Epistemologia é um ramo
da filosofia que estuda a origem, estrutura, os métodos e a validade
do conhecimento científico, enfocando mais os critérios
de cientificidade e normatividade conjuntural elaboradas neste âmbito.
Sobre paradigma pensamos que, definir este conceito
basicamente, seja dizer que ele representa os conteúdos de uma
visão de mundo. Isso significa que as pessoas que agem de acordo
com os axiomas de um paradigma estão unidas, identificadas ou
simplesmente em consenso sobre uma maneira de entender e de agir a respeito
de todo o mundo do conhecimento (na totalidade de seus aspectos).
Como crise dos racionalismos o leitor deverá entender: uma crise
epistemológica, em que se anuncia a morte da ciência, da
história e da filosofia; em que se desconstrói o sujeito,
estabelece-se um vazio ético, e reduz-se toda verdade a mero
discurso; quando a sombra do nada, a sombra nietzschena, a angústia
e a sensação de impotência se estendem no mundo.
Introdução
Neste artigo, escolhemos tratar de duas questões:
A atualidade das teorias espíritas em um âmbito epistemológico
e dos esforços necessários à aceitação
destas teorias pela comunidade acadêmica.
Isto posto, percebemos que, questionar se as teorias kardecistas são
epistemologicamente atuais, é o mesmo que perguntar até
que ponto “qualquer” produção cientifica do
século XIX é atual, assim como, antes disso, – e,
ou entrelaçado a isso –, é preciso saber das reais
possibilidades de se considerar o kardecismo como uma produção
cientifica, assim como os caminhos necessários a esta mudança.
I. Gostaríamos
de partir do principio, e consideramos isto inquestionável, que
a obra de A. Kardec seguiu os rigores metodológicos de sua época.
Ele, um cientista social erudito e rigoroso, dotado de grande capacidade,
em sua obra doutrinária seguiu os mesmos princípios teórico-metodológicos
das obras acadêmicas assinadas com seu nome de batismo. Redundante,
mas sempre necessário lembrar que estes trabalhos de juventude,
diga-se, alcançaram um imediato e grande reconhecimento entre
seus pares.
Assim, se aceitarmos que o Espiritismo foi codificado, repetimos, dentro
do padrão cientifico de sua época, já podemos dar
um passo além e tentar analisar se ele envelheceu. E, se sim,
em quais aspectos isso ocorreu? Antes de respondermos temos que deixar
claro algumas coisas: Esta palavra: envelheceu, do modo como foi utilizada
aqui, com certeza não é a mais correta, eu a repeti para
fins didáticos. O que aconteceu foi que, de modo geral, ocorreu
uma crescente transformação teórico-metodológico
que, por critérios extremamente difíceis de se definir,
podem de forma grosseira, neste artigo, serem chamados de novos (e os
que foram substituídos de velhos). Para o leitor menos familiarizado
com as teorias do conhecimento, pode-se colocar o mesmo raciocínio
de outra forma: se formos absolutamente ortodoxos e, por assim dizer,
fechados aos paradigmas já emergentes, e forçoso dizer
que, sob os aspectos operacionais (metodológicos) – e,
naturalmente, estritamente acadêmicos –, o Espiritismo,
como tudo que foi produzido em sua época, sofreu com as novas
teorias. Assim, é somente neste sentido bem especifico que entendemos
estas noções.
Por outro lado, se formos “mais abertos” as mudanças,
podemos com certeza, já afirmar que: o Espiritismo em seu bojo
teórico, como alguns pensadores defendem brilhantemente (e nos
encontramos entre estes), apresenta uma atualidade, impressionante.
Voltaremos a isso mais adiante.
Aqui fazemos uma pequena lembrança à imensa “abnegação”
intelectual do mestre de Lion ao deixar uma reconhecida carreira exclusivamente
acadêmica para dar sua grande contribuição para
a humanidade. Ficamos questionando... Quantos de nós faríamos
o mesmo?
