Introdução
A epistemologia, também chamada teoria do conhecimento, é
o ramo da filosofia interessado na investigação da natureza,
fontes e validade do conhecimento. Entre as questões
principais que ela tenta responder estão as seguintes. O
que é o conhecimento? Como nós o alcançamos? Podemos
conseguir meios para defendê-lo contra o desafio cético?
Essas questões são, implicitamente, tão
velhas quanto a filosofia, embora seu primeiro tratamento explícito
seja o encontrado em Platão (427-347 AC), em particular no Theaetetus.
Mas primordialmente na era moderna, a partir do século XVII em
diante - como resultado do trabalho de Descartes (1596-1650) e Locke
(1632-1704) em associação com a emergência da ciência
moderna - que a epistemologia tem ocupado um plano central na filosofia.
Um passo óbvio na direção de responder a primeira
questão é tentar uma definição. A definição
padrão, preliminarmente, é a de que o conhecimento é
crença verdadeira justificada. Esta definição parece
plausível porque, ao menos, ele dá a impressão
de que para conhecer algo alguém deve acreditar nele, que a crença
deve ser verdadeira, e que a razão de alguém para acreditar
deve ser satisfatória à luz de algum critério ¾
pois alguém não poderia dizer conhecer algo se sua razão
para acreditar fosse arbitrária ou aleatória. Assim, cada
uma das três partes da definição parece expressar
uma condição necessária para o conhecimento, e
a reivindicação é a de que, tomadas em conjunto,
elas são suficientes.
Há, contudo, dificuldades sérias com essa idéia,
particularmente sobre a natureza da justificação requerida
para a crença verdadeira eqüivaler a conhecimento. Propostas
competidoras tem sido oferecidas para acolher as dificuldades, ou para
acrescentar mais condições ou para achar um enunciado
melhor para a definição posta. A primeira parte da discussão
que se segue considera essas propostas.
Paralelamente a esse debate sobre como definir o conhecimento há
um outro sobre como o conhecimento é adquirido. Na história
da epistemologia tivemos duas principais escolas de pensamento sobre
o que constitui o meio mais importante para o conhecer. Uma é
a escola "racionalista", que mantém que a razão
é responsável por esse papel. A outra é a "empirista",
que mantém que é a experiência, principalmente o
uso dos sentidos, ajudados, quando necessário, por instrumentos,
que é responsável por tal papel.
O paradigma de conhecimento para os racionalistas é a matemática
e a lógica, onde verdades necessárias são obtidas
por intuição e inferência racionais. Questões
sobre a natureza da razão, a justificação da inferência
e a natureza da verdade, especialmente da verdade necessária,
pressionam para serem respondidas.
O paradigma dos empiristas é a ciência natural, onde observações
e experimentos são cruciais para a investigação.
A história da ciência na era moderna dá sustentação
à causa do empirismo; mas precisamente para esta razão,
questões filosóficas sobre percepção, observação,
evidência e experimento tem adquirido grande importância.
Mas para ambas tradições em epistemologia o interesse
central é se podemos confiar nas rotas que elas respectivamente
denominam. Os argumentos céticos sugerem que não podemos
simplesmente assumi-las como confiáveis; certamente, elas sugerem
que trabalho é necessário para mostrar que elas são
confiáveis. O esforço para responder ao ceticismo, portanto,
fornece um modo distinto de entender o que é crucial em epistemologia.
A segunda parte está concentrada na análise do ceticismo
e algumas respostas a ele.
Há outros debates em epistemologia sobre, entre outras coisas,
memória, julgamento, introspecção, raciocínio,
distinção "a priori-a posteriori", método
científico e diferenças metodológicas, diferenças
metodológicas, se há, entre ciências da natureza
e ciências sociais; as questões consideradas aqui são
básicas para todos esses debates.
Conhecimento
Definição de Conhecimento
Há diferentes modos pelos quais alguém poderia ser indicado
como tendo conhecimento. Alguém pode conhecer pessoas ou lugares,
no sentido de estar familiarizado com eles. Isso é o que se quer
dizer quando alguém fala "Meu pai conhecia Lloyd George".
Aguém pode conhecer como fazer algo, no sentido de possuir uma
habilidade ou destreza. Isso é o que se quer dizer quando alguém
fala "Eu sei jogar xadrez". E alguém pode saber que
é algo é o caso quando alguém fala "Eu sei
que o Everest é montanha mais alta". Este último
modo é às vezes chamado de "conhecimento proposicional",
e é a espécie que os epistemólogos mais desejam
entender.
A definição de conhecimento já mencionada - conhecimento
é crença verdadeira justificada - é entendida como
uma análise do conhecimento no sentido proposicional. A definição
é obtida perguntando que condições tem de ser satisfeitas
quando queremos descrever alguém como conhecendo algo. Ao dar
a definição enunciamos o que esperamos que sejam as condições
necessárias e suficientes para a verdade da afirmação
"S sabe que p", onde "S" é o sujeito epistêmico
- o suposto conhecedor - e "p" a proposição.
A definição sustenta um ar de plausibilidade, ao menos
quanto aplicada ao conhecimento empírico, porque parece encontrar
o mínimo que pode ser esperado como necessário a partir
de um conceito conseqüente. Parece correto esperar que se S sabe
que p, então p deve, ao menos, ser verdadeira. Parece certo esperar
que S deve não meramente supor ou esperar que p é o caso,
mas que deve ter um atitude epistêmica positiva em relação
a p: S deve acreditar que ela é verdadeira. E se S acredita em
alguma proposição verdadeira enquanto ela não tem
nenhum fundamento, ou fundamentos incorretos, ou meramente fundamentos
arbitrários ou imaginários, não diríamos
que S conhece p; querendo dizer que S deve ter bases para acreditar
que p em algum sentido propriamente justificado de assim proceder.
Dessas condições propostas para o conhecimento, é
a terceira que dá mais problema. A razão é simplesmente
ilustrada com contra-exemplos. Esses toma a forma de casos em que S
acredita em uma proposição verdadeira para o que são
de fato razões erradas, embora elas são a partir dele
próprio um ponto de vista persuasivo. Por exemplo, suponha que
S tenha dois amigos, T e U. O último está viajando, mas
S não tem idéia de onde ele está. Como para S,
T disse estar comprado um carro e após dirigir um Rolls Royce,
portanto acredita-se que ele é o dono de um. Agora, a partir
de qualquer proposição p alguém pode validamente
inferir a disjunção "p ou q". Assim, S tem fundamentos
para acreditar que "T é proprietário de um Rolls
Royce ou U está em paris", mesmo embora, ex hypothesi, ele
não tenha idéia da localização de U. Mas
suponha que T de fato não tem seu próprio Rolls Royce
- ele o comprou para uma outra pessoa, e ele dirigiu uma parte para
ela. Além disso, a suposição posterior é
fato, que U está, por ocasião, em Paris. Então
S acredita, com justificação, uma proposição
verdadeira: mas não deveríamos querer chamar sua crença
de conhecimento.
Exemplos como este são artificiais, mas eles cumprem sua função;
eles mostram que é necessário ser dito mais sobre justificação
antes de afirmarmos tem um relato adequado de conhecimento.
Justificação
Preliminarmente, uma questão é sobre se tendo justificações
para acreditar que algum p implica a verdade de p, pois, se assim é,
contra-exemplo do tipo mencionado nesse momento nada alcança
e não precisamos persebuir modos de bloqueá-los. Há
certamente uma perspectiva, chamada "infalibiismo", que oferece
exatamente um tal recurso. Ela estabelece que se é verdadeiro
que S conhece p, então S não pode esta enganado em acreditar
em p, e portanto sua justificação para acreditar em p
garante sua verdade. A afirmação é, em resumo,
que alguém não pode estar justificado na crença
de uma proposição falsa.
Essa perspectiva é rejeitada pelos "falibilistas",
cuja afirmação é a de que alguém pode de
fato ter uma justificação para acreditar em algum p embora
ele seja falso. Sua consideração para o infalibilismo
volta-se sobre a identificação de um engano em no seu
argumento sustentado . O engano é que apesar de que a verdade
de "S sabe que p" certamente nega a possibilidade de que S
está em erro, isto está bem distante de dizer que S está
situado de tal modo que ele não pode, possivelmente, estar errado
sobre p. É correto dizer: (1) "é impossível
para S estar errado sobre p se ele conhece p", mas não é
invariavelmente certo dizer (2) "se S conhece p, então é
impossível para ele estar errado sobre p". O engano está
em pensar que a leitura correta de amplo escopo (1) de "é
impossível" autoriza a leitura de escopo estreito (2) que
constitui o infalibilismo.
