Eugenio Lara

>    Racismo e Espiritsmo

Artigos, teses e publicações

Compartilhar

Eugenio Lara
>    Racismo e Espiritsmo

 

(…)

A respeito da manifestação de índios e pretos velhos nas sessões mediúnicas, o filósofo espírita Herculano Pires tece interessante abordagem e analisa o espanto de algumas pessoas impregnadas, segundo ele, “de antigos preconceitos”. Herculano considera também a possibilidade de que tais fenômenos ocorrem no meio espírita como “uma ação programada no sentido de mostrar a iniqüidade das discriminações raciais.”

O movimento espírita, como qualquer outro movimento, seja ele qual for, sofre as influências do meio cultural. Na nossa cultura, o sentimento racista se expressa, como vimos, das mais variadas formas. Ela está toda impregnada por este sentimento, que condiciona os valores e o comportamento dos grupos sociais. Não há no movimento espírita o racismo manifesto. Ele não é um movimento como o dos skinheads, por exemplo, que se engajam em uma cruzadas segregacionista contra os negros, judeus e nordestinos. Todavia, as pessoas que o compõem se acham mergulhadas numa atmosfera tal que as conduz a comportamentos que poderíamos classificar como racistas. Apesar de serem ideologicamente contra qualquer manifestação racista, podem assumir, sem perceberem, comportamentos nitidamente discriminatórios em relação ao negro, até de modo inconsciente.

(…)

Com o advento dos movimentos de consciência negra, religiões afro-brasileiras como a Umbanda, o Candomblé, o Carimbó, etc. passaram a ser mais valorizadas e encaradas como autênticas manifestações da religiosidade nacional, em que pese as influências do cristianismo e do Espiritismo sobre elas.

Afirma o jornalista Ubiratan Machado que “ao lado do kardecismo, desenvolveu-se um vigoroso espiritismo popular.

Em alguns momentos, a vitalidade deste chegou a parecer uma ameaça, porém, era apenas aparente. O caminho dos vários espiritismos, apesar dos atalhos de ligação e das influências recíprocas, sempre foram distintos.”

Essa distinção, colocada por Ubiratan Machado quanto às relações entre o Espiritismo e as religiões sincréticas, entre os vários espiritismos, atualmente ganha outras nuances com o movimento negro, a ponto de se estabelecerem nítidas peculiaridades entre Umbanda e Espiritismo, por exemplo, em nível terminológico e semântico. Isso porque, para muitos líderes negros, ”Espiritismo é coisa de branco, é elitista, e foi fundado por um branco europeu”. E a Umbanda, uma religião de negros, uma religião de massas. Através dela o povo tem livre acesso à manifestação mediúnica, enquanto que o Espiritismo, pela sua própria natureza filosófico-científica, confere a essas manifestações um tipo de tratamento diferenciado, metodológico e bem mais reservado.

De certo modo, o avanço do movimento negro tem uma contrapartida favorável à divulgação do Espiritismo. Na Bahia, por exemplo, onde os movimentos são bem organizados (vide Olodum, Afoxé Filhos de Gandhi, Timbalada, etc.), não existe a confusão que se faz, no sul do Brasil, entre Espiritismo e Umbanda, principalmente porque a religião afrobrasileira lá é bem desenvolvida e disseminada. Enquanto que no sul, além do preconceito, há muita desinformação acerca desse tema.

RACISMO E ESPIRITISMO - Eugenio Lara

Eugenio Lara, 38 anos, arquiteto e design gráfico, é redator e produtor gráfico do jornal de cultura espírita Abertura, membro fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc) e do Instituto Cultural Kardecista de Santos. Trabalho concluído em 1994, apresentado no Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc) e no II Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, de 1991.





topo

Vejam outros textos de Eugênio Lara

-> Amélie Boudet, Uma Mulher de Verdade
-> Conceito Espírita de Evolução
-> O Espiritismo e o Lugar Social da Igreja
-> Mediunidade Social
-> Milenarismo e Espiritismo
-> Racismo e Espiritsmo
-> Sobre o Pseudônimo de Denizard Rivail