Allan Kardec

>    Maomé e o Islamismo

Revista Espírita

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Allan Kardec
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Revista Espírita
Jornal de Estudos Psicológicos
ANO IX AGOSTO DE 1866 Nº 8

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Algumas vezes, sobre os homens e as coisas, há opiniões que se acreditam e passam ao estado de coisas aceitas, por mais errôneas que sejam, porque se acha mais fácil as aceitar completamente acabadas. Assim acontece com Maomé e sua religião, da qual quase que só se conhece o lado legendário. Além disso, o antagonismo das crenças, quer por espírito de partido, quer por ignorância, empenhou-se em fazer ressaltar os pontos mais acessíveis à crítica, muitas vezes deixando intencionalmente na sombra as partes mais favoráveis. Quanto ao público imparcial e desinteressado, é preciso dizer em sua defesa que faltaram elementos indispensáveis para julgar por si mesmo. As obras que o poderiam ter esclarecido, escritas numa linguagem apenas conhecida de alguns cientistas, eram-lhe inacessíveis; e como, em última análise, não havia para ele nenhum interesse direto, acreditou sob palavra naquilo que lhe diziam, sem perguntar mais. Disto resultou que sobre o fundador do islamismo se fizeram idéias muitas vezes falsas ou ridículas, baseadas em preconceitos, que não encontravam nenhum corretivo na discussão.

Os trabalhos perseverantes e conscienciosos de alguns sábios orientalistas modernos, tais como Caussin de Perceval, na França, o doutor W. Muir, na Inglaterra, G. Weil e Sprenger, na Alemanha, hoje permitem encarar a questão sob sua verdadeira luz
(15). Graças a eles, Maomé nos aparece completamente diverso dos contos populares. O lugar considerável que sua religião ocupa na Humanidade e sua influência política hoje fazem deste estudo uma necessidade. Durante muito tempo a diversidade das religiões foi uma das principais causas de antagonismo entre os povos. No momento em que elas têm uma tendência manifesta para se aproximarem, fazendo desaparecerem as barreiras que as separam, é útil conhecer, em suas crenças, o que pode favorecer ou retardar a aplicação do grande princípio de fraternidade universal. De todas as religiões, o islamismo é a que, à primeira vista, parece encerrar os maiores obstáculos a essa aproximação. Desse ponto de vista, como se vê, o assunto não poderia ser indiferente aos espíritas, razão pela qual julgamos dever tratá-lo aqui.

(15) O Sr. Barthélemy Saint-Hilaire, do Instituto, resumiu esses trabalhos numa interessante obra, intitulada: Maomé e o Alcorão. 1 vol. In-12. – Preço: 3 fr. 50 c. Livraria Didier. - (Nota de Kardec, do texto original)

Sempre se julga mal uma religião quando se toma como ponto de partida exclusivo suas crenças pessoais, porque então é difícil justificar-se um sentimento de parcialidade na apreciação dos princípios. Para lhe compreender o forte e o fraco é preciso vê-la de um ponto de vista mais elevado, abarcar o conjunto de suas causas e de seus efeitos. Se nos reportarmos ao meio onde ela surgiu, aí encontraremos quase sempre, se não uma justificativa completa, ao menos uma razão de ser. É necessário, sobretudo, penetrar-se do pensamento inicial do fundador e dos motivos que o guiaram. Longe de nós a intenção de absolver Maomé de todas as suas faltas, nem sua religião de todos os erros que chocam o mais vulgar bom-senso. Mas a bem da verdade devemos dizer que também seria pouco lógico julgar essa religião conforme o que dela fez o fanatismo, como o seria julgar o Cristianismo segundo a maneira por que alguns cristãos o praticam. É bem certo que, se os muçulmanos seguissem em espírito o Alcorão, que o Profeta lhes deu por guia, seriam, sob muitos aspectos, completamente diferentes do que são. Entretanto esse livro, apesar de tão sagrado para eles, que só o tocam com respeito, que o lêem e relêem sem cessar, que até o sabem de cor os mais fervorosos, quantos o compreendem? Comentam-no, mas do ponto de vista das idéias preconcebidas, de cujo afastamento fariam um caso de consciência, aí não vendo, portanto, senão o que querem ver. Aliás, a linguagem figurada permite aí encontrar tudo o que se quer, e os sacerdotes, que lá como alhures, governam pela fé cega, não buscam descobrir o que lhes pudesse embaraçar. Não é, pois, junto aos doutores da lei que se deve inquirir do espírito da lei de Maomé. Os cristãos também têm o Evangelho, muito mais explícito que o Alcorão, como código de moral, o que não impede que em nome desse mesmo Evangelho, que manda amar até os inimigos, tenham torturado e queimado milhares de vítimas, e que de uma lei toda de caridade tenham feito uma arma de intolerância e de perseguição. Pode-se exigir que povos ainda semibárbaros façam uma interpretação mais justa de suas escrituras sagradas do que o fazem os cristãos civilizados?

