Introdução
A questão proposta é sobre a necessidade
ou não de atualizar a linguagem com que é comunicada a
Doutrina Espírita, para facilitar a transmissão de seu
conhecimento e ajudar as pessoas no caminho evolutivo consciente.
A linguagem é a maneira que o ser humano encontra para se comunicar.
Essa análise visa abordar o uso da palavra articulada ou escrita
como meio de expressão e de comunicação entre pessoas,
embora haja outras linguagens como a música, os diversos tipos
de arte, a dança.
Cada pessoa percebe o mundo a sua maneira, condicionada pelos seus valores
internos, sentimentos, motivações, interesses, necessidades
e paradigmas. Assim, nossa visão do mundo precisa ser constantemente
ajustada a partir da percepção dos outros, em nosso relacionamento
interpessoal que é o melhor instrumento para uma compreensão
cada vez melhor da vida.
A linguagem é um sistema de signos que serve
de meio de comunicação entre indivíduos e pode
ser percebida pelos diversos órgãos dos sentidos simultaneamente,
caracterizando-se por um sistema complexo. Seu estudo também
é muito complexo, pois abrange áreas como: Teoria
da Informação (estudo da estruturação
da mensagem - código), Teoria da Comunicação
(estudo do relacionamento mensagem-fonte-receptor), Semiótica
ou Semiologia (ciência geral do signo), Filologia
(estudo da língua em toda a sua amplitude, e dos documentos escritos
que servem para documentá-la), Lógica
(conjunto de regras e princípios que orientam, implícita
ou explicitamente, o desenvolvimento de uma argumentação
ou de um raciocínio), Psicologia (ciência
dos fenômenos psíquicos e do comportamento), Retórica
(estudo do uso persuasivo da linguagem), Fonética
(estudo dos sons da fala), entre outros campos do saber humano.
A manifestação da linguagem tem como finalidade principal
ocasionar alguma transformação em uma ou mais pessoas
e essa transformação levar a uma ação interna
e/ou externa. Essa mudança pode ocorrer ao transmitir melhor
compreensão acerca de algo já conhecido, ao comunicar
nova informação ou conhecimento, mas também, quando
se exercita o poder e se estimula alguém a sentir alguma emoção.
Na maioria das vezes a linguagem assume todos esses papéis ao
mesmo tempo.
A chave para conseguir esse objetivo de levar o indivíduo a agir,
é garantir o máximo de entendimento sobre a mensagem que
se está transmitindo. Sempre se perde algo no processo de transmissão
e assimilação. E, dependendo do quanto se perde, esse
objetivo se torna inatingível.
Outro aspecto importante é a capacidade da mensagem conter originalidade.
Quanto mais previsível a mensagem, menor o seu grau de informação
e menor o impacto no receptor. Por outro lado, quanto maior a carga
de originalidade, maior o grau de informação e maior o
impacto no receptor. A geração de dúvida ou certeza
também influencia no impacto junto ao receptor, considerando
de uma forma genérica.
Toda mensagem é formada por elementos da percepção
organizados segundo as motivações, interesses, necessidades
e intenções que se interagem em um contexto sócio
cultural.
Uma mensagem elaborada em outra época ou outra região
foi estruturada com aspectos sócio culturais diferentes que dificultam
o entendimento da mensagem e prejudicam sua finalidade principal. A
necessidade de tradução encerra outras dificuldades relativas
à manutenção do significado que o autor quis dar
ao substituir os signos da mensagem, por outros da outra língua.
É o desafio de alterar a forma, mas não alterar o conteúdo.
Palavra escrita
No Espiritismo, a palavra escrita exerce grande influência
como meio disseminador de conhecimento e cultura própria. Tudo
está centrado nas obras da Codificação e nas chamadas
obras subsidiárias, as matérias da mídia espírita,
as atividades, palestras, cursos e reuniões nos Centros Espíritas.
