Espiritualidade e Sociedade





Heron Malaghini

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Heron Malaghini
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A educação sempre estará relacionada com a área profissional, seja ela qual for, afinal a formação continuada é hoje uma realidade. Praticamente todo profissional tem obrigação de buscar aprimoramento, não existe mais aquela perspectiva de achar que já se estudou tudo que precisava. Aquele que pensar diferente será castigado pelo mercado de trabalho tornando-se assim obsoleto.

Em minha juventude eu era adepto da intenção de estudar apenas o necessário, nunca imaginei sequer fazer uma faculdade, uma vez que na época pensava não ser necessário para realizar meus sonhos. Desde que me lembro por gente eu sonhava em ser um militar do Exercito, e do auge de minha ignorância eu acreditava que não era necessário estudar muito para isso.

A vida me presenteou com uma infância maravilhosa no interior do estado. Eu estudava em um colégio católico dirigido por Freiras Carmelitas, meu pai homem de família tradicional conhecida na cidade, sempre me incentivou a estudar porém sem saber me explicar a seriedade em que isso implicava e o que a falta de interesse nessa área me acarretaria. O maior presente que a vida me deu neste momento de minha existência foi um irmão quatro anos mais velho e cem anos luz mais evoluído. Meu irmão Leandro me dava conselhos que ate hoje repercutem em minha vida, mais do que conselhos e dicas ele dava exemplo, disparado melhor aluno, admirado por todos seu professores, respeitado por todos familiares e conhecidos. Nem preciso dizer que eu não ouvia seus conselhos e que enorme era a decepção dos professores que acreditavam que eu iria seguir os mesmo passos que ele, quando viam nosso sobrenome igual na lista de chamada. Dando sequencia a meus pensamentos limitados, continuei estudando apenas as matérias que me davam prazer, por exemplo, História, principalmente as de guerras do século XIX, as outras matérias eu tirava a média para passar de ano e estava ótimo.

Meu primeiro contato com o ensino profissionalizante foi no ensino médio, quando fiz o curso de Técnico em Contabilidade, fiz apenas por que tinha que escolher algum, pois todos os cursos da cidade eram profissionalizantes. Eu continuava o menino sonhador, não há nada de errado em sonhar desde que não seja de forma tão displicente e equívoca, eu continuava a ignorar todos os conselhos e exemplos que meu irmão me dava, pensava só em jogar futebol de salão e contava nos dias a hora de entrar para o Exercito.

Então o belo dia chegou e com ele o choque, a vida me ensinou que a realidade é bem diferente do que se imagina, principalmente para os displicentes e despreparados.

Consegui entrar para o Exercito, em 1996 fui para Brasília DF fazer parte da Guarda Presidencial, 5° Cia de Choque, e obviamente que aquele jovem que havia negligenciado seus estudos, não tinha espaço nenhum de destaque no Exército, passava-se tempo todo em exercícios pesados de puro esforço físico, onde reinavam pura violência ou o preparo para ela, ainda que em tempo de paz, vi o que a ignorância é capaz de fazer, pessoas sem preparo psicológico nenhum, verdadeiros meninos, pois a maioria tinha apenas dezoito anos, longe das rédeas de seus pais se entregavam a todo tipo de balburdia, ações coléricas, brigas nas ruas da cidade, noites de pura farra e embriagues. Mesmo ciente de que foi um erro pensar que essa era a maneira certa de entrar para o Exército, totalmente despreparado do ponto de vista acadêmico, pois muito diferente é a realidade daquele que entra com uma formação, aprendi coisas boas, companheirismo entre esses jovens que igualmente viveram todo aquele ápice de ignorância e amor a essa pátria tão maltratada e esquecida. Compreendendo que usara a porta de entrada errada é que resolvi sair, porém ainda não havia entendido tudo e a vida me reservava choques maiores do que havia presenciado.

