Alexandre Fontes da Fonseca
Instituto de Física da Universidade de São Paulo
Uma nova descoberta da Física está chacoalhando os cientistas.
Trata-se da constatação definitiva de que o neutrino
[1] possui massa. Isso implicará numa completa revisão
da teoria fundamental que descreve os tijolos básicos do Universo,
o chamado Modelo Padrão. Além disso, essa constatação
tem implicações importantíssimas em Cosmologia.
A chamada matéria escura [2], que muito tem incomodado os cientistas,
poderia ser explicada como sendo formada pela soma da massa de todos
os neutrinos. A notícia foi publicada no caderno Folha Ciência
do jornal Folha de São Paulo, edição de 12 de dezembro
de 2002, página A21 e o respectivo artigo científico foi
publicado na conceituada revista “Physical Review Letters”(http://prl.aps.org).
Não é a toa que os espíritos, na questão
22 de O Livro dos Espíritos, disseram a Kardec que “...
a matéria existe em estados que não conheceis. Ela pode
ser, ..., tão etérea e sutil que não produza nenhuma
impressão nos vossos sentidos: entretando, será sempre
matéria, ...”. Mencionamos isso pois, curiosamente, nosso
organismo é atravessado, num único segundo, por 50 bilhões
de neutrinos gerados pelas fontes radioativas do nosso planeta, mais
100 bilhões saídos de reatores nucleares e por mais de
100 trilhões vindos do sol [3]. Neste momento eu não senti
nenhum neutrino me atravessado, o leitor sentiu? Mas a verdade é
que eles existem e foram confirmados em laboratório, o que confere
com a afirmativa dos espíritos. Porém, não é
sobre essa afirmativa que desejamos falar. Aliás, ela já
é do conhecimento do leitor estudioso e não é preciso
maiores comentários a respeito dos resultados científicos
que estão de acordo com ela. Desejamos sim destacar uma certa
fragilidade das construções teóricas da ciência
frente à realidade das coisas e os cuidados que o pesquisador
espírita deve ter ao relacioná-las com o Espiritismo.
Uma das questões mais fundamentais que a Doutrina Espírita
trouxe é a definição do Fluido Universal.
Um trecho do ítem 3 do capítulo VI de A Gênese esclarece
o tema: “(...) podemos colocar, como princípio absoluto,
que todas as substâncias, conhecidas e desconhecidas, por mais
dessemelhantes que pareçam, seja sob o ponto de vista de sua
constituição íntima, seja sob o aspecto de sua
ação recíproca, não são, de fato,
mais do que modos diversos sob os quais a matéria se apresenta;
senão variedades, nas quais se transformam, sob direção
das forças inumeráveis que a governam. (...)”.
O texto acima foi escrito em 1868. Impossível enumerar as conquistas
da ciência desde o ano da publicação do citado livro
até os dias atuais. No entanto, o que prevalece é que
esse e os outros princípios fundamentais do Espiritismo permanecem
inalterados mesmo diante de tantas revoluções no conhecimento
científico como o surgimento da Física Moderna que abala
qualquer um com suas visões da realidade. Aprendemos
com os espíritos que o Fluido Universal, princípio elementar
material emanado do Criador, possibilita todas as transformações
da matéria em suas diversas manifestações (incluindo-se
aí o neutrino!).
O leitor poderia se perguntar: por quê os fundamentos básicos
do Espiritismo permanecem inalterados e atuais após quase 150
anos enquanto que o Modelo Padrão, comentado anteriormente, que
possui alguns anos de vida, terá que passar por sérias
revisões? Alguém poderá dizer que isso reflete
a sabedoria dos espíritos superiores. Isso está correto,
mas ainda não responde à questão.
Quem elucida o assunto é o professor Silvio Chibeni no artigo
da referência [4]. A característica que faz a diferença
é o fato de que os princípios fundamentais do Espiritismo
se encontram próximos do nível fenomênico, o que
permite que a teoria espírita possa ser classificada como fenomenológica[4].
No caso do Modelo Padrão, o “grau de teoricidade”
é muito maior devido à grande dificuldade em obter informações
através de experiências diretas. Já com o Espiritismo,
vemos que a maioria dos seus princípios fundamentais são
constantemente verificados cotidianamente. Chibeni cita, como exemplo,
a Termodinâmica, que é uma teoria física fenomenológica
desenvolvida no século XIX que passou incólume por todas
as descobertas revolucionárias do século passado.