É notória a dificuldade da maioria dos brasileiros de
lerem e entenderem esses livros. Uma explicação é
a conseqüência da falta de hábito de ler para entender
e não, ler para entreter. Mas somente essa explicação
é insuficiente para assumir toda a responsabilidade. Inegavelmente,
há outros motivos que dividem esse ônus. No caso das obras
de Kardec e das obras subsidiárias, exercem grande influência,
o vocabulário empregado, a forma gramatical, a fonética
e o estilo do texto. Todos eles estruturados segundo um contexto distante
do leitor atual. Veja exemplo de vocábulos que não mais
fazem parte do vocabulário atual encontrado nos livros Nosso
Lar (1944) e O Livro dos Espíritos (1857):
Vocábulos Explicação
Genitora - Mãe
Destra - Mão direita
Olvidar - Esquecer
conjurar - Convocar para conspiração
Aduzir - Trazer, apresentar
Anuir - Aceitar
Lograr - Conseguir
Empedernido - Endurecido
Alanceado - Torturado moralmente
Prorromper - Manifestar-se de repente
Porfiar - Discutir
Hirto - Duro
Increpar - Repreender
Sicário - Assassino
Fica clara então, a necessidade de atualizar, de transpor o conteúdo
da mensagem para a forma contemporânea. Mas isso esbarra na imensa
dificuldade de atualizar não só o conteúdo, mas
seu contexto. Tudo o que pensamos baseia-se em referências que
fazem parte do contexto. As referências do autor não são
as mesmas dos leitores e isso pode levar a entendimento equivocado que
é pior do que não conseguir entendimento. A solução
encontrada é ajustar a gramática e o estilo (incluindo
o vocabulário), e inserir quantas notas, diagramas e explicações
forem necessárias para melhor transportar, não o contexto
ao leitor, mas o leitor ao contexto do autor. Essa é a recomendação
para as obras espíritas.
Tradução da Codificação
Com relação a tradução da Codificação,
o ideal seria realizar nova tradução não por um
tradutor, mas por uma equipe de tradutores, para evitar tendências
e maximizar o entendimento por meio das notas já explicadas.
Veja no quadro a seguir, as diferentes maneiras que os tradutores encontraram
para comunicar o mesmo conteúdo.
Pergunta da segunda edição de O Livro dos Espíritos
em francês
155.Comment s'opère la séparation de l'âme et du
corps?
«Les liens qui la retenaient étant rompus, elle se dégage.»
-La séparation s'opère-t-elle instantanément et
par une brusque transition? Y a-t-il une ligne de démarcation
nettement tranchée entre la vie et la mort?
«Non, l'âme se dégage graduellement et ne s'échappe
pas comme un oiseau captif rendu subitement à la liberté.
Ces deux états se touchent et se confondent; ainsi l'Esprit se
dégage peu à peu de ses liens: ils se dénouent
et ne se brisent pas.»
Comparação entre as traduções
Guillon Ribeiro
155-a. A separação se dá instantaneamente por brusca
transição? Haverá alguma linha de demarcação
nítida traçada entre a vida e a morte?
Não; a alma se desprende gradualmente, não se escapa como
um pássaro cativo a que se restitua subitamente a liberdade.
Aqueles dois estados se tocam e se confundem, de sorte que o Espírito
se solta pouco a pouco dos laços que o prendiam. Estes laços
se desatam, não se quebram.
Salvador Gentile
155. A separação se opera instantâneamente e por
uma transição brusca? Há uma linha de demarcação
bem nítida entre a vida e a morte?
Não. A alma se liberta gradualmente e não se escapa como
um pássaro cativo que ganha subitamente a liberdade. Estes dois
estados se tocam e se confundem. Assim o Espírito se liberta
pouco a pouco de seus laços: os laços se desatam; não
se quebram.
J. Herculano Pires
155-a. A separação se verifica instantaneamente, numa
transição brusca? Há uma linha divisória
bem marcada entre a vida e a morte?
Não; a alma se desprende gradualmente e não escapa como
um pássaro cativo que fosse libertado. Os dois estados se tocam
e se confundem, de maneira que o Espírito se desprende pouco
a pouco dos seus liames; estes se soltam e não se rompem.
Júlio Abreu Filho
155. A separação é instantânea e por uma
transição brusca? Há uma linha de demarcação
nítida entre a vida e a morte?