Voltei para minha cidade, Jacarezinho no interior do Paraná, meu irmão já era um oficial de justiça federal em Curitiba, e continuava sua saga de esclarecer a ignorância de seu irmão mais novo.

Eu mudei apenas um pouco o foco, passei a querer entrar para Policia Militar e ignorando os pedidos de meu irmão para entrar em uma faculdade, focava meus estudos no concurso para PM. Os anos se passaram e os concursos minguaram na administração do governador Jaime Lerner, passei anos em uma vida de boêmio, estudava só para concurso e me esbaldava em festas e bares das cidades da região, muitas foram as vezes que meu irmão tentou intervir, pagando cursinhos preparatórios para vestibulares e concursos, inscrições para concursos, viagens para os mesmos, sempre enfatizando o dever que eu deveria ter para comigo mesmo em buscar conhecimento nos estudos. Por muito tempo me mantive nessa mesma conduta, estudava, porém sem maiores pretensões seja para adquirir conhecimento ou o que fosse.

Como os anos passavam e o concurso que eu esperava não saia, então resolvi fazer outro curso profissionalizante, e gostei do curso, me dediquei muito, fiz o curso com ótimo aproveitamento, busquei conhecimento nas aulas e fora dela, consegui dois ótimos estágios, um na Ducke Energi uma empresa americana de geração de energia elétrica, e outro na Usina de açúcar de Jacarezinho, onde aprendi sobre caldeiras. Durante esse tempo em que eu fazia dois estágios ficava a semana toda na cidade de Ourinhos, em SP, e o fim de semana em Jacarezinho, nessa época eu pude ver meu irmão ter um pingo de satisfação, via que ele gostava de me ver caminhando daquela forma.

Passei a realizar concursos para Técnico em Segurança do Trabalho, minha nova profissão, tinha um ótimo conhecimento teórico, assim passei em vários concursos, fiquei em 21° para COPEL, e em 1° para Petrobras, podia notar satisfação de meu irmão. Assumi então a vaga na Petrobras e fui para um curso na cidade do Rio de Janeiro. Nessa cidade em visita a uma livraria Saraiva, peguei paixão pelos livros, essa livraria no Rio tinha um espaço espetacular, um lugar muito agradável, onde você podia ler e tomar café de graça. Foi lá que li meu primeiro livro de Leon Denis. Comecei a tomar um gosto por aprender e assim resolvi fazer a faculdade de Contábeis, pois eu já tinha um curso técnico na área, minha antiga paixão era história, mas eu não tinha ainda vontade de dar aulas.

Veio então à maior provação de minha vida, em meio a toda essa transformação e despertar para o que realmente importava, meu irmão descobriu que tinha leucemia.

Eu estive com ele no hospital em Curitiba e pude ver o seu alivio em saber que eu estava no caminho dos estudos, ele dizia que sabia que tudo ia acabar bem, estava feliz de ver minha conduta. Eu tinha dentro de mim uma verdadeira batalha, pensava o que adiantou tanta luta por parte dele para vencer a miséria que muitas vezes conhecemos de perto e agora estar ali prestes a ser destruído por uma doença.

Essa luta teve fim no ano de 2007, meu irmão com 33 anos partiu, deixando em mim a impressão de que sua missão era me salvar da ignorância, ao ver meu despertar ele se foi.

E eu fiquei aqui completamente desolado, sem compreensão e sem capacidade para entender o que tudo aquilo significava, conheci de perto a palavra tristeza e me entreguei ao desanimo, trabalhar e estudar para que, para no melhor momento de sua carreira encontrar a morte.

Mas a semente do conhecimento e o prazer da literatura já haviam sido plantados em minha vida, o que eu queria era com certeza seguir os passos de meu herói, que dedicara sua vida totalmente aos estudos, eu queria fazer a diferença na vida das pessoas assim como ele fez na minha.

