Big bang, buracos negros, "energia escura", Günter G.
Hasinger, um dos papas da astronomia de raios X, explica, em entrevista
à DW-WORLD, por que Deus vai perdendo terreno para a ciência.
DW-WORLD: Professor Hasinger, o senhor é astrônomo
e, por força da profissão, tem diante dos olhos toda a
história do universo. O que aprendemos ao espreitar o berçário
do cosmos, auxiliados pela radiação cósmica de
fundo?
Günter Gustav Hasinger: A radiação
cósmica de fundo em microondas (RCFM) foi criada quando a quentíssima
"sopa primordial" do cosmos começou lentamente a esfriar.
O cosmos tinha uma temperatura aproximada de 3000ºC, 380 mil anos
após o big bang. Nestas condições, o plasma –
ou seja, o estado de matéria onde elétrons e prótons
ainda estão separados – se funde em átomos. Trata-se
de um momento extremamente importante, pois súbito o universo
se torna transparente. Agora podemos vê-lo, antes era numa névoa
densa.
Devido à expansão contínua do universo,
a temperatura baixou cerca de mil vezes, circulando, como hoje, em torno
de 3ºC acima do zero absoluto. A radiação cósmica
de fundo é absolutamente homogênea em todas as direções.
Em todo lugar é a mesma, até o décimo milionésimo
grau centígrado. Entretanto existem diferenças mínimas,
uma espécie de ruído uniforme. A partir deste é
que se formou a Terra e nós, humanos.
Hoje em dia é um fato consumado que houve
uma grande explosão (big gang). Mas quem explodiu, e por quê?
Considerando todo o potencial energético do cosmos
– as estrelas, os planetas e tudo o mais –, chegamos à
conclusão de que a matéria visível não basta,
nem de longe, para compreendermos as leis do cosmos. Precisamos somar
a assim chamada "matéria escura" e – esta é
uma constatação dos últimos cinco anos –
também a "energia escura".
A imagem do big bang não é, na realidade,
totalmente correta: em princípio ele ainda está ocorrendo.
Pois o cosmos continua se expandindo, as galáxias continuam se
acelerando e se afastando umas das outras. A razão para tal é,
justamente, essa energia escura, uma espécie de força
repulsiva. Ela também existe onde não há "nada".
O que classificamos como "nada", por exemplo, o que havia
antes do universo, é, mesmo assim, cheio de energia, que borbulha
no nada, sem cessar. Desse borbulhar – semelhante a uma panela
em fervura – sobe aqui e ali uma bolha, da qual poderia nascer
um novo universo.
Mas nada vem do nada, pelo menos é o
que diz o ditado popular. Como é possível, no universo,
tudo vir do nada?
Temos que mudar nossa imagem do nada. Quando retiramos
tudo de um espaço, sempre sobra algo: a energia do vácuo.
Esta é maior do que toda a energia contida no universo. Ou seja,
o universo "a pegou emprestada", transformou-a em matéria
e formou estruturas. O que havia antes, e o que possivelmente se desenrola
por trás de nosso universo, sobre isso só podemos especular
no momento, pois ainda não entendemos a física envolvida.
As especulações a respeito são
numerosas. Segundo uma delas, haveria os assim chamados "multiversos",
exatamente como numa panela, onde as bolhas sobem sem cessar. Isso significaria
que o nosso universo é apenas um dentre muitos. Uma outra teoria
parte do princípio de que o nosso universo toma formas diversas,
em seus diferentes pontos. Talvez possua prolongamentos em forma de
tubos, nas pontas, que por vezes se estendem. Talvez haja muitos pontos
tão distantes que nunca os alcançaremos. E onde as leis
físicas são completamente outras.
Se a energia escura pode se materializar em
um universo, segundo quais princípios funciona esse mecanismo?
De onde essas "células geminais" tiram a matéria
visível para, por exemplo, formar corpos celestes?