Um infalibilista conta que fazer a definição de conhecimento
parece simples: S sabe que p se sua crença em p é justificada
infalivelmente. Mas essa definição produz uma noção
de conhecimento também restrita, pois ela diz que S pode justificar
sua crença em p somente quanto a possibilidade da falsidade de
p estiver excluída. Embora pareça ser um lugar comum da
experiência epistêmica que alguém pode ter a melhor
evidência ao acreditar em algo e ainda assim estar errado (como
a abordagem do ceticismo dada adiante lamenta mostrar), que é
dizer que o falibilismo parece somente explicar a justificação
adequada aos fatos da vida epistêmica. Precisamos, portanto, ver
se as teorias falibilistas de justificação podem nos dar
uma abordagem adequada do conhecimento.
O problema da abordagem falibilista é precisamente é o
exemplo ilustrado pelo exemplo do Rolls Royce e outros similares (os
assim chamados exemplos de Gettier, introduzidos pro Gettier, 1963),
a saber, que a justificação de alguém para acreditar
que p não conecta com a verdade de p de um modo correto, e talvez
absolutamente de modo algum. O que é preciso é um quadro
claro de "crença justificada". Se alguém pode
identificar o que justifica uma crença, alguém tem tudo
para dizer, ou a maior parte, o que é justificação;
e nessa trilha esse alguém terá mostrado a conexão
correta entre justificação, de um lado, e crença
e verdade, de outro. Em relação a essa conexão
há vários tipos padrões de teorias.
Fundacionismo
Uma classe das teorias de justificação emprega a metáfora
de uma edifício. A maioria de nossas crenças ordinárias
requer sustentação de outras; temos de justificar uma
dada crença apelando para outras e mais outras sobre as quais
ela se baseia. Mas se a cadeia de crenças justificadas fosse
regressiva sem um fim em uma crença que fosse de algum modo independentemente
segura, portanto fornecendo um fundamento para as outras, pareceria
faltar justificação para alguma crença na cadeia.
Parece necessário, portanto, que deveria crenças que não
necessitassem de justificação, ou que são de algum
modo auto-justificadas, para servir a base epistêmica.
Nessa perspectiva uma crença justificada é uma que sustentada
por tal crença básica ou é ela própria uma
crença fundacional. Os próximos passos, portanto, são
os de tornar claro a noção de um "fundamento"
e explicar como crenças fundacionais "sustentam" aquelas
não-fundacionais. É necessário algum modo de entender
o fundacionismo sem metáforas de construção.
Não é suficiente apenas enunciar que uma crença
fundacional é uma crença que não requer nenhuma
justificação, pois deve haver uma razão do porquê
este é o caso. O que torna uma crença independente ou
auto-instituída do modo requerido? É padronizadamente
afirmado que tais crenças justificam-se por si mesmas, ou são
auto-evidentes, ou são irrevogáveis ou incorrigíveis.
Essas coisas não são as mesmas. Um crença poderia
ser auto-justificada sem ser auto-evidente (poderia dar bom trabalho
ver que ele se justifica por si mesma). Ser irrevogável quer
dizer, crê-se, que nenhuma evidência a mais, concorrente,
pode render uma dada crença insegura. Embora isso seja uma propriedade
que a crença poderia ter independentemente de se ela fosse ou
não auto-justificada. E assim por diante. Mas o que é
que essas caracterizações estão prentendendo apontar
é para a idéia de que uma certa imunidade à dúvida,
erro ou revisão anexa-se às crenças em questão.
Poderia, mesmo, ser desnecessário ou enganoso pensar que é
crença que fornece a fundação para o edifício
do conhecimento: alguma outra declaração poderia assim
fazer. Enunciados perceptuais tem sido oferecidos como candidatos, porque
eles parecem ser adequadamente incorrigíveis - se alguém
vê uma mancha vermelha, diz-se, então alguém não
pode estar errado de que vê uma mancha vermelha. E parece plausível
dizer que a crença de alguém de que p não necessita
mais nenhuma justificação ou fundamento do que coisas
que aparecem a esse alguém como p as descrevem enquanto o que
são.
Essas sugestões ficam incômodas com as dificuldades que
lhes aparecem. Exemplos de auto-evidência ou auto-justificação
de crenças tendem a ser tirados da lógica e da matemática
- eles são da variedade de "x é x" ou "um
mais um é igual a dois", sobre os quais os críticos
são rápidos em apontar a pouca ajuda que tem para falarmos
sobre a bases de crenças contingentes. Enunciados de percepção,
da mesma forma, revelam-se como candidatos pouco plausíveis para
serem fundamentos, basear-se na percepção envolve a aplicação
de crenças que elas mesmas enunciam como necessitando de justificação
- entre essas crenças há aquelas sobre a natureza das
coisas e as leis que elas obedecem. O que é mais fortemente contestado
é o "mito do dado", a idéia de que há
data firme, original ou primitivo, com o qual a experiência supri
nossas mentes, antecedentemente a qualquer julgamento, puro, fornecendo
os recursos necessários para assegurar o resto de nossas crenças.
Há uma dificuldade, também, sobre como a justificação
é transmitida a partir da crença fundamental para as crenças
dependentes. É bastante forte a afirmação que diz
que as últimas são deduzidas delas. A maioria, senão
todas, as crenças contingentes não são demandadas
pelas crenças que as sustentam; a evidência que eu tenho
de que eu não estou sentado em minha escrivaninha é sobre
quão forte quão empírica a evidência pode
ser, embora, dadas as considerações do cético (tais
como, por exemplo, a possibilidade de que eu estou agora sonhando),
isso não implica que eu esteja sentado aqui.
Se a relação não é uma relação
dedutiva, o que é então? Outros candidatos - indutivo
ou criterial - são, por natureza, dispensáveis, e portanto,
senão suplementados de alguma maneira, insuficientes para a tarefa
de transmitir justificação dos fundamentos para outras
crenças. A suplementação teria de consistir de
garantias que as circunstâncias que causam a destruição
da justificação não-dedutiva de fato não
obtém. Mas se tais garantias - entendidas, para evitar a circularidade,
como não fazendo parte da suposta fundação de si
mesmas - estivessem disponíveis para proteger bases não
dedutivas, então apelar para uma noção de fundamentação
pareceria simplesmente algo fútil.
Coerência
A não satisfação com o fundacionismo tem conduzido
alguns epistemólogos a preferir dizer que uma crença está
justificada se ela é coerente com aquelas já aceitas em
um conjunto. A tarefa imediata é especificar o que é a
coerência, e encontrar um modo de tratamento não circular
do problema de como as crenças já aceitas vieram a ser
aceitas.
As dificuldades dessa tarefa vem de um bom número de questões.
A coerência é um critério negativo (isto é,
uma crença a qual falta justificação se ela falha
na adequação coerente a um conjunto) ou um critério
positivo (isto é, uma crença é justificada quando
ela se adequa coerentemente com o conjunto)? E ela deve ser entendida
de modo forte (pela qual coerência é suficiente para a
justificação) ou fraco (pela qual coerência é
uma entre outras características da justificação)?
O conceito de coerência tem sua base teórica na noção
de sistema, entendido como uma conjunto cujos elementos estão
em relações mútuas tanto em consistência
quanto de (algum tipo de) interdependência. A consistência
é, obviamente, uma requerimento mínimo, diz-se. A dependência
é mais difícil de se especificar sua adequação.
Seria muito - pois daria vazão para uma afirmação
redundante - requisitar que a dependência signifique implicação
mútua entre crenças (isto é o que alguns tem requisitado,
citando a geometria como exemplo). Uma noção mais difusa
é aquela que diz que um conjunto de crenças é coerente
se de qualquer uma delas segue-se todo o resto, e se nenhum subconjunto
delas é logicamente independente do restante. Mas isso é
vago, e de qualquer modo parece requerer que o conjunto seja conhecido
como completo antes de alguém poder julgar se uma dada crença
é coerente com ele.
Um remédio poder ser dizer que uma crença é coerente
com um conjunto antecedente se ela pode ser inferida dele, ou a partir
de algum subconjunto significante dentro dele, como sendo a melhor explanação
no caso. Este alguém poderia objetar que nem todas as justificações
tomam a forma de explanações. Uma alternativa poderia
ser dizer que uma crença é justificada se sobrevive à
comparação com competidoras no trabalho de se fazer aceita
em uma conjunto antecedente. Mas aqui quem quisesse objetar poderia
perguntar como isso pode ser suficiente, uma vez que por si mesmo ela
não mostra porque ela tem melhores méritos do que suas
rivais, as igualmente coerentes, na aceitação. Certamente,
qualquer teoria da justificação tem de assegurar a maior
quantia de crenças candidatas, assim, não há nada
que distintivamente sustente a teoria da coerência. E esses pensamentos
conduzem a uma questão não examinada do "conjunto
antecedente" e sua justificação, que não pode
ser uma questão de coerência, pois com o que ele seria,
por sua vez, coerente?
