Espiritualidade e Sociedade



Alexander Jabert

>   De médicos e médiuns: medicina, espiritismo e loucura no Brasil da primeira metade do século XX

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Alexander Jabert
- Professor do Departamento de Psicologia / Universidade Federal de Sergipe
>   De médicos e médiuns: medicina, espiritismo e loucura no Brasil da primeira metade do século XX



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Tese de Doutorado apresentada ao Curso de Pós-Graduação em em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz - Fiocruz. Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2008.

Orientadora: Prof. Dra. Cristina Facchinetti



RESUMO

Este estudo tem como objetivo investigar como foi construída, no Brasil, uma forma de terapêutica e de saber de orientação kardecista sobre a loucura, tomando também como aspecto a ser investigado a percepção e o posicionamento da classe médico-psiquiátrica diante desse saber, que era, e ainda é, embora de forma menos contundente, seu concorrente pela hegemonia do tratamento da loucura e do louco.

Destaco, neste estudo, os pontos de aproximação e de afastamento que podem existir entre as estratégias de atuação dessas duas propostas de intervenção sobre este mesmo objeto. Nesse sentido, este trabalho se propõe a investigar o modelo espírita de definição e tratamento da loucura e os efeitos que esta produção conceitual produziu no interior da própria classe médica.

Também pretendo analisar como se deu o estabelecimento de instituições destinadas à internação de alienados, dirigidas por associações de doutrina espírita e possuidoras de um modelo próprio de tratamento. Ao propor a investigação do problema social gerado pela loucura e pelo louco, pretendo enfatizar o seu aspecto multidimensional, isto é, enquanto fato social capaz de criar diferentes análises e soluções conceituais por grupos heterogêneos de atores sociais que irão inscrevê-la dentro de seus sistemas próprios de significação e de entendimento. Mesmo possuindo modelos explicativos diferenciados, estes grupos apresentam uma mesma capacidade de produzir intervenções, desenvolver políticas, administrar instituições de internamento e tratamento, mobilizar vários setores da sociedade e estabelecer alianças com o poder público.

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(trechos)

Já com relação ao espiritismo de orientação kardecista, demonstramos que sua constituição foi o resultado de buscas que visavam elaborar uma explicação racional para fenômenos até então considerados sobrenaturais, que para os espíritas seriam apenas fenômenos naturais ainda não investigados de uma forma cientificamente apropriada.

Nesse sentido, a preocupação original do espiritismo não se encontrava vinculada à busca por uma solução para o problema social gerado pelo louco e pela loucura. No entanto, como resultado de sua definição de que a vontade, a inteligência, a consciência, os sentimentos e a razão seriam atributos próprios de um corpo espiritual, que se encontraria temporariamente habitando um corpo material, o espiritismo acabou por produzir uma concepção explicativa própria sobre a natureza dos fenômenos mentais. Ainda, como forma de validar suas formulações conceituais acerca dos processos de adoecimento e de cura dos indivíduos, o espiritismo realizou uma aproximação com outras escolas do pensamento europeu, como o mesmerismo e a homeopatia, que se desenvolveram a parte e muitas vezes em conflito com a cultura acadêmica de sua época.


Devido à sua visão dualista da realidade, que seria dividida entre um mundo material, visível para nós, e um mundo espiritual que permaneceria inobservável a maior parte do tempo mas, ainda assim, retendo a capacidade de influenciar as ações dos espíritos encarnados no mundo material, o espiritismo de orientação kardecista desenvolveu a noção de que existiriam duas formas fundamentais de manifestação da loucura: a loucura por lesão cerebral, de natureza orgânica e que deveria ser tratada pela medicina; e a loucura que se manifestaria independentemente da existência de uma lesão, designada de loucura por obsessão espiritual (Guedes, 1955; Menezes, 2002).

(...)

Nesse sentido, o ponto a ser destacado em relação às formulações do espiritismo e da medicina mental é que ambos os modelos conceituais procuravam estabelecer um pano de fundo interpretativo que possibilitaria a produção de uma inteligibilidade e de um sentido para o fenômeno do enlouquecimento.

Um desses modelos, a psiquiatria, era derivada de uma cultura acadêmica que realizava um esforço conceitual no sentido de reduzir a experiência da loucura a um substrato orgânico e biológico. O outro, o espiritismo, que embora possuísse pretensões científicas, estabeleceu alianças conceituais com teorias que se desenvolveram a parte da esfera acadêmica e que reafirmavam que os processos mentais, a consciência humana e suas perturbações seriam produtos de um corpo espiritual imortal e derivado da inspiração divina. Nesse sentido, ambas as propostas de entendimento da loucura enfatizam o aspecto multidimensional deste fenômeno humano, capaz de produzir diferentes análises e soluções conceituais por grupos heterogêneos de atores sociais para o problema gerado pelo louco e pela loucura.


(...)

Mais uma vez, o que se trata aqui é de uma disputa entre dois modelos diferenciados de explicação dos processos produtores das enfermidades humanas, e particularmente da loucura. O debate ocorrido entre os médicos favoráveis e contrários ao espiritismo kardecista era uma tradução do embate ocorrido entre dois modelos conceituais e entre duas tradições culturais diferenciadas, que tinham por objetivo estabelecer a natureza da condição humana e os elementos produtores das atividades mentais.


(...)

Por fim, vimos também que, como resultado de suas formulações particulares sobre as relações entre corpo material e corpo espiritual relacionados aos estados de saúde e doença, de suas concepções próprias acerca das melhores formas terapêuticas para lidar com os problemas de saúde e com a loucura, aliadas, ainda, à importância dada às ações de caridade como forma de facilitar a evolução espiritual de seus seguidores, o espiritismo kardecista acabou por patrocinar o desenvolvimento de inúmeras ações de saúde no Brasil do período (Giumbelli, 1997; Gama, 1992; Maggie, 1992).

De forma sucinta, podemos dizer que, entre as organizações espíritas que atuavam no Rio de Janeiro na passagem do século XIX para o XX, as principais ações terapêuticas voltadas para o campo espiritual eram: o receituário mediúnico, a aplicação de passes e a desobsessão mediúnica. As terapêuticas espíritas freqüentemente recorriam ao uso de remédios homeopáticos e da água fluidificada, caracterizados como substâncias que teriam a capacidade de agir “magneticamente” sobre o perispírito dos indivíduos, de forma a restabelecer a harmonia perdida entre o corpo material e o corpo espiritual.


(...)

Era essa capacidade do espiritismo de reinterpretar o fenômeno da loucura que permitia aos seus seguidores oferecer uma concorrência às teorias psiquiátricas em voga no período. Mais do que a cura, o que a doutrina de Alan Kardec ofereceu para uma parcela considerável da sociedade brasileira do período, inclusive médicos, foi a possibilidade de produzir um novo sentido para um fenômeno de difícil compreensão, se analisado a partir dos pressupostos da medicina acadêmica, oferecendo uma inteligibilidade para a experiência do adoecimento que deveria ser enfrentada pelos enfermos e suas famílias. Era essa característica que levava o Dr. Inácio Ferreira a declarar na introdução do seu livro Novos rumos à Medicina: “Essas páginas são consagradas a todos aqueles que sofrem, sem saber por que dessa impiedade dos vendavais do Destino” (Ferreira, 1949, p. 31).


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Fonte: http://ri.ufs.br/handle/123456789/729




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