Espiritualidade e Sociedade



Alexandre Fontes da Fonseca

>      A obra "A Física da Alma" e o Espiritismo

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Alexandre Fontes da Fonseca
>      A obra "A Física da Alma" e o Espiritismo

 

Nos dias 21 e 22 de Agosto de 2010, aconteceu no Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa em Espiritismo Eduardo Carvalho de Oliveira 1, em São Paulo, o 6º Encontro da Liga de Pesquisadores em Espiritismo 2, com o tema “O Espiritismo visto pelas áreas de conhecimento atuais”, em que apresentamos um trabalho intitulado “Uma Análise Espírita da Obra “A Física da Alma” de Amit Goswami”. Nesse trabalho demonstramos que a referida obra é contrária ao Espiritismo. Nesta matéria, apresentamos um resumo dos pontos principais deste estudo para divulgação junto ao Movimento Espírita.

O interesse do Movimento Espírita pela Ciência é antigo e nos últimos 10 anos vimos bons trabalhos de esclarecimento sobre o que é Ciência, Ciência Espírita, e o tríplice aspecto do Espiritismo 3-5. A Física, em particular, tem despertado muito interesse no público espírita leigo. Obras como “O Tao da Física6, “O Espírito Este Desconhecido7, “A Cura Quântica8 e, mais recentemente, “A Física da Alma9, de Amit Goswami, tem sido lidas e consideradas por muitos espíritas como demonstrações científicas de conceitos espíritas. Nesta matéria, mostraremos que a teoria apresentada na obra “A Física da Alma” é contrária ao que ensina o Espiritismo em alguns dos seus pontos principais. Para isso, apresentaremos trechos das explicações de Goswami para os conceitos de alma, reencarnação e mediunidade.

A proposta de Amit sobre a ALMA se baseia numa questão de natureza filosófica: a dualidade espírito–matéria. Como pode uma “substância” de natureza diferente da matéria interagir com ela? Kardec não esteve alheio a esta questão e no ítem 17 do cap. XI de A Gênese 10, apresenta uma solução ao dizer: “Esse envoltório, denominado perispírito, faz de um ser abstrato, do Espírito, um ser concreto, definido, apreensível pelo pensamento. Torna-o apto a atuar sobre a matéria tangível, conforme se dá com todos os fluidos imponderáveis, (...)”. Goswami, de modo diferente, propõe que a alma seja uma função de onda (ver aula n. 8 da referência 3) que segundo a Física não é algo fisicamente real, não passando de um método de cálculo das propriedades físicas de um sistema material. Apesar de sua proposta também resolver o problema da dualidade, ela traz consequências diferentes do que ensina o Espiritismo.

A questão 79 de O Livro dos Espíritos 11 diz que os Espíritos são a individualização do princípio inteligente, e a de número 122 diz que o “livre-arbítrio se desenvolve à medida que o Espírito adquire a consciência de si mesmo.” e que “Já não haveria liberdade se a escolha fosse determinada por uma causa independente da vontade do Espírito.” Na questão 621, é dito que a Lei de Deus está escrita “Na consciência.” Portanto, o conceito de consciência que o Espiritismo fornece é inerente à alma sendo, portanto, diferente do que Goswami propõe.

A diferença no conceito de consciência se torna mais clara ao lermos as seguintes palavras de Goswami (cap. 7, pág. 152): “As almas, entendidas tal como fazemos aqui, como mônadas quânticas desencarnadas, NÃO PODEM ter percepção sujeito-objeto, NÃO PODEM crescer espiritualmente de maneira alguma, e NÃO PODEM se libertar porque fizeram obras espirituais no Céu” (grifos em maiúsculas, nossos). A questão 227 do Livro dos Espíritos 11 deixa claro o equívoco da afirmativa acima. Se essa teoria da alma estiver correta não poderia existir, por exemplo, Nosso Lar nem a história de André Luiz.

