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O "Corpo Mental" como expressão
clínica da mente
- uma hipótese alternativa para o estudo da mente
RESUMO
O autor apresenta o “corpo mental”
como uma hipótese alternativa para a abordagem da mente. Na atualidade
a mente é vista como um conjunto particular de funções
desempenhadas pelo cérebro. Esse modelo parece não dar
à mente uma noção compatível com o organismo
como um todo.
Usando como método a semiologia neurológica, procuramos
demonstrar a existência de um “corpo mental”
que se revela em diversas situações clínicas como
na histeria, na hipnose, na narcolepsia, no membro fantasma e nas chamadas
experiências fora do corpo.
Essa forma de estudar a mente sob a
perspectiva de um corpo que se identifica semiologicamente, pode abrir
um vasto campo de experimentação, e de interpretação
de fenômenos tanto psicológicos como neurológicos.
Termos de indexação :
Mente, corpo mental, histeria, hipnose, narcolepsia, membro fantasma,
experiências fora do corpo.
* Ex-Professor Titular de Neurocirurgia UNICAMP. Diretor
do Instituto do Cérebro Prof. Dr. Nubor Orlando Facure (Campinas,SP)
Nubor Orlando Facure
E-mail: lfacure@uol.com.br
INTRODUÇÃO
A matemática nos ensina que os elementos de um conjunto não
conseguem explicar a natureza inteira desse conjunto. O conceito do
todo escapa ao que cada uma das partes isoladamente possa representar
(Bertrand Russell 1,2 ). Considerando os neurônios cerebrais como
elementos de um conjunto que se pressupõe conter a mente, poderemos
questionar se será possível uma compreensão completa
do conceito de mente baseado nas funções dos neurônios.
Essa interrogação nos autoriza, pelo menos teoricamente,
colocarmos a mente, como situada, tanto fora quanto dentro do conjunto
dos neurônios cerebrais.
Por outro lado, novas teorias (Ilya
Prigogine in Del Nero 3 ), sugerem que “Sistemas de alta complexidade”
têm capacidade de se auto-organizarem. O sistema nervoso, além
da sua estrutura física, pode ser visto como um biossistema altamente
complexo, dotado de particularidades e propriedades específicas
dos seres vivos. Uma “Teoria da mente” , tida como monista,
materialista e “emergentista”, identifica os “estados
mentais” como sendo um subconjunto distinto dos “estados
cerebrais” que são claramente de natureza física,
e que seriam, por sua vez, um subconjunto de estados do sistema nervoso.
Segundo essa teoria, as atividades dos neurônios nas suas trocas
eletroquímicas produziriam uma nova qualidade de fenômenos
que “emergem” como função mental, semelhante
à ordem que resulta nos Sistemas de alta complexidade.
As diversas Teorias da mente disponíveis
na atualidade não conseguem, entretanto, passar de hipóteses
com boa estruturação teórica, sem que possam dar
conta de toda uma série de fenômenos conhecidos que a atividade
mental expressa. Nenhuma Teoria conseguiu até agora efetuar predições
específicas sobre os fenômenos mentais e muito menos nos
garantiu a possibilidade de testá-la na clínica ou no
laboratório.
OBJETIVO E
METODO
É exatamente pela possibilidade de testar a hipótese tanto
do ponto de vista clínico como laboratorial, que estou sugerindo
o conceito de “corpo mental” em substituição
ao de mente. Apresento diversas situações onde a semiologia
neurológica pode confirmar essa hipótese como compatível
com as expressões clínicas. Nesse trabalho, considero
o corpo mental como um modelo que tem uma identidade clínica,
que pode ser revelada pelos instrumentos de avaliação
que a semiologia neurológica oferece.
MODELOS SEMIOLÓGICOS
Histeria – Pacientes histéricos
que apresentam distúrbios sensitivos ou motores revelam um padrão
semiológico típico, notando-se, antes de mais nada, que
eles não obedecem as distribuições anatômicas
adequadas às diversas vias de inervação do sistema
nervoso.
Por outro lado, nas lesões orgânicas
do cérebro, o mapa das anestesias revela distribuições
muito conhecidas dos neurologistas, que aprenderam a constatar os níveis
de anestesia metaméricos ou haloméricos e as síndromes
chamadas de alternas, caracterizadas pelo comprometimento anestésico
na hemiface de um lado e do tronco e membros no hemicorpo contralateral.
Os estudos
semiológicos mostram que o paciente histérico faz
um padrão de anestesia diferente, comprometendo, às vezes,
todo seu corpo; ele não sabe que a inervação sensitiva
da face percorre o nervo trigêmeo, enquanto as regiões
posteriores do couro cabeludo, na nuca, seguem inervações
muito distantes, situadas ao nível da medula cervical. As anestesias
nos membros do histérico não poupam nenhuma forma de sensibilidade,
havendo comprometimento global das sensibilidades superficiais e profundas.
