Uso de práticas espirituais em
instituição para portadores de deficiência mental
Frederico Camelo Leão (1),
Francisco Lotufo Neto (2)
(1) Médico-psiquiatra
e Mestre em Psiquiatria pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-FMUSP), Membro
do Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Nervosos (NEPER).
(2) Médico-psiquiatra,
Livre-docente da FMUSP e Fundador do NEPER.
Resumo
Objetivo: Avaliar o impacto de
práticas espirituais na evolução clínica
e comportamental de pacientes portadores de deficiência mental
internados em instituição de saúde. Método:
Ensaio controlado comparando grupo experimental submetido à prática
espiritual com grupo controle. O instrumento utilizado para obtenção
dos dados foi a Escala de Observação Interativa de Pacientes
Psiquiátricos Internados (EOIPPI). Resultados: A comparação
do grupo controle (n = 20) com o grupo experimental (n = 20) verificou
a diferença de variação entre os grupos (p = 0,045),
demonstrando possíveis benefícios de tal intervenção.
Conclusões: A análise dos resultados obtidos no experimento
confirmou a hipótese de que o uso das práticas espirituais
apresenta resultados positivos na evolução clínica
e comportamental de pacientes portadores de deficiência mental.
Leão, F.C.; Lutufo Neto, F. / Rev. Psiq. Clín.
34, supl 1; 54-59, 2007
Palavras-chave:Utilização
de práticas espirituais, religião e medicina, retardo
mental, saúde mental.
Introdução
“Nós devemos praticar
e defender o fato de que os psiquiatras são médicos da
alma tanto quanto do corpo.” Com essas palavras, a editora-chefe
do American Journal of Psychiatry, Nancy Andreasen, aponta para um cenário
que havia sido relegado pela pesquisa científica (Andreasen,
1996). Vimos surgir em diversas pesquisas uma busca de reaproximação
entre ciência e religião. Esses dois campos de investigação
têm se relacionado de maneira diversa na história da humanidade
(Peters e Bennet, 2003). No estudo realizado por Hess (2003), são
apresentados elementos da história da ciência ocidental
reveladores da união intrínseca que existia anteriormente.
Atualmente existem diversos centros de pesquisa científica que
se dedicam a conduzir investigações sobre as relações
entre saúde e espiritualidade. Nos EUA, por exemplo, as Universidades
George Washington e Duke têm centros de pesquisa em espiritualidade
e saúde. Outros centros, como Harvard Medical School e o Mind/Body
Medical Institute of Deaconess Hospital em Boston* conduzem cursos destinados
a examinar as relações entre práticas médicas
e religião. Outra referência importante é o curso
oferecido pelo Johns Hopkins Medicine: Spirituality and Medicine Institute**.
Na Europa, The Spirituality and Psychiatry Special Interest Group, do
Royal College of Psychiatrists***, dedica-se a pesquisas sobre as interferências
espirituais na saúde mental.
Entre os pioneiros da área, David B. Larson contribuiu para mudanças
quanto às representações de experiências
religiosas e espirituais presentes na versão 3 do Diagnostic
and Statistical Manual, (DSM-III-R) em relação à
versão DSM-IV.
Koenig (2002), da Universidade de Duke, é autor de vários
artigos que discutem de forma crítica as relações
entre religião e saúde. Benson e Marg (1998), da Universidade
de Harvard, também apontam as relações entre espiritualidade
e cura. Astin et al. (2000), do Stanford University Center for Research
in Disease Prevention, fizeram uma revisão sistemática
da cura a distância para todo tipo de tratamento médico.
Em 57% dos ensaios clínicos, verificou efeitos positivos.
No Brasil, Lotufo Neto (1997) afirma que ter uma orientação
religiosa intrínseca pode ser benéfico à saúde
mental. No entanto, a psiquiatria tem negligenciado avaliar os efeitos
de uma atitude religiosa em seus pacientes. O Núcleo de Estudos
de Problemas Espirituais e Religiosos (Neper), do Instituto de Psiquiatria
da Universidade de São Paulo, reúne vários dos
pesquisadores nessa área. Na Unicamp, na área de saúde
mental e espiritualidade, Giglio e Giglio (1991) são líderes
do grupo de pesquisa em psicologia e religião. Nessa mesma instituição,
outro pesquisador nessa linha de investigação é
Dalgalarrondo (1991), cujas pesquisas associam vivências religiosas,
aspectos culturais e psiquiatria.
