amnésia psicogênica), mas ambos pontuaram acima dos ateus e agnósticos. Não obstante, o grupo um (em especial, os membros de religiões mediúnicas, como Espiritismo e Umbanda) obteve média significativamente maior em dissociação somatoforme (sintomas conversivos e psicossomáticos), crença paranormal e transliminaridade comparativamente aos demais grupos. Não houve diferença entre os grupos para os relatos de experiência traumática na infância. Quanto maior era o nível de crença paranormal, dissociação e transliminaridade dos participantes, maior era seu nível relatado de sincretismo religioso e de religiosidade individual. A escala de experiências dissociativas correlacionou positiva e significativamente, embora em diferentes graus de magnitude, com a crença paranormal, a transliminaridade, a medida composta de sintomas psicossomáticos, a escala de sintomas conversivos e várias formas de experiência traumática na infância. Todavia, quando controlados estatisticamente os efeitos da transliminaridade, a correlação entre dissociação e crença se desfez, apontando para um possível paper mediador da transliminaridade na relação entre as duas variáveis. A dissociação (somatoforme e cognitiva) não se mostrou elevada nos líderes dos grupos visitados, como supunham alguns dos autores revisados. Uma significativa parcela dos indivíduos com escores elevados na escala de experiências dissociativas denotou personalidade regredida e impulsiva, além de relatar mais experiências anômalas espontâneas.

Discussão.
Comparando-se os dados quantitativos e qualitativos, sugeriu-se uma distinção entre dois tipos de dissociação: uma tendencial, geralmente vivenciada desde a infância por indivíduos predispostos, e outra contextual, limitada à estimulação de certas práticas religiosas ou espirituais. Sugeriu-se, ainda, a existência de uma série de mecanismos psicossociais de mimetismo e desempenho de papéis durante os rituais, os quais podem ser confundidos com fenômenos dissociativos. Defendeu-se a hipótese de que as práticas dissociativas desempenham um papel de legitimação das crenças religiosas e espirituais, sobretudo, em contextos influenciados pelo sincretismo new age, como grupos espíritas e esotéricos, ao facilitar a alteração de consciência e a transição do quadro de referência cotidiano ao religioso. Há dúvidas, porém, quanto ao caráter alegadamente terapêutico dessas práticas. Religiosos tradicionais (como católicos e evangélicos) se assemelharam aos ateus e agnósticos em várias medidas, talvez sugerindo que o movimento ateísta é tão pouco místico e dissociativo quanto a religiosidade mais tradicional e conservadora. Relaciona-se o fenômeno da crença paranormal, do sincretismo religioso e da dissociação a variáveis sócio-históricas mais amplas, como a procura por sensação nas sociedades contemporâneas, a transposição das relações de consumo para o campo religioso e a uma compensação frente a padrões de apego familiares desorganizados. Relaciona-se a personalidade regredida e impulsiva dos high scorers a formas de defesa narcísicas e a uma manutenção da infância e da fantasia na vida adulta. Associa-se o aumento das crenças paranormais e religiosas com a idade à saliência da morte (teoria da gestão do terror), e certos aspectos da psicodinâmica adolescente ao ateísmo, que se mostrou mais frequente em adultos jovens e adolescentes em conflito com suas famílias. Trata-se do primeiro estudo a avaliar experiências dissociativas em uma amostra grande de respondentes brasileiros, e um dos poucos no Brasil a pesquisar de modo qualiquantitativo uma série de hipóteses sobre o transe e a dissociação, incluindo em sua amostra tanto respondentes religiosos quanto não religiosos.


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Fonte: https://www.academia.edu/9007538/Dissocia%C3%A7%C3%A3o_Cren%C3%A7a_e_Identidade_Uma_perspectiva_psicossocial_Dissociation_Belief_and_Identity_a_psychosocial_perspective_




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