Internalismo a externalismo
Ambos, o fundacionismo e a teoria da coerência, são algumas
vezes descritos como "internalistas" porque descrevem a justificação
como consistindo em relações internas entre crenças,
ou - como no primeiro caso - a partir de uma relação vertical
de suporte entre crenças supostamente básicas e outras
que dependem destas, ou - como no segundo caso - a partir de suporte
mútuo de crenças em um sistema entendido apropriadamente.
Caracterizada de modo geral, as teorias internalistas afirmam ou assumem
que uma crença não pode ser justificada para uma sujeito
epistêmico S a menos que S tenha acesso ao que provê a justificação,
ou de fato ou por princípio. Essas teorias geralmente envolvem
o requerimento "de fato" no sentido mais forte porque ser
a justificativa de S de acreditar que p é algo resgatado, de
forma padrão, nos termos de suas razões assumidas para
tomar p como verdadeiro, onde razão assumida é entendido
no sentido corrente (no sentido de "ter razão").
Aqui, uma objeção se coloca por si mesma. Qualquer S tem
somente acesso finito a o que poderia justificar ou solapar suas crenças,
e esse acesso está confinado ao seu ponto de vista particular.
Parece que a justificação completa para suas crenças
raramente estaria disponíveis, porque sua experiência seria
restrita ao que é próximo, em tempo e espaço, e
ele estaria designado a manter somente aquelas crenças que sua
experiência limitada licenciou.
Uma objeção conectada é a de que o internalismo
mostra-se inconsistente com o fato de que muitos pessoas parecem ter
conhecimento a despeito dele não ser suficientemente sofisticado
para reconhecer que tal-e-qual é uma razão para acreditar
que p - este é o caso, por exemplo, com crianças.
Uma objeção mais geral, ainda, é que as relações
entre crenças, se do tipo daquelas do fundacionismo ou da teoria
da coerência, poderiam ser obtidas sem que as crenças em
questão fossem tomadas como verdadeiras de algo para além
delas próprias. Alguém poderia imaginar um conto, claramente
verdadeiro, diga-se, que em nenhum momento corresponde a alguma realidade
externa, mas que tem suas crenças justificadas, todavia, por
suas relações mútuas.
Essa reflexão nada fácil induz o pensamento de que deveria
haver uma restrição em relação às
teorias de justificação, na forma de uma demanda de que
deveria haver alguma conexão ajustável entre posse de
uma crença e fatores externos ¾ isto é, algo mais
do que as crenças e suas relações mútuas
¾ que determinam seu valor epistêmico. Isso concordamente
motiva a idéia de uma alternativa externalista.
Credibilidade, causalidade e busca da verdade
O externalismo é a perspectiva de que o que torna S justificado
ao acreditar que p poderia não ser algo ao qual S tem acesso
cognitivo. Poderia ser que os fatos no mundo são como S crê
que sejam, e isso certamente é a causa que fez S acreditar neles
assim como são, pelo estímulo de seus receptores sensórios,
de um modo correto. S não precisou estar consciente de que isso
é a maneira como suas crenças são formadas. Assim,
S poderia estar justificado ao acreditar que p, sem mais.
A principal espécie de teoria externalista é a da credibilidade;
a sua tese ¾ ou grupo de teses - é a de que uma crença
é justificada se ela está, em confiança, com crédito,
conectada com a verdade. De acordo com uma variante influente, a conexão
em questão é suprida pela confiabilidade de processos
de formação de crenças, umas tem, então,
alto êxito diante da avaliação que mensura a produção
de crenças verdadeiras. Um exemplo de um processo no qual esta
envolvida a confiança (credibilidade) poderia ser a percepção
normal em condições normais.
São bem plausíveis as teorias baseadas noção
de uma ligação externa, especialmente a ligação
causal, entre uma crença e o que é que ela tem de conteúdo.
Um exemplo de uma tal teoria é a abordagem de Alvin Goldman (1986)
do conhecimento como "crença verdadeira causada apropriadamente",
onde "causação apropriada" assume um número
variado de formas, todas compartilhando a seguinte propriedade: elas
são processos que são tanto confiáveis "localmente"
quanto "globalmente" - o primeiro significa que o processo
tem alto êxito diante da avaliação que diz sobre
a produção de crenças verdadeiras, o último
significa que o processo não teria produzido a crença
em questão em "alguma situação contrafactual
relevante" onde a crença é falsa. A perspectiva de
Goldman é concordantemente um paradigma de uma teoria de confiabilidade
ou credibilidade.
Um elegante primo de segundo grau dessa perspectiva é aquela
oferecida por Robert Nozick (Nozick, 1981). Às condições
p é verdadeira
e
S acredita em p
Nozick acrescenta
se p não fosse verdadeira, S não acreditaria em p
e
se p fosse verdadeira, S acreditaria nela.
As condições (3) e (4) tem a intenção
de bloquear os contra-exemplos do tipo de Guttier para crença
verdadeira justificada anexando firmemente a crença de S de que
p à verdade de p. A crença de S de que p está conectada
ao mundo (a situação descrita por p) pela relação
que Nozick chama de "encalço" (tracking): a crença
de S está no encalço da verdade de que p. Ele acrescenta
refinamentos, numa tentativa de desviar dos contra-exemplos que os filósofos,
sempre engenhosamente, vivem inventando.
Se essas teorias parecem plausíveis é porque elas estão
de acordo com nossas perspectivas pré teóricas. Mas como
se pode ver, realmente há muito que se pode objetar contra elas,
e uma copiosa literatura sobre isso assim faz. O mais sério defeito
dessas teorias, contudo, é que elas são da ordem de questões
de princípio. Elas não vão na questão de
como S está confiante de que uma dada crença é
justificada; em vez disso, buscam socorro em duas assunções
altamente realistas, uma sobre a extensão do domínio de
alcance das crenças e outro sobre como o domínio e S estão
conectados; assim é que podem afirmar que S está justificado
ao acreditar que p mesmo se o que o justifica repousa fora de sua própria
competência epistêmica. Seja lá o que for mais que
alguém pense sobre essas sugestões, elas não elucidam
S, e portanto não comprometem o mesmo problema a que se dirigem
a teorias internalistas.
Mas o pior de tudo - uma crítica astera assim poderia dizer -
as amplas assunções às quais essas teorias recorrem
são precisamene aquelas que a epistemologia deveria examinar.
Teorias externalistas e causais, de qualquer modo e em qualquer combinação,
são melhor desenvolvidas pela psicologia empírica, onde
se dá, franca e assumidamente, um desconto para com as assunções
padrões sobre o mundo externo e suas conexões com S. A
filosofia, com certeza, é onde tais premissas, elas próprias,
são investigadas.
Conhecimento, crença e, novamente, justificação
Considere o argumento: "Se alguém conhece algum p, então
pode saber certamente que p. Mas ninguém pode estar certo de
algo. Portanto ninguém sabe algo". Este argumento (desenvolvido
nesta forma por Unger, 1975) é instrutivo. Ele repete o erro
de Descartes de pensar que o estado psicológico de certos sentimentos
- que alguém pode ter com respeito à falsidade, tal como
o fato de que eu posso sentir como certo que o cavalo Arkle vencerá
a corrida na próxima semana, e estar errado - é o que
buscamos em epistemologia. Mas ele também exemplifica a tendência
nas discussões sobre o conhecimento, tal como tornar a definição
de conhecimento tão altamente restritiva que pouco ou nada pode
se alistar em suas fileiras. Alguém deveria dar atenção
se uma sugerida definição de conhecimento é tal
que, como o argumento citado nos conta, ninguém pode saber nada?
Exatamente assim como alguém tem crenças bem justificadas
que funcionam muito corretamente na prática, alguém pode
não estar suficientemente satisfeito em não saber nada?
Da minha parte, penso que pode.
Isso sugere que, na medida em que o tema esboçado nos parágrafos
precedentes tem interesse, ele está em conexão com a justificação
de crenças e não com a definição de conhecimento
ali implicado. A justificação é uma questão
importante, no mínimo porque nas áreas de aplicação,
em epistemologia, onde o interesse realmente sério deveria estar
- em questões sobre filosofia da ciência, filosofia da
história ou os conceitos de evidência e prova na área
do direito -, a justificação é o problema crucial.
Aí é onde os epistemólogos deveriam estar trabalhando.
Por comparação, os esforços para definir "conhecimento"
são tiviais e ocupam muita energia em epistemologia. A propensão
ao desacordo no debate gerado pelos contra-exemplos de Gettier - antecipados
de modo belo no exame de Russell sobre James (Russell, 1910, p. 95)
- avançou sobre um tabuleiro de "ismos", como exemplicado
acima, é um sintoma do gasto de energia.