A pesquisa que associa saúde e espiritualidade se depara com
algumas dificuldades inerentes. O primeiro desafio é vencer o
preconceito de que os assuntos relacionados à fé não
podem ser estudados na ciência. O segundo problema refere-se aos
conceitos de corpo, mente, espírito e alma. Definir as relações
entre corpo e mente permanece sendo um grande enigma. Para alguns, a
mente é um produto do cérebro (Crick, 1994). Para outros,
a mente se localiza no corpo como um todo (Varela et al., 1991).
Em alguns casos, a religiosidade pode exercer efeitos negativos. O fanatismo,
por exemplo, faz que pessoas religiosas muitas vezes excluam ou neguem
condutas médicas. Além disso, vários indivíduos
desenvolvem sintomas derivados de uma interpretação distorcida
de preceitos religiosos. Entre os efeitos psicológicos negativos
mais comuns, observam-se: geração de culpa; diminuição
de auto-estima; repressão de raiva, ansiedade e medo por meio
de crenças punitivas; favorecimento de dependência, conformismo
e sugestionabilidade; desenvolvimento de intolerância e hostilidade
aos que não seguem a mesma religião (Koenig, 2001).
A gênese do espiritismo tem sido associada às irmãs
Fox. Em Hydesville, em 1847, as irmãs ouviram sons inexplicáveis
e conduziram sessões com o objetivo de se comunicar com supostas
entidades espirituais. A repercussão desses eventos e o interesse
pelas manifestações “sobrenaturais” se propagaram
até a Europa (Doyle, 2002).
Também nessa época, Hippolyte Leon Denizard Rivail começou
a estudar sonambulismo e magnetismo. Na evolução de suas
pesquisas, Rivail passou a se interessar por manifestações
espíritas. Suas investigações são consideradas
os fundamentos teóricos da doutrina espírita. Rivail publicou
vários livros e assumiu o pseudônimo de Allan Kardec. Segundo
os preceitos do espiritismo, os livros de Kardec são baseados
em diálogos com espíritos por meio de comunicações
mediúnicas. A partir da codificação de Kardec,
o espiritismo foi se difundido para vários países, inclusive
o Brasil. Na Itália, um grande pesquisador do espiritismo foi
Ernesto Bozzano que privilegiava o aspecto psíquico. Suas pesquisas
geraram vários trabalhos científicos sobre a existência
dos espíritos (Silva, 1999).
No Brasil, o espiritismo assumiu características próprias.
Os mais famosos nomes do espiritismo brasileiro se dedicaram a realizar
obras com ênfase no aprimoramento moral. Entre os mais populares
estão os médiuns Francisco Cândido Xavier e Divaldo
Pereira Franco. Os brasileiros Bezerra de Menezes e Inácio Ferreira,
ambos médicos, foram fundamentais para a difusão das idéias
kardecistas (Stoll, 1999).
No Brasil, o espiritismo aceita, estimula e valoriza experiências
dissociativas, tais como: incorporação espiritual e experiências
fora do corpo. Existem várias instituições filantrópicas
para o tratamento de transtornos mentais que visam a associar práticas
médicas a religiosas. Os procedimentos utilizados são
preces, energização e uso de mediunidade, segundo os princípios
da doutrina espírita (Negro, 1999).
As comunicações recebidas pelos médiuns podem ter
duas origens: um espírito desencarnado (de pessoa que já
faleceu) ou um espírito encarnado (pessoa viva), embora a comunicação
por meio de espíritos de desencarnados seja mais freqüente
(Bozzano, 1940).