Para apreciar a obra de Maomé é preciso remontar à sua fonte, conhecer o homem e o povo ao qual ele dera a missão de regenerar, e só então se compreende que, para o meio onde ele vivia, seu código religioso era um progresso real. Lancemos, primeiro, uma vista d’olhos sobre a região.

Em tempos imemoriais a Arábia era povoada por uma multidão de tribos, quase todas nômades, e perpetuamente em guerra umas contra as outras, suprindo pela pilhagem a pouca riqueza que proporcionava um trabalho penoso, sob um clima abrasador. Os rebanhos eram seus principais recursos; algumas tribos se davam ao comércio, que era feito por caravanas, partindo anualmente do Sul, para ir à Síria ou à Mesopotâmia. Sendo quase inacessível o centro dessa quase ilha, as caravanas pouco se afastavam do litoral; as principais seguiam o Hidjaz, região que forma, nas margens do mar Vermelho, estreita faixa de quinhentas léguas de extensão, separada do centro por uma cadeia de montanhas, prolongamento das da Palestina. A palavra árabe Hidjaz significa barreira e se dizia da cadeia de montanhas que ladeia essa região e a separa do resto da Arábia. O Hidjaz e o Iêmen ao sul, são as partes mais férteis; o centro não passa de um vasto deserto.

Essas tribos haviam estabelecido mercados para onde se dirigiam de todas as partes da Arábia; lá se regulavam os negócios comuns; as tribos inimigas trocavam os seus prisioneiros de guerra e muitas vezes decidiam as suas diferenças por arbitragem. Coisa singular, essas populações, por mais bárbaras que fossem, apaixonavam-se pela poesia. Nesses lugares de reunião e durante os intervalos de lazer, deixados pelos cuidados dos negócios, havia disputa entre os poetas mais hábeis de cada tribo; o concurso era julgado pelos assistentes e, para uma tribo, era uma grande honra conquistar a vitória. As poesias de mérito excepcional eram transcritas em letras de ouro e pregadas nos muros sagrados da Caaba, em Meca, de onde lhes veio o nome de Moudhahbat, ou poemas dourados.

Como para ir a esses mercados anuais e deles voltar com segurança era preciso certo tempo, havia quatro meses do ano em que os combates eram interditos e nos quais não se podia perturbar as caravanas e os viajantes. Combater durante esses meses reservados era olhado como um sacrilégio, que provocava as mais terríveis represálias.

Os pontos de estação das caravanas, que paravam nos lugares onde encontravam água e árvores, tornaram-se centros onde, pouco a pouco, formaram-se cidades, das quais as duas principais, no Hidjaz, são Meca e Yathrib, hoje Medina.

A maior parte dessas tribos pretendia descender de Abraão, razão por que esse patriarca era tido em grande honra entre eles. Sua língua, por suas relações com o hebraico, atestava, com efeito, uma comunidade de origem entre o povo árabe e o povo judeu. Mas não parece menos certo que o sul da Arábia tenha tido seus habitantes nativos.

