Em comemoração aos 12 anos do GEAE
Aula 18 : Conclusões
Finais
(Curso
iniciado no Boletim 483)
É com bastante satisfação
que chegamos ao final das aulas sobre Ciência & Espiritismo
em coincidência com o 13º Aniversário do Boletim
do GEAE. O leitor pode verificar que iniciamos essas aulas
justamente no Boletim de Aniversário de 12 anos, encerrando,
então, um ano de estudos.
Estamos concluindo o conjunto de aulas sobre Ciência
e Espiritismo mas jamais consideraremos o assunto como estando encerrado.
A Ciência tem uma característica muito positiva que é
o caráter progressivo. Ela evolui com o progresso dos Homens
e isso, naturalmente, se extende ao conteúdo que intentamos introduzir
com essas aulas. Vamos brevemente rever o que estudamos ao longo desse
ano.
Essas aulas sobre Ciência e Espiritismo
tiveram dois objetivos fundamentais: 1)
introduzir os leitores às formas, objetos, métodos e rigores
do trabalho de pesquisa nos meios acadêmicos; e 2)
exemplificar como utilizar isso no desenvolvimento dos estudos e atividades
de pesquisa espíritas. Não tivemos a intenção
de supervalorizar o aspecto científico do Espiritismo em detrimento
dos outros. É preciso lembrar (e repetir) que o Movimento Espírita
não é um movimento puramente científico ou acadêmico
onde devemos apenas trabalhar de acordo com os métodos científicos
ou de acordo com os procedimentos acadêmicos. Em seu Editorial
do Boletim número 491, Carlos Iglesia expõe
de modo muito lúcido que “O Espiritismo é muito
mais que uma ciência, pois almeja além do saber, a interiorização
do saber. É mais que uma filosofia, pois além de questionar
a vida, almeja transformar para melhor a própria vida, é
mais que uma religião, pois além de estabelecer uma ligação
do ser com o criador, almeja elevar o ser até o criador.”
Às vezes, ocorre que companheiros muito bem intencionados,
motivados pelo estudo e progresso da Ciência e dos meios de comunicação
(como a internet), se entusiasmam após a primeira leitura de
trabalhos espíritas de valor científico e desejam contribuir
com a divulgação do Espiritismo aproveitando essas ferramentas
de progresso.
No entanto, precisamos ter a consciência de que
cada ferramenta tem funções e características bem
definidas e o equilíbrio (mental e emocional) é necessário
para não deixarmos o nosso entusiasmo extrapolar as mesmas para
situações onde, a rigor, elas não se aplicam. A
Ciência deve, portanto, ser vista como uma valiosa ferramenta
de progresso e como tal precisa ser conhecida e estudada por aqueles
que se interessam por ela. Estes deverão treinar o uso correto
da mesma para que a empreguem com sabedoria. Devemos estar vigilantes
e atentos aos convites ao menor esforço que, neste campo em particular,
sugerem que a Ciência está prejudicada, enferrujada, totalmente
incapaz de ajudar o Homem em seu caminho evolutivo. Muitas vezes nos
esquecemos que é a criatura que externa seus conflitos no uso
inadequado das ferramentas que a bondade divina lhe emprestou para progredir.
Qualquer expressão de materialismo por parte dos cientistas reflete
pura e simplesmente o sentimento deles como espíritos em trânsito
para o progresso espiritual. Assim, lembrando das palavras de Jesus
“Dai a César o que é de César e a Deus
o que é de Deus” (Mt 22,21), busquemos desenvolver
maior responsabilidade em nossos propósitos de contribuir com
o progresso dos conhecimentos espíritas usando a ferramenta da
Ciência.
Esses comentários objetivam a nossa concientização
de que o Movimento Espírita possui muitas atividades diferentes
e que TODAS ELAS são de grande valor dentro
do objetivo maior de divulgação da Doutrina Espírita.
Todos os aspectos doutrinários (filosófico, científico
e religioso) são de enorme valia no progresso das pessoas e,
convenhamos, se algum deles não fosse útil, os Espíritos
Superiores teriam orientado Kardec nesse ponto. As pessoas são
muito diferentes, com experiências e bagagens espirituais diferentes.