O problema geral com a justificação é que os procedimentos
adotados, atravessando toda caminhar da vida epistêmica, parecem
altamente permeáveis por dificuldades apontadas pelo ceticismo.
O problema da justificação é, portanto, em grande
medida, o problema do ceticismo; que é, precisamente, a razão
pela qual a discussão do ceticismo é central para a epistemologia.
Ceticismo
Introdução
O estudo e o emprego dos argumentos céticos, em algum sentido,
pode ser dito, definem a epistemologia. Um objetivo central da epistemologia
é determinar como podemos estar certos de que nossos meios para
conhecer (aqui "conhecer" implica obrigatoriamente "crença
justificada") são satisfatórios. Um modo preciso
de mostrar o que é requerido é observar cuidadosametne
os desafios céticos aos nossos esforços epistêmicos,
desafios que sugerem que as maneiras pelas quais seguimos estão
distorcidas. Se somos capazes de não apenas identificar mas,
sim, enfrentar os desafios céticos, um objetivo primário
da epistemologia terá sido concretizado.
O ceticismo é frequentemente descrito como a tese de não
é - ou, mais fortemente, pode ser - conhecido. Mas essa é
uma caracterização ruim, porque se não conhecemos
nada, então não podemos saber que não sabemos nada,
e assim tal afirmação é trivialmente algo que frustra
a si mesma. É mais eficaz caracterizarmos o ceticismo do modo
à frente sugerido. Ele é um desafio direto contra reivindicações
de conhecimento, e a forma e a natureza do desafio variam segundo o
campo da atividade epistêmica em questão. Em geral, o ceticismo
toma a forma de uma solicitação pela justificação
das afirmações de conhecimento, em conjunto com um enunciado
sobre as razões que motivam tal solicitação. Padronizadamente,
as razões são de que certas considerações
sugerem que a justificação proposta poderia ser insuficiente.
Conceber o ceticismo de tal modo é vê-lo como mais problematizante
e mais importante filosoficamente do que se ele é descrito como
uma tese positiva que afirma nossa ignorância ou incapacidade
de conhecimento.
Primeiro Ceticismo
Alguns entre os pensadores da antigüidade - Pyrro de Elis (360-270
AC) e sua escola, e os sucessores de Platão na Academia ¾
expressaram desapontamento pelo fato de que séculos de investigação
levada adiante pelos seus antecessores pareciam ter gerado poucos frutos,
ou em cosmologia ou em ética (esta última era construída
de modo amplo, incluindo, portanto, a política). Tal desapontamento
motivou a adoção de perspectivas céticas. Os pirroneanos
argumentaram que porque a investigação é árdua
e interminável, dever-se-ia abandonar a tentativa de julgar o
que é verdadeiro e falso, certo e errado; pois somente assim
conseguiríamos paz mental.
Uma forma menos radical de ceticismo assaltou os sucessores de Platão
na Academia. Eles concordaram com Pyrro sobre o que, certamente, deveríamos
evitar, mas eles temperaram a uma tal perspectiva cética com
o aceite de que as demandas da vida prática devem ser enfrentadas.
Eles não pensaram como viável a "suspensão
de juízos", como Pyrro recomendou, e portanto argumentaram
que deveríamos aceitar aquelas proposições ou teorias
que fossem mais prováveis (pp. 314-16) que suas concorrentes.
As concepções desses pensadores, conhecidas como as dos
céticos da Academia, são recordadas na obra de Sexto Empírico
(150-225).
No fim do Renascimento - ou, que é a mesma coisa, no início
dos tempos modernos -, com as certezas religiosas sob ataque e as novas
idéias se ampliando, alguns dos argumentos céticos da
Academia e dos pirroneanos adquiriram uma significação
especial, notavelmente como um resultado do uso que René Descartes
fez deles, mostrando que eram poderosos instrumentos para a investigação
da natureza e das fontes do conhecimento. No tempo de Descartes uma
mesma pessoa pode ser astrônomo e astrólogo, químico
e alquimista, físico ou mágico. Era difícil separar
conhecimento e nonsense; era mesmo árduo distinguir aqueles métodos
de investigação que poderiam produzir um conhecimento
genuíno daqueles outros que podiam somente aprofundar a ignorância.
Assim, havia uma necessidade urgente de alguma teorização
epistemológica aguda, clara. Em suas Meditações
(1986), Descartes concorda em identificar a epistemologia como uma tentativa
essencial e preliminar para a física e para a matemática,
de modo a tentar estabelecer as bases da certeza como uma propedêutica
à ciência. O primeiro passo de Descartes em tal tarefa
foi o de adotar e aplicar alguns do argumentos céticos tradicionais
(Eu comentarei sobre seu uso do ceticismo mais adiante).
A anatomia do ceticismo
Os argumentos céticos exploram certos fatos contingentes sobre
nosso modo de adquirir, testar e lembrar nossas crenças, bem
como raciocinar sobre elas. Qualquer problema que infecta a aquisição
e emprego de crenças sobre uma dada matéria, e em particular
qualquer problema que infecte nossa confiança na manutenção
de que aquelas crenças eram justificáveis, ameaça
a nossa manutenção de posição sobre o assunto
em questão.
Os fatos contingentes em questão relacionam a percepção
da natureza, a vulnerabilidade humana normal ao erro, e a existência
de estados da mente - por exemplo, sonho e desilusão - que pode
ser subjetivamente não distinguível daquelas que normalmente
tomamos como apropriadas para adquirir crenças justificadas.
Apelando para essas considerações o cético visa
mostrar que há questões significantes para serem respondidas
sobre os graus de confiança que estamos destinados a colocar
em nossas práticas epistêmicas padrões.
As considerações céticas colocam problemas para
os epistemólogos de ambos os campos, racionalista e empirista.
Essa divisão em duas escolas de pensamento, que disputam sobre
o conhecimento, é grosseira mas útil, dado que é
uma forma breve de marcar a diferença entre aqueles que mantém
que a razão é o meio mestre para o conhecimento, e aqueles
que mantém que tal coisa é um papel desempenhado pela
experiência. Os racionalistas enfatizam a razão porque
em sua perspectiva os objetos do conhecimento são proposições
imutavelmente e necessariamente verdadeiras - os exemplos que oferecem
são os de proposições da matemática e da
lógica - e essas, ele dizem, só podem ser adquiridas pelo
raciocínio. Os empirista compreendem que o conhecimento substantivo
e genuíno do mundo só pode ser aprendido através
da experiência, por meio dos sentidos e suas extensões
proporcionadas por instrumentos, tais como telescópios e microscópios.
O racionalista não precisa negar que a consciência empírica
é um ajudante importante da razão, até mesmo um
ajudante indispensável, nem o empirista precisa negar que a razão
é um auxiliar importante, indispensável, da experiência;
mas ambos insistirão que os meios mestres para o conhecimento
são diferentes, um a razão, o outro a experiência.
O refinamento do debate dessas questões merecem exame detalhado,
que aqui não é o lugar. Para o presente propósito,
devo assinalar o ponto no qual o ceticismo é um problema para
ambas as escolas de pensamento. Para ambas, as possibilidades de erro
e de ilusão postulam um desafio. Para os empiristas, em particular,
erro e ilusão devem ser acrescentados a problemas distintos da
percepção.
Erro, ilusão e sonhos
Um característica padrão do argumento cético é
tirado de uma conjunto de considerações sobre erro, ilusão
e sonho.
Consideremos, primeiro, o argumento do erro. Somos criatura falíveis,
nós, algumas vezes, nos enganamos. Se, contudo, sempre somos
capazes de afirmar que conhecemos (isto é, ao menos como crentes
em algo que justificamos) alguma proposição p, devemos
se capazes de excluir a possibilidade de que no momento de afirmar que
sabemos p estamos em erro. Mas, uma vez que, tipicamente, ou no mínimo,
freqüentemente não estamos conscientes de nossos erros quando
os cometemos, e poderiamos portanto inadvertidamente estarmos em erro
quando afirmamos saber que p, não estamos justificados quando
fazemos essa afirmação.
O mesmo se aplica quando um pessoa é sujeita à ilusão,
fantasia ou alucinação. Algumas pessoas experienciam um
ou outro desses estados em que não sabem o que estão fazendo,
e tomam a si mesmas como tendo passado por experiências verídicas.
Claramente, todavia ela pensem que estão no estado em que conduzem
a si mesmas ao se justificarem por afirmar que acreditam que p, elas
não estão em tal estado. Assim, para que alguém
afirmar conhecimento de alguma p, deve ser capaz de excluir a possibilidade
de que são sujeitos a tais estados.
