(Texto extraído do Informativo ComCiência Ano I nº
2 - Grupo ComCiência de Estudos Filosóficos e Científicos
à Luz do Espiritismo)
Geralmente, a primeira questão que surge em nossa mente, quando
se fala em comunicação mediúnica, sobretudo em
se tratando da psicofonia, é como ocorre ou se há de fato
a “incorporação” do Espírito pelo médium.
Primeiramente, é importante deixar claro que
a literatura Espírita classifica como inadequado o termo incorporação,
utilizando os termos passividade ou, mais apropriadamente, oportunidade,
para designar a comunicação mediúnica, seja por
psicografia ou psicofonia (1). Novamente recorremos à literatura
espírita para tentar esclarecer como é o elo deligação
que se estabelece entre o médium e o comunicante, ou seja, entre
os planos físico e espiritual, e porque a designação
de incorporação é inadequada para descrever a comunicação
mediúnica.
Segundo Hermínio Miranda, em Diversidade
dos Carismas - Volume II, o processo da comunicação pode
ser resumido da seguinte forma: o Espírito comunicante pensa
e este pensamento é captado pelo médium através
do que o autor designa por canais condutores, os quais localizam-se
no seu perispírito. A seguir, o pensamento é dirigido
através destes canais, até aos chamados canais expressores,
localizados no cérebro físico do médium, os quais
são encarregados de acionar os mecanismos orgânicos necessários
para se efetivar a comunicação. Visando apresentar a comunicação
estabelecida entre o Espírito comunicante e o médium,
de forma mais didática, lançaremos mão de uma representação
esquemática do mecanismo da comunicação mediúnica,
apresentada nas figuras 1(a) e 1(b) a seguir.

Figura 1. (a) Descrição artística
que visa facilitar a compreensão dos elementos envolvidos na
comunicação. Vemos primeiramente que a comunicação
é estabelecida de perispírito6 a perispírito e
que é o perispírito do médium quem atua no seu
corpo físico. (b) Descrição esquemática7,
na qual podemos observar que o pensamento originado no Espírito
do comunicante é transmitido ao seu perispírito. Este
pensamento é então transmitido ao perispírito do
médium, e é encaminhado ao Espírito do médium,
onde é, por assim dizer, processado. O pensamento então
segue do Espírito do médium ao seu perispírito,
que por sua vez atua nos órgãos do corpo físico,
estabelecendo efetivamente a comunicação.
Nesta representação, a comunicação
se estabelece da seguinte maneira: o pensamento que se origina no Espírito
do comunicante é enviado ao seu perispírito, a partir
do qual é transmitido por meio de vibrações. Em
condições adequadas, como em uma reunião mediúnica
por exemplo, este pensamento pode ser captado pelo perispírito
do médium, o qual é responsável pela transmissão
de tais impressões e idéias e sentimentos ao seu Espírito.
Este, por sua vez, assimila as informações de acordo com
o cabedal de conhecimento adquirido em múltiplas existências
e as filtra de acordo com a sua condição moral. Após
esta avaliação por parte do Espírito do médium,
a informação é novamente transmitida ao seu perispírito
e redirecionada para o corpo físico, na forma de comandos motores,
para expressar fisicamente o pensamento original, limitado no entanto,
às condições morais, éticas, culturais e
orgânicas do médium. Embora tenhamos dividido o processo
de forma esquemática para maior clareza, a comunicação
ocorre instantaneamente, sem que o médium tenha clara noção
dos processos envolvidos.
O mecanismo descrito acima é geral para a comunicação
mediúnica e demonstra que há sempre a interferência
do médium na comunicação, ainda que este não
se lembre dos fatos ocorridos durante a manifestação mediúnica,
neste caso, denominado médium inconsciente. Por esta razão,
é que Kardec afirma ser inadequado o termo incorporação,
pois o médium atua ativamente em todo o processo, sendo, portanto,
responsável por suas ações. Ainda segundo Hermínio
Miranda, existem duas situações básicas que podem
ocorrer nas comunicações mediúnicas: na primeira,
o Espírito comunicante induz o médium a se expressar,
convertendo seus pensamentos em palavras; no segundo caso, o Espírito
comunicante se apossa mais amplamente nos controles mentais do médium,
podendo manifestar não somente suas idéias como também
sua língua, seu tom de voz, seu sotaque, trejeitos e demais características
pessoais. Pode parecer contraditório que, sendo o pensamento
a real linguagem dos Espíritos, que estes utilizem características
comuns à comunicação dos encarnados como o sotaque,
trejeitos e expressões regionais.