Historicamente, organizações religiosas têm fundado
e mantido serviços de saúde mental em diversas regiões
do planeta (Larson, 1997). Segundo uma pesquisa feita pelo Instituto
Superior de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Universidade
Johns Hopkins, o Brasil tem em torno de 220 mil instituições
filantrópicas, agregando 10 milhões de voluntários,
atendendo a cerca de 40 milhões de pessoas, isto é, cerca
de um quarto da população brasileira. Segundo o censo
demográfico de 2000, 1,3% da população se declarou
espírita. A contribuição que o espiritismo oferece
à sociedade brasileira por meio de seus hospitais filantrópicos
é significativa, visto que a saúde pública é
deficitária.
A instituição estudada, o Centro Espírita Nosso
Lar Casas André Luiz (Cencal), oferece atendimento técnico
multidisciplinar a 650 pacientes portadores de deficiências mental
e múltiplas, que passam sua vida inteira no hospital. Nessa instituição,
os pacientes recebem, em paralelo, atendimento espiritual, uma vez que
o Cencal segue a filosofia espírita. As práticas espirituais
não entram em conflito com os procedimentos da medicina convencional
e envolvem aplicação de preces e realização
de reuniões mediúnicas. Esta pesquisa focou-se nas atividades
de assistência espiritual realizadas nas reuniões mediúnicas.
Um dos autores da presente pesquisa trabalha na instituição
desde 1997 e observou empiricamente variações positivas
na evolução clínica e comportamental de pacientes
que participaram das práticas espirituais (reuniões mediúnicas),
mesmo quando eles não estavam presentes fisicamente.
O objetivo geral desta pesquisa é estudar os resultados terapêuticos
da aplicação de práticas espirituais em pacientes
portadores de deficiência mental. Buscou-se também avaliar
o impacto de uma reunião mediúnica na evolução
clínica e comportamental dos pacientes portadores de deficiência
mental.
A hipótese do estudo é: pacientes portadores de deficiência
mental que participam de sessão mediúnica apresentam melhora
de seus problemas clínicos e/ou comportamentais.
Método
Casuística
Do total de 650 pacientes portadores
de deficiência mental, segundo a CID-10, internados na Unidade
Hospitalar de Longa Permanência das Casas André Luiz foram
constituídos dois grupos (experimental e controle) com 20 pacientes
cada um.
Instrumentos
O instrumento escolhido para obtenção
dos dados foi a Escala de Observação Interativa de Pacientes
Psiquiátricos Internados (EOIPPI) (Zuardi et al., 1989), que
é um instrumento de avaliação de alterações
clínicas e comportamentais de pacientes por combinar observação
direta e julgamento clínico. Os fatores que envolvem cuidados
especiais, interesse e competência social são encontrados
na Escala de Observação Direta do Comportamento.
A EOIPPI tem uma graduação
de itens que lida com a relação avaliador/paciente. É
uma escala que tem 16 itens de avaliação e para cada um
há apenas uma graduação possível (0, 1 ou
2), devendo ser escolhida a que mais bem descrever a observação.
A validade da EOIPPI foi estabelecida
em pacientes internados na Unidade Psiquiátrica do Hospital das
Clínicas de Ribeirão Preto. Verificou-se que a EIOPPI
mostrou fidedignidade interobservador significativa. Os critérios
de validade preditiva também foram satisfeitos, uma vez que os
pacientes que tiveram alta, em até uma semana após a última
avaliação, apresentaram escores da EIOPPI significativamente
menores que os pacientes que não tiveram alta nesse período
(Zuardi et al., 1995). O conjunto das observações mostra
que a EOIPPI satisfaz os critérios de confiabilidade e validade,
exigidos para uma escala de avaliação, estando em condições
de ser utilizada para a finalidade de avaliação das possíveis
alterações clínicas e comportamentais.
Procedimentos
O Nas Casas André Luiz, as reuniões
mediúnicas são compostas por um grupo de 12 pessoas, em
média, em que cada um tem uma função específica.
