Gabriela di Giulio e Margareth Franco

>   Fé religiosa e racionalismo da ciência podem caminhar juntos

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Gabriela di Giulio e Margareth Franco
>   Fé religiosa e racionalismo da ciência podem caminhar juntos

 


Um cientista pode ser uma pessoa religiosa? Para quatro cientistas entrevistados pela ComCiência a resposta é sim. Eles acreditam que este binômio não é conflitante e que é possível conciliar o racionalismo da ciência com a fé religiosa. A discussão é antiga, mas nem sempre as relações entre ambos foram conflituosas, nem na área acadêmica nem na área religiosa. A partir do momento que a ciência moderna, que apareceu no Ocidente no século XVII, se apoiou na observação do mundo, houve uma aparente ruptura entre aquilo que os livros sagrados diziam e aquilo que era observado na natureza.

Com a publicação de A origem das espécies, de Charles Darwin, em 1859, foi estimulada uma nova visão sobre a criação do mundo: não mais aquela de que tudo teria sido criado ao longo de um determinado período, como ensinava a Bíblia. Desde então, muitos cientistas acataram essa nova visão do mundo e passaram a ter uma relação antagônica com a fé, como mostram três pesquisas desenvolvidas ao longo do século XX.

A primeira, realizada em 1916, pelo psicológo suíço James Leuba, envolveu a questão da fé num Deus que responde à prece e promete a imortalidade - o Deus do criacionismo. Os resultados mostraram que a proporção entre aqueles que acreditavam e os que não acreditavam era a mesma (40%). E 17% se disseram agnósticos - aqueles que aceitam com objetividade verdadeira uma proposição que tenha evidência lógica.

Oitenta anos depois, os pesquisadores Larson e Witham repetiram o levantamento de Leuba e publicaram um estudo estatístico na Nature mostrando que o conhecimento científico não alterou significativamente a crença ou a descrença em Deus e na imortalidade. Esse resultado mostrou que muitos outros fatores influem na crença e na descrença dos profissionais da ciência, como a educação, a tradição familiar, cultural e as experiências de vida. Porém, em uma nova pesquisa, feita em 1999, esses mesmos pesquisadores afirmaram que os cientistas mais eminentes estão mais ateus do que em qualquer outra época. Comparando os resultados das duas pesquisas, em 1916, 53% desses cientistas diziam não crer em Deus e 25% mostraram não acreditar na imortalidade. A nova pesquisa mostrou que, no fim da década de 1990, o número de cientistas que se assumiram descrentes de Deus foi de 72% e 77% disseram que não acreditam na imortalidade. O estudo, porém, não mostrou as possíveis razões que poderiam explicar essa constatação.

Num universo mais estreito, Geraldo José de Paiva, especialista em psicologia da religião, fez um estudo sobre a psicologia do cientista através de uma pesquisa realizada com docentes-pesquisadores da Universidade de São Paulo. O estudo, segundo ele, procurou desfazer mal-entendidos e manter-se na neutralidade metodológica - também conhecida como ateísmo metodológico - que estuda não o objeto religioso em si, mas o comportamento humano, individual ou social, relacionado a este objeto. "Ao contrário do que a mídia faria esperar, os cientistas, físicos, zoólogos ou historiadores, não opuseram conhecimento científico à opção religiosa ou irreligiosa", escreveu no seu artigo publicado na revista Psicologia: Reflexão e Crítica, em 2002. "O problema de aceitar ou não a religião não pode ser resolvido pela competência científica da pessoa."

Católico, Paiva aos 67 anos acredita que a religião é um conjunto de símbolos, linguagens, ritos e atos, estabelecidos cultural e socialmente, e apropriados subjetivamente pela pessoa. "Um cientista pode ser uma pessoa religiosa porque a ciência é apenas uma das referências para uma decisão englobante da vida como a religião e a irreligião", diz Paiva. Ele analisa a questão desse binômio, afirmando que teoria científica é teoria científica; religião é religião. "A ciência trata dos fenômenos da natureza e de suas leis. A religião trata da relação com Deus. Tanto faz se o homem foi criado diretamente por Deus ou se apareceu por obra da evolução", explica.

Apesar de existir cientistas que conseguem conciliar a ciência com a fé, alguns procuram a unicidade nesta relação. É o caso, por exemplo, das correntes holísticas que procuram restabelecer nexos que foram desnecessariamente rompidos, embora em níveis epistemológicos distintos. Entre os representantes mais populares dessas correntes estão o físico austríaco Fritjof Capra e o médico indiano Deepak Chopra.


Do ateísmo ao catolicismo

Ateu durante a juventude, o pesquisador Mário Eugênio Saturno, 42, tecnologista sênior de sistemas espaciais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), tornou-se católico após estudar psicologia, conhecer os livros de Platão e passar por várias religiões. "Eu costumo brincar que Deus colocou no homem a necessidade de Deus. A religião trata do sobrenatural, a finalidade do ser humano, a existência e a eternidade, assuntos que não têm nada a ver com a ciência ou com o cientista, por isso não é incompatível ser um cientista religioso", diz ele.