Entre essas populações havia uma crença, tido como certa, de que a famosa fonte de Zemzem, no vale do Meca, era a que tinha feito jorrar o anjo Gabriel, quando Agar, perdida no deserto, ia perecer de sede com seu filho Ismael. A tradição referia igualmente que Abraão, tendo vindo ver seu filho exilado, havia construído com suas próprias mãos, não longe dessa fonte, a Caaba, casa quadrada, de nove côvados de altura por trinta e dois de comprimento e vinte e dois de largura
(16). Esta casa, religiosamente conservada, tornou-se um lugar de grande devoção, que faziam um dever visitar e que foi transformada em templo. As caravanas aí paravam naturalmente e os peregrinos aproveitavam sua companhia para viajar com mais segurança. Foi assim que a peregrinação a Meca existia desde tempos imemoriais. Maomé não fez senão consagrar e tornar obrigatório um uso estabelecido. Para tanto teve um objetivo político, que veremos mais tarde.

(16) O côvado equivale a cerca de 45 centímetros. É uma medida natural das mais antigas, que tinha por base a distância entre o cotovelo e a extremidade dos dedos. (Nota de Kardec, do texto original)

Num dos ângulos externos do templo estava incrustada a famosa pedra negra, trazida dos céus, dizem, pelo anjo Gabriel, para marcar o ponto onde deviam começar os giros em que os peregrinos deviam fazer sete vezes ao redor da Caaba. Pretendem que, na origem, esta pedra era de uma brancura deslumbrante, mas que os toques dos pecadores a enegreceram. No dizer dos viajantes que a viram, ela não tem mais de seis polegadas de altura por oito de comprimento. Pareceria um simples pedaço de basalto, ou talvez um aerólito, o que explicaria sua origem celeste, segundo as crenças populares.

Construída por Abraão, a Caaba não tinha porta que a fechasse e era ao nível do solo. Destruída pela irrupção de uma torrente lá pelo ano 150 da era cristã, foi reconstruída e elevada acima do solo, para abrigá-la de semelhantes acidentes. Cerca de cinqüenta anos mais tarde, um chefe de tribo do Iêmen aí pôs uma cobertura de estofos preciosos e colocou uma porta com fechadura para pôr em segurança as dádivas valiosas acumuladas incessantemente pela piedade dos peregrinos.

A veneração dos árabes pela Caaba e o território que a circundava era tão grande que não tinham ousado aí construir habitações. Essa área tão respeitada, chamada Haram, compreendia todo o vale do Meca, cuja circunferência é de cerca de quinze léguas. A honra de guardar esse templo venerado era muito cobiçada; as tribos a disputavam e o mais das vezes essa atribuição era um direito de conquista. No século quinto, Cossayy, chefe da tribo dos coraicitas, quinto antepassado de Maomé, tendo-se tornado senhor do Haram e tendo sido investido do poder civil e religioso, mandou construir seu palácio ao lado da Caaba, permitindo aos de sua tribo que ali se estabelecessem. Assim foi fundada a cidade de Meca. Parece ter sido ele o primeiro que colocou uma cobertura de madeira na Caaba. A Caaba está hoje na área de uma mesquita, e Meca é uma cidade de aproximadamente quarenta mil habitantes, depois de ter tido, ao que se diz, cem mil.

No princípio, a religião dos árabes consistia na adoração de um Deus único, a cujas vontades o homem deve submeter-se completamente. Essa religião, que era a de Abraão, chamava-se Islã e os que a professavam diziam-se muçulmanos, isto é, submissos à vontade de Deus. Mas, pouco a pouco o puro Islã degenerou em grosseira idolatria; cada tribo teve os seus deuses e os seus ídolos, que defendia com exagero pelas armas, para provar a superioridade de seu poder. Muitas vezes estas foram, entre outras, as causas ou o pretexto de guerras longas e encarniçadas.

A fé de Abraão, apesar do respeito que conservavam por sua memória, havia desaparecido entre esses povos, ou pelo menos tinha sido de tal modo desfigurada que na realidade não mais existia. A veneração pelos objetos considerados sagrados tinha caído no mais absurdo fetichismo; o culto da matéria tinha substituído o do espírito; atribuía-se um poder sobrenatural aos objetos mais vulgares consagrados pela superstição, a uma imagem, a uma estátua. Tendo o pensamento abandonado o princípio pelo seu símbolo, a piedade não passava de uma série de práticas exteriores minuciosas, das quais a menor infração era encarada como um sacrilégio.

