Os espíritas, quantos são?
Wilson Garcia (SP)
Instituto de Intercâmbio do Pensamento Espírita
de Pernambuco (IPEPE)
http://www.ipepe.com.br/indexp.html
A comunidade espírita brasileira aceitou passivamente
os dados do último censo. Segundo o IBGE, o número de
espíritas praticamente não cresceu no Brasil. Foi o que
demonstrou a medição. Para se saber quem é espírita,
pergunta-se qual é a religião do entrevistado. Sob este
ângulo, não há o que contestar: os dados do famoso
instituto estão certos. Numericamente, não éramos
muito expressivos; continuamos não sendo.
Fica no ar um certo desapontamento. Numa população
de cerca de 170 milhões de pessoas, somos pouco mais de um por
cento. Para ser exato, 1,8 por cento ou algo em torno de três
milhões de espíritas declarados. Deveríamos ser
mais. Gostaríamos de ser mais. Pensamos que temos uma grande
história de conquista de espaço. E de fato temos. Desde
Travassos, ouvimos que o Espiritismo do século XIX aos nossos
dias realiza uma trajetória digna de admiração,
fornecendo um cenário admirável de pujança. Não
um cenário qualquer, mas algo grandioso que deveria refletir-se
em quantidade. Temos na mente uma sensação quantitativa
muito expressiva. Porém, os números do IBGE são
implacáveis.
Surgem alguns consolos. Por exemplo, a idéia
da qualidade versus quantidade. Amparados em Kardec, reafirmamos sempre
que o proselitismo numérico não é um objetivo da
doutrina; devemos lutar pela qualidade. Ninguém, em sã
consciência, ficará contra esta idéia de que a qualidade
é mais importante que a quantidade. Mas isso não retira
um certo desapontamento quando os números nos colocam em posição
inferior à religião tradicional e aos diversos ramos evangélicos.
Até mesmo os ateus declarados formam um contingente maior que
o nosso.
Ah a frieza dos números... Mas o que eles escondem?
O que não dá para ver se botamos nossos olhos apenas no
valor gráfico? Há algo muito importante, digno de reflexão.
Por exemplo, a realidade do cotidiano espírita. Sim, é
preciso considerar diversos aspectos do nosso dia-a-dia que influem
em qualquer pesquisa desse gênero e com essas características.
Vou dar um exemplo: outro dia, durante o intervalo de um jogo de futebol
na Globo, a jogadora de vôlei de praia Sandra foi mostrada lendo
um livro de André Luiz e Chico Xavier. Seu nome: Nosso Lar. Quem
assiste futebol na Globo sabe que ultimamente a emissora vem dedicando
um espaço à promoção do hábito de
leitura, colocando no ar indicações feitas por atletas
de diversas modalidades esportivas. Pois é, apareceu a Sandra,
campeã olímpica, com o mais lido livro psicografado de
todos os tempos. Alguém sabia que ela gostava de leituras espíritas?
Pois a Sandra integra um grupo de simpatizantes da doutrina que, se
perguntados qual é sua religião dirão que não
têm. E outros, ainda hoje, responderão que sua religião
é a católica.
Ninguém se espante com essa constatação.
Há simpatizantes espíritas que simplesmente gostam das
nossas teses fundamentais, e dos nossos livros. Outros admiram o fato
de poderem se encontrar com pessoas queridas que já partiram.
Muitos se encantam com as novelas globais inspiradas nos fatos espíritas:
pessoas que aparecem a outras, o retorno ao convívio com os vivos;
previsões, reencarnações. Pois é, grande
parte dessas pessoas continua freqüentando suas religiões
e se declarando adeptos delas quando procurados pelo IBGE.
Some-se a elas aqueles que não consideram religião
o Espiritismo. Mas que são espíritas, como se diz, de
corpo e alma. Todos eles, se perguntados qual é a sua religião,
dirão que não têm. Simplesmente. Mas aceitam os
princípios fundamentais como a reencarnação, a
relação entre vivos e mortos, a existência de Deus
entre outros. E lutam pela divulgação do Espiritismo,
acreditando na sua força para modificar a sociedade.
Há, também, muitos que jamais diriam que
são espíritas. Trata-se de uma contaminação
do preconceito. Explico: eles freqüentam muitas vezes os centros,
tomam passe, ouvem palestras, mas não podem aparecer como espíritas
perante a sociedade. Quando não se incluem entre estes, são
do tipo que gostam dos temas inspirados no Espiritismo, mas não
fizeram uma adesão formal à doutrina nem pretendem fazê-lo.
A propósito, alguém sabe quantos espíritas
estão entre aqueles milhões de brasileiros que deram à
novela A Viagem a maior audiência da TV brasileira? Pois é,
se 50 por cento dos telespectadores dissessem ao IBGE que eram espíritas
seríamos hoje, provavelmente, o segundo contingente do país.
A busca frenética pelos números, essa
obsessão norte-americana, nos faz às vezes deixar de lado
o aspecto qualitativo, que só aparece quando refletimos sobre
o contexto e as realidades que eles, os números, não revelam.
Quando milhões de pessoas consomem livros de temática
espírita, colocando-os nos primeiros lugares das listas por várias
semanas, elas conferem um valor ao Espiritismo que ninguém pode
desconsiderar.
Isto é um consolo? Uma leitura equivocada dos
fatos? Pode ser. Mas é preciso ser bastante ingênuo para
acreditar que o processo de influência do Espiritismo na sociedade
deve ser analisado a partir da quantidade de adeptos revelada pelo IBGE.
Aquilo que não é mensurável, que não pode
ser somado, que não pode ser apresentado em caracteres alfanuméricos
tem um peso muito significativo no quadro geral das análises.
Estou convicto de que é um peso maior, imensamente maior do que
os próprios números. E porque essa questão de dizer
qual é sua religião tem complexidades enormes, tem implicações
históricas e conseqüências culturais diretas na vida
dos indivíduos, a valorização da qualidade ganha
ainda mais importância para o Espiritismo. Fornecer conteúdos
vale mais do que contar adeptos. Muito mais!
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