À época de Kardec (bem antes da crise dos racionalismos),
o positivismo era o paradigma dominante, embora se deva dizer que, este
positivismo não era praticado de forma uniforme. Acreditava-se
no progresso humano, na evolução por assim dizer (mesmo
antes de K. Marx), na cognição humana, pensava-se que
a ciência iria solucionar todos os problemas do homem, por “fim”
acreditava-se na razão. Aqui já cabe pontuar que o empirismo,
aliado do positivismo da época de Kardec, é, e tem sido
ou foi, repensado (não disse aceito), nos moldes atuais, com
seriedade, por homens da estatura de Karl Popper, Ernest Gellner, William
James e John Dewey, tomando a forma de neopositivismo para alguns filósofos.
Desta forma, e voltando ao raciocínio do início do primeiro
parágrafo, consideramos que seria ignorar os fatos e a brilhante
biografia intelectual de Kardec não aceitar que, em sua codificação,
ele aplicou os conceitos científicos da época, que, como
já introduzido, estão sendo revisitados atualmente.
Devemos ainda trabalhar com o fato de que a obra kardecista, infelizmente
em nossa opinião, com o passar das décadas, assumiu mais
e mais um caráter de não ciência no âmbito
que, nesse sentido, realmente importa: o acadêmico. Sabemos que
muitos não gostam de serem lembrados disto.
Hoje, desconfiamos que o Espiritismo como ciência, tenha sido
levado mais a sério à época de sua elaboração
do que atualmente, apesar dos brilhantes esforços feitos em todo
o mundo por uma gama de cientistas que ja trabalham com a possibilidade
da existência ou, até mesmo, com os “mesmos”
critérios teóricos de Kardec em sua base espistemológica.
Hoje, sabe-se que todas as áreas do conhecimento humano do século
XIX “envelheceram” mais ou menos, e sobrevivem em termos
teóricos pior ou melhor. Aliás, algumas áreas que
detinham o estatus de ciência, hoje, encontram-se ameaçadas
de perdê-lo. – Estamos pensando na Psicologia, por exemplo,
e em seus “embates” com a Psiquiatria.
Sendo ainda mais abrangente, hoje, todas as disciplinas, em última
instância teórica, estão frágeis e, essa
crise de racionalidade, pode ser vista por vários lados. Assim,
se, a obra de Kardec “já estando” reconhecida como
ciência aos moldes da época de D. Pedro II, “envelheceu”;
isso ocorreu porque tudo “envelheceu”.
Guardando as diferenças transparadigmáticas; como os marxistas,
os kardecistas devem ter a mesma visão, ter Kardec como base,
e não como fim em si mesmo, o que aliás, o magnífico
codificador, deixou bem claro.
Diante de tudo o que foi dito fica outra questão fundamental
até aqui apenas introduzida, que agora será observada
com maior acuidade: até que ponto a obra de Kardec estava além
de seu tempo?
Seria fácil afirmar, – e verdadeiro –, que devido
a já supracitada crise dos racionalismos que vivemos, tudo hoje
em dia pode ser estudado cientificamente, desde que haja um método
academicamente aceito. No entanto, sem recorrer a essa avenida teórica,
acreditamos ser possível enquadrar o Espiritismo, perfeitamente,
em um modelo teórico atual. A “questão correta”
a ser debatida e ampliada é essa, indo muito além da simplória
afirmação de alguns antagonistas que não estudam
muito: espiritismo não é ciência e sim religião.
Já existem trabalhos que buscam esse enquadramento. A obra, ainda
em construção de S. Chibeni, por exemplo, lança
grandes luzes nesse sentido.
Esse autor, tomando como uma de sua bases, o brilhante filósofo
Imre Lakatos, defende que o Espiritismo já foi codificado por
Kardec com todas as características metodológicas de um
atual programa de pesquisa completamente exeqüível e academicamente
aceito. Em seu bojo hipotético o Espiritismo, teria linhas mestras
bem delimitadas e claras, assim como Kardec, já sabia, no seu
século, da necessidade de um conhecimento ser heuristicamente
progressivo.
Assim, se S. Chibeni estiver correto, como nós defendemos que
está, todo o corpo paradogmático espírita guarda
uma certa atualidade impressionante.
II. Um
pensador e poeta, disse que, nesta era de crise das racionalidades os
pensadores do saber quando refletem sobre o conhecimento se assemelham
a Alice (da obra: Alice no País das Maravilhas) quando se vê
de frente com o gato de Cheshire e trava o seguinte diálogo:
– Podia me dizer, por favor, qual o caminho para sair daqui?
