O Centro Espírita
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Conteúdo resumido
Nesta obra Herculano utiliza
toda a sua experiência como di-rigente espírita para transmitir
ao leitor preciosas orientações sobre a organização
do Centro Espírita, quais atividades devem ser desenvolvidas
numa casa espírita e como devem ser conduzidas essas atividades.
Livro importantíssimo para quem reflete sobre os rumos do Espiritismo
no Brasil, notadamente sobre as atitudes dos que querem emparelhá-lo
com religiões decadentes e superadas.
O autor analisa, em linhas gerais, a função, significação
e os serviços do Centro, a comunidade, as raízes africanas,
Deus, as almas frágeis, a disciplina, os problemas religiosos,
as curas, etc.
Introdução
Se os espíritas soubessem o que é
o Centro Espírita, quais são realmente a sua função
e a sua significação, o Espiritismo seria hoje o mais
importante movimento cultural e espiritual da Terra. Temos no Brasil
– e isso é um consenso universal – o maior, mais
ativo e produtivo movimento espírita do planeta. A expansão
do Espiritismo em nossa terra é incessante e prossegue em ritmo
acelerado. Mas o que fazemos, em todo este vasto continente espírita,
é um imenso esforço de igrejificar o Espiritismo, de emparelhá-lo
com as religiões decadentes e ultrapassadas, formando por toda
parte núcleos místicos e, portanto, fanáticos,
desligados da realidade imediata.
Dizia o Dr. Souza Ribeiro, de Campinas, nos últimos tempos de
sua vida de lutas espíritas: “Não compareço
a reuniões de espíritas rezadores!” E tinha razão,
porque nessas reuniões ele só encontrava turba dos pedintes,
suplicando ao Céu ajuda.
Ninguém estava ali para aprender a Doutrina, para romper a malha
de teia de aranha do igrejismo piedoso e choramingas. A domesticação
católica e protestante criara em nossa gente uma mentalidade
de rebanho. O Centro Espírita tornou-se uma espécie de
sacristia leiga em que padres e madres ignorantes indicavam aos pedintes
o caminho do Céu. A caridade esmoler, fácil e barata,
substituiu as gordas e faustosas doações à Igreja.
Deus barateara a entrada do Céu, e até mesmo os intelectuais
que se aproximam do Espiritismo e que têm o senso crítico,
se transformam em penitentes. Associações espíritas,
promissoramente organizadas, logo se transformam em grupos de rezadores
pedinchões. O carimbo da igreja marcou fundo a nossa mentalidade
em penúria. Mais do que subnutrição do povo, com
seu cortejo trágico de endemias devastadoras, o igrejismo salvacionista
depauperou a inteligência popular, com seu cortejo de carreirismo
político-religioso, idolatria mediúnica, misticismo larvar,
e o que é pior, aparecimento de uma classe dirigente de supostos
missionários e mestres farisaicos, estufados de vaidade e arrogância.
São os guardiães dos apriscos do templo, instruídos
para rejeitar os animais sacrificiais impuros, exigindo dos beatos a
compra de oferendas puras nos apriscos sacerdotais.
Essa tendência mística popular, carregada de superstições
seculares, favorece a proliferação de pregadores santificados,
padres vieiras sem estalo, tribunos de voz empostada e gesticulação
ensaiada. Toda essa carga morta esmaga o nosso movimento doutrinário
e abre as suas portas para a infestação do sincretismo
religioso afro-brasileiro, em que os deuses ingênuos da selva
africana e das nossas selvas superam e absorvem os antigos e cansados
deus cristãos. Não no clima para o desenvolvimento da
Cultura Espírita.
As grandes instituições Espíritas Brasileiras e
as Federações Estaduais investem-se por vontade própria
de autoridade que não possuem nem podem possuir, marcadas que
estão por desvios doutrinários graves, como no caso do
roustainguismo da FEB e das pretensões retrógradas de
grupelhos ignorantes de adulterados. Teve razões de sobra André
Dumas, do Espiritismo Francês, em denunciar recentemente, em entrevista
à revista Manchete, a situação católica
e na verdade de anti-espírita do Movimento Espírita brasileiro.
A domesticação clerical dos espíritas ameaça
desfibrar todo o nosso povo, que por sua formação igrejeira
tende a um tipo de alienação esquizofrênica que
o Espiritismo sempre combateu, desde a proclamação de
fé racional sempre no Kardec, contra a fé cega e incoerente,
submissa e farisaica das pregações igrejeiras.
Jesus ensinou a orar e vigiar, recomendou o amor e a bondade, pregou
a humanidade, mas jamais aconselhou a viver de orações
e lamúrias, santidade fingida, disfarçada em vãs
aparências de humildade, que são sempre desmentidas pelas
ambições e a arrogância incontroláveis do
homem terreno. Para restabelecemos a verdade espírita entre nós
e reconduzirmos o nosso movimento a uma posição doutrinária
digna e coerente, é preciso compreender que a Doutrina Espírita
é um chamado viril à dignidade humana, à consciência
do homem para deveres e compromissos no plano social e no plano espiritual,
ambos conjugados em face das exigências da lei superior da Evolução
Humana. Só nos aproximaremos da Angelitude, o plano superior
da Espiritualidade, depois de nos havermos tornado Homens.
