E se os espíritas, chamados "científicos ou kardecistas",
estiverem com a razão? Eles advogam que são inúmeras
as evidências científicas sugestivas de imortalidade e
reencarnação e que devemos estudá-las para não
sermos considerados indigentes culturais, diante dos alunos de graduação
da universidade de Colúmbia ou da Geórgia.
Docente-Pesquisador na Faculdade de Medicina, você também
é responsável pelos valores ético-morais deles!
Quase no final da aula teórica, já terminando a estatística
da Sífilis congênita, você abre para perguntas. Terminar
a aula um pouco mais cedo não fará nenhuma diferença
e ganhará a pesquisa experimental, que já reclama a sua
insubstituível presença física, no laboratório.
Como nenhum aluno faz uso imediato da palavra, e iniciam a debandada,
você desconfia do seu desempenho didático.
Olha o relógio e verifica que há tempo disponível.
Como é pesquisador sente-se seguro e faz incentivação:
- “ podem perguntar qualquer coisa relacionada ao Treponema”.
Lá do fundo da sala, como que querendo testá-lo, aquele
aluno “problema” faz a pergunta sobre a anencefalia e o
aborto. Contra ou a favor? A turma incentivada retoma os lugares e você,
que fora requisitado como educador recebe outra questão. Uma
aluna interessada na saúde da mulher dá a sua contribuição:
Professor, e a gravidez após o estupro? O Senhor é contra
ou a favor do aborto?
De forma sistemática ou não, verbal ou não, consciente
ou inconsciente, intencional ou não, todos
somos responsáveis, quando transmitimos valores, atitudes, tabus,
preconceitos e esteriótipos.
Nessa hora você se lembra daquele antigo e paciente professor
que se recusava, ao sair de sala, a discutir “o melhor ataque
da seleção brasileira”. Lembra quando dizia que
“o médico interfere no campo do sujeito, no seu corpo e,
por vias indiretas não apenas contingentes, em sua vida pessoal,
suas emoções, sua socialidade, suas economias. Por isso
é a medicina uma profissão moral.”
Na hora de responder aos alunos você percebe que fez a dissociação
entre ensino e pesquisa,
que não deveria ser uma questão legal, mas visão
de mundo.
Algumas questões parecem deixar o pesquisador desnorteado. E,
você pensa. Uma pessoa-em-potencial ainda não é
uma pessoa para a ética? E se fosse nossa filha? Talvez seja
a próxima pergunta daquela aluna chatinha da gineco! Será
que ela vai voltar a perguntar se devemos alongar uma gravidez evidentemente
inconseqüente como nos fetos anencefálicos?
Uma sensação, de que o diploma e os trabalhos científicos
publicados no exterior não formam o docente, começa a
incomodar. Aquele outro aluno, religioso e tímido, que senta
na turma do gargarejo, e que também foi fisgado pela incentivação
, encontra coragem e pergunta: Professor, o Mestre acha que devemos
distinguir os campos da ética e da religião?
Querendo ganhar tempo, você pergunta se há mais alguma
pergunta. E ela surge fatalmente, do outro lado, fazendo a turma virar
para a esquerda. Professor, você (alguns alunos não usam
mais o “Sr”) não acha que a religião é
sempre a expressão das convicções da fé
de um grupo humano restrito e que a ética é muito mais
abrangente?
Você começa a sentir vontade de fugir! No entanto, lembra
da frase acima:
“De forma sistemática
ou não, verbal ou não, consciente ou inconsciente, todos
somos responsáveis, quando ...”
Relembrando que também somos biocomputadores você procura
nos arquivos suas primeiras noções de religião
e percebe que delas não se lembra. São arquivos apagados
ou colocados no diretório “Lixo”. Numa última
tentativa, desesperada, você vai ao diretório e constata
que, ao contrário dos alunos da Universidade de Columbia, no
seu curso não havia a disciplina de Religiões
Comparadas. Como entender aquela recusa
dos religiosos que pareciam suspeitar do problema das transfusões
e a Aids? Como fazer para respeitar
o universo cultural de um país católico, mas que acredita
em reencarnação?