É preciso, portanto, enfatizar o cuidado que
os estudiosos e pesquisadores espíritas devem ter ao buscarem
nas ciências básicas confirmações para os
princípios
espíritas. O exemplo ocorrido com os neutrinos reflete, como
dissemos, a fragilidade das teorias científicas, mormente, as
da Física Moderna. Existem exemplos de enganos sérios
na literatura espírita como o caso discutido pelo prof. Ademir
Xavier Jr. na referência [5].
Agora, um exemplo que nos chamou a atenção pelo fato de
ser conhecido de todos nós é o que está acontecendo
com o famoso livro “O Tao da Física”[6]. A crítica
a esse livro foi divulgada pelo filósofo Ken Wilber, no livro
“Quantum Questions”[7]. Segundo Wilber, Capra baseou seu
livro sobre os paralelos entre a física de partículas
e o Budismo numa teoria em particular conhecida como a Teoria do Bootstrap.
Essa teoria diz que não existem objetos irredutíveis e
sim relações auto-consistentes entre eles. Porém,
hoje em dia, a maioria dos físicos acredita nos objetos irredutíveis
(quarks, leptons, bosons), e o Modelo Padrão é a teoria
que os descrevem mais aceita na atualidade. Por melhor que tenha sido
a intenção de Fritjof Capra, o conteúdo de “O
Tao da Física” simplesmente não pode ser mais considerado
um “Tao” de acordo com o significado da palavra [8].
Podemos concluir daí que a sabedoria dos espíritos e,
também, a de Allan Kardec foi além do que imaginávamos.
Kardec poderia ter desejado formular propostas teóricas para,
por exemplo, explicar a natureza dos fluidos espirituais ou do perispírito
e, ainda, os mecanismos da interação com a matéria.
Porém, se limitou a discutir a necessidade da sua existência
e importância na relação entre espírito e
matéria. Se Kardec tivesse tentado formular uma teoria dessas,
com base nos conhecimentos da época, provavelmente a Doutrina
Espírita teria caído no esquecimento como tendo sido mais
uma teoria sem comprovação prática que utilizou
princípios teóricos ultrapassados. Porém, ao situar-se
bem próximo aos fenômenos, ele selou o Espiritismo com
a garantia de resistência a qualquer crítica futura. Como
Kardec mesmo disse no ítem VII da Introdução do
Livro dos Espíritos “Na ausência de fatos, a dúvida
é a opinião do homem prudente.”[9]. Por isso, caros
irmãos espíritas, cuidado na formulação
de teorias desta ou daquela natureza!
Concluindo, devemos ter cuidado ao utilizarmos as teorias
modernas das várias ciências na tentativa de validar o
Espiritismo porque enquanto a maioria delas ainda passa por Permanentes
mudanças algumas outras, incluindo-se o Espiritismo, possui um
conjunto de princípios básicos Permanentes, devido ao
fato de estarem mais ligados aos fatos. A conseqüência direta
dessa análise é o fortalecimento de nossa fé (com
base nos raciocínios) nessa Doutrina que nos esclarece e orienta
sobre a nossa verdadeira origem e o nosso verdadeiro destino.
REVISTA INTERNACIONAL DE ESPIRITISMO, ANO LXXVIII,
N. 2, p.93, (2003).
Referências e comentários
[1] Partícula elementar da família
dos chamados leptons que não possui carga elétrica. Sua
existência foi
primeiro prevista por Wolfgang Pauli(1900-1958) em 1930, e foi confirmada,
experimentalmente, nos anos
50. Ver referência (3).
[2] A matéria escura é uma matéria presente no
universo que foi denominada dessa maneira por não emitir
radiação detectável. Sua existência foi inferida
através do efeito gravitacional sobre outros corpos celestes
visíveis. Os estudos indicam que se o neutrino tiver massa, mesmo
que bem pequena, os efeitos
gravitacionais acima mencionados seriam perfeitamente explicados. Veja
referência (3).
[3] Adriano A. Natale e Marcelo M. Guzzo, Ciência Hoje, vol. 25,
n.147, p.32 (1999).
[4] Silvio S. Chibeni, Reformador, junho, p.176 (1994).
[5] Ademir L. Xavier Jr., Reformador, agosto, p.244 (1995).
[6] F. Capra, O Tao da Física, Editora Cultrix LTDA, 15a. Edição,
(1993).
[7] K. Wilber, Quantum Questions, Shambhala Publications, Boston (2001).
[8] “TAO” significa “caminho”.
[9] Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Edições
FEESP, 9a. Edição, (1997).
http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo79.html
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