Para superar tal perda e acalmar meu coração me entreguei à literatura da filosofia de Kardec

Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo. Todas as verdades se encontram no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem humana; e eis que, de além túmulo, que acreditáveis vazios, vozes vos clamam: Irmãos! Nada perece. Jesus Cristo é o vencedor do mal; sede os vencedores da impiedade! (Allan Kardec, 1857)


Para recuperar o tempo perdido em uma vida vazia, antes mesmo de terminar a faculdade de Contábeis comecei a de História, minha paixão, dando treinamento de Segurança do Trabalho peguei gosto pela sala de aula. Coordenei estagiários nessa área de segmento, já como servidor da prefeitura de Curitiba. A literatura de História me apresentou homens como Dom Pedro II, apaixonado pela ciências e filosofia, General Osório, Napoleão revolucionário e transformador de seu tempo, o que dizer de homens como Benjamim Franklin, Voltaire, Hobbes, Salomão.

Tomei gosto pelos estudos, e comecei a ter sede de sabedoria, claro sem esquecer o quanto primórdio ainda sou, e que não sou nem um grão de areia nesse mundo, não tenho pretensão nenhuma de sequer chegar aos pés de meu irmão, que dedicou aos estudos toda sua vida. Meu pensamento é somente poder levar a pessoas equivocadas como eu a informação de que podes muito mais do que simplesmente viver momentos banais. E para isso busco estudos e aprimoramento nas oportunidades que me aparecem as quais tento abraçar.

A vida é feita de tristezas e felicidades, há sempre a hora de sorrir depois de muito chorar, assim que apaziguei meu coração, eu encontrei aquele que é hoje o maior prazer de minha vida, no ano de 2013 nasceu meu filho Miguel, peço a Deus que eu consiga passar para ele o gosto pela sabedoria.

Essa é minha história com a educação profissional, passei por dois cursos profissionalizantes antes de me dedicar às faculdades e demais cursos que hoje possuo; a educação profissional esta longe de ser apenas instrumento para tirar meninos do desemprego, como muitos intelectuais dizem. Para mim ela abriu portas e ajudou a despertar interesse pelos estudos. Minha relação com a educação profissional é antiga, eu aproveitei o que ela me proporcionou, e com esses frutos procuro hoje galgar outros voos, não pretendo me afastar dos estudos mais, já estou para iniciar outra graduação em Filosofia e esta experiência no IFPR tem me ajudado a crescer com certeza. Rogo que todo membro de nossa sociedade desperte para o bem que o aprimoramento não só intelectual quanto moral diante dos estudos das ciências e da filosofia como todo, pode trazer a nosso país, pois com esse avanço o Brasil vai conseguir sair do momento de violência que vive hoje, vítima de seus próprios filhos, a pátria mãe agoniza. Que venha à nossa terra mais homens como Pedro de Alcântara, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Benjamin Constant e Leandro Malaghini.

Como nos ensina o mestre Leon Denis “Instruamos a juventude, esclareçamos sua inteligência, mas, antes de tudo, falemos ao seu coração, ensinemos-lhe a despojar-se das suas imperfeições. Lembremo-nos de que a sabedoria por excelência consiste em nos tornarmos melhores” (Léon Denis -1927).



REFERÊNCIAS

Livro completo:
DENIS, L. Depois da Morte. 1 ed. Federação Espírita Brasileira.2012
KARDEC, A. O Evangelho Segundo Espiritismo. Federação Espírita Brasileira, 2012
BARMAM, R.J. O imperador cidadão. 1 ed. Unesp. 2012
Internet:
O Evangelho Segundo Espiritismo: https://evangelhoespirita.wordpress.com/capitulos-1-a-27/cap-6-o-cristo-consolador/instrucoes-dos-espiritos/advento-do-espirito-da-verdade/. Acesso em: 6 mai 2016.
O Evangelho Segundo Espiritismo: https://evangelhoespirita.wordpress.com/capitulos-1-a-27/cap-7-bem-aventurados-os-pobres-de-espirito/instrucoes-dos-espiritos/ii-missao-do-homem-inteligente-na-terra/ Acesso em: 6 mai 2016.

 



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