Espiritualidade e Sociedade





Marlene Fagundes Carvalho Gonçalves


>   Educação: Conhecimento e Consciência

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Marlene Fagundes Carvalho Gonçalves
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A conquista da consciência, na Escola, caminhará ao lado da aquisição do conhecimento, do discernimento para a ação, de forma que cada aluno descubra o que fazer, quando e como realizá-lo. Ao mesmo tempo, essa experiência levará ao autodescobrimento.
(Vianna de Carvalho, Atualidade do Pensamento Espírita (1), p. 105).

 

É perceptível que a sociedade – através da escola, principalmente – tem buscado, nos últimos séculos, o desenvolvimento intelectual e tecnológico. Allan Kardec afirmara, no século XIX, no Livro dos Espíritos (2), p. 785: "Há duas espécies de progresso, que uma a outra se prestam mútuo apoio, mas que, no entanto, não marcham lado a lado: o progresso intelectual e o progresso moral. Entre os povos civilizados, o primeiro tem recebido, no correr deste século, todos os incentivos. Por isso mesmo atingiu um grau a que ainda não chegara antes da época atual." (grifo meu)

Da mesma forma que todos se voltaram para tal progresso, parece que agora as questões mais ligadas à moral estão vindo à tona. Não só pelos movimentos religiosos, ou da própria Doutrina Espírita, mas a própria civilização é impelida a isso. O avanço intelectual leva à percepção da necessidade de um avanço nos aspectos morais. Allan Kardec já previra isso, quando formula a questão 780, no Livro dos Espíritos (2): "O progresso moral acompanha sempre o progresso intelectual? Decorre deste, mas nem sempre o segue imediatamente." E continua (p. 780 a) "Como pode o progresso intelectual conduzir ao progresso moral? - Fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos."

Isso nos indica que a busca do desenvolvimento moral nos remete de volta a nós mesmos. Enquanto estamos aprendendo sobre o mundo, voltamos nossa atenção para o exterior, aprendemos a construir por exemplo, vacinas, foguetes, métodos de ensino ou fórmulas matemáticas que nos auxiliam a entender o mundo e suas leis naturais. Mas quando se trata de escolher o que fazer com tais descobertas, nos deparamos conosco mesmo, com nossos valores e nossos vícios e virtudes.

Henri Wallon (3) (1879-1962), um francês estudioso do ser humano, relacionava o desenvolvimento intelectual à compreensão do mundo à nossa volta, e o desenvolvimento afetivo, à construção e compreensão de si mesmo. Ou seja, as questões ligadas aos sentimentos, emoções, condutas, que marcarão as relações sociais, são as questões morais, que dizem respeito ao interior de cada um de nós.

A própria Psicanálise, imensa contribuição de Freud à humanidade, surge como um instrumento para compreensão de si mesmo, da própria consciência humana.

Tudo isso nos remete ao papel da Educação. Até então, a grosso modo privilegiou-se o intelecto, mas é chegado o momento de ampliar tal concepção.

Vianna de Carvalho (1874-1926), que muito lutou, no Brasil, pela criação de escolas de moral cristã para crianças nas Casas Espíritas, em seu livro “Atualidade do Pensamento Espírita(1), psicografado por Divaldo Franco, diz que "a educação deve ser uma forma de direcionamento para o autodescobrimento, essa inevitável viagem interior, graças à qual o educando descobre as possibilidades que lhe estão ao alcance, como também o que realmente deseja da vida, evitando emaranhar-se pelas conquistas exteriores que não lhe satisfazem a plena realização. (…) A consciência é a perfeita diferença entre conhecer e discernir" (p. 105). Somente ampliando essa compreensão do que nos move, podemos avaliar e julgar nossas próprias ações no mundo. (grifo meu)

Na conclusão de O Livro dos Espíritos (2), item IV, Allan Kardec afirmou: "O homem quer ser feliz e é natural esse desejo. Ora, buscando progredir, o que ele procura é aumentar a soma da sua felicidade, sem o que o progresso careceria de objeto. Em que consistiria para ele o progresso, se lhe não devesse melhorar a posição? Quando, porém, conseguir a soma de gozos que o progresso intelectual lhe pode proporcionar, verificará que não está completa a sua felicidade. Reconhecerá ser esta impossível, sem a segurança nas relações sociais, segurança que somente no progresso moral lhe será dado achar. Logo, pela força mesma das coisas, ele próprio dirigirá o progresso para essa senda e o Espiritismo lhe oferecerá a mais poderosa alavanca para alcançar tal objetivo." (grifo meu)

Assim, o que se percebe é que o conhecimento (que segundo o dicionário Aurélio seria como apropriação do objeto pelo pensamento, como definição, como percepção clara do objeto) é parte de um processo de desenvolvimento do Espírito. A consciência seria aquela outra que nos faz conhecer a nós próprios na relação com esse mundo. Quem quer que lide com a Educação, em seus diferentes níveis, não pode mais ignorar isso.

 

 

Referências Bibliográficas:

(1) FRANCO, Divaldo P, pelo Espírito Vianna de Carvalho. Atualidade do Pensamento Espírita. Salvador: LEAL, 2002.
(2) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
(3) WALLON, Henri. A Evolução psicológica da Criança. Lisboa: Edições 70, 1998.

 

Fonte: Jornal Verdade e Luz – maio/2005 - http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo2229.html

 



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