Espiritualidade e Sociedade





George Johnson

>    Para além da energia, da matéria, do tempo e do espaço

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George Johnson
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Ainda que Nicolau Copérnico não tivesse a intenção de fazer algo tão ousado no tratado que publicou no século XVI, ele deu vazão à ideia de que os seres humanos não ocupam um lugar central no universo. Quase 500 anos depois de colocarmos o sol no centro dos movimentos cósmicos, passamos a ver a nós mesmos como apenas uma das muitas espécies de um planeta que orbita uma estrela nos rincões de uma galáxia dentro do universo que chamamos de lar.


Ainda que Nicolau Copérnico não tivesse a intenção de fazer algo tão ousado no tratado que publicou no século XVI, ele deu vazão à ideia de que os seres humanos não ocupam um lugar central no universo. Quase 500 anos depois de colocarmos o sol no centro dos movimentos cósmicos, passamos a ver a nós mesmos como apenas uma das muitas espécies de um planeta que orbita uma estrela nos rincões de uma galáxia dentro do universo que chamamos de lar. E esse pode ser apenas parte de um conjunto de muitos universos chamado pelos cosmólogos – alguns mais céticos que outros – de multiverso.

Apesar de passarmos tantos séculos perdendo posições na hierarquia universal, continuamos confiantes em nossa capacidade de compreender o cosmos – chamado por Timothy Ferris de "essa coisa toda" – aqui da beira do abismo cósmico. Novas partículas ainda podem ser descobertas, sem falar em novas leis. Porém, já é praticamente certeza que tudo – da física à biologia, incluindo a mente – se resume a quatro conceitos fundamentais: matéria e energia interagindo em uma arena de tempo e espaço.

Existem céticos que acreditam que a ciência tenha ignorado uma peça fundamental do quebra-cabeça. Recentemente, fiquei impressionado com dois livros que exploram essa possibilidade de formas diferentes. Neste século, não existe nada que indique que o homo sapiens tenha conseguido reunir todas as peças necessárias para construir uma teoria de tudo. Ao retirar a humanidade de sua posição privilegiada, o princípio de Copérnico se aplica não apenas a onde estamos no espaço, mas também em que momento nos encontramos no eixo do tempo.

Desde que foi publicado em 2012, "Mind and Cosmos" (A mente e o cosmos, em tradução literal), do filósofo Thomas Nagel, tem causado muito incômodo. Com um subtítulo provocativo – "Porque a concepção materialista neodarwinista de natureza provavelmente está errada" – Nagel rejeita a ideia de que não exista nada no universo além de matéria e de forças físicas. Ele também questionou se as leis da evolução – tais como são atualmente concebidas – seriam capazes de produzir algo tão incrível quanto a vida consciente. A ideia é praticamente um anátema científico, e o livro foi rapidamente contra-atacado. O psicólogo de Harvard Steven Pinker afirmou que o livro não passa de um conjunto de "ideias estapafúrdias de um homem que já foi um grande pensador".

O que faz "Mind and Cosmos" ser uma boa leitura é o fato de Nagel ser ateu e rejeitar a ideia criacionista de um designer inteligente. As respostas, segundo ele, ainda podem ser encontradas pela ciência, desde que ela se abra a mais possibilidades do que talvez deseje.

"Os seres humanos são viciados na ideia de que já tenhamos chegado ao cômputo final", escreveu, "mas a humildade intelectual exige que a gente resista a tentação de crer que as ferramentas que possuímos neste momento são suficientes para que possamos compreender todo o universo".

Nagel afirma ser impressionante que o cérebro humano – esse órgão biológico que evoluiu no terceiro planeta do sistema solar – tenha sido capaz de desenvolver uma ciência e uma matemática tão em sintonia com o cosmos, a ponto de prever e explicar tantas coisas.

Os neurocientistas supõem que esses poderes mentais surjam dos sinais elétricos enviados pelos neurônios – que compõem a rede elétrica cerebral. Porém, ninguém chegou perto de explicar como isso acontece.

Nagel propõe que isso possa exigir outra revolução: mostrar que a mente, assim como a matéria e a energia, é "um dos princípios fundamentais da natureza" – e que vivemos em um universo pronto para "gerar seres capazes de compreendê-lo". Ao invés de ser uma cadeia cega de mutações e adaptações, a evolução teria uma direção e, talvez, até mesmo um propósito.

"Mais do que qualquer outra coisa", escreveu, "eu gostaria de estender os limites dos conceitos que não são considerados impensáveis, tendo em conta o quão limitada é nossa compreensão deste mundo".

Nagel não é o único a desenvolver essas ideias. Embora rejeite qualquer coisa mística, o biólogo Stuart Kauffman sugere que a teoria darwinista precise ser expandida para explicar o surgimento de criaturas inteligentes e complexas. E o filósofo David J. Chalmers convoca os cientistas a pensarem a sério a respeito do "pampsiquismo", - a ideia de que algum tipo de consciência, ainda que rudimentar, perpasse toda a trama do universo.