Aproximadamente metade do grupo é constituída por médiuns
e os demais podem atuar como dirigente, orientador ou apoio. Após
a leitura inicial, ocorre uma prece de abertura para harmonização
dos participantes. Em seguida, os médiuns ficam receptivos à
comunicação mediúnica, que ocorre de modo espontâneo.
Muitas vezes, considera-se que essas comunicações provêm
de espíritos de pacientes internados na instituição
(daqui para frente denominados comunicantes). A conversa que se estabelece
visa a ajudar o comunicante a superar a condição aflitiva
em que se encontra. O comunicante não está fisicamente
presente na reunião e sua identificação nem sempre
é possível. As reuniões mediúnicas são
realizadas semanalmente, com duração de duas horas cada
uma.
Todos os 650 pacientes das Casas André
Luiz foram acompanhados por seis meses, sendo avaliados no início
e no final desse período com a escala EOIPPI, obtendo duas amostras
de dados. As duas avaliações foram realizadas por
profissionais de nível superior após prévio treinamento.
Além disso, os entrevistadores eram cegos ao procedimento espiritual.
O grupo experimental foi formado
por 20 pacientes que ao longo desse período participaram das
reuniões mediúnicas. O grupo controle foi formado por
20 pacientes, por meio de pareamento (por idade, sexo e grau de deficiência
mental), a partir dos outros 630 pacientes que não participaram
da reunião mediúnica.
Três tipos de identificação espontânea foram
observados durante as comunicações mediúnicas:
1. Sujeito comunicante se identifica
pelo nome;
2. Na comunicação mediúnica, o sujeito comunicante
apontava e/ou expressava características pessoais, comportamentais
e clínicas de determinado paciente;
3. Comunicações de caráter genérico, inconclusivas,
sem identificação precisa.
Estabeleceu-se que só fariam
parte do grupo experimental casos enquadrados nas categorias 1 e 2,
ou seja, comunicações inconclusivas e/ou sem identificação
foram excluídas deste grupo. O grupo controle foi composto por
pacientes que não se classificaram como sendo sujeitos comunicantes
das reuniões mediúnicas, a partir de pareamento de gênero,
idade e grau de deficiência mental.
Os pacientes, supostos sujeitos comunicantes
desta reunião, por não estarem fisicamente presentes nem
terem conhecimento de sua eventual participação, não
sabem de sua elegibilidade para o grupo experimental. Os avaliadores
não têm conhecimento de quais foram os sujeitos que supostamente
participaram, o que caracteriza um estudo do tipo duplo-cego.
O procedimento das reuniões
mediúnicas obedeceu a parâmetros da doutrina espírita.
Em todas as reuniões mediúnicas, adotava-se o procedimento
do diálogo que passava por três fases ou momentos. No primeiro
momento, o diálogo tinha por objetivo acalmar angústias,
rancores, cóleras, entre outros sentimentos, e com isso proporcionar
bem-estar. O segundo momento visava a estabelecer um vínculo
de confiança entre o sujeito comunicante e o orientador da sessão.
Em seguida, adotavam-se técnicas sugestivas de valorização
da vida, conforto e aconselhamento moral.
Estatística
Efetuou-se a análise descritiva
de todas as variáveis do estudo. As variáveis qualitativas
foram representadas em termos de número absoluto e porcentagem.
As variáveis quantitativas foram representadas em termos de seus
valores de tendências centrais e dispersão. Para verificar
a aderência à curva normal, aplicou-se o teste de Kolmogorov-Smirnov
e, para constatar a homogeneidade das variâncias, o teste de Levene.
Como as variáveis deste estudo apresentaram esses dois princípios
satisfeitos, foram utilizados testes paramétricos, teste t (quando
se comparou o grupo experimental com o controle tanto para escore I
[avaliação inicial] quanto para escore II [avaliação
final]) e teste t pareado (quando se comparou o grupo experimental com
o controle [escores I e II]). Além disso, aplicou-se o teste
de ANOVA (análise de variância) de medidas repetidas para
verificar se havia diferenças nos grupos e no tempo (escores
I e II) ao mesmo tempo. O nível de significância foi de
5%.