– Isso depende muito, do lugar para onde você
quer ir – disse Gato.
– Não me importa muito onde... –
disse Alice.
– Nesse caso não importa para onde você
vá – disse o Gato.
– Contanto que eu chegue a algum lugar –
acrescentou Alice como explicação.
– É claro que isso acontecerá
– disse o Gato – desde que você ande durante algum
tempo.
Nesta estória, nos parece que se os estudiosos espíritas
se recusarem a dialogar com o mundo acadêmico, infelizmente, estarão
(como os pensadores do saber) no papel de Alice. Alguns defendem que
o movimento não esteja se dedicando tanto a sua parte cientifica
como orientou Kardec (aqui deixo ao leitor esta questão).
Quais seriam os caminhos necessários a solução
deste possível impasse?
Nós, que somos espíritas, e compreendemos seus postulados,
sabemos do universo interdisciplinar e transdiciplinar que emerge solidamente
de sua singular base tripartite. Sabemos da imensa necessidade de elevação
moral de nossa humanidade, mas... Como traduzir isso em termos academicamente
aceitos de modo que, seja possível, uma aproximação
mais rápida entre um conhecimento (que luta para seu próprio
reconhecimento como tal) e as outras áreas já acadêmicas?
Segundo ainda o mesmo pensador supracitado, a humanidade uma ou duas
vezes se transformou. Thomas Kuhn também discorre sobre isso
de um ponto de vista epistemológico em sua obra: A Estrutura
das Revoluções Científicas.
Nós, espíritas, acreditamos que uma revolução
moral está vindo e estamos convictos de que será acompanha
por uma cientifica sendo estas, sobretudo, complementares.
Nos parece que as dificuldades inerentes a realização
deste processo foram vistas com extrema clareza por Thomas Kunh quando
ele afirmou que:
(...) Cientistas muitas vezes agem como se estivessem mais interessados
em impedir o progresso científico do que em promovê-lo
(...).
Ele se torna mais claro ainda quando escreveu que:
(...) Essa substituição não ocorre de um modo rápido;
o período de crise, caracterizado pela transição
de um paradigma a outro, pode ser bastante longo. É compreensível
que assim seja, já que cada um dos paradigmas estabelece as condições
de cientificidade do conhecimento produzido no seu âmbito, e essas
condições podem ser consideradas ridículas, triviais
ou insuficientes, pelos defensores do velho paradigma, ou seja, os cientistas
claramente comprometidos e educados à luz do paradigma anterior,
que tudo fazem para impedir a substituição (...)
Nesse sentido, encontramos com precisão cirúrgica, se
assumirmos que este grande pensador está correto, um dos grandes
desafios do Movimento Espírita: lutar para acelerar este processo
de mudança, fazendo com que o mundo científico aceite
a existência do plano espiritual.
Cremos que fazer com que o Espiritismo consiga dialogar novamente com
as academias seja um dos primeiros passos.
Somente é possível vislumbrar as magníficas altitudes
que alcançaremos quando os estudos espíritas forem plenamente
aceitos como acadêmicos. Kardec, com certeza, sabia do tamanho
do impacto desta revolução, da imensa necessidade de sua
realização e construiu, com extrema perfeição,
a base que permitirá essas mudanças. Em nossa opinião
e, como já observado (e teorizado) por S. Chibeni, essa base
jamais estará superada – temos outros motivos em paralelo
com os deste pensador que aqui não discorremos.
Até que ponto nós estamos lutando para que o Espiritismo
seja aceito como um estudo acadêmico, e se, este processo de aceitação
do Espiritismo como “saber cientificamente aceito”, está
perto de seu término, é possível que os de fora
do movimento que, por sua vez, se encontram dentro das academias saibam
responder melhor do que nós. São eles que irão
ampliar no final suas convicções.
No entanto, nos parece que ninguém está em condições
de negar que, cada vez mais, a nossa pacífica luta também
se encontra sendo travada dentro das academias, no território
deles... E isso senhores, já diz muita coisa.
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Fonte: O Mensageiro
http://www.omensageiro.com.br/artigos/artigo-180.htm
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