Quando o aluno tímido fala nos antigos gnósticos - Clemente
de Alexandria, Orígenes, São Jerônimo e outros -
você desconfia dos seus créditos de mestrado e doutorado.
Sentindo-se evidentemente mal você encontra um arquivo da época
de diretório acadêmico, quando o “santo” era
outro! Mas nem aí você escapa!
Um aluno protestante lembra “ser muito revelador que Marx, para
destruir os hegelianos de esquerda, que também acreditavam que
as palavras entram na argamassa com que a sociedade é construída,
o tivesse feito justamente com o auxílio de palavras: a Ideologia
Alemã.” Como bom protestante ele faz você lembrar
que, na Bíblia , “No Princípio era a Palavra...”
Você parece não entender muito bem a colocação
do aluno, que é filho de uma professora de didática.
De repente , você descobre que o educador trabalha com a palavra
e o microbiologista com o micróbio.
E, justamente nesta hora é que elas, as palavras, parecem atropelar-se
respondendo ao aluno que insiste.
Professor, a ética avalia os comportamentos do ser humano enquanto
ser humano, independente de qualquer convicção religiosa
ou política?
Muitas vezes os alunos não perguntam porque já avaliaram
a condição do docente-pesquisador!
Permite outra questão mestre! E continua, sedento, querendo beber
na fonte dos conhecimentos de quem já possui alguns cabelos brancos.
Você recorda que na sua época não se podia confiar
em ninguém com mais de trinta anos. Mas, só agora começa
a entender . Sente-se envelhecer sem amadurecer.
Mestre! A essa altura, mesmo após o doutorado você já
não se sente diminuído, quando o chamam apenas de mestre.
Mestre, você não acha que o estupro é uma grande
injustiça por ser uma violação física e
moral da dignidade da pessoa?
Você é obrigado a parar para refletir na pergunta do aluno
e parece confundir, como sinônimos, a ética e a moral.
Como o dicionário está distante você começa
a pensar que o ar condicionado está desligado. A questão
é reforçada por outro aluno que opinando que “a
injúria agrava-se quando é seguida de gravidez imposta
à força.”
O seu desespero parece avaliar que o binômio ensino-pesquisa está
desequilibrado, tendendo para um lado. Você conclui que a culpa
não é sua porque sempre desejou fazer apenas pesquisa,
mas no Brasil ela é principalmente feita nas universidades do
governo. O remédio foi dar algumas aulas sem grande esforço,
afinal, no ensino “moderno” o aluno tem que se virar!
Por um descuido, ou ato falho, na tela do computador surge a inesquecível
figura de Ítalo Suassuna,
de quem a Microbiologia brasileira vai sempre se lembrar!
-“Muitos poderão aprender a metrificar ou fazer versos,
mas poucos produzirão poesia; muitos estudarão ciências,
mas poucos contribuirão para o conhecimento científico.”
“Como a informação é a tarefa inicial para
treinar e disciplinar a mente, um desenvolvimento desarmônico
com o exagero dessa etapa, tende a produzir o erudito, de quem já
se disse; homens capazes de repetir o que já se sabe, todavia
incapazes de criar. No campo científico, estes promovem ou criticam
resultados, mas ignoram por completo, ou pior ainda, estimulam de modo
negativo a lógica ou a logística de sua aquisição.”
“Outros, encantam-se com a técnica e a execução
e tornam-se mecanólatras ou ritualistas, reproduzindo esterilmente
os mesmos processos ou métodos que outros produziram ou descreveram.”
“Em relação a tais enganos, enquanto os primeiros
repetem e repetem, os segundos confirmam e confirmam. Ambos deseducam
ou desorientam para a atividade criadora. São figuras perniciosas
e enganadoras em países como o nosso.”
