Espiritualidade e Sociedade



Allan Kardec

>   Uma reconciliação pelo espiritismo

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Allan Kardec
>   Da perpetuidade do Espiritismo - Revista Espírita

 


REVISTA ESPÍRITA
publicada sobre a direção de Allan Kardec

"Revista espírita", setembro de 1862


O espiritismo muitas vezes provou a sua benfazeja influência restabelecendo a boa harmonia nas famílias e entre os indivíduos. Disso temos numerosos exemplos, mas a maioria são de fatos íntimos que nos são confiados, poder-se-ia dizer sob o segredo da confissão, e que não nos pertence revelar. Não temos o mesmo escrúpulo para o fato seguinte, que oferece um interesse tocante.

Um capitão de navio negociante do Havre, que conhecemos pessoalmente, é ao mesmo tempo excelente espírita e bom médium. Vários homens de sua tripulação foram iniciados por ele na doutrina, ele não tivera senão que disso se louvar pela ordem, a disciplina e a boa conduta. Havia a bordo seu jovem irmão de dezoito anos, e um prático de piloto de dezenove anos, ambos bons médiuns, animados de uma fé viva e recebendo com fervor e reconhecimento os sábios conselhos de seus espíritos protetores. Uma noite, todavia, se tomam de querela; das palavras vão às vias de fato; tão bem que marcam um encontro para a manhã do dia seguinte, a fim de se baterem em algum canto do navio.

Tomada essa resolução, eles se separam. Na noite, foram os dois tomados da necessidade de escrever e receberam cada um de seu lado, de seus guias invisíveis, uma enérgica admoestação sobre a futilidade de sua disputa, e conselhos sobre a alegria da amizade, com um convite de se reconciliarem, sem pensamento dissimulado. Os dois jovens, movidos pelo mesmo sentimento, deixaram simultaneamente seu lugar e vieram, chorando, se lançar um nos braços do outro, e depois nenhuma nuvem perturbou entre eles o entendimento.

Foi do próprio capitão que tivemos esse relato; tivemos sob os olhos o caderno de suas comunicações espíritas, assim como o dos dois jovens, onde vimos aquela da qual acabamos de falar.

O fato seguinte ocorreu ao mesmo capitão em uma de suas travessias.

Ser-nos-á grato transcrever, embora seja estranho ao nosso assunto.

- Estava em pleno mar, pelo melhor tempo do mundo, quando recebi a comunicação seguinte: "Toma todas as precauções; amanhã às duas horas estourará uma borrasca, e teu navio corre o maior perigo". Como nada podia fazer prever o mau tempo, o capitão acreditou primeiro numa mistificação; entretanto, para não ter nada a se censurar, o que quer que aconteça, preparou-se. Isso foi bom para ele; porque à hora dita, uma violenta tempestade se desencadeou, e durante três dias seu navio correu um dos maiores perigos que ele jamais correu; mas, graças às precauções tomadas, dela se saiu sem acidente.

O fato da reconciliação nos sugeriu as reflexões seguintes.

Um dos resultados do espiritismo bem compreendido, apoiamo-nos sobre estas palavras: bem compreendido, - é de desenvolver o sentimento da caridade; mas a própria caridade, como se sabe, tem uma acepção muito extensa, desde a simples esmola até o amor aos seus inimigos, que é o sublime da caridade; pode-se dizer que ela resume todos os nobres impulsos da alma para com o próximo. O verdadeiro espírita, como verdadeiro cristão, pode ter inimigos; - o Cristo não os teve? - Mas não é o inimigo de ninguém, porque está sempre pronto a perdoar e a restituir o bem pelo mal. Que dois verdadeiros espíritas hajam tido outrora motivos de animosidade recíproca, sua reconciliação será fácil, porque o ofendido esquece a ofensa e o ofensor reconhece seus erros; desde então entre eles não há mais querelas, porque serão indulgentes um com outro e se farão concessões mútuas; nenhum dos dois procurará impor ao outro um humilhante perdão que irrite e fira mais do que não acalme.

Se em tais condições dois indivíduos podem viver em boa harmonia, pode sê-lo assim com um maior número, e desde então serão tão felizes quanto se pode sê-lo sobre a Terra, porque a maioria de nossas tribulações nasce do contato dos maus. Suponde, pois, uma nação inteira imbuída desses princípios, não seria a mais feliz do mundo? O que é apenas possível para os indivíduos, dir-se-á, é uma utopia para as massas, a menos que se dê um milagre. Pois bem! Esse milagre, o espiritismo já fez muitas vezes em pequeno para famílias desunidas, onde reconduziu a paz e a concórdia; e o futuro provará que pode fazê-lo sobre uma grande escala.

"Revista espírita", setembro de 1862
Allan Kardec


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