Contudo, ainda se encontravam em certas tribos alguns adoradores do Deus único, homens piedosos que praticavam a mais inteira submissão à sua vontade suprema e repeliam o culto dos ídolos; eram chamados Hanyfes. Eram os verdadeiros muçulmanos, os que tinham conservado a fé pura do Islã; mas eram pouco numerosos e sem influência sobre o espírito das massas. Desde muito tempo colônias judias se haviam estabelecido no Hydjaz e tinham conquistado um certo número de prosélitos ao judaísmo, principalmente entre os hanyfes. O Cristianismo também aí teve os seus representantes e propagadores nos primeiros séculos de nossa era, mas nem uma nem outra dessas duas crenças aí produziram raízes profundas e duráveis. A idolatria tinha se tornado a religião dominante; convinha melhor, por sua diversidade, à independência turbulenta e à divisão infinita das tribos, que a praticavam com o mais violento fanatismo. Para triunfar dessa anarquia religiosa e política, era preciso um homem de gênio, capaz de impor-se por sua energia e firmeza, bastante hábil para participar dos costumes e do caráter desses povos, e cuja missão fosse revelada aos seus olhos pelo prestígio de suas qualidades de profeta. Este homem foi Maomé.

Maomé nasceu em Meca no dia 27 de agosto de 570 d.C., no ano dito do elefante. Não era, como se crê vulgarmente, um homem obscuro. Ao contrário, pertencia a uma família poderosa e considerada da tribo dos coraicitas, uma das mais importantes da Arábia, e a que então dominava em Meca. Fazem-no descender em linha reta de Ismael, filho de Abraão e de Agar. Seus últimos antepassados, Cossayy, Abd-Menab, Hachim e Abdel-Moutalib, seu avô, se haviam ilustrado por eminentes qualidades e altas funções que tinham desempenhado. Sua mãe, Amina, era de nobre família coraicita e descendia também de Cossayy. Tendo seu pai Abd-Allah morrido dois meses antes de seu nascimento, ele foi educado com muita ternura por sua mãe, que o deixou órfão com a idade de seis anos; depois por seu avô Abd-el-Moutalib, que se afeiçoou muito a ele e se comprazia muitas vezes em lhe predizer altos destinos, mas que, ele próprio, morreu dois anos depois.

Não obstante a posição que tinha ocupado sua família, Maomé passou a infância e a juventude num estado vizinho ao da miséria; sua mãe lhe havia deixado por toda herança um rebanho de carneiros, cinco camelos e uma fiel escrava negra, que o havia cuidado e pela qual ele conservou sempre um vivo apego. Depois da morte de seu avô, foi acolhido pelos tios, cujos rebanhos pastoreou até a idade de vinte anos; acompanhou-os também em suas expedições guerreiras contra outras tribos; mas, sendo de humor suave e pacífico, nelas não tomava parte ativa, sem, contudo, fugir ou temer o perigo, limitando-se a ir apanhar suas flechas. Quando chegou ao apogeu da glória, gostava de lembrar que Moisés e Davi, ambos profetas, tinham sido pastores como ele.

Tinha o espírito meditativo e sonhador; seu caráter, de uma solidez e maturidade precoces, aliados a uma extrema retidão, a um perfeito desinteresse e a costumes irrepreensíveis, lhe granjearam tal confiança da parte de seus companheiros que o designavam pelo sobrenome de El-Amin, “o homem seguro, o homem fiel.” E, conquanto jovem e pobre, convocavam-no às assembléias da tribo para os negócios mais importantes. Fazia parte de uma associação formada entre as principais famílias coraicitas, tendo em vista prevenir as desordens da guerra, proteger os fracos e lhes fazer justiça. Vangloriava-se de ter concorrido para isto e, nos últimos anos de sua vida, sempre se via ligado pelo juramento que, neste sentido, havia prestado na mocidade. Dizia que estava pronto a responder ao apelo que lhe fizesse o homem mais obscuro em nome desse juramento, e que não queria, pelos mais belos camelos da Arábia, faltar à fé que jurara. Por esse juramento os associados juravam, diante de uma divindade vingadora, que tomariam a defesa dos oprimidos e se bateriam pela punição dos culpados enquanto houvesse uma gota de água no oceano.