Nesse momento você se lembra de Zeferino
Vaz e faz um passeio mental pelo laboratório.
Está uma graça, todo reformado! Mas, o Zeferino continua
a incomodar lecionando como fundou a Universidade de São Paulo.
Primeiro precisamos de cérebros, depois de cérebros e
depois ainda de cérebros. Em seguida vem a biblioteca , só
depois então os equipamentos.
Estaria certo o Zeferino?
Estaria certo o Suassuna?
Recordo-me que em “Educação para a Pesquisa”,
em 1970-71, o nosso Microbiologista asseverava :
“Que a nossa ciência cultive essa atitude, responda ao que
em torno de nós desafia a nossa capacidade, evite a moda ocasional
ditada por interesses de outros povos, e realize assim uma contribuição
brasileira, que possa ser somada e não confundida, destacada
e não ignorada, no edifício da Ciência que é
comum a todos os povos.”
Aos jovens estudantes gostaria de lembrar que falo sem interesses subalternos.
Que homenageio professores que já não detêm o poder
e mesmo que o tivessem já não me adiantariam muito, sou
professor aposentado. Hoje dependo de outro professor - o Fernando!
Perdoem-me a digressão. Vamos voltar à sala de aula.
Você pensa numa saída estratégica, lembra do “Você
Decide” e resolve fazê-los votar no contra ou a favor do
aborto, só para ter uma idéia da opinião da turma.
É importante ganhar tempo, adiar uma discussão para a
qual, com todos os trabalhos publicados, não se sente competente.
No fundo ficam algumas interrogações!
Problemas éticos podem ser resolvidos pela estatística,
como a questão da adesividade de bactérias às células
do hospedeiro? Ou, será a ética de ordem qualitativa?
A base da legislação para todos os cidadãos é
a ética? Estado é apenas o centro legislador para todos
os cidadãos? O aborto situa-se no campo ético que é
competência do Estado?
Se uma pessoa-em-potencial (feto) ainda não é uma pessoa
podemos desta forma recomendar o aborto? uma pessoa-sem-potencial (paciente
terminal) não é mais uma pessoa, então podemos
pensar em eutanásia ?
E se os espíritas, chamados “científicos ou kardecistas
“, estiverem com a razão? Eles advogam que são inúmeras
as evidências científicas sugestivas de imortalidade e
reencarnação e que devemos estudá-las para não
sermos considerados indigentes culturais, diante dos alunos de graduação
da universidade de Colúmbia ou da Georgia.
Microbiologista não trabalha
apenas com o micróbio. Há sempre um paciente, um aluno,
enfim uma pessoa por traz deste exame ou aula.
A responsabilidade do docente pesquisador não está apenas
na pesquisa e de ponta. O binômio é indissociável.
Você conseguiu gastar o tempo e a sala deve ser deixada para que
o outro professor entre.
Surge uma dúvida cruel. E se eles continuarem a me acompanhar
pelos corredores?
Alguns usam a estratégia de esconder-se no banheiro ou correm
para o experimento inadiável.
A síndrome de aversão ao aluno tem cura, mas é
como na Hanseníase, sempre fica o leproestígma.
Outra saída é o autocratismo. Aqui a parábola do
bom pastor é tomada ao pé da letra. O pesquisador-professor
guia ovelhas inconscientes. Devem obedecer o traçado do caminho
e comer a pastagem escolhida. Mas, os alunos e colegas desconfiam deste
pastor.
Um bom Pastor é ético. As ovelhas adultas são inteligentes
e responsáveis por suas decisões e atos, sempre dispostas
ao diálogo com “Seu Pastor” para juntos descobrirem
os melhores caminhos.
(Texto elaborado para discussão
com alunos do Curso de Pós-graduação em Microbiologia
da Faculdade de Ciências Médica da UERJ, em maio de 1998.
Publicado no Boletim - Sociedade Brasileira de Microbiologia - Notícias,
21: 3-4, julho, 1998.)
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