Resultados
Grupo geral: A população estudada é
constituída por 650 pacientes, todos portadores de deficiências
mentais.
Grupo experimental: Ocorreram 58 comunicações
em reunião mediúnica durante o período do estudo.
Nestas, 20 satisfizeram os critérios de identificação
adotados pelos autores e 38 não. Portanto, o grupo experimental
foi constituído por 20 pacientes.
Dados biodemográficos
Não há diferenças
entre os dois grupos quanto às variáveis gênero,
idade e grau de deficiência mental (Tabela 1).

Resultados da Escala de Observação
Interativa de Pacientes Psiquiátricos Internados (EOIPPI)
A análise estatística
compara o grupo experimental (n = 20) com o grupo controle (n = 20),
constituído pelo método de pareamento por idade, gênero
e grau de deficiência. Aplicando o teste t da diferença
de variação entre os grupos, obtivemos p = 0,045. No teste
t pareado, p < 0,0001. Esses dados revelam que ocorreu variação
positiva.
Observa-se, na figura 1, que quando
comparados o grupo experimental (n = 20) com o grupo controle, ambos
diferiram entre si quanto à variação entre escores
I e II (teste t, p < 0,05). Esse resultado é confirmado pelo
teste Qui-quadrado (p = 0,008), conforme demonstra
a tabela 2.

Cinqüenta e cinco por cento dos
pacientes melhoraram no grupo experimental.
Observa-se nessa figura uma melhor variação do grupo experimental
que no grupo controle.
Discussão
Observando os resultados obtidos, ocorreram
58 comunicações em reunião mediúnica durante
o período do estudo, e 20 satisfizeram os critérios de
identificação adotados. Na análise da diferença
observada, verifica-se que a variação da média
de escores do grupo experimental (5,6) é maior que a do grupo
controle (3). Na comparação
do grupo controle (n = 20) com o grupo experimental (n = 20), verificou-se
a diferença de variação entre os grupos (p = 0,045),
o que demonstra um resultado estaticamente significativo.
Esse resultado positivo gera várias
reflexões. A primeira, sem dúvida, leva a considerar
o efeito positivo nas pessoas que participaram de uma comunicação
mediúnica. Uma das questões a ser posta refere-se às
relações entre os benefícios observados e os benefícios
obtidos mediante apoio psicoterápico. Sabe-se que muitos pacientes
apresentam melhoras de sintomas ao expressar verbalmente suas angústias.
Nesse sentido, é possível que essa prática espiritual
ofereça uma oportunidade de comunicação para uma
população que é incapaz de se comunicar pelas vias
convencionais. Outra possibilidade está no fato de uma instituição
religiosa com atividades interdisciplinares ter nas suas práticas
religiosas um estímulo adicional aos membros das equipes técnicas
de um trabalho mais dedicado do que instituições sem orientação
espiritualista. Nesse sentido, observam-se nesse caso os benefícios
organizacionais que a aplicação de terapias complementares
pode gerar.
A segunda série de questões emerge do seguinte ponto:
tendo em vista os benefícios obtidos, como é possível
se desenvolver uma reflexão que gere um sistema de aplicação
dessas práticas para que outros pacientes sejam beneficiados.
Seria possível replicar esse experimento em uma instituição
laica? E mais, seria possível replicar esse experimento mediante
a aplicação da prática espiritual por meio da formação
de reuniões mediúnicas dirigidas a pacientes com deficiência
mental internos em outras instituições?
Outro ponto relevante quanto à
aplicação dessas práticas diz respeito à
duração. Como determinar o tempo necessário e suficiente
para consolidar as melhoras obtidas? As práticas espirituais
devem ser realizadas durante um período prolongado? Se sim, qual
a freqüência das aplicações das práticas?
No caso estudado, as reuniões mediúnicas são realizadas
semanalmente. Será que em aplicações das práticas
em outras instituições deverá ser mantida essa
mesma freqüência? Esses tópicos não foram cobertos
na presente pesquisa, mas, com certeza, com a obtenção
dos resultados positivos, será necessário investigar essa
freqüência. Outro ponto a ser destacado refere-se ao fato
de que a presente pesquisa colheu os dados no intervalo de seis meses.