Quanto ao físico, Maomé era fortemente constituído e de estatura pouco acima da média; a cabeça muito grande; a fisionomia, marcada de suave gravidade, era agradável sem ser bela e transpirava calma e tranqüilidade.

Com a idade de vinte e cinco anos casou-se com sua prima Cadija, rica viúva, no mínimo quinze anos mais velha que ele, cuja confiança havia conquistado pela inteligente probidade que desenvolvera na condução de uma de suas caravanas. Era uma mulher superior. Essa união, que durou vinte e quatro anos e só terminou pela morte de Cadija, aos sessenta e quatro anos, foi constantemente feliz. Maomé tinha, então, quarenta e nove anos e essa perda lhe causou profunda dor.

Depois da morte de Cadija seus costumes mudaram. Desposou várias mulheres; teve doze ou treze em casamentos legítimos e, ao morrer, deixou nove viúvas. Incontestavelmente isto foi um erro capital, cujas lamentáveis conseqüências veremos mais tarde.

Até os quarenta anos sua vida pacífica nada oferece de extraordinário. Só um fato o tirou um instante da obscuridade; tinha, então, trinta e cinco anos. Os coraicitas resolveram reconstruir a Caaba, que ameaçava desabar. Só com muito trabalho se apaziguaram, pela repartição dos trabalhos, as contendas suscitadas pela rivalidade das famílias que nela queriam participar. Esses conflitos ressurgiram com extrema violência quando se tratou de recolocar a famosa pedra negra. Ninguém queria ceder seu direito, os trabalhos tinham sido interrompidos e de todos os lados corriam às armas. Por proposta do decano concordaram em aceitar a decisão da primeira pessoa que entrasse na sala das deliberações: foi Maomé. Logo que o viram, cada um gritou: “EL-Amin! El-amin! o homem seguro e fiel.” E esperavam o seu julgamento. Por sua presença de espírito resolveu a dificuldade. Tendo lançado o manto no chão, nele pôs a pedra e pediu a quatro dos principais chefes facciosos que o tomassem, cada um por uma ponta, e o levantassem, todos juntos, até à altura que a pedra devia ocupar, isto é, a quatro ou cinco pés acima do solo. Então a tomou e a colocou com suas próprias mãos. Os assistentes se declararam
satisfeitos e a paz foi restabelecida.

Maomé gostava de passear sozinho nos arredores de Meca e, anualmente, durante os meses sagrados de trégua, retirava-se para o monte Hira, numa gruta estreita, onde se entregava à meditação. Tinha quarenta anos quando, num de seus retiros, teve uma visão durante o sono. O anjo Gabriel lhe apareceu, mostrando-lhe um livro e ordenando que o lesse. Três vezes Maomé resistiu a essa ordem, e só para escapar ao constrangimento exercido sobre ele é que consentiu em o ler. Ao despertar disse ter sentido “que um livro tinha sido escrito em seu coração.” O sentido dessa expressão é evidente; significa que havia tido a inspiração de um livro. Mais tarde, porém, ela foi tomada ao pé da letra, como muitas vezes acontece com as coisas ditas em linguagem figurada.

Um outro fato prova a que erros de interpretação podem conduzir a ignorância e o fanatismo. Em algum lugar do Alcorão diz Maomé: “Não abrimos teu coração e não tiramos o fardo de teus ombros?” Estas palavras, relacionadas com um acidente ocorrido a Maomé quando era criança, deram lugar à fábula, acreditada entre os crentes e ensinada pelos sacerdotes como um fato miraculoso, de que dois anjos abriram o ventre do menino e tiraram de seu coração uma mancha negra, sinal do pecado original. Deve-se acusar Maomé por esses absurdos, ou os que não o compreenderam? Dá-se o mesmo com uma imensidade de contos ridículos, sobre os quais o acusam de ter apoiado sua religião. Eis por que não vacilamos em dizer que um cristão esclarecido e imparcial está em melhores condições de dar uma sã interpretação do Alcorão do que um muçulmano fanático.