A organização dessa “anatomia” elaborada pelo
histérico é produto da concepção mental
que ele faz do seu corpo. O histérico se expressa semiologicamente
como se possuindo um “corpo” organizado por sua mente e
não pelo seu cérebro. Essa atitude é conhecida
na história da histeria e, sem dúvida é universal,
como se pode ler num dos tratados clássicos da neurologia, o
“Sémiologie des affections du système nerveux”
de J. Dejerine (1914). Na avaliação semiológica
do histérico podemos identificar como ele expressa seu corpo
mental.
A paralisia
histérica também revela contrastes com a semiologia
das síndromes lesionais orgânicas. A flacidez é
extravagante, a hipertonia costuma ser difusa em toda musculatura, não
respeitando a distribuição entre agonistas e antagonistas
que o sistema gama exige. A perna deste paciente oferecerá resistência
tanto para ser flexionada como para ser estendida. O hemiplégico
ou o paraplégico histérico constrói uma deficiência
dentro de um modelo imaginário obedecendo a uma construção
mental e não a uma perda de vias nervosas.
Hipnose
– indivíduos que assimilam as sugestões que induzem
à hipnose podem produzir tanto paralisias como anestesias. A
experiência médica, vasta nessa área 6 , tem demonstrado
que as paralisias e as anestesias seguem o mesmo padrão dos quadros
histéricos 7,8,9 . Em um e outro quadro, podemos perceber que
o “corpo” construído pelo histérico e pelo
hipnotizado tem origem nos seus “modelos mentais” e não
obedece a sistematização das vias neurais.
As memórias
do hipnotizado – Na experiência comum do transe hipnótico
sabemos que ao despertar, o hipnotizado não retém as lembranças
do que ele ouviu ou desempenhou durante o transe. Uma segunda indução
feita logo a seguir o faz resgatar essas memórias retornando
à cena do primeiro transe, sem se dar conta agora do que ouviu
ou fez no intervalo entre os dois transes. Essa experiência parece
nos revelar dois arquivos distintos de memorização. Eu
diria que um deles se localiza no cérebro físico, quando
ele está desperto, e outro no corpo mental quando ele está
em transe. Essa situação pode ser comparada ao que fazemos
no computador: um arquivo que criamos para determinado texto, não
abre o texto de outro. Para que isso aconteça, é preciso
copiar e colar um no outro para se proceder a essa leitura. No caso
da hipnose, podemos usar a sugestão hipnótica para transferirmos
as memórias de um ambiente para outro, o que se consegue com
certa facilidade.
Narcolepsia
– A narcolepsia é um distúrbio do sono no qual o
paciente entra subitamente em um estado de sonolência que ele
não consegue controlar. Os episódios se repetem com freqüência
incômoda perturbando as atividades diárias do paciente.
A duração dos episódios costuma ser variada podendo
ser de alguns minutos ou horas. Ao despertar, esses pacientes fazem
relatos curiosos. Podem permanecer aparentemente lúcidos durante
a sonolência realizando nesse período atividades complexas.
Sentem sua saída do corpo físico e convivem com cenários
e personagens diversos. Alguns relatam uma experiência atemporal,
podem ser testemunhas de episódios passados ou que venham a se
confirmar no futuro. De qualquer forma, eles parecem ser possuidores
de um corpo com o qual vivenciam suas experiências. Os clássicos
da neurologia rotulam esses quadros de alucinações hipnagógicas.
Aqui estariam também incluídos os chamados sonhos lúcidos
que indivíduos normais relatam. Parece-nos, porém, que
na narcolepsia a experiência é mais “consciente”
e menos simbólica que as vivências oníricas de todos
nós. Não é difícil para estes pacientes
descreverem as características físicas e funcionais desse
corpo mental que lhes permite transitar pelos seus “sonhos”.
Membro fantasma
– amputações quase sempre ocorridas em acidentes
violentos podem produzir no paciente a percepção da continuidade
da existência do seu membro amputado (amputações
em outras partes do corpo como mama, nariz, língua, escroto e
pênis, podem produzir sintomas semelhantes ao membro fantasma)
10 . Melzack 11, 12 acredita na existência, no cérebro,
de uma imagem do corpo inteiro numa matriz neural. Ela seria composta
por uma rede de interconexões neurais, organizada geneticamente
e a partir de estímulos sensoriais, criando um padrão
de identificação do eu que Melzack 10 chama de “neuro-assinatura”.
Mesmo crianças que nascem sem membros podem revelar a existência
dessa matriz corporal 11 . Em que pese as hipóteses neurofisiológicas
que tentam justificar os sintomas do membro fantasma, sua manifestação
clínica pode complementar os exemplos de corpo mental que queremos
estudar. O membro fantasma dá ao paciente toda sensação
de um membro real (sentiment du realité concrète, segundo
Lhermitte) 10 onde ele sente dor, cócegas, movimentos espontâneos
e reações de evitamento como bater em um móvel.