Umas se sensibilizam mais com o aspecto religioso e por isso esse aspecto
as iniciará no Movimento Espírita. Outros se afinizam
pelo aspecto filosófico ou científico e naturalmente se
interessarão por esses aspectos dentro do Espiritismo. Nosso
cuidado deve ser em não transmitir valores em desacordo com a
mensagem espírita-cristã em nome de atrair, satisfazer
e manter as pessoas que se interessam por esse ou aquele aspecto doutrinário.
Sabemos, por exemplo, que não se deve adotar imagens de santos,
ornamentos, estátuas e outros objetos com intento de ressaltar
o aspecto religioso do Espiritismo. Mas sabemos da enorme importância
da existência das reuniões de estudo do Evangelho Segundo
o Espiritismo que mostra que os ensinamentos da Doutrina Espírita
revivem justamente os ensinamentos cristãos.
Da mesma forma, com relação ao aspecto
científico, nossa atitude deve ser totalmente consistente tanto
com o que conhecemos por Ciência quanto com a mensagem espírita.
Kardec, no período em que trabalhou na codificação,
demonstrou enorme senso científico, muito além do seu
tempo. Ele buscou aliar seus conhecimentos e experiências como
educador e cientista à descoberta do fenômeno espírita,
jamais propondo idéias que ele não pudesse demonstrar
através dos fatos e agregar, dessa forma, o devido valor.
Nossa intenção foi trazer ao leitor amigo
e interessado as idéias de rigor e trabalho que ocorrem nos meios
acadêmicos da atualidade de modo a mostrar a necessidade e a importância
do esforço no estudo para a aquisição
do conhecimento sólido que serve de base para o progresso. Talvez
a palavra esforço cause estranheza mas basta lembrarmos, por
exemplo, das obras de André Luiz. A palavra esforço
é usada muitíssimas vezes para refletir a necessidade
de vigilância de cada individualidade na aquisição
dos valores morais que o levarão aos grandes vôos da imortalidade.
Diversas narrativas de André Luiz existem sobre as palestras
ministradas por Espíritos já bastante elevados. Segundo
André Luiz, em tais eventos a oportunidade da pergunta não
é dada a todos os que assistem a palestra. Geralmente, somente
aqueles que tem maior experiência no assunto da palestra possuem
o direito de interpelar os bondosos instrutores da vida maior. Isso
sugere a nós outros que a desencarnação não
é nem porta de acesso à felicidade absoluta nem torna
os Espíritos conhecedores de tudo. As palavras de Jesus “a
cada um segundo a suas obras” (Mt 16,27) são batante
claras: ninguém almejará colher um grão sequer
sem o esforço da plantação. Da mesma forma, o aspecto
científico do Espiritismo exige o esforço
paciente e constante de todos nós que nos afinizamos com ele.
Todos sonhamos com o dia em que a sociedade reconhecerá o Espiritismo
e alguns companheiros valorosos, como Hermínio de Miranda,
expõem a opinião de que “Temos que reconhecer
- não sem certa dose de humildade cristã - que não
basta nossa crença inabalável nos fenômenos demonstrados,
para torná-los aceitáveis aos outros. É preciso,
para vencer a resistência da idéia preconcebida ou da mera
preguiça humana de pensar, não apenas a nossa convicção
de mais de um século, mas o pronunciamento oficial da Ciência,
que, para muitos de nossos irmãos, será a palavra final
sobre o assunto” [1]. E podemos ter certeza de que não
adianta apenas fazer afirmativas de que “a Ciência está
comprovando o Espiritismo” que vamos satisfazer aos critérios
que a crítica apresenta.
Não podíamos nos esquecer ainda de citar
o Codificador sobre esta questão do esforço e da paciência.
No ítem XIII da Introdução de O Livro dos
Espíritos, Kardec diz:
“Anos são precisos
para forma-se um médico medíocre e três
quartas partes da vida para chegar-se a ser um sábio.
Como pretender-se em algumas horas adquirir a Ciência
do Infinito? Ninguém, pois, se iluda: o estudo do Espiritismo
é imenso; interessa a todas as questões da metafísica
e da ordem social; é um mundo que se abre diante de nós.
Será de admirar que o efetuá-lo demande tempo,
muito tempo mesmo?” (Grifos
nossos).
Iniciamos as aulas falando sobre as características
que determinam se um capo de estudo pode ou não ser chamado de
científico à luz da Filosofia da Ciência.