Para que fique bem claro: as leis físicas para
descrever esses fenômenos ainda não estão totalmente
delineadas. A Teoria da Relatividade de Einstein descreve um aspecto
do universo, e a mecânica quântica um outro, porém
as duas não combinam entre si.
No caos ocorrem sem parar pequenas flutuações,
chamadas "flutuações quânticas". A mecânica
quântica permite, por um curto espaço de tempo, transformar
energia em matéria e vice-versa, sem que o percebamos. Trata-se
do "princípio da incerteza de Heisenberg". As assim
chamadas "partículas virtuais" criam-se a partir da
energia, por uma fração mínima de tempo, e retornam
com a mesma velocidade ao estado de energia.
Contudo, também pode ocorrer que subitamente
partículas reais nasçam de um par de partículas
virtuais. Por exemplo, que uma das duas partículas – a
posititva ou a negativa – seja sugada por um "buraco negro".
Então a outra restaria, e de repente uma partícula real
teria se criado do nada. Em decorrência das particularidades quanto-mecânicas
do acaso e do contínuo espaço-tempo, partículas
criam-se sem cessar. Simplesmente não as vemos...
... porque foram, por exemplo, devoradas por
um buraco negro?
Não necessariamente. Pois mesmo que um buraco
negro exista em meio ao vácuo absoluto – no "nada",
portanto – há, ainda assim, flutuação quântica
ao seu redor. A parceira de uma partícula dupla talvez fique
presa num buraco negro, porém a outra partícula consegue
escapar. Desse modo um buraco negro pode irradiar energia, sem ter que,
para tal, devorar matéria. Em conseqüência, um buraco
negro diminui muito, muito lentamente de tamanho, e ao fim de sua vida
se destrói, "auto-irradiando-se".
A radiação que escapa é
passível de se rematerializar?
As partículas de luz flutuam pelo universo até
reaparecerem em outro lugar. Mas a maioria dos fótons não
aparece em lugar nenhum. Algum dia, o universo se inflará exponencialmente,
tornando-se absolutamente escuro. Ele se adelgaria então de tal
maneira que um punhado de partículas luminosas não seria
mais perceptível, em meio a toda a energia escura. Este seria
provavelmente um estado como antes do big bang. Caso a energia escura
realmente possua as características que lhe atribuímos
no momento, ela estaria sempre lá, mesmo onde nada existe.
E quem ou o que controla a energia escura?
Aqui chegamos ao ponto onde a filosofia, ou a religião,
começa. A questão é: quem controla todas as leis
da física? Pois elas precisam já estar lá, antes
de se aplicarem ao já existente. A Bíblia diz: "O
espírito de Deus pairava sobre as águas". O que equivale
a: o espírito de Deus – ou será a energia escura?
– pairava sobre o caos que precedeu à Criação.
Em que momento ultrapassamos os limites das
ciências naturais, para além das quais não se pode
saber mas sim apenas acreditar? Onde se localizam as fronteiras do conhecimento?
Na minha opinião, as fronteiras continuarão
sempre se expandindo. E isso entra em choque com o conceito de Deus.
Pois, com o conhecimento crescente, ficaria cada vez mais reduzido o
espaço para Deus.
Antigamente Deus ficava sentado nas nuvens, lançando
raios durante as tempestades. Até se descobrir que se tratava
da eletricidade, não de Deus. Atualmente há outras coisas
que não compreendemos. Por exemplo, até hoje não
entendemos como nasceu a vida. E não sabemos se há vida
em outros planetas.
Portanto podemos dizer: a vida foi criada pelo bom Deus.
Contudo suponho que, num futuro não tão distante, ficaremos
sabendo como "vida" funciona. E aí este espaço
não caberia mais a Deus.
Em todos os pontos onde trabalhamos nas "manchas
brancas" da paisagem do conhecimento, ultrapassamos limites. Mas
é preciso ter uma filosofia ou uma crença, antes de sequer
ousar dar um passo por sobre a fronteira.

Günter Hasinger, um dos papas da astronomia
de raios X
http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,1761697,00.html
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