Espiritualidade e Sociedade



José Herculano Pires

>    Desaparece o Sectarismo à medida que se desenvolve o Cristianismo

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José Herculano Pires
>    Desaparece o Sectarismo à medida que se desenvolve o
Cristianismo

 

J. Herculano Pires
no livro O Homem Novo
Editora Espírita Correio Fraterno do ABC
junho de 1983

 


Dos grupos primitivos ao universalismo cristão
Porção de fermento numa medida de farinha
Construção de um mundo sem barreiras


O sectarismo religioso, como todo sectarismo, não é mais que um resíduo das fases primitivas da evolução humana. Porque a humanidade se desenvolveu através de formas grupais, fechadas em seus sistemas próprios egoístas e isolacionistas. Grupos humanos como a família, o clã, a tribo, e posteriormente as cidades, as nações, eram organismos que se fechavam em si mesmos, hostis aos demais, apegados a sistemas de defesa que o instinto de conservação originava e aguçava. Esse mesmo espírito egoísta, que se baseava na natureza animal e na estreiteza mental dos homens, caracterizou as religiões, as linhagens familiares, os agrupamentos políticos, e ainda em nossos dias ofereceu-nos o doloroso espetáculo do racismo nazista.

A proporção, porém, em que a humanidade evolui, o espírito humano se alarga, superando barreiras e destruindo fronteiras. O homem se universaliza. Sua mente se abre a uma compreensão mais ampla do mundo. Seu coração, como um botão de flor que desabrocha, distende as fibras no sentimento universal do amor. Para o homem tribal, somente os da sua tribo eram gente, todos os demais não passavam de "inimigos". Para o racista, só os da sua raça têm valor. Para o sectarista, só os da sua seita prestam, só eles estão certos e merecem proteção de Deus. No Cristianismo, concepção universalista do mundo, esse resíduo de épocas primitivas ainda conseguiu medrar, provocando os terríveis morticínios religiosos que enegrecem a história humana. Porque a natureza do homem não cede com facilidade às influências renovadoras. Já no Espiritismo, porém, não é possível permitirmos a continuidade desses sentimentos negativos.

O espírito sectário é a negação dos pricípios cristãos, e por conseguinte a negação dos princípios espíritas, que revivem no mundo moderno os ensinos de Jesus e da era apostólica. Fazer do Espiritismo uma seita é asfixiar os princípios doutrinários. Foi por isso, e tendo em vista o universalismo da ciência que Kardec insistiu na natureza científica da doutrina. Apresentar o Espiritismo como uma religião equivaleria a atirá-lo imediatamente nas lutas sectárias da época. Apresentando-o como ciência, Kardec o tornava acessível a todos. Como vemos, entretanto, nos seus livros, e particularmente em "O que é o Espiritismo", "A Gênese" e "O Evangelho Segundo o Espiritismo", a concepção de Kardec era muito mais ampla, entendendo o Espiritismo como uma revelação de tríplice aspecto: cientifica, filosófica e religiosa.

O Cristianismo é lento, grandioso e profundo processo de reforma do mundo. Jesus definiu a sua função ao se referir à porção de fermento que colocamos numa medida de farinha, para fazê-la levedar. Durante quase dois mil anos o fermento cristão levedou a pesada farinha do mundo, misturando-se a ela, penetrando-a, absorvendo-a. Mas chegaria o momento decisivo desse processo, em que o fermento cristão revelaria a sua verdadeira natureza. Esse momento está anunciado no Evangelho de João: é o do Consolador, do Espírito da Verdade, e chegou com o Espiritismo. A era espírita, em cujo segundo século nos encontramos agora, é a continuidade natural da era cristã. A farinha do mundo, dominada pelo fermento cristão, vai perdendo seu antigo sabor, para adquirir outro. Uma das tonalidades desse antigo sabor, que tem que desaparecer o quanto antes, é exatamente o sectarismo, a atitude mental estreita, que escraviza o homem ao seu ponto de vista exclusivo.

O mundo que o Espiritismo está construindo na Terra, com base nos princípios fundamentais do Cristianismo, é essencialmente universalista, e portanto anti-sectário. O Espiritismo não se proclama o único meio de salvação humana, nem se diz o detentor exclusivo da verdade. Do ponto de vista espírita, todas as religiões são formas de interpretação da suprema verdade, e todas conduzem o homem a Deus, quando praticadas com sinceridade. O que importa, como dizia Kardec, não é a forma, mas o espírito. De uma vez por todas, os espíritas precisam libertar-se dos resíduos sectaristas, não respondendo no mesmo tom às agressões sectárias de que são vitimas a todo momento. Somente praticando a fraternidade e a tolerância poderemos ajudar a construção do mundo sem barreiras que será o Reino de Deus na Terra.

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A ÁGUA DO PARAÍSO

Havia um beduíno que ia de um lugar para outro do deserto, vivendo de tâmaras, animais e águas salobras. Um dia descobriu um novo manancial no areal e, conquanto fosse desagradavelmente salgada a outras pessoas, pareceu-lhe ser a própria água do paraíso, comparada com as que conhecia.

- Vou levar a quem possa apreciar!

Rumou, pressuroso, ao palácio de Harun el-Raschid, levando um odre para ele beber e outro para o Califa. Admitido em audiência, falou:

- Ó Comendador dos Crentes. Conheço todas as águas do deserto e acabo de descobrir esta água do Paraíso, digna de vossos lábios!

Harun provou da água, agradeceu, mandou que lhe dessem mil moedas de ouro e recomendou que o levassem imediatamente de volta ao deserto, sem que pudesse provar da água do palácio. E acrescentou ao beduíno:

- Sê o guardião da “água do paraíso” e distribui-a gratuitamente a todos, em meu nome!

(Sabedoria sufi)

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A água é a verdade.

Todos os níveis de verdade são úteis, como numa escola, para atender às necessidades dos diferentes graus das pessoas. É impiedade desviar alguém de sua fé ou ridicularizar a limitada verdade que pode alcançar.


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