Esse padrão de argumentação é mais familiar
no argumento do sonho empregado por Descartes. Um modo de expor tal
argumento é o seguinte. Quando eu durmo eu algumas vezes sonho,
e quando sonho algumas vezes - de fato, freqüentemente - não
sei se estou sonhando. Assim, posso ter experiências que parecem
experiências verídicas em vigília na base das quais
me assumo como justificado ao afirmar que sei tais e tais coisas. Mas
porque estou sonhando, de fato não sei tais e tais coisas; meramente
sonho que sei. Se não posso excluir a possibilidade de que, agora,
neste momento, estou sonhando, sou incapaz de afirmar conhecimento sobre
as coisas no momento mesmo em que me assumo como sabendo das coisas.
Por exemplo, me parece que estou sentando na minha escrivaninha próximo
à janela, vendo as árvores e o gramado. Mas porque eu
poderia estar sonhando que isso é assim, não posso afirmar
que sei.
Nesses argumentos a possibilidade do erro, ilusão e sonho atuam
como o que poderia ser chamado de uma "fracasso" de reivindicações
de conhecimento. O padrão é: se alguém sabe p,
então nada está atuando para subverter a justificação
desse alguém ao afirmar que sabe de p. Mas alguém pode
parecer a si mesmo completamente autorizado a afirmar que sabe algum
p, e haver falha nessa autorização, como as considerações
precedentes mostram. Assim, nossas reivindicações ao conhecimento
são carentes de bases melhores do que ordinariamente assumimos
que temos. Devemos achar uma modo destruir os objetores.
Percepção
Ambos, racionalistas e empiristas, vêem que as fontes do conhecimento
são ameaçadas pelos argumentos esboçados. Argumentos
que põe problemas particulares para o empirismo são sugeridos
pela natureza e limitação da percepção,
a melhor abordagem corrente que nos conta algo sobre isso segue a seguinte
história.
Luzes refletem a partir de superfícies dos objetos no meio físico
e passam para nossos olhos onde irritam as células das retinas
de um tal modo que dispara impulsos nos nervos óticos. Os nervos
óticos transportam esses impulso para a região do córtex
cerebral que processa dados visuais, onde eles estimulam certos tipos
de atividades. Com um resultado, de um modo ainda misterioso para a
ciência e para a filosofia, "quadros em movimento" emergem
na consciência do sujeito, representando o mundo exterior à
sua cabeça. Essa notável transação é
repetida mutatis mutandis no sentido de outras modalidades sensórias,
como ouvir, sentir cheiro, gosto e tato, fazendo emergir percepções
de harmonia e melodia, perfumes e excitação olfativa,
suavidade, delicadeza, quente e assim por diante.
Esse modelo pode ser usado para fornecer outras aplicações
céticas do fracasso do argumento. O que história complexa
causal nos diz é que ¾ assim o cético pode indicar
- ela poderia ser interrompida de modos problemáticos em qualquer
dos pontos de seu caminho. As experiências que dizemos que resultam
da interação de nossos sentidos com o mundo poderia nos
ocorrer para outras razões. Elas poderiam ocorrer quando, como
notei acima, sonhamos, alucinamos e temos ilusões; ou para ser
mais imaginativo, elas poderiam ser produzidas em nós por um
deus, ou por um deus, ou por um cientista que teria conectado nossos
cérebros a um computador. Do ponto de vista do sujeito que experiencia,
poderia não fazer qualquer diferença. Assim, diz o cético,
a menos que possamos encontrar um meio de excluir essas possibilidades,
não estamos autorizados a reivindicar conhecimento do que, de
maneira padrão, assumimos conhecer.
Relatividades perceptuais
As mesmas considerações sobre a percepção
pode induzir o desafio cético a rotas diferentes. Uma breve reflexão
do tipo da ensinada por Locke, Berkeley (1685-1753) e outros primeiros
contribuintes para o debate mostra que algumas dessas propriedades que
parecemos perceber nos objetos não "neles mesmos",
mas são de fato criaturas das da relação perceptual.
A qualidade dos objetos - suas cores, gosto, cheiro, som e textura -
variam de acordo com a condição de quem percebe ou das
condições sob as quais são percebidos. Os exemplos
padrões são em grande número: a grama é
verde de dia, preta à noite; a água morna mostra-se quente
para uma mão fria, fria para uma mão quente; objetos parecem
maior grandes de perto, pequenos de longe, etc.
Essas relatividades perceptuais são citadas pelo cético
para levantar as questões de que a percepção é
uma fonte de desconfiança sobre as informações
a respeito do mundo, exceto se o mundo pode ser dito existir, de algum
modo, independentemente da percepção. Pois o que aconteceria
se as propriedades pelas quais aqueles meios de detecção
da presença de objetos não pudessem ser descritos aparte
de serem objetos da percepção? Considere o velho enigma
de se um som produzido pela queda de árvores na floresta quando
nenhum ser com poder de percepção e sentidos está
presente para ouvi-lo. A resposta, em uma padrão da teoria da
percepção corrente na ciência contemporânea,
é que as árvores caem em silêncio completo. Pois
se não há nenhum ouvido para ouvi-las, não há
nenhum som; há somente, na melhor das condições
¾ ondas vibrantes ¾ que causariam som como este é
percebido por ouvidos se houvesse membranas auditivas funcionando, nervos
auditivos e o resto para ser estimulados por eles.
Essas considerações sugerem um quadro cético em
que os que percebem estão com algo tal como a seguinte predicação.
Imagine um homem usando um capacete protetor que não o deixa
ouvir, ver, sentir gosto ou cheiro ou qualquer outra coisa fora dele.
Imagine uma câmera, uma microfone e outros sensores fixados no
topo do capacete, transmitindo quadros e outras informações
para seu interior. E, finalmente, suponha que é impossível
para quem está com o capacete removê-lo para comparar as
informações com qualquer coisa do lado de fora, assim,
ele não pode checar a credibilidade das representações
do mundo exterior. De algum modo, quem veste o capacete tem de confiar
na característica intrínseca da informação
disponível dada pelo capacete, para julgar a credibilidade das
informações. Ele sabe que a informação algumas
vezes sai de fontes outras que as do mundo exterior, como nos sonhos
e ilusões; ele tem deduzido que o equipamento fixado no capacete
funciona segundo a entrada de dados e sua alteração, por
exemplo, acrescentando cores, sons e odores aos seus quadros que intrinsicamente
não tem nenhuma dessas propriedades (no mínimo, em tais
formas); ele sabe que suas crenças sobre o que está do
lado de fora do capacete repousa sobre inferências que ele tira
das informações disponíveis no interior do capacete,
e que suas inferências são apenas tão boas quanto
falíveis, permitem a capacidade de errar a respeito do que há
lá fora. Dado tudo isso, pergunta o cético, não
temos nenhum emprego no qual trabalhar de modo a justificar nossas reivindicações
de conhecimento?
Ceticismo problemático e metodológico
Antes de considerar esses argumentos e ponderá-los para, de algum
modo, responder a eles, é importante notar duas coisas. Uma é
que os argumentos céticos não são melhor abordados
com uma tentativa de refutação passo-a-passo - isto é,
um por um. A Segunda é que há uma distinção
vital, importante, a ser tirada de entre os dois modos nos quais o ceticismo
pode ser empregado em epistemologia. É importante notar essas
questões porque de outro modo a implausibilidade, prima facie,
da maioria dos argumentos do cético nos enganará sobre
sua importância. Retorno a cada ponto.
A tentativa de refutação dos argumentos do cético
é argumentativamente, passo a passo, algo fútil, por duas
boas razões. Como sugerido no início, os argumentos céticos
são mais fortes não quando buscam provar que somos ignorantes
sobre algum questão em pauta mas, sim, quando solicitam que justifiquemos
nossas afirmações de conhecimento. Um desafio para que
justifiquemos algo não é uma afirmação ou
uma teoria, e não pode ser refutado; pode somente ser aceito
ou ignorado. Uma vez que o cético oferece razões pelas
quais a justificação é requerida, a resposta poderia
estar na inspeção dessas razões de modo a vermos
se o desafio precisa ser enfrentado. Tal coisa, certamente, é
uma boa resposta ao ceticismo. Onde as razões são convincentes,
a próxima boa resposta é tentar enfrentar o desafio então
posto.
A segunda razão é que os argumentos do cético tomados
conjuntamente tem um efeito conexo de mostrar que há trabalho
a ser feito se estamos para conseguir uma explicação satisfatória
do conhecimento ¾ e o ceticismo indica o que é necessário.
Se alguém pudesse refutar, ou mostrar a não fundamentação,
de um ou outro argumento cético individual, outros seriam deixados
no lugar, ainda demandando uma tal explicação a ser perseguida.