Parte disso é uma questão de gosto científico. Essa noção pode ser tão emocionante quanto a definição de Stephen Jay Gould em "Wonderful Life", que convida o leitor a considerar a mente consciente como uma simples coincidência, inevitável como o apêndice humano ou as cinco pernas de uma estrela-do-mar. Porém, não seria loucura pensar em explicações alternativas.

Caminhando em outra direção, o novo livro do físico Max Tegmark sugere que um ingrediente diferente – a matemática – precise se tornar mais um dos elementos irredutíveis da natureza. Na verdade, ele acredita que esse talvez seja o mais influente de todos.

Em um famoso ensaio publicado em 1960, o físico Eugene Wigner ficou maravilhado com "a eficácia desmedida da matemática" para explicar os fenômenos do mundo. É algo que "chega a beirar o misterioso", escreveu, já que "não existe explicação racional".

A melhor definição que ele foi capaz de oferecer é a de que a matemática é "um dom maravilhoso que nós não entendemos, nem merecemos".

Em seu novo livro, "Our Mathematical Universe: My Quest for the Ultimate Nature of Reality" (Nosso universo matemático: Minha busca pela natureza final da realidade, em tradução literal), Tegmark vira essa ideia de ponta-cabeça: a razão pela qual a matemática é uma ferramenta tão poderosa é que o universo é uma estrutura matemática. Indo além de Pitágoras e Platão, ele tenta mostrar como a matéria, a energia, o tempo e o espaço podem ter surgido a partir dos números.

Mas, apesar de todo o seu poder, a matemática pode realmente ser a raiz da realidade? Ou ela é um produto da mente humana? Ao fazer a crítica do livro de Tegmark para o The New York Times Book Review, o matemático Edward Frenkel destacou que apenas uma pequena parcela do vasto oceano da matemática parece ser capaz de descrever o mundo real. O restante parece girar apenas em torno de si mesmo. E essa pureza é justamente parte daquilo que a torna tão atraente.

Terminei a leitura desses dois livros me sentindo puxado em direções contrárias. Aqui neste planeta, ao longo das 5.000 órbitas desde que as pessoas começaram a deixar marcas em papiros e placas de argila, chegamos longe em nossa descrição das vastidões do além. Ao menos essa é a impressão que temos. Porém, daqui a décadas ou milênios – seja aqui ou em algum lugar que ainda nem foi imaginado – a ciência da Terra em 2014 parecerá pouco mais que um bom começo.

Cegos como morcegos: a batalha da mente contra o corpo

Cerca de 40 anos antes da publicação de "Mind and Cosmos", o filósofo Thomas Nagel falou a respeito das dificuldades encontradas por cientistas que desejam explicar como o cérebro humano deu origem à consciência. Seu ensaio, um dos mais influentes da filosofia da mente, se chama "Como é ser um morcego?". Ao emitirem "sons rápidos, sutilmente modulados e de alta frequência" e compará-los como ecos, afirmou Nagel, os morcegos criam um mapa mental tridimensional e altamente detalhado do mundo. Mas nós humanos somos fundamentalmente incapazes de imaginar – e compreender – a vida interior desses animais. A experiência subjetiva, concluiu, é irredutível em termos físicos. De forma que até mesmo as teorias mais precisas a respeito do cérebro nunca darão conta da completude da existência do fenômeno mental.

Diversos filósofos, como Patricia Smith Churchland e Daniel C. Dennett, acreditam que Nagel esteja errado. Segundo eles, a mente não é nada mais do que aquilo que o cérebro faz – uma forma diferente de descrever o mesmo fenômeno. Toda a neurociência, incluindo uma pesquisa cerebral avaliada em 100 milhões de dólares, anunciada no ano passado pelo governo, se baseia tacitamente nessa premissa. Algum dia, quando os cientistas já tiverem mapeado e analisado toda a rede neural, escondida em algum lugar em meio aos detalhes estará a explicação para a consciência.

Acreditar no contrário, assim como Nagel, implica na noção de que o mental seja fundamentalmente diferente do físico. O problema do corpo e da mente, conforme definem os cientistas, data ao menos dos tempos de Platão e Aristóteles. Daqui a um século, o debate provavelmente ainda estará presente. Independentemente de quem esteja correto, o cérebro humano pode ser simplesmente incapaz de compreender a si mesmo, não importa o quanto tentemos entendê-lo.

- GEORGE JOHNSON

Fonte: The New York Times News Service/Syndicate
http://nytsyn.br.msn.com/cienciaetecnologia/para-al%C3%A9m-da-energia-da-mat%C3%A9ria-do-tempo-e-do-espa%C3%A7o



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