Seja como for, Maomé foi profundamente perturbado em sua visão, que se apressou a contar à sua mulher. Tendo voltado ao monte Hira, presa da mais viva agitação, julgou-se possuído por Espíritos malignos e, para escapar ao mal que temia, ia precipitarse do alto de um rochedo, quando uma voz, vinda do céu, se fez ouvir e lhe disse: “Ó Maomé! tu és o enviado de Deus; sou o anjo Gabriel.” Então, levantando os olhos, viu o anjo sob forma humana, desaparecendo, pouco a pouco, no horizonte. Esta nova visão não fez senão aumentar a sua perturbação; comunicou-a a Cadija, que se esforçou por o acalmar; mas, pouco segura de si mesma, foi procurar seu primo Varaka, ancião afamado por sua sabedoria e convertido ao Cristianismo, que lhe disse: “Se o que acabas de dizer-me é verdade, teu marido foi visitado pelo grande Nâmous, que outrora visitou Moisés; ele será o profeta deste povo. Anunciai a ele, e que se tranqüilize.” Algum tempo depois Varaka, tendo encontrado Maomé, fez que lhe contasse suas visões e lhe repetisse as palavras que havia dito à sua mulher, acrescentando: “Tratar-te-ão como impostor; expulsar-te-ão; combater-te-ão violentamente. Que eu possa viver até essa hora para te assistir nessa luta!”

O que resulta deste e de muitos outros fatos é que a missão de Maomé não foi um cálculo premeditado de sua parte; estava confirmada por outros, mas ainda não o estava por ele; demorou muito tempo para persuadir-se disto; mas desde que o ficou, tomou-a muito a sério. Para ele próprio se convencer, desejava uma nova aparição do anjo que, segundo uns, demorou dois anos e, segundo outros, seis meses. É a esse intervalo de incerteza e de hesitação que os muçulmanos chamam o fitreh. Durante todo esse tempo seu espírito foi presa de perplexidades e dos mais vivos temores. Parecia-lhe que ia perder a razão, e era também a opinião de alguns que o cercavam. Era sujeito a desfalecimentos e síncopes, que os autores modernos atribuíram, sem outras provas além de sua opinião pessoal, a ataques de epilepsia, e que antes poderiam ser o efeito de um estado extático, cataléptico ou sonambúlico espontâneo. Nesses momentos de lucidez extracorpórea, muitas vezes se produziam, como se sabe, fenômenos estranhos, dos quais o Espiritismo se dá conta perfeitamente. Aos olhos de certa gente, ele devia passar por louco; outros viam nesses fenômenos, para eles singulares, algo de sobrenatural, que colocava o homem acima da Humanidade. “Quando se admite a ação da Providência nos negócios humanos, diz o Sr. Barthélemy Saint-Hilaire, não se pode deixar de a encontrar, também, nessas inteligências dominadoras que aparecem de longe em longe para esclarecer e conduzir o restante dos homens.”

O Alcorão não é uma obra escrita por Maomé, com a cabeça fria e de maneira continuada, mas o resumo feito por seus amigos das palavras que pronunciava quando estava inspirado. Nesses momentos, dos quais não era senhor, ele caía num estado extraordinário e muito assustador; o suor corria-lhe da fronte; seus olhos tornavam-se vermelhos de sangue, soltava gemidos e, no mais das vezes, a crise terminava por uma síncope que durava mais ou menos tempo, o que por vezes lhe acontecia em meio à multidão, e mesmo quando montado em seu camelo, tanto quanto em casa. A inspiração era irregular e instantânea, e ele não podia prever o momento em que seria dominado.

Segundo o que hoje conhecemos desse estado por uma multidão de exemplos análogos, é provável que, sobretudo no princípio, ele não tivesse consciência do que dizia, e que se suas palavras não tivessem sido recolhidas, teriam ficado perdidas; mais tarde, porém, quando tomou a sério seu papel de reformador, é evidente que falava mais com conhecimento de causa e misturasse às inspirações o produto de seus próprios pensamentos, conforme os lugares e as circunstâncias, as paixões ou os sentimentos que o agitavam, tendo em vista o objetivo que queria atingir, acreditando, talvez de boa-fé, falar em nome de Deus.