A idéia de REENCARNAÇÃO segundo Goswami se baseia no conceito de “não-localidade” da Física Quântica. Ele diz (cap.4, pag. 83) que as “reecarnações de uma mesma vida (...) estão ligadas pelo fio da não-localidade quântica ...”. Não-localidade é um conceito que surge em sistemas que são ligados de tal forma que uma ação sobre um afeta instantaneamente o outro, não importanto a distância entre eles. Porém, Goswami parece criar um conceito novo a partir da não-localidade ao dizer que (cap.4, pag. 83) “A correlação se estende tanto para o passado como para o futuro ...”. O conceito novo introduzido por Goswami, e que a Física não reconhece, é a não-localidade no tempo, isto é, uma viagem instantânea no tempo para o passado ou para o futuro. No cap. 4, pág. 82, ele diz: “Com o tempo, podemos intuir nossa situação específica com respeito à mônada humana – (...) – e, de forma sincronística, em parte no TEMPO NÃO LOCAL, em parte na temporalidade, podemos nos tornar conscientes de como essa mônada-identidade ESTÁ RENASCENDO EM UM FETO RECÉM-CONSTITUÍDO, ou até partilhar a consciência com ela nos primeiros anos dessa nova vida ...” (grifos em maiúsculas nossos). Goswami afirma, assim, que no momento da morte uma ligação do tipo não-local no tempo se forma ligando, instantaneamente, a alma do agonizante a desencarnar NO PRESENTE ao feto recém constituído NO FUTURO. Uma viagem no tempo instantânea equivale a pularmos do passado para o futuro sem vivermos o período que se passou de um para outro.

Ainda relacionado ao conceito de reencarnação, um ponto de forte contradição com os ensinamentos espíritas pode ser percebido na explicação sobre a escolha de sexo na próxima encarnação. De acordo com Goswami (cap. 8, pág. 181): “Se ao morrer, você estava consciente e fez uma revisão da vida, se você se correlacionou e se comunicou com a criança que será na próxima rodada, no caminho de possibilidades para vocês, então sua opção já está feita. (...). Talvez você tenha visto seus pais e como você foi concebido. Você ainda não se identificou com seu feto; você estava fora do corpo e observava telepaticamente as coisas pelos olhos de seus pais, por assim dizer, e talvez tenha sentido os anseios do desejo. É ESSE DESEJO QUE DETERMINARÁ SEU SEXO AO NASCER – o espermatozóide apropriado encontrará o óvulo, mas isso é secundário. SE SEU DESEJO ESTAVA DIRIGIDO PARA SUA MÃE, VOCÊ SERÁ UM MENINO; SE, POR OUTRO LADO, SEU PAI ERA SEU OBJETO DE DESEJO, VOCÊ SERÁ UMA MENINA” (grifos em maiúsculas nossos).

Sobre MEDIUNIDADE Goswami afirma que (cap. 7, pág. 156): “... não existe colapso das ondas de possibilidades quânticas de uma mônada quântica desencarnada sem a ajuda de um corpo/cérebro físico correlacionado. Por conseguinte, a mônada quântica desencarnada é desprovida de qualquer experiência sujeito-objeto.” Ele, assim, confirma que a alma desencarnada não tem vida, não tem pensamento, não tem consciência independentes de um corpo físico material. Sendo uma função de onda com possibilidades, um Espírito só pode “colapsar” em algum “lugar” material: o cérebro de um médium. Quando um Espírito se manifesta e diz o que sente e o que pensa, na verdade isso não seria uma manifestação consciente de pensamento e sentimento, mas sim manifestações aleatórias das diferentes possibilidades da função de onda (cada uma com uma probabilidade) e não o fruto de um pensamento contínuo do Espírito. Num instante, o Espírito pode manifestar uma dessas possibilidades, e em instantes seguintes outras que, inclusive, podem ser opostas à primeira, já que o fenômeno ocorreria por leis quânticas probabilísticas. Sem dúvida isso é bem diferente do que o Espiritismo ensina e que os companheiros das tarefas mediúnicas nas casas espíritas vivenciam. Por exemplo, veja-se a questão 459 do Livro dos Espíritos: “Os Espíritos influem em nossos pensamentos e em nossos atos? Muito mais do que imaginais, pois frequentemente são eles que vos dirigem.”

Apesar de se basear em conceitos da Física Quântica, a teoria contida na obra “Física da Alma” de Amit Goswami não foi obtida seguindo-se os rigores formais da área de Física. Ele baseia sua tese em um novo tipo de paradigma científico, fora do esquema tradicional da Ciência, em que a unidade fundamental é a consciência e não a matéria. Estando fora da Ciência, ele não pode validar suas teorias de modo científico e, portanto, o conteúdo da obra “Física da Alma” não pode ser considerada científica, no sentido profissional dessa palavra, muito menos que a Física, de modo formal, a apoie. A utilização dos conceitos da Física não torna a sua teoria uma teoria da Física ou respaldada por ela. Dessa forma, nós espíritas não precisamos nos preocupar com o fato dela apresentar conceitos contrários ao Espiritismo.