Considerando esse membro como parte do corpo mental veremos que a consciência
do paciente não exerce controle sobre suas funções,
quer motoras ou sensitivas. Podemos dizer que essa falta de controle
é pertinente aos quadros de histeria e hipnose que anotamos.
Uma série de outros fenômenos
clínicos parece sugerir a existência dessa representação
corporificada da mente que estamos analisando. A construção
da imagem corporal e as síndromes de negligência, são
bons exemplos. A literatura leiga e neuropsiquiátrica produziu
de uns tempos para cá uma enormidade de textos referindo-se a
experiências fora do corpo e experiências de quase morte.
Nós neurologistas encontramos com freqüência, entre
as manifestações psíquicas dos epilépticos,
a chamada “noção de uma presença”,
onde uma “entidade” parece acompanhar como testemunha o
desenrolar da crise epiléptica.
COMENTÁRIOS
Não temos dúvida de que o dilema
cérebro/mente é inesgotável, contraditório
e às vezes irreconciliável. Ao propor discutir o tema
em termos de corpo mental, sabemos da dificuldade de se introduzir uma
idéia nova num contexto de tamanha complexidade. Lembramos, porém,
de uma afirmação do evolucionista Stephen Jay Gould 13
que propôs a evolução pontual das espécies.
“Novos fatos, coletados à moda antiga, sob a tutela de
velhas teorias, raramente levam a qualquer revisão substancial
do pensamento. Os fatos não “falam por si só”;
são lidos à luz da teoria. O pensamento criativo, tanto
na ciência quanto nas artes, é o motor para a mudança
de opinião”
A discussão da mente parece se
esgotar entre a Filosofia e a Ciência sem chegar a um fim. O “corpo
mental” parece-me que tem o mérito de especificar
um objeto de estudo mais adequado devido seu comportamento clínico
e experimental.
Esperamos que estudos subseqüentes
possam comprovar a validade da nossa proposta. Ainda precisamos aprofundar
as características semiológicos sobre o corpo mental e
identificarmos suas características anatômicas e funcionais
fundamentais, já que ele pode ser avaliado clinicamente na histeria,
testado experimentalmente na hipnose, reconhecido no membro fantasma,
confirmado na narcolepsia e nas experiências fora do corpo conforme
exemplificamos.
REFERÊNCIAS:
1 – Russel B. História do pensamento
ocidental: a aventura dos pré-socráticos a Wittgenstein.
Rio de Janeiro - Ediouro 2001
2 – Macrone M. Eureka! Um livro sobre idéias
–São Paulo Ed. Rótterdan 1997 pag. 121 e 122.
3 – Del Nero H.S. O sítio da mente: pensamento,
emoção e vontade no cérebro humano. São
Paulo: Collegium Cognitio, 1977 Pag 193.
4 - Tripicchio A, Tripicchio AC. Teorias da mente
- Ribeirão Preto, S.P. Ed Tecmedd 2003 Pag 72 a 77
5 - Dejerine J. Sémiologie dês affections
du Systeme nerveux 12 ed - Masson et Cie Éditeurs Paris 1914
pag 540 a 549 e 927.
6 - Ferreira MV. Hipnose na prática clínica
São Paulo Ed Atheneu 2003
7 - Halligan PW, Athwal, BS Oakley, DA, Franckowiak,
RSJ. Imaging hipnotic paralysis: Implications for conversion hysteria.
The Lancet, 2000; 355:986-987
8 - Halligan PW. New approaches to conversion hysteria.
BMJ 2000; 320: 1488-1489 (3june)
9 - Marshall JC, Halligan PW, Fink GR, Wade DT, Frackwdak,
RSJ. The functional anatomy of a hysterical paralysis. Cognition 1997;
64(1) Pag. B1B8
10 - Jensen TS, Rasmussen P. Amputation. Pag 402-412.
Textbook of pain Ed. Patrick D. Wall, Ronald Melzack (Churchill Livingstone)
Londres 1984
11 - Melzack R, Israel R, Lacroix R, Schultz G. Phantom
limbs in people with congenital limb deficiency or amputation in early
childhood. Brain 1997; 120 (9) 1603-1620
12 - Melzack R. Phantom limbs. Sci Am April 1992;
266: 120-126
13 - Gould S. J. Darwin e os grandes enigmas da vida.
Tradução de Maria Elizabeth Martinez 2 a Ed. São
Paulo - Martins Fontes 1999 Pag. 158
Agradecimento: `A Kátia Gomes Facure Giaretta
pela colaboração e apoio.
Este artigo está publicado na - Revista de Ciências
Médicas de Campinas, 14(1):97-101,jan/fev., 2005

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