Não. A alma desprende-se gradualmente e não se escapa
como um pássaro cativo libertado subitamente. Estes dois estados
se tocam e se confundem. Assim o Espírito pouco a pouco se desprende
de seus laços. Estes se desatam; não se quebram.
As diferenças de vocábulos empregados e de pontuação,
podem levar o leitor a uma compreensão parcial ou errada do texto.
O ideal seria realizar uma tradução com o objetivo de
ser fiel ao pensamento de Kardec, adicionando a quantidade que for necessária
de notas esclarecedoras, sempre que surgir alguma dúvida ou dificuldade
de tradução. Esse trabalho deveria ser feito por um grupo
de tradutores, sem líder, para evitar a manifestação
de tendências pessoais.
Tradução para o Inglês por Anna Blackwell
A tradução para o inglês, mostra
um estilo próximo da mídia atual, capaz de ser entendido
pela heterogeneidade dos leitores.
-- Is this separation effected instantaneously, and by means of an abrupt
transition? Is there any distinctly marked line of demarcation between
life and death?
"No; the soul disengages itself gradually. It does not escape at
once from the body, like a bird whose cage is suddenly opened. The two
states touch and run into each other; and the spirit extricates himself,
little by little, from his fleshly bonds, which are loosed, but not
broken."
A necessidade de atualizar e por meio de notas explicar, fica mais evidente
em relação a termos científicos, que sofreram grande
transformação.
Palavra articulada
A linguagem assume outra importância monumental,
se considerarmos que ela influencia a forma de pensar. Quanto melhor
estruturada e clara, melhor vamos pensar e concluir para atendermos
as infinitas decisões que temos de tomar para nossa evolução.
A linguagem espírita deveria ser essencialmente lógica,
racional, argumentativa envolvendo a dose certa de emoção
no momento certo e mostrando sempre o caminho, a solução,
caracterizada pelo otimismo, pela compreensão e esperança.
No local onde a palavra articulada é soberana – os Centros
Espíritas, quase sempre encontramos o discurso superficial, com
excesso de adjetivação, não estruturado, divagante,
muitas vezes em tom de repreensão, excessivamente focado na religião,
utilizando-se inadequadamente de falácias (erros de raciocínio)
como recurso de persuasão.
As falácias mais comuns são: a circunstancial que foge
a tentativa de provar seu raciocínio, alegando que é uma
verdade já aceita por Jesus, Kardec ou espíritos superiores;
a falácia do argumento pela ignorância que tenta provar
alguma coisa simplesmente por que ninguém provou o contrário;
a falácia do apelo à autoridade errada, no qual se recorre
a um pensamento de uma pessoa famosa para provar algo fora de sua especialidade;
a falácia de acidente que se generaliza a partir de um caso ou
situação cujas circunstancias impedem a aplicação
de uma proposição geral; a falácia de exigir resposta
simples a questões complexas; a falácia da conclusão
irrelevante quando o argumento é válido, mas não
aplicado ao assunto, e várias outras falácias que contribuem
para transformar o discurso espírita em algo frágil e
inconsistente.
Conclusão
O Espiritismo não enfrenta maiores problemas
advindos dessa situação, em razão da tendência
geral da população, independente de suas crenças,
de acreditar, ter interesse ou simpatizar com várias idéias
espíritas.
O público espírita é em sua maioria, pessoas que
querem acreditar em algo que lhes dêem consolo e esperança
e não desejam questionar, pois o questionamento levaria ao desconforto
da falta de solução para seus problemas. Isso faz com
que os comunicadores não tenham experiência argumentativa
e acabam se acostumando com essa situação.
A solução está no esforço das pessoas e
instituições espíritas voltadas a disseminação
do conhecimento espírita. Federativas, associações
especializadas, mídia, e associações de divulgadores.
O assunto refere-se à evolução. A busca natural
de melhoria em todas as coisas. Edições de livros devem
ser melhoradas, cursos de Espiritismo precisam ser ajustados, cursos
de oratória necessitam de maior atenção, e, principalmente,
a linguagem geral do Espiritismo precisa ser melhorada para facilitar
seu correto entendimento e garantir as transformações
sociais de que ele é capaz.
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