Esses pontos podem ser ilustrados por meio da tentativa de Gilbert Ryle
(1900-1976) de refutar o argumento do erro usando um argumento do "conceito
polar". Não pode haver moedas falsas, Ryle observou, a menos
que existam a genuínas, nem desvios de caminhos a menos que haja
os caminhos diretos, nem homens altos sem os baixos. Muitos conceitos
caem em tais polaridades, uma característica que é aquela
que mostrar que não se pode compreender um polo a menos que se
compreenda seu oposto ao mesmo tempo. "Errar" e "acertar"
são polaridades conceituais . Se alguém entende o conceito
de erro, entende o conceito de "acertar". Mas ao entender
este último conceito é ser capaz de aplicá-lo.
Assim, toda nossa compreensão do conceito de erro implica em
acertarmos algumas vezes.
Ryle obviamente assumiu que o erro cético está afirmando
que, por tudo que sabemos, poderíamos sempre estar em erro. De
acordo com isso, seu argumento - de que se entendemos o conceito de
erro, devemos algumas vezes alcançar as coisas corretamente -
visa refutar a inteligibilidade da afirmação de que poderíamos
estar sempre errados. Mas, é claro, o erro cético não
é isso. O cético está simplesmente perguntando
como, dado que algumas vezes erramos, podemos negar a possibilidade
de estar em erro em qualquer ocasião de julgamento - diga-se,
neste momento presente.
Mas o cético precisa não conceder a Ryle as afirmações
mais gerais que este faz, a saber, que para qualquer polaridade conceitual
ambos os pólos devem ser entendidos - para além e mesmo
mais tendenciosamente - , e entender um conceito é saber como
aplicá-lo, e ele ser aplicável é, realmente, ser
aplicado (ou ter sido aplicado). Este último movimento é
bem uma questão de princípio, mas assim é a própria
afirmação sobre as polaridades conceituais. Pois o cético
pode, feliz, citar casos de polaridades conceituais - "perfeito-imperfeito",
"mortal-imortal", "finito-infinito" - onde de forma
alguma fica claro que os mais exóticos pólos aplicam-se
a tudo, ou até mesmo que realmente os entendemos. Finalmente,
pegar um termo e anexar a ele um prefixo negativo não garante
que tenhamos, portanto, compreendido um conceito inteligível.
Esses comentários sugerem que os argumentos céticos, mesmo
se singularmente eles parecem não plausíveis, em conjunto
eles convidam a uma resposta séria; que é o que, em larga
medida, a epistemologia busca oferecer. Mas há, ainda, para ser
explicada, a questão da distinção entre ceticismo
metodológico e problemático, e aqui uma recapitulação
breve do uso que Descartes faz do argumento cético será
útil.
O método da dúvida de Decartes
O objetivo de Descartes era o de achar uma base para o conhecimento,
o qual ele acharia buscando uma ponto de início a respeito do
qual ele poderia estar certo. Encontrar a certeza, ele necessitava rejeitar
qualquer coisa que pudesse ser duvidosa, mesmo que fosse ter dúvida
sobre algumas coisas fosse um absurdo, pois somente deste modo poderíamos
ser deixados com o que é verdadeiramente indubitável.
Na primeira Meditação ele embarca nessa tarefa tomando
emprestado os argumentos céticos dos antigos. Primeiro ele cita
o fato de que podemos ser enganados pela percepção. Mas
isso não é um ceticismo completamente suficiente, pois
mesmo se percebemos erradamente há ainda muito que podemos saber.
Assim, ele, em seguida, considera a possibilidade de que em qualquer
ocasião de afirmação de alguém de ela sabe
algo, ela poderia estar sonhando. Esse pensamento cético consegue
mais coisas para sua rede, mas é ainda insuficiente, pois mesmo
no sonho podemos saber tais coisas como, por exemplo, verdades matemáticas.
Assim, para alcançar uma consideração a mais ampla
possível, Descartes introduz a idéia do "gênio
malígno". Aqui a suposição é a de que
com respeito a todas as coisas sobre as quais poder-se-ia possivelmente
estar errado, com certeza o "gênio maligno" a engana.
Notoriamente, o que um tal ser não poderia fazer errar é
que cogito ergo sum - quando se pensa "eu existo", esta proposição
é verdadeira.
O essencial a se notar no uso de Descartes desses argumentos é
que se trata de um uso puramente metodológico. O resto das Meditações
é devotado a mostrar que sabemos uma grande porção
de coisas, porque o fato (como Descartes, se êxito, tenta provar)
é que há um deus bom que garante que, tanto quanto usamos
nossas faculdades responsavelmente, qualquer coisa que é percebido
com clareza e distinção como verdadeira será certamente
verdadeira. Isso porque um deus bom, diferentemente de um mau, não
desejaria nossa ignorância. Descartes não foi, de maneira
alguma, um cético, nem ele pensava que os argumentos céticos,
menos de todos os que alguém empregava como dispositivo para
por de lado tantas crenças quanto possíveis, fossem persuasivos.
O "método da dúvida" era meramente um instrumento.
Os sucessores de Descartes, contudo, estavam muito mais impressionados
com os argumentos céticos que ele empregou do que sua resposta
a eles. Pois a tradição do pensamento epistemológico
após seu tempo, considerou esses problemas e similares não
como mero dispositivos metodológicos, mas como problemas sérios
que requeriam uma solução. Daí a distinção
que tirei aqui entre ceticismo metodológico e ceticismo problemático.
É claro que há considerações céticas
que tem utilidade meramente metodológica, e não são
genuinamente problemáticas, porque não representam um
desafio persuasivo e estável para nossos padrões epistemológicos
ordinários. O "gênio maligno" é um caso
desse tipo. Uma vez que a hipótese de que há uma tal coisa
é tão arbitrária e sem base quanto uma hipótese
pode chegar a ser, ela não tem mérito ao ser tomada seriamente
senão como uma estratégia para se provar um ponto de vista.
Mas as considerações céticas sobre percepção,
erro, ilusão e sonho soam mais interessantes e problemáticas,
e consequentemente merecem exame.
Entre a muitas questões dignas de preocupação sobre
a discussão de Descartes temos duas, as seguintes. Primeiramente,
como sugerido inicialmente, sua busca por certeza é mal concebida
em argumentos. Certamente um estado psicológico de alguém
pode ocorrer independentemente de se as crenças desse alguém
são verdadeiras ou não. A falsidade de uma crença
não é nenhuma barreira para que o sentimento de certeza
desse alguém seja de outro modo. Descartes perseguiu modos específicos
de reconhecer quais das nossas crenças são verdadeiras,
mas ele foi falar de certeza porque - e este é o segundo ponto
- ele assumiu que a tarefa da epistemologia é prover alguém
com uma maneira de conhecimento, a partir de ponto de vista subjetivo
próprio deste alguém, quando se possui conhecimento. Consequentemente,
ele começa com o dado privado de uma consciência singular
e tenta mover-se para fora dela, buscando garantias par os processos
em rota. Quase todos os sucessores de Descartes em epistemologia, até
Russell, incluindo Russell (1872-1970) e Ayer (1910-1989), aceitaram
essa perspectiva a respeito de suas tarefas. Nesse sentido, ao menos,
todos foram cartesianos. Falando de modo amplo, é por tais razões,
como sugerimos acima, que eles acharam duro de enfrentar o desafio do
ceticismo.
Algumas respostas ao ceticismo
O desafio cético diz que sofremos de um comprometimento epistêmico,
a saber, que podemos ter a melhor evidência possível para
acreditar em algum p, e ainda assim estarmos errados. Enunciado de modo
resumido e formal, o ceticismo é a observação de
que não há nada contraditório na conjunção
de enunciados s incorporando nossas melhores bases para uma dada crença
p, por um lado, com a falsidade de p, por outro.
Uma representação informativa do ceticismo assim sumarizada
é como segue. Argumentos céticos abrem uma fenda entre,
de um lado, as bases que um suposto conhecedor tem para alguma afirmação
de conhecimento, e, de outro lado, a afirmação em si mesma.
Respostas ao ceticismo geralmente tomam aforma de tentativas ou de colocar
uma ponte sobre a fenda ou de diminuir o buraco. O modelo padrão
perceptual, no qual as crenças são formadas por interação
sensória com o mundo, postula um ponte causal que atravessa a
fenda; mas tal ponte é vulnerável à sabotagem cética,
aqui a explicação causal, no mínimo, precisa de
suporte. Descartes, como notado, identificou a tarefa epistemológica
como a necessidade de especificar garantias - chame-se X - que, acrescentada
às nossas bases subjetivas para crenças, protege-as conta
o ceticismo e assim eleva as crenças à forma de conhecimento.
Seu candidato para X era a bondade da divindade; rejeitar esse candidato
(enquanto continuou a aceitar sua perspectiva da tarefa epistemológica)
cria a obrigação de termos de encontrar um alternativa.