Além disso, a teoria de Goswami tem outra consequência importante que é contrária ao Espiritismo. Ela supervaloriza a matéria, o que pode ser inferido da seguinte resposta de Goswami à pergunta do psicólogo Kenneth Ring (cap. 13, pág. 274): “Você acha que, se um grande desastre atingisse a Terra, nós poderíamos sobreviver a ele como seres desencarnados?” A resposta: “Certamente sobreviveríamos como seres desencarnados, assim como faz qualquer um que morra hoje em dia, respondi. Mas, Ken, há um problema. SEGUNDO MEU MODELO, NÃO É POSSÍVEL TERMOS EXPERIÊNCIAS SEM UM CORPO FÍSICO. O ESTADO DE CONSCIÊNCIA DE UM SER DESENCARNADO É COMO O SONO; a onda de possibilidades não entra em colapso. Assim, como civilização, dificilmente ficaríamos satisfeitos ao escolher esse estado de limbo.” (grifos em maiúsculas nossos). As questões de 84 a 86 de O Livro dos Espíritos, por exemplo, mostram o equívoco da afirmativa acima.

Para concluir, sugerimos ao Movimento Espírita mais cautela contra o modismo cientificista, onde conceitos da Física Quântica, inacessíveis à compreensão do público leigo, são, às vezes, erroneamente usados em teorias espíritas sem o devido rigor científico da área de Física. Kardec, na Revista Espírita de Julho de 1860, ao final do texto sob o título “Observação Geral”, comenta: “Diz um provérbio: “Nada mais perigoso que um amigo imprudente.” Ora, é o caso dos que, no Espiritismo, se deixam levar por um zêlo mais ardente que refletido.” Na ânsia de ver o Espiritismo valorizado pela Ciência, tem havido um zelo mais ARDENTE que REFLETIDO na divulgação de obras como “A Física da Alma”. Nosso propósito aqui foi o de apresentar um exemplo de REFLEXÃO a respeito dessa obra, demonstrando que seus conceitos são contrários ao Espiritismo, exigindo de nossa parte, maior cuidado na sua divulgação.

Se “O Espiritismo nos solicita uma espécie permanente de caridade – a caridade de sua própria divulgação.”(Emmanuel na obra da Ref. 12), essa caridade requer que tenhamos, de acordo com Kardec, um zêlo REFLETIDO. E, perante a dúvida sobre as novidades na Ciência, se confirmam ou não algum conceito espírita, vejamos o que Kardec nos tem a dizer (Obras Póstumas 13 capítulo “Constituição do Espiritismo. Exposição de motivos. II. Dos cismas”): “Se é verdade que a utopia da véspera, frequentemente, seja a verdade do dia seguinte, deixemos ao dia seguinte o cuidado de realizar a utopia da véspera, mas não embaraçemos a Doutrina com princípios que seriam considerados quimeras e a fariam rejeitar pelos homens positivos.”


Referências
[1] http://www.ccdpe.org.br
[2] http://www.espiritualidades.com.br/Liga/6_ENLIHPE_2010/liga_6_encontro.htm
[3] A. F. Da Fonseca, “Curso de Ciência e Espiritismo: Aulas 1 a 18”, Boletim do GEAE números de 483 a 500 (2004 e 2005)
http://www.aeradoespirito.net/Curso_Cien_Esp/INDICE_Curso_CE_AF.html
[4] A. Chagas, Introdução à Ciência Espírita, Publicações Lachâtre, 1ª edição, Bragança Paulista (2004).
[5] S. S. Chibeni, “O Espiritismo em seu tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso” Reformador Agosto, pp. 37-40 (2003); Setembro, pp. 38-40 (2003); Outubro, pp. 39-40 (2003).
[6] F. Capra, O Tao da Física, Editora Cultrix, 16ª edição, São Paulo (1995).
[7] J. E. Charon, O Espírito Este Desconhecido, Editora Melhoramentos, 10ª edição, São Paulo (1990).
[8] D. Chopra, A Cura Quântica, O Poder da Mente e da Consciência na Busca da Saúde Integral, Editora Best Seller, 42ª edição, Rio de Janeiro (2004).
[9] A. Goswami, Física da Alma, Editora Aleph, 2ª reimpressão, São Paulo (2005).
[10] A. Kardec, A Gênese, FEB, 34ª edição, Rio de Janeiro (1991).
[11] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, FEB, 1ª. edição, Rio de Janeiro (2006).
[12] F. C. Xavier e W. Vieira, pelos Espíritos de Emmanuel e André Luiz, Estude e Viva, 11ª edição, FEB, Rio de Janeiro (2005).
[13] A. Kardec, Obras Póstumas, IDE, 1ª edição, Araras (1993).



Fonte:
Publicado em O Consolador 188 (12 de Dezembro de 2010) -
link:
http://www.oconsolador.com.br/ano4/188/especial.html

 


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