Graças ao esforço do Prof. Silvio S. Chibeni,
podemos dizer com toda a certeza que o Espiritismo possui todos os ingredientes
de qualquer disciplina científica. Em seguida, iniciamos a falar
da Ciência Espírita, propriamente dita, onde os assuntos
a serem pesquisados não envolvem nenhum conceito ou fenômeno
de outra ciência. Falamos sobre a divulgação dos
trabalhos científicos, a forma pela qual os artigos são
feitos e avaliados e sua importância no processo de desenvolvimento
da disciplina em questão. Falamos sobre os assuntos de interesse
espírita que envolvem outras disciplinas científicas como
a Medicina, a Matemática e a Física. Neste último
caso, nos detivemos em analisar algumas afirmativas trazendo um exemplo
de crítica que normalmente ocorre na atividade cotidiana do cientista
profissional. Vimos que a Medicina é uma das Ciências que
mais abrem espaço para introdução dos conceitos
espíritas e evangélicos. Vimos, também, através
de alguns exemplos de nossa autoria, que algumas áreas mais abstratas
como a Matemática podem contribuir com resultados de interesse
ao espiritualista em geral. Discutimos a diferença de valores
científicos entre os diversos tipos de livros, os diversos tipos
de artigos e a diferença entre livros e artigos. Expusemos nosso
ponto de vista sobre a relação entre a Universidade e
o Espiritismo bem como analisamos a idéia de uma universidade
espírita. Introduzimos o leitor à idéia de projeto
de pesquisa apresentando um exemplo espírita para futuras consultas.
Falamos da importância não só do estudo em qualquer
trabalho de pesquisa, mas também da orientação
nesse processo, especialmente no caso de iniciantes. Encerramos as aulas
falando do local de trabalho do pesquisador espírita figurando
o laboratório de pesquisa de acordo com o gênero
de pesquisa a ser realizada.
Entretanto, teríamos ainda muito a dizer bem
com ainda muito a ouvir de outros irmãos espíritas que
trabalham em outras áreas da ciência, e mesmo dos espíritas
que nada conhecem do meio acadêmico. Porém, podemos dizer
que a intenção de fomentar o diálogo aberto, franco
e fraterno sobre o assunto, foi atingido de forma satisfatória.
Uma idéia está subjacente ao nosso interesse
com essas aulas sobre Ciência & Espiritismo e que merece vir
à tona. Não há necessidade de que uma pessoa
se torne cientista profissional para contribuir cientificamente com
o progresso do conhecimento espírita. Basta que aprendamos
com as pessoas que militam no meio acadêmico os ingredientes mínimos
para a realização de um bom trabalho de pesquisa. Podemos
dizer que ao contrário do que se possa imaginar, isso não
requer de nós mais do que já temos. Basicamente, isso
requer um pouco do nosso esforço, de nossa capacidade de estudar,
de nosso tempo disponível. E, acima de tudo, isso requer de nós
a paciência de seguir um passo após o outro, e a humildade
para recebermos, analisarmos e aceitarmos as críticas ao nosso
trabalho. Na medida em que as pessoas aprenderem como se realiza um
trabalho sério de pesquisa, mais e mais os Espíritos superiores
encontrarão terreno fértil para sugerir idéias
que ajudarão o progresso do entendimento espírita.
As instituições, federações
e órgãos de unificação espíritas
devem, tanto quanto possível, apoiar a iniciativa em atividades
de pesquisa. Especial atenção deve ser dada aos jovens
e iniciantes na atividade de pesquisa espírita. Em nossa opinião,
o Movimento Espírita já está maduro para a realização
de trabalhos de pesquisa cada vez mais sérios e tão organizados
quanto os de outros setores da sociedade ou de outras disciplinas acadêmicas.
Eu gostaria finalizar manifestando meu agradecimento
especial aos membros do Conselho Editorial do GEAE pela idéia,
oportunidade e apoio ao longo deste um ano de estudos. Agradecemos também
aos bons Espíritos por toda ajuda invisível e pelas idéias
inspiradas ao longo deste trabalho. Por fim, pedimos a Deus que nos
fortaleça e ilumine em nossos propósitos de evolução
em todos os aspectos. Que nos unamos cada vez mais para a realização
de estudos e trabalhos que divulguem a Doutrina Espírita e nos
elevem um pouco mais para junto do Criador.
Referências
[1] H. C. Miranda, Sobrevivência e Comunicabilidade
dos Espíritos, Editora FEB, 3ª Edição (1975).
http://www.geae.inf.br/pt/boletins/geae500.html#Curso
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