Se um X não pode ser achado para sustentar a ponte que liga a
fenda cética, a opção é tentar aproximá-la
- ou, mais exatamente, mostrar que, de modo algum, há alguma
fenda ali. Ambos as buscas por X e por fechar a fenda tem constituído
o esforço epistemológico maior contra o ceticismo na filosofia
moderna. Algumas desses esforços, de modo breve, são os
seguintes.
Os sucessores imediatos de Descartes foram, como mencionados, não
persuadidos pela sua tentativa de colocar uma ponte na fenda invocando
uma divindade boa para servir como X. Locke, sem muito alarde, empregou
uma versão mais fraca do expediente cartesiano dizendo que podemos
ignorar as ameaças céticas á explicação
causal porque "a luz que é acesa em nós brilha o
suficiente para todos os nossos propósitos". A partir do
ponto de vista de Locke não há importância se a
luz interior é fixada por Deus ou pela natureza; a questão
é que há algo - X, a luz interna, que poderia ser, talvez,
a razão, a intuição empírica ou a confiança
nativa na confiabilidade dos sentidos - que dá bases para que
aceitemos nossos meios ordinários de adquiri conhecimento como
sendo os meios adequados.
Argumentos transcendentais
Kant (1724-1804) considerou o fracasso na refutação do
ceticismo o "escândalo" da filosofia, e ofereceu sua
Crítica da Razão Pura (1929) como uma solução.
Sua tese é que nossas mentes são de tal modo constituídas
que elas impõem uma estrutura de conceitos interpretativos sobre
nossa sensações, entre elas aquelas de interconexão
causal e de objetividade do que percebemos. A aplicação
desses conceitos transforma receptores meramente passíveis de
dados em experiência propriamente dita (pp. 590-8). Nossas faculdades
são tais que onde o dado cru cai sob a atividade interpretativa
de nossos conceitos, eles, os dados, já tem forma espacial e
temporal que lhes foi conferida pela natureza de nossas capacidades
sensórias; toda nossa experiência, considerada como relacionada
ao que é exterior a nós, é experiência de
um mundo estruturado espacialmente, e toda nossa experiência,
considerada como relacionada a seu caráter receptivo em nossas
mentes, é de um mundo temporalmente estruturado. Sobre os dados
espaço-temporais assim trazidos, antes, às nossas mentes,
impomos nossas categorias, isto é, os conceitos que tornam a
experiência possível dando a elas seu caráter determinado.
E aqui está o ponto chave de Kant: se o cético pede que
justifiquemos nossas afirmações de conhecimento, nós
assim fazemos dispondo esses fatos sobre como a experiência é
constituída.
Kant disse que Hume (1711-76) o inspirou, porque Hume havia argumentado
que embora não pudéssemos refutar o ceticismo - a razão
não era capaz disso, afirmou ele - não deveríamos
estar em apuros, pois a natureza humana é assim constituída
de modo que simplesmente não podemos consertar as crenças
que o ceticismo nos desafia a dar justificativas. Essa crenças
incluem, por exemplo, que há um mundo externo, que há
relações causais mantidas entre eventos no mundo, que
o raciocínio indutivo é confiável assim por diante.
A partir dessa sugestão, Kant elaborou sua teoria de que os conceitos
os quais o cético que justificação são características
constituintes de nossa capacidade, de algum modo, de ter qualquer experiência.
A estratégia, se não os detalhes, do ataque de Kant sobre
o ceticismo, tem estimulado o interesse da filosofia mais recente. O
argumento que ele emprega é um argumento transcendental, brevemente
caracterizado como aquele que diz que porque A é uma condição
necessária para B, e, porque B é o caso, A deve ser também
o caso. Um exemplo de um tal argumento em ação contra
o ceticismo é o que segue.
Um desafio cético típico é o concernente a crença
na existência de objetos não percebidos, continuamente.
O que justifica nossa manutenção de uma tal crença
e o desconto que damos a respeito dela? As respostas do argumento transcendental
são as seguintes: por causa de que nos assumimos como ocupando
um mundo singular e unificado de objetos espaço-temporais, e
por causa de que, nessa perspectiva, objetos espaço-temporais
tem de existir quando não percebidos a fim de constituir o real
como singular e unificado, uma crença contínua na existência
de objetos não percebidos é uma condição
de nosso pensamento a respeito do mundo e a respeito de nossa experiência
dele desse tal modo. Uma vez que, de fato, pensamos desse modo, a crença
que o cético pede para justificarmos está, portanto, justificada.
Uma pensador contemporâneo que fez notável uso desse estilo
de agumento é P. F. Strawson, nascido em 1919.
Idealismo e fenomenalismo
Há, em paralelo a esse modo de Kant responder ao desafio cético,
outra abordagem, que nega a existência de um fosso gerando pelo
ceticismo. As figuras chefes nesse campo são Berkeley e, mais
recentemente, os fenomenalistas, que - permitindo por diferenças
entre eles, e lembrando que os dois últimos só mantém
tais perspectivas em parte de suas carreiras - incluem Mill (1806-73),
Russell e Ayer.
Na perspectiva de Berkeley, o ceticismo emerge do pensamento de que
atrás ou na frente de nossas experiências sensórias
repousa um mundo material. O mundo "material" significa "feito
de mattéria", e "matéria" é um termo
filosófico técnico que é suposto denotar uma substância
indetectável empiricamente, que os predecessores da filosofia
de Berkeley usaram como base para as propriedades das coisas detectáveis
sensoriamente, tais como cores, formas e texturas. Berkeley rejeitou
o conceito de matéria assim entendido - é comum lê-lo
erradamente, tomando-o como alguém que negou a existência
de objetos físicos; ele não fez tal coisa - argumentando
que por causa dos objetos físicos serem coleções
de qualidades sensíveis, e porque qualidades sensíveis
são idéias, e porque idéias só podem existir
se percebidas, a existência de objetos, portanto, consiste em
serem percebidos; se não por mentes finitas tais como as nossas,
então em todos os lugares e em todo o tempo por uma mente infinita.
(Podemos notar que Berkeley pensava que sua refutação
do ceticismo era ao mesmo tempo um novo e poderoso argumento em favor
da existência de Deus.)
O costume de Berkeley de dizer que as coisas existem "na mente"
levou leitores não críticos a supor que ele queria dizer
que objetos existem somente na cabeça de alguém, que é
o que o idealista subjetivista ou o solipsista podeiam tentar manter.
O idealismo de Berkeley, se é ou não de algum modo defensável,
é ao menos uma perspectiva não tão instável.
Seu "na mente" deveria ser lido como significando "com
referência essencial à experiência ou pensamento".
Para os propósitos aqui presentes, a questão é
que Berkeley buscou refutar o ceticismo por meio da negação
da existência de um fosso entre experiência e realidade,
sobre o fundamento de que experiência e realidade são a
mesma coisa. (Ele tinha uma teoria de como, a despeito disso, poderíamos
todavia imaginar, sonhar e errar). Os fenomenalistas, mesmo com uma
importante diferença, argumentaram de modo parecido, partindo
do que aparece para nós na experiência. Quando analisamos
os aparecimentos - o "fenômeno - vemo que eles não
não construídos separados do dados básicos dos
sentidos, seja a menor passagem de cor no campo visual ou o mais baixo
som em nosso campo auditivo. Fora dos dados dos sentidos "contruímos
logicamente" as cadeiras e mesas, pedras e montanhas, constituindo
os acessórios do mundo do dia-a-dia.
Uma alternativa, mas equivalente, de se colocar tal questão,
afirmam os fenomenalistas, é dizer que enunciados sobre objetos
físicos são meramente convenientes atalhos de enunciados
mais longos e mais complicados sobre como as coisas aparecem para nós
no emprego usual de nossas capacidades sensórias. E para dizer
que objetos continuam existindo mesmo quando não percebidos é
dizer - na frase de Mill - que eles são "possibilidades
permanentes de sensação", significando que alguém
poderia experienciá-los se fossem preenchidas certas condições.
Berkeley mantém que cisa permanecem em existência quanto
não percebidas por mentes finitas porque elas são percebidas
por uma divindade. Os fenomenalistas agumentam que o que se quer dizer
quando se fala que as coisas existem independentemente da percepção
delas é que certas condições contra-factuais são
verdadeiras, a saber, aqueles que afirmam que as coisas em questão
seriam percebidas se algum ente que percebe estivesse adequadamente
localizado com respeito a elas. Esses condicionais são notoriamente
problemáticos, porque não está claro como entendê-los.