Esta contradição é apenas aparente.
No primeiro caso, o Espírito comunicante transmite seus pensamentos
puros, deixando ao encargo do médium convertê-lo em palavras.
Já no segundo caso, é o comunicante quem se encarrega
de converter seus pensamentos em palavras, utilizando-se do instrumental
de expressão do médium. Mas, em ambos os casos, a fonte
geradora do pensamento é a mente do manifestante.
Dentre as possíveis finalidades para que a comunicação
apresente as citadas características do comunicante têm-se:
a necessidade de confirmar a identidade do Espírito, fazendo
com que seus aspectos de expressão, principalmente de linguagem,
sejam reconhecidos; a ligação ainda forte do Espírito
comunicante com a matéria ou falta de conhecimento sobre o processo
de comunicação através do pensamento, ressaltando
seus caracteres presentes enquanto encarnado devido a um maior controle
da aparelhagem física do médium; a viciação
do médium com a forma de comunicação habitual dos
Espíritos, criando nele, médium, reflexos condicionados
que marquem a comunicação com um formato já abandonado
pelo Espírito comunicante.
É interessante ressaltar a atuação
da equipe espiritual nas comunicações mediúnicas
onde os companheiros do plano espiritual podem, por exemplo, estabelecer
um elo de comunicação entre o Espírito comunicante
e o médium e, desta forma, traduzir, quando necessário,
as informações apresentadas numa língua desconhecida
ao médium, para uma forma que ele compreenda, principalmente
transformando a linguagem articulada em pensamentos puros. Estes companheiros
de trabalho são também conhecidos como controles e sua
atuação é bastante detalhada por Hermínio
Miranda, em Diversidade dos Carismas, Volume II, principalmente no capítulo
IV – Seminologia da Comunicação Mediúnica,
item 12 – Guias e Controles.
(1) Sugerimemos a leitura destes artigos:
UM CASO DE POSSESSÃO, REVISTA ESPÍRITA, Dezembro de 1863/Janeiro
de 1864, ESTRANHA VIOLAÇÃO DE SEPULTURA, REVISTA ESPÍRITA,
janeiro de 1868 e OBSESSÕES E POSSESSÕES, A GÊNESE,
cap. XIV, Os Fluidos, item 45. Obras de Allan Kardec. (Nota da A ERA
DO ESPÍRITO)
REFERÊNCIAS
KARDEC, Allan, O Livro dos Médiuns. 62a
ed., Rio de Janeiro: FEB, 1996.
U.E.M., Mediunidade – Reuniões Mediúnicas, série
Evangelho e Espiritismo. v.6, Belo Horizonte: União Espírita
Mineira, 1999.
MIRANDA, Hermínio C., Diversidade dos Carismas: Teoria e Prática
da Mediunidade. 3a ed., v.2, Niterói: Lanchâtre, 2000.
O Espiritismo de A a Z. 3a ed. Rio de Janeiro: FEB, 1999.
NOTAS
6 O perispírito é o envoltório
do espírito (ou alma), de natureza semi-material, isto é,
mais sutil que a matéria conhecida atualmente. É o que
dá forma ao espírito e quando encarnado o liga ao corpo
físico. É importante o seu entendimento para compreender
não somente a Doutrina Espírita, mas também diversos
aspectos da vida humana. Para seu estudo recomendam-se os livros O que
é o Espiritismo e O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec,
e o livro Perispírito, de Zalmino Zimmermann.
7 O esquema foi extraído de notas de aula do curso básico
da Doutrina Espírita - módulo 2, realizado no Grupo de
Fraternidade Espírita Albino Teixeira, 2005.
Grupo ComCiência de Estudos Filosóficos
e Científicos à Luz do Espiritismo
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