Nesse sentido, é importante enfatizar que os resultados obtidos
se deram segundo práticas que ocorreram em determinado período.
Observa-se que a humanidade em seu desenvolvimento
sempre buscou desenvolver tecnologias que expandissem sua capacidade
de comunicação. Há menos de um século, a
idéia de que seríamos capazes de conversar, em tempo real,
com pessoas dispersas no planeta era uma ficção, algo
muito improvável de se realizar. Há vários anos,
o pesquisador inglês Ascott (1999) vem desenvolvendo pesquisas
que inter-relacionam as experiências psíquicas extracorpóreas
do xamanismo com algo que é cotidiano na presente era da cibercultura.
Segundo ele, ao se navegar no ciberespaço, experenciam-se diferentes
possibilidades de presença, percepção e comunicação.
Considerando essas premissas, será que a abertura de um novo
campo de pesquisa que possibilite outras formas de comunicação
para os deficientes mentais poderá trazer benefícios na
qualidade de vida desses indivíduos, aumentando sua auto-estima
e transformando sua atuação social?
Será que os resultados positivos
obtidos neste estudo não estão apontado para a questão
de Nancy Andreasen citada logo no início deste artigo? Como pensar
uma psiquiatria na qual o profissional possa interagir com o corpo e
a alma de seus pacientes? Será que os conceitos com os quais
se operam as reflexões são suficientes para articular
um pensamento investigativo? Será que a humanidade está
preparada para olhar para esses conceitos sem preconceitos?
A princípio, as investigações
foram conduzidas no sentido de verificar se os pacientes que se comunicaram
via reuniões mediúnicas apresentaram melhoras significativas
em sua evolução clínica e comportamental. A população
estudada é de portadores de retardo do desenvolvimento mental.
Assim, não se procurou verificar possibilidades de cura dessa
enfermidade, mas sim melhoras clínicas de intercorrências
pontuais e, principalmente, melhoras de comportamento.
A análise dos resultados obtidos
no experimento confirmou a hipótese. Embora durante vários
anos tenha prevalecido uma visão na qual se inter-relacionavam
mediunidade e transtornos mentais, estudos recentes não comprovam
essa relação direta de causa e efeito (Almeida e Lotufo
Neto, 2003). Nesse sentido, é bom que se retome a questão
das práticas espirituais que visam a melhora de males espirituais
segundo uma perspectiva que englobe o conceito de evolução
como um processo contínuo. Em inglês, há dois termos
que, apesar de terem significados semelhantes, guardam diferenças
sutis. Healing refere-se ao processo enquanto tratamento e, nesse sentido,
envolve o conceito de melhora; cure é mais empregado para se
referir a curas pontuais, estando muitas vezes associado ao conceito
de milagre. Talvez fosse interessante retomar a avaliação
dos resultados a partir desse paradigma de processo de cura (healing).
Conclusões
Os resultados obtidos na presente pesquisa
estimulam a produção de novos estudos. Entre os possíveis
desdobramentos que se pode sugerir há: novas análises
e novos experimentos; aplicação do modelo de prática
das comunicações mediúnicas como terapias complementares;
outros desenvolvimentos de métodos de reconhecimento para supostos
sujeitos comunicantes portadores de deficiência mental; conceituação
de benefícios clínicos e comportamentais como indicativos
provisórios e inconstantes etc. A partir de uma perspectiva interdisciplinar,
é necessário que se reexamine os resultados em correlação
com os demais procedimentos terapêuticos, quer sejam de natureza
religiosa, quer não.
Esta pesquisa foi pioneira ao
investigar os possíveis efeitos clínicos e comportamentais
oriundos de práticas religiosas espíritas em portadores
de deficiência mental. Com certeza, muitas outras pesquisas precisam
ser desenvolvidas para que o fenômeno das relações
entre essas práticas religiosas e benefícios clínicos
e comportamentais seja compreendido em sua complexidade.
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