José Herculano Pires

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José Herculano Pires
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Em artigo distribuído pela APLA, aos jornais de todo o mundo, Chapman Pincher escreve de Londres, estranhando que o nosso século, considerado Idade da Ciência, seja também a Grande Idade da Superstição. Mas, procurando explicar essa situação contraditória, faz uma descoberta curiosa: a de que a ciência gera a superstição. Como se vê, trata-se de uma explicação dialética, bem ao gosto do século. Mas uma explicação que não passa de simples paliativo.

Qual a razão pela qual o nosso século seria a grande Idade da Superstição? Primeiro, segundo explica Chapman Pincher, por causa dos Discos Voadores. Depois, porque há uma crença geral em “poltergeists”, ou seja: “espíritos sobrenaturais e dotados da capacidade de mover objetos materiais”. E depois, ainda, porque milhões de pessoas, em todo o mundo, acreditam que os espíritos dos mortos podem comunicar-se com os vivos e até mesmo materializar-se.

A posição do Sr. Pincher não é única. Há milhares de intelectuais, pelo mundo inteiro, escrevendo artigos, pronunciando conferências, dando aulas e publicando livros, nesse mesmo sentido. Para todos eles, aceitar a possibilidade da existência de espíritos é revelar atraso mental, apego a superstições superadas pelo desenvolvimento das ciências. Que resposta podemos dar a esses homens ilustres, não raro dotados de grande capacidade mental, que relegam ao porão do subconsciente as nossas mais sólidas convicções?

Há espíritas que se impressionam com isso. Muitos nos escrevem, perguntando como explicar-se a existência de tanta e tão ferrenha negação, de parte de homens esclarecidos. A melhor resposta nos é dada pela própria história da chamada “superstição espírita”. Até hoje, desde as famosas investigações da Sociedade Dialética de Londres, para desfazer a “praga do século” – que era então, e isso no século XIX, o Espiritismo –, nenhum investigador sério pôs a mão no fogo sem ser queimado. Quer dizer: até hoje, nenhum cientista que se atreveu, com seriedade, a investigar os fatos espíritas, deixou de comprová-los. E muitos tornaram-se espíritas, inclusive o maior deles, que foi William Crookes, o Einstein do século XIX.

O que acontece, pois, é que o Sr. Pincher, e muitos outros como ele, apegam-se aos seus conhecimentos com o mesmo fanatismo dos supersticiosos. Não são mais do que supersticiosos de outra categoria. Acreditam piamente que a concepção científica do mundo é a última palavra no plano do conhecimento, esquecidos das tremendas lacunas, das falhas gigantescas, das enormes manchas de dúvida e incerteza que revelam a necessidade de maiores investigações e maior ponderação. Esquecem-se de que as ciências, todas elas, estão ainda em desenvolvimento, constituem processos inacabados. E assim como as religiões, apoiando-se no pressuposto da revelação divina, julgam-se no direito de sustentar seus dogmas absolutos, assim estes agnósticos se consideram, com apoio nas conquistas da ciência, com o direito de impor os seus dogmas, igualmente absolutos.

Para escrever o que escreveu, o Sr. Pincher deve ignorar as experiências da Metapsíquica, da Parapsicologia e da Ciência Psíquica inglesa. Deve ignorar também as investigações de certos religiosos, inclusive da comissão de pastores anglicanos, que há poucos anos, na própria Inglaterra, agindo em defesa de sua religião, mas sendo sinceros, tiveram de concluir pela realidade da fenomenologia espírita. Deve ignorar, ainda, as pesquisas do Professor Price, da Universidade de Oxford, que concluem pela mesma realidade. Deve, enfim, ignorar muita coisa, apesar de todo o seu possível saber.

E entre as coisas que o Sr. Pincher ignora, podemos incluir esta: não é a ciência que gera superstições, mas a incapacidade da ciência é que transforma em superstições muitas coisas reais, que podiam ser explicadas. Essa incapacidade, por sua vez, decorre em grande parte do dogmatismo científico de que o Sr. Pincher é um exemplo. Uma das coisas que mais se apontavam contra a realidade dos fatos espíritas, no século XIX, era o chamado “absurdo” dos fenômenos de levitação. Como se poderia admitir a levitação, se ela contrariava a lei da gravidade: Entretanto, o Professor Crawford, da Universidade de Belfast, catedrático de mecânica, incumbiu-se de investigar os fatos e chegou a descrever a própria mecânica da levitação. Sua teoria da alavanca fluídica, experimentalmente comprovada, figura no “Traité de Metapsichique”, de Richet. Provou Crawford que a levitação não contrariava nenhuma lei científica.

Quanto à materialização, que tanto aborreceu o Sr. Pincher, sua prova científica não foi feita pelos espíritas, mas por sábios como Crookes, que era físico, e Richet, fisiologista. Dois sábios que não se fecharam em posições dogmáticas, mas procuraram verificar o que havia a respeito de problemas tão complexos. Não é científica, como bem dizia Ernesto Bozzano, a atitude dos que, em nome de princípios, negam os fatos que os contrariam. Estamos certos de que, se o Sr. Pincher pensasse um pouco nessa afirmação de Bozzano, não continuaria a escrever contra a ciência que tanto ama, para acusá-la de mãe da superstição. Apesar de dialética, essa posição é muito incômoda para um homem que distribui pensamentos pelo mundo, através de agências jornalísticas. Porque o mundo, apesar dos pesares, está cheio de gente que conhece muita coisa que o Sr. Pincher ignora.


Fonte: in Os 3 Caminhos de Hécate -Crônicas do Irmão Saulo (*) - (Lições de Espiritismo)
- (*) O Autor deste livro, professor J. Herculano Pires, o fez através de uma seleção de suas crônicas que foram publicadas nos Diários Associados, nos anos 60, com o pseudônimo de Irmão Saulo.

 



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