Para Saturno, que participou do Programa Espacial Brasileiro, a religião é quem deve estabelecer limites éticos para o cientista, "do contário teremos Frankensteins por aí". Ele afirma que a religião influencia no encaminhamento que dá para sua pesquisa, já que, devido à ética e moral cristã, o pesquisador procura desenvolver tecnologias que promovam o ser humano. "Não me sentiria bem trabalhando em equipamentos militares que poderiam ser usados contra populações civis, como acontecece no Iraque", ressalta.

Apesar dessa visão, ele reconhece que algumas religiões estão provocando grandes problemas para o desenvolvimento da ciência e diz acreditar que o fato de apoiar sua vivência em uma religião não prejudica o desenvolvimento de sua carreira. Para ele, se existe algum tipo de discriminação por ser religioso, é imperceptível. "Acredito que existem outros tipos de discriminação do cientista brasileiro que considero mais graves."

Mas isso não é assim em todos os lugares. O físico cubano Eugênio Rodriguez Gonzalez, de 41 anos, que vive há quatro no Brasil, conta que há no país uma liberdade para manifestar seus credos, independentemente de sua profissão, que ele não encontrou em Cuba. Nascido e crescido em um lar cristão dentro de um sistema comunista, o pesquisador sofreu discriminações por manifestar sua religião, enfrentando todas as pressões impostas pelo governo contra aqueles que assumiam um posicionamento religioso. Para ele, o governo comunista acatou a teoria de Darwin para justificar uma ideologia, o que ele vê com muita restrição. "Quando as motivações de qualquer ordem, políticas ou econômicas, entram na ciência, ela perde o seu o valor de ciência."

"A Bíblia não foi escrita como um livro de física quântica. Mesmo assim, há informações no Livro Sagrado que podem incomodar qualquer cientista", diz ele, citando um versículo que fala que mil dias serão um ano e um ano será mil dias. "Tem a ver com a teoria da relatividade que, até hoje, alguns cientistas como eu não compreendem."

Ainda estudante, Gonzalez freqüentou as disciplinas obrigatórias ligadas ao comunismo - que reforçavam a não religiosidade - e muitas vezes sofreu discriminação em sala de aula, ao ser constantemente referenciado como cristão de forma ofensiva. "Quando você tem entre 14 e 18 anos, não tem ferramentas para se defender. Eu ficava envergonhado."

Apesar das pressões, ele persistiu na sua crença e não deixou sua carreira de lado. Estudou na Alemanha, se formou em física, lecionou na Universidade de Havana e viveu situações de conflitos ao lecionar o evolucionismo. "Tive que pregar a teoria do Big Bang, mesmo com os erros que sei sobre ela." Os alunos o questionavam sobre sua posição pessoal acerca da criação do mundo. "Era uma situação difícil, porque manifestar a minha opinião era encarado como fazer apologia". Gonzalez foi expulso por motivações políticas e por ser líder de um grupo cristão. Hoje, pesquisador do Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), diz não sentir nenhum arrependimento por suas escolhas.

"Aqueles que são ateus não têm mais justificativas que eu para não acreditar em Deus. Se amanhã se demonstrar que Deus não pode existir, não vou ficar com remorso, mas acho que essa possibilidade está bem longe. O acercamento da ciência ao fato de que Deus existe está acontecendo", diz ele.

Fé sem contestação

"Não existe outra opção: ou Deus existe ou nada existe", diz o professor titular do Laboratório Thomson de Espectometria de Massas do Instituto de Química da Unicamp, Marcos Nogueira Eberlin. Para ele, a conclusão de que Deus existe é lógica e natural. Negar que Deus existe, acrescenta, é assumir o impossível como possível, o improvável como provável. "É, portanto, um delírio, uma ilusão."

Quando questionado se um cientista pode ser uma pessoa religiosa, ele é enfático: "Na química, vemos a extraordinária lógica e beleza, complexidade e perfeição dos sistemas químicos, das moléculas, das leis por Deus estabelecidas que regem a matéria e suas transformações." Segundo ele, tudo isso pode ser percebido ainda melhor quando se é um cientista. "Por que alguém, mesmo ou ainda mais um cientista, rejeitaria um Deus assim?"

Eberlin, 44 anos, detentor de vários prêmios científicos, prega que a verdadeira religião e a verdadeira ciência não são antagônicas, mas se somam e se completam no mesmo ideal: o bem estar do homem. Sem contestar o criacionismo, ele diz não precisar associar a ciência a convivcções ateístas ilógicas. "Não preciso elaborar mecanismos hilariantes para a origem espontânea da vida."

O pesquisador acredita que esse binômio é convergente. "Deus a sua imagem e semelhança nos fez, portanto, seres que também são capazes de criar, inovar e adicionar à criação ainda mais graça e beleza."

Sua fé, de acordo com ele, é totalmente fundamentada na razão, no equilíbrio entre a lógica do que se entende e fornece o firme fundamento das coisas que não se vê. "Não apoio minha vivência em simples credos religiosos, mas em uma fé racional e autêntica. Assim, não há porque sofrer discriminações", acredita Eberlin. Para ele, se alguma discriminação tem ocorrido ela não é percebida. Já a sua condição não tão comum de cientista e cristão convicto tem, em muitos casos, causado, segundo ele "pela graça de Deus", admiração e portas abertas.

 

Fonte: http://www.comciencia.br/200407/reportagens/08.shtml




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