Esses fragmentos isolados, recolhidos em diversas épocas, em número de 114, formam no Alcorão outros tantos capítulos chamados suratas; ficaram esparsos durante sua vida, e só depois de sua morte foram reunidos oficialmente num corpo de doutrina, pelos cuidados de Abu-Becr e de Omar. Dessas inspirações súbitas, recolhidas à medida que ocorriam, resultou uma falta absoluta de ordem e de método; os mais disparatados assuntos aí são tratados a esmo, muitas vezes na mesma surata, e apresentam tal confusão e tão numerosas repetições que uma leitura seguida é penosa e fastidiosa para quem quer que não seja um fiel.

Segundo a crença vulgar, tornada artigo de fé, as páginas do Alcorão foram escritas no céu e trazidas prontas a Maomé pelo anjo Gabriel, porque numa passagem se diz: “Teu Senhor é poderoso e misericordioso, e o Alcorão é uma revelação do Senhor do Universo. O Espírito fiel (o anjo Gabriel) o trouxe do Alto e o depositou em teu coração, ó Maomé, para que fosses apóstolo.” Maomé se exprime da mesma maneira em relação ao livro de Moisés e ao Evangelho; diz (surata III, versículo 2): “Ele fez descer do Alto o Pentateuco e o Evangelho, para servir de direção aos homens”, querendo dizer por isso que esses dois livros tinham sido inspirados por Deus a Moisés e a Jesus, como lhe havia inspirado o Alcorão.

Suas primeiras prédicas foram secretas durante dois anos, e nesse intervalo ele se ligou a uma centena de adeptos entre os membros de sua família e seus amigos. Os primeiros convertidos à nova fé foram Cadija, sua mulher; Ali, seu filho adotivo, de dez anos; Zeid, Varaka e Abu-Becr, seu mais íntimo amigo, que devia ser o seu sucessor. Tinha quarenta e dois anos quando começou a pregar publicamente e desde esse momento realizou-se a predição que lhe havia feito Varaka. Sua religião, fundada na unidade de Deus e na reforma de certos abusos, sendo a ruína da idolatria e dos que dela viviam, os coraicitas, guardas da Caaba e do culto nacional, levantaram-se contra ele. A princípio o trataram de louco; depois o acusaram de sacrilégio; amotinaram o povo; perseguiram-no e a perseguição tornou-se tão violenta que, por duas vezes, seus partidários tiveram de buscar refúgio na Abissínia. Entretanto, aos ultrajes ele sempre opunha a calma, o sangue-frio e a moderação. Sua seita crescia e seus adversários, vendo que não a podiam reduzir pela força, resolveram desacreditá-la pela calúnia. A zombaria e o ridículo não lhe foram poupados. Como se viu, os poetas eram numerosos entre os árabes; manejavam a sátira habilmente e seus versos eram lidos com avidez; era o meio empregado pela crítica mal-intencionada e não deixavam de a empregar contra ele. Como ele resistisse a tudo, seus inimigos, enfim, recorreram aos complôs para o matar e ele só escapou pela fuga ao perigo que o ameaçava. Foi então que se refugiou em Yathrib, depois chamada Medina (Medinet-en-Nabi, cidade do Profeta), no ano 622, e é dessa época que data a Hégira, ou era dos muçulmanos. Ele tinha mandado antecipadamente, a essa cidade, em pequenas tropas para não provocar suspeitas, todos os seus partidários de Meca, retirando-se por último, com Abu-Becr e Ali, seus discípulos mais devotados, quando soube que os outros estavam em segurança.

Dessa época data também para Maomé uma nova fase em sua existência; de simples profeta que era, foi constrangido a fazer-se guerreiro.

(Continua no próximo número)

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Fonte:
Revista Espírita
Jornal de Estudos Psicológicos
ANO IX AGOSTO DE 1866 Nº 8

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