Religião, espiritualidade e transtornos psicóticos - Harold
G. Koenig
Harold
G. Koenig - Professor
of Psychiatry & Behavioral Sciences. Associate Professor of Medicine,
Duke University Medical Center. Geriatric Research, Education and
Clinic Center Durham VA Medical Center.
Resumo
Contexto: A religião é freqüentemente
incluída nas crenças e experiências de pacientes
psicóticos, tornando-se, assim, alvo de intervenções
psiquiátricas.
Objetivos: Este artigo, primeiramente, examina a prevalência
de crenças e atividades religiosas entre pessoas não-psicóticas
nos Estados Unidos, Brasil e em outras áreas do mundo. Segundo,
discute os fatores históricos que têm contribuído
para a barreira que separa religião de psiquiatria na atualidade.
Terceiro, revisa os estudos sobre a prevalência de delírios
religiosos em pacientes com esquizofrenia, transtorno bipolar e outros
transtornos mentais graves, discutindo como os clínicos podem
distinguir o envolvimento religioso patológico do não-patológico.
Quarto, explora a possibilidade de que pessoas com doença mental
grave usem práticas e crenças religiosas não-patológicas
para lidar com seus transtornos mentais. Quinto, examina os efeitos
do envolvimento religioso no curso da doença, das exacerbações
psicóticas e das hospitalizações. Finalmente, este
artigo descreve intervenções religiosas ou espirituais
que possam auxiliar no tratamento.
Métodos: Revisão da literatura.
Resultados: Enquanto cerca de um terço das psicoses
têm conteúdo religioso, nem todas as experiências
religiosas são psicóticas. Na realidade, elas podem ter
efeitos positivos no curso de doenças mentais graves, levando
os clínicos a terem de decidir se devem tratar as crenças
religiosas e desencorajar as experiências religiosas ou se devem
apoiá-las.
Conclusão: Clínicos devem compreender
os papéis positivos e negativos que a religião desempenha
nos pacientes com transtornos psicóticos.
Koenig, H.G. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1; 95-104,
2007
Palavras-chave: Religião, psicose, enfrentamento.
Introdução
Com freqüência, os psiquiatras
tratam pacientes com transtornos psicóticos que são religiosos
ou possuem alguma forma de espiritualidade. A maioria dos psiquiatras
e outros profissionais de saúde mental, cientificamente treinados,
acredita em uma visão de mundo secular, científica. Sigmund
Freud acreditava que a religião causava sintomas neuróticos
e, possivelmente, até mesmo sintomas psicóticos. Em Futuro
de uma Ilusão, Freud (1962) escreveu: “Religião
seria assim a neurose obsessiva universal da humanidade... A ser correta
essa conceituação, o afastamento da religião está
fadado a ocorrer com a fatal inevitabilidade de um processo de crescimento…
Se, por um lado, a religião traz consigo restrições
obsessivas, exatamente como, em um indivíduo, faz a neurose obsessiva,
por outro, ela abrange um sistema de ilusões plenas de desejo
com um repúdio da realidade, tal como não encontramos,
em forma isolada, em parte alguma senão na amência, em
um estado de confusão alucinatória beatífica…”.
Assim, Freud pensava que as crenças
religiosas tinham suas raízes em fantasia e ilusão e poderiam
ser responsáveis pelo desenvolvimento de psicoses (embora nunca
tenha atribuído diretamente a causa da psicose à religião,
apenas à neurose). Esta visão negativa de religião
no campo da saúde mental permaneceu até os tempos modernos
por meio das obras de Ellis (1988) e Watters (1992), que enfatizaram
a natureza irracional das crenças religiosas e o seu potencial
malefício. As crenças religiosas pessoais de psiquiatras
e psicólogos (especialmente quando comparados com as da população
em geral) refletiam igualmente as visões secular e, geralmente,
negativa da religião, que são prevalentes nessas profissões
(Neeleman e King, 1993; Curlin et al. 2005). Durante anos, as pessoas
religiosas foram retratadas exemplos de doenças psiquiátricas
em manuais de diagnóstico (antes do DSM-IV) (Larson et al., 1993).
Porém, esta perspectiva negativa relativa à religião
não se baseava em pesquisas sistemáticas nem em cuidadosas
observações objetivas, mas sim nas opiniões pessoais
e experiências clínicas de pessoas poderosas e influentes
dentro da academia psiquiátrica que tiveram pouca experiência
com religiosidade saudável.
Da mesma maneira que os profissionais
de saúde mental não têm valorizado o papel da religião
nas vidas das pessoas, com e sem doença mental, as comunidades
religiosas também têm desenvolvido atitudes negativas em
relação aos psicólogos e psiquiatras que são
vistos, freqüentemente, como inúteis, ou ameaçando
as convicções profundamente arraigadas que são
centrais à sua visão de mundo. Na realidade, este conflito
tem levado a muitos processos legais nos Estados Unidos, cujas comunidades
religiosas não encaminhavam seus membros portadores de doenças
mentais graves para cuidado psiquiátrico, acarretando resultados
devastadores (Whitley, 2006). Os dois lados estão equivocados
aqui, não apenas as comunidades religiosas, já que ambos
têm contribuído para separar as práticas de cura
de religiosos das comunidades de saúde mental.
Nos últimos 20 anos, prestou-se
maior atenção ao estudo científico da religião
e sua relação com a saúde e a doença mentais.
Embora haja muito trabalho ainda a se fazer, evidências têm-se
acumulado para que se possa ter respostas mais objetivas às perguntas,
tais como: qual a relação entre religião, espiritualidade
e psicose? Pessoas psicóticas são mais religiosas? A religião
conduz à psicose? A psicose conduz a religião? A conversão
religiosa pode precipitar a psicose? A psicose pode precipitar a conversão
religiosa? Qual a freqüência dos delírios religiosos
entre aqueles que são psicóticos? Como diferenciar experiências
religiosas ou espirituais “normais” de sintomas psicóticos?
Qual o efeito do envolvimento religioso no curso e evolução
dos transtornos psicóticos? Que efeito tem a psicose nas crenças
espirituais ou religiosas das pessoas? Estas são perguntas importantes
que apenas agora começam a ser respondidas por pesquisas sistemáticas.
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Fonte:
http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/