Os espíritas atuais, na sua maioria, tanto no Brasil como no
mundo, não compreenderam ainda que estão num ponto intermediário
da filogênese da divindade. Superando os reinos inferiores da
Natureza, segundo o esquema poético de Léon Denis, na
se-qüência divinamente fatal de Kardec: mineral, vegetal,
animal e homem, temos o ponto neutro de gravidade entre duas esferas
celestes, e esse ponto é o que chamamos ESPÍRITA. As visões
fragmentárias da Realidade se fundem dialeticamente na concepção
monista preparada pelo monoteísmo. Liberto, no ponto neutro,
da poderosa reação da Terra, o espírita está
em condições de se elevar ao plano angélico. Mas
estar em condições é uma coisa, e dar esse passo
para a divindade é outra coisa. Isso depende do grau de sua compreensão
doutrinária e da sua vontade real e profunda, que afeta toda
a sua estrutura individual. Por isso mesmo, surge então o perigo
da estagnação no misticismo, plano ilusório da
falsa divindade, que produz as almas viajoras de Plotino, que nada mais
são do que os espíritos errantes de Kardec. Essas almas
se projetam no plano da Angelitude, mas não conseguem permanecer
nele, cedendo de novo a atração terrena da encarnação.
Muitas vezes repetem a tentativa, permanecendo errantes entre as hipóstases
do Céu e da Terra. Plotino viu essa realidade na intuição
filosófica e na vidência platônica. Mas Kardec a
verificou em sua pesquisas espíritas, escudadas na observação
racional dos fatos. Apoiados na Razão, essa bússola do
Real, ele nos livrava dos psicotrópicos do misticismo, oferecendo-nos
a verdade exata da Doutrina Espírita. Nela temos a orientação
precisa e segura dos planos ou hipóstases superiores, sem o perigo
dos ciclos muitas vezes repetidos do chamado Círculo Vicioso
das Reencarnações, que os ignorantes pretendem opor à
realidade incontestável da reencarnação. Pois se
existe esse círculo vicioso, é isso bastante para provar
o processo reencarnatório. O vício não está
no processo, mas na precipitação dos homens e dos espíritos
não devidamente amadurecidos, que tentam forçar a Porta
do Céu.
Se no Brasil sofremos os prejuízos dos religiosismo ingênuo
de nossa formação cultural, na França e nos demais
países europeus – segundo as próprias declarações
de André Dumas – o prejuízo provém de um
cientificismo pretensioso, que despreza a tradição francesa
da pesquisa científica espírita, procurando substituí-la
pelas pesquisas e interpretações parapsicológicas.
Esse menosprezo pedante pelo trabalho modelar de Kardec levou o próprio
Dumas a desrespeitar a tradição secular da Revue Spirite,
transformando-a num simulacro da revista científica do Ano 2.000.
As pesquisa da parapsicologia seguiram o esquema de Kardec e foram cobrindo
no tempo, sucessivamente, todas as conquistas do sábio francês.
Pegada por pegada, Rhine e seus companheiros cobriram o rastro científico
de Kardec. O mesmo já acontecera com Richet na metapsíquica,
com Crookes e Zollner e todos os demais.
Toda a pesquisa psíquica honesta é válida, nesse
campo, até mesmo a dos materialistas russos atuais ficaram presas
ao esquema de Kardec, o que prova a validade irrevogável desta.
Começando pela observação dos fenômenos físicos,
todas as Ciências Psíquicas, nascidas do Espiritismo, fizeram
a trajetória fatal traçada pelo gênio de Kardec
e chegaram às suas mesmas conclusões. As discordâncias
interpretativas foram sempre marcadas indelevelmente pelos preconceitos
e as precipitações da advertência de Descartes no
Discurso do Método e pela sujeição aos interesses
das Igrejas, como Kardec já assinalara em seu tempo. A questão
da terminologia é puramente supérflua e, como dissera
Kardec, serve apenas para provar a leviandade do espírito humano,
mesmo dos sábios, sempre mais apegado à forma que ao fundo
do problema.
No Espiritismo o quadro fenomênico foi dividido por Kardec em
duas seções: Fenômenos Físicos e Fenômenos
Inteligentes. Na Metapsíquica, Richet apresentou o esquema de
Metapsíquica objetiva e Metapsíquica subjetiva. Na Parapsicologia
os fenômenos espíritas passaram a chamar-se Fenômeno
Psi, com divisão de Psicapa (objetivos) e Psigama (subjetivos).
Quanto aos métodos de pesquisa, Crookes e Richet ativeram-se
à metodologia científica da época, e Rhine limitou-se
a passar dos métodos qualitativos para os quantitativos, inventando
aparelhagens apropriadas aos processos tecnológicos atuais, apelando
à estatística como forma de controle e comprovação
dos resultados, o que simplesmente corresponde às exigências
atuais nas Ciências. Kardec teve a vantagem de haver acentuado
enfaticamente a necessidade de adequação do método
ao objeto específico da pesquisa. O próprio método
hipnótico de regressão da memória, para as pesquisas
da reencarnação aplicado por Albert DeRochas do século
passado, foi aproveitado pelo Prof. Vladimir Raikov. Na Romênia,
o preconceito quanto ao Espiritismo gerou uma nova denominação
para Parapsicologia: Psicotrônica. Com esse nome rebarbativo,
os materialistas romenos pretendem exorcizar os perigos de renascimento
espírita em seu país.
Todos esses fatos nos mostram que a Doutrina Espírita não
chegou ainda a ser conhecida pelos seus próprios adeptos em todo
o mundo. Integrado no processo doutrinário de trabalho e desenvolvimento,
o Centro Espírita carecia até agora de um estudo sobre
as suas origens, o seu sentido e a sua significação no
pano-rama cultural do nosso tempo. É o que procuramos fazer neste
volume, com as nossas deficiências, mas na esperança de
que outros estudiosos procurem completar o nosso esforço. Lembrando
o Apóstolo Paulo, podemos dizer que os espíritas estão
no momento exato em que precisam desmamar das cabras celestes para se
alimentarem de alimentos sólidos. Os que desejam atualizar a
Doutrina, devem antes cuidar de se atualizarem nela.
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