O que, em particular, torna todos eles verdadeiros quando eles são
(ou bem obviamente que são) verdadeiros? As respostas usuais,
nos termos de mundos possíveis, leis e regularidades ideais ou
similaridades exóticas, ajudam pouco. Não está
claro quanto muito de um progresso é adquirido a partir da ubiqüidade
da divindade de Berkeley ao simplesmente a substituirmos por contrafactuais
verdadeiros. A perspectiva de Berkeley tem a modesta atração
de que tudo no mundo é real ¾ tudo que existe é
percebido - em qualquer lugar no universo do fenomenalista a maioria
do que existe é assim uma possibilidade antes do que uma realidade,
a saber, uma possibilidade de percepção.
Pelos menos uma coisa está clara: que não se alcança
o fenomenalismo simplesmente subtraindo a teologia da teoria de Berkeley.
Ao fazer isso, então reaparece o fosso metafísico, e então
substitui-se uma comprometimento com a existência de simples verdades
contra-factuais, com um comprometimento de fica acompanhado com a existência
do possível. Tanto a teoria de Berkeley quanto o fenomenalismo,
então, demanda ato preço para aproximar o fosso cético.
Espistemologia cética versus anti-cartesianismo
Alguns epistemólogos não tentam refutar o ceticismo pela
boa razão de que eles acham que ele é verdadeiro ou irrefutável.
A perspectivas desses epistemólogos poderia ser sumarizada como
dizendo que o ceticismo é o resultado inevitável da reflexão
epistemológica, assim deveríamos aceitar o seguinte: ou
estamos destinados mesmos a termos crenças justificadas só
imperfeitamente, sempre sujeitas à revisão da experiência,
ou temo de reconhecer que o ceticismo, a despeito de ser irrefutável,
não é uma opção prática, e portanto
temo de viver como a maioria a pessoas vivem, isto é, simplesmente
ignorando tais questões.
Alguns comentadores de Hume interpretam seu pensamento como endossando
esta última perspectiva, e de acordo com isso falam em "resposta
humeana ao ceticismo". Stroud (1984) e Strawson (1985), fazem algo
mais ou menos parecido com essa "resposta humeana ao ceticismo".
Outros, em debates recentes, são mais combativa, entre eles está
Dewey (1859-1952) e Wittgenstein (1889-1951). A despeito das diferenças
fundamentais sobre outros aspectos, esses dois pensadores mantiveram
uma interessante perspectiva comum, que é a de que o ceticismo
resulta da aceitação do ponto de partida cartesiano do
dado privado da consciência individual. Se, em vez disso, dizem
eles dois, começarmos com o mundo público - com considerações
relacionadas a fatos sobre o caráter essencialmente público
do pensamento humano e da linguagem - emergirá daí um
quadro diferente.
Dewey argumentou que o modelo cartesiano torna o sujeito epistêmico
uma recipiente meramente passivo de experiências, como alguém
sentado no escuro do cinema assistindo a fita; mas, apontou ele, nossa
visão é de uma perspectiva participante - somos atores
no mundo, e nossa aquisião de conhecimento é o resultado
de nossos feitos no mundo.
Wittgenstein contestou toda a coerência da abordagem cartesiana
argumentando pela impossibilidade da linguagem privada. A linguagem
privada, no sentido de Wittgenstein, é aquela que é logicamente
disponível única e exclusivamente para um falante, que
é o que um sujeito cartesiano precisaria no sentido de começar
a discursar sobre sua experiência interior privada. Seu argumento
é este: linguagem é uma atividade governada por regras,
e só se tem êxito ao falar uma linguagem quando se segue
as regras para o uso de suas expressões. Mas um solitário
usuário da linguagem seria alguém incapaz de contar a
diferença entre realmente seguir as regras e meramente acreditar
que assim está fazendo; assim, a linguagem que ele fala não
pode ser logicamente privada para ele próprio; ele deve ser compartilhada
com outros. Certamente, Wittgenstein argumento que a linguagem só
pode ser adquirida em uma situação pública (ele
liga o aprendizado da linguagem ao treinamento de animais; aprender
uma linguagem é imitar comportamentos lingüísticos
de quem está ensinando), que similarmente pesa contra a idéia
de que o projeto cartesiano é, até mesmo em princípio,
possível.
As possibilidades contra os céticos do argumento da linguagem
privada parecem não ter sido vislumbrada em seu todo pelo próprio
Wittgenstein. Em notas de esboço sobre o ceticismo e o conhecimento,
escritas nos últimos meses de sua vida - depois publicadas sob
o título Da Certeza (1969) - ele oferece uma resposta ao ceticismo,
que marca um retorno a uma abordagem mais tradicional, não diferente
da oferecida por Hume e Kant. Há algumas coisas que temos de
aceitar no sentido de administrar nosso modo comum de pensar e falar.
Tais proposições como a de que há um mundo externo,
ou que o mundo veio a existir há muito tempo, não estão,
simplesmente, abertas à dúvida; não é uma
opção para nós questioná-las. Nem, portanto,
diz Witgenstein, podemos dizer que sabemos delas, porque conhecimento
e dúvida são intimamente relacionados, e só pode
haver conhecimento onde pode haver dúvida e vice versa.
As proposições que não podemos duvidas constituem
os "andaimes" de nosso pensamento ordinário e de nossa
conversação diária, ou ¾ Wittgenstein varia
suas metáforas - eles são como o leito e os bancos de
um rio, abaixo dos quais a correnteza do discurso normal segue seu fluxo.
Nesse sentido as crenças que o ceticismo tenta desafiar não
estão abertas à negociação; que, diz Wittgenstein,
dispõe o ceticismo.
Esses pensamentos são tão sugestivos quanto eles estão
na filosofia de Hume e Kant; mas um dos problemas com o modo de Wittgenstein
de colocá-los é que ele usa conceitos fundacionistas na
descrição da relação de proposições
"gramaticais" em alguns casos, mas repudia o fundacionismo
como tal, e parece permitir uma versão de relativismo assim fazendo
- o leito do rio e os bancos, diz ele, poderiam, no momento necessário,
serem ser deteriorados. Mas o relativismo é apenas o ceticismo
disfarçado - ele é, de fato, argumentativamente, o mais
poderoso e a forma mais problemática de ceticismo, pois ele é
a perspectiva de que conhecimento e verdade são relativos a um
ponto de vista, um tempo, um lugar, uma meio ambiente cognitivo ou cultural:
e conhecimento e verdade, assim entendidos, não são conhecimento
e verdade.
Observações finais
Há muito gostar-se-ia insistir sobre uma tentativa correta para
descrever o trabalho que necessita ser feito em epistemologia, para
isso é necessário preliminarmente fazer o progresso que
podem. Aqui, eu simplesmente sublinharei uma casal de observações
já feitas acima.
Primeiramente, debates sobre a definição de "conhecimento"
me parecem ser um lado a ser mostrado. A justificação
de afirmações nas ciências naturais, nas ciências
sociais (não, no mínimo, na história) e direito
é onde o trabalho real a ser feito em epistemologia fala mais
alto. E sua explicação aplica-se somente ao caso empírico:
o que das questões epistemológicas que apertam em ética
e em filosofia da matemática? Pode não haver nenhuma garantia
- e certamente é não razoável - que altar generalizações
sobre justificação e conhecimento se aplicarão
inequivocamente a todos esses campos. "Justificação"
é um conceito mudo que necessita ser resgatado fora, nos termos
particulares para campos particulares; muito seria óbvio a partir
do fato de que explicações gerais de justificação
não restritivamente mostram-se não ajudáveis à
vulnerabilidade de contra-exemplos.
Em segundo lugar, pouco da literatura corrente sobre o ceticismo torna
alguém confiante de que sua natureza é propriamente entendida.
O ceticismo define um problema central em epistemologia, a saber, a
necessidade de mostrar como é possível justificação
de crenças. Isso é feito ao nos defrontarmos com o desafio
de mostrar que considerações céticas não
produzem, após tudo, um fracasso de nossos melhores esforços
neste ou naquele específico campo. Implícito nessa caracterização
estão duas importantes afirmações: primeiramente,
que o ceticismo é melhor entendido como um desafio, não
como uma afirmação de que não sabemos nada ou que
não podemos saber nada; e, secundariamente, que o melhor modo
de responder ao ceticismo não é tentando refutá-lo
na base de argumento por argumento, mas monstrando como fazemos as justificações
para o que acreditamos. De algum modo, esse dois pontos, que foram óbvios
aos nossos predecessores, parecem terem sido uma visão que se
perdeu.
Tradução de Paulo Ghiraldelli Jr.
O texto foi traduzido de Grayling, A C. Epistemology.
Bunnin and others (editors). The Blackwell Companhion to Philosophy.
Cambridge, Massachusetts: Blackwell Publishers Ltd, 1996.
As notas, as referências, leituras recomendadas e questões
estão na obra original (NT).
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