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Paulo Ghiraldelli Jr.

>    Rorty e Habermas entre gatos, cães e teologia

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Paulo Ghiraldelli Jr.
>   Rorty e Habermas entre gatos, cães e teologia

 

 

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(trecho inicial)

 

I

Por que alguns filósofos teimam em não entender Richard Rorty? Ou, às vezes, abandonar Habermas depois que este deixou de lado o credo marxista? (cf. Ghiraldelli Jr., 2001). Creio que por uma razão simples: eles ainda não aprenderam a gostar do debate entre nominalistas e universalistas – um debate que vem lá de Platão, atinge os medievais em cheio que é, ainda, atual.

Tenho uma fórmula didática simples de colocar esse debate para o público mais amplo, que não está ligado diretamente à filosofia. Uso o exemplo do meu amigo John Shook, de quanto ele lecionava na Oklahoma State University. Ele dizia que os gatos são nominalistas, o cachorros, universalistas.

Um cachorro se apega ao dono, e não liga muito para a casa, mas, em geral, qualquer um, sendo humano e que venha a lhe agradar, serve como dono. Se o dono vai embora, o cachorro tem de ir com o dono, pois ele não sobrevive sozinho; mas pode sobreviver se o dono for outro. O gato, por sua vez, pode optar; se ele cisma de ficar na casa, ele fica ali, tendo ela novos donos ou não. Gatos são nominalistas na medida em que eles escolhem um ponto, um local determinado e particular para ficar. Não lhes passa pela cabeça coisas como as que ocorrem na cabeça do cachorro, que adota a espécie humana, uma expressão mais universal, para a qual ele se volta. O cachorro dá importância ao homem, o conceito de homem, o gato acha o homem enquanto conceito (universal) algo inexistente, e adota algo particular, historicamente datado, opcional, por exemplo, o lugar único em que ele se deita, ao qual ele dá o nome de "rom-rom", que na linguagem humana, em português, poderia ser entendida como "este pedaço de coisa onde me deito". O cachorro não se dá conta de que lida com nomes, ele apenas vai seguindo conceitos, quanto mais universal possível, mais ele segue: "ser humano", "comida" (de qualquer tipo), "casa" em que o "humano" o coloca, ou ordens abstratas como "não!", "bom!", "vai!", "deitado" etc. O gato não obedece tais universais, não são coisas que existem, para ele. O gato é "pão-pão-queijo-queijo", ele acredita no particular, o resto são ... nomes – meros nomes.

Isto não quer dizer que os gatos não dêem importância para a linguagem! Não, ao contrário, eles dão tanta importância que eles querem confiar na linguagem, e desconfiam dela na medida em olham para os cachorros e vêem que eles a tomam como algo importante quando ela expressa abstrações – os universais!

Rorty é um filósofo que tem a ver, de certa forma, com o que os gatos querem, Habermas é um filósofo que tem a ver com o que os cachorros recebem.

 

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Fonte: Este texto é uma versão modificada de uma fala no setor de pós-graduação em teologia e ciências da religião da PUC-SP, nos anos noventa.

 

 


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