CONTROVÉRSIAS, CONTRADIÇÕES
E POLÊMICAS: UM PARALELO ENTRE A CIÊNCIA E O ESPIRITISMO
Estamos vivendo um momento especial do progresso
intelectual da Humanidade. Nos últimos dois séculos, a
Ciência se desenvolveu bastante proporcionando mais saúde
e bem estar para as pessoas. O progresso moral, apesar de estar ainda
bem atrás do intelectual, não está sem rumo já
que além das 1ª. e 2ª. revelações, centradas
nas figuras de Moisés através dos Dez Mandamentos e Jesus
através do Evangelho, respectivamente, a bondade divina nos enviou
o Espiritismo que ensinando a fé raciocinada tem como finalidade
maior “o melhoramento moral da Humanidade” (item 303 de
O Livro dos Médiuns 1).
Mas, em vista do fato do Espiritismo ter “... que sustentar grandes
lutas, mais contra os interesses, do que contra a convicção
...” (questão 798 de O Livro dos Espíritos 2),
é nosso dever como espíritas a vigilância contra
as controvérsias, contradições e polêmicas
que podem nos afastar da finalidade maior do Espiritismo, acima mencionada.
Como empregar eficazmente essa vigilância? O que ensinaram Kardec
e os bons Espíritos? O propósito desta matéria
é traçar um paralelo entre os modos pelos quais a Ciência
é vigilante contra controvérsias, contradições
e polêmicas e o que a Doutrina Espírita ensina. Veremos
que os métodos que asseguram o desenvolvimento e a prática
saudáveis do Espiritismo é bastante similar aos que as
Ciências empregam na sua prática e desenvolvimento. Vamos
enumerar os pontos para deixar mais claras essas semelhanças.
1. Metodologia editorial:
A Ciência dispõe de uma
metodologia editorial de divulgação de novidades e pesquisas
que se baseia na chamada análise por pares (3).
Essa análise consiste em enviar cada novo artigo ou monografia
para pareceristas, ou árbitros, que nada mais são do que
pesquisadores especialistas no assunto do artigo para que sejam avaliados
os critérios de aceitação e validação
que cada área do conhecimento, através de seus paradigmas,
definem. Além da análise dos próprios editores,
eles enviam o artigo para quantos pareceristas forem necessários
para obter uma avaliação final segura do mesmo. Em geral,
se analisa como o assunto é tratado, QUAIS e COMO os métodos
foram empregados, as conclusões obtidas, que novidades apresentam,
que contribuições trazem para o conhecimento, que discordâncias
com o paradigma vigente apresentam, se ferem princípios básicos
bem estabelecidos, etc. Se o assunto do artigo for controverso, contraditório
ou polêmico, será necessário avaliar com atenção
redobrada e critérios mais rígidos, para evitar o risco
de divulgar como verdadeiro algo que não o seja.
O Espiritismo, em comparação com as Ciências, também
possui critérios para concordância ou não de tudo
o que se escreve a seu respeito, seja o que chega através da
mediunidade, seja o que é fruto da mente encarnada. No caso das
publicações, as editoras de livros e periódicos
espíritas, em geral, adotam metodologias semelhantes ao método
de análise por pares ao fazerem os textos destinados à
publicação passarem pela leitura de companheiros mais
experientes do Movimento Espírita e conhecedores do assunto a
ser publicado.
2. Rejeição de novidades:
A Ciência não divulga formalmente,
em seu nome, novidades que não tenham satisfeito um número
mínimo de critérios de validade. Cabe aos pesquisadores
interessados no assunto o trabalho minucioso de demonstração
e prova. Às vezes, os cientistas falam de suas opiniões
próprios sobre vários assuntos, opiniões estas
que não tem peso de ciência, enquanto não passarem
por um processo de pesquisa e demonstração de acordo com
os critérios de cada área do conhecimento.
O Espiritismo tem como um lema que “É melhor repelir dez
verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria
errônea” (Erasto, no item 230 de O Livro dos Médiuns
1). Às vezes, indivíduos
(encarnados ou desencarnados) expõem opiniões isoladas
a respeito de diversos assuntos relacionando-os ao Espiritismo, ou recebem
mensagens que atribuem a personalidades maiores do mundo espiritual
sem, contudo, terem realizado um trabalho de pesquisa, observação
e demonstração que possam assegurar sua veracidade de
acordo com os critérios espíritas. É importante
que o Movimento Espírita saiba distinguir a diferença
entre uma afirmativa isolada de um resultado obtido a partir do estudo
sério e aprofundado.
3. Necessidade de um projeto de pesquisa continuado:
Em todas as áreas do conhecimento,
o processo de desenvolvimento ocorre de maneira planejada. Em Ciência,
a esse planejamento dá-se o nome de projeto de pesquisa (4).
O projeto serve para guiar a atividade de pesquisa para que sejam satisfeitos
os critérios que posteriormente serão aplicados na análise
dos resultados obtidos. Um dos itens de um projeto de pesquisa é
o seu cronograma ou plano de atividades. A seriedade e validade dos
resultados a que se pretende chegar depende de um trabalho paciente
de observação, medida, reflexão, análise,
cálculos, que não podem ser realizados de uma hora para
a outra. Na hora de divulgar tais resultados da pesquisa, os seus autores
devem explicar todo o processo desde as motivações iniciais,
a importância relativa do assunto, os problemas que o presente
trabalho pretende resolver, os métodos e teorias empregados,
cálculos se houverem, etc. Os pareceristas irão avaliar
se não faltou nada, se realmente as conclusões estão
bem sustentadas pelo trabalho de pesquisa, etc.
No Cap. XXVII da 2ª parte do Livro dos Médiuns (1),
intitulado Contradições e Mistificações,
no ítem 301 quando perguntados sobre “Que controle podemos
empregar para conhecer a verdade?”, os Espíritos assim
responderam a Kardec: “Para se discernir o erro da verdade, é
preciso que as respostas sejam aprofundadas e meditadas por longo tempo
e com seriedade. É um estudo completo a fazer-se. Para isso é
preciso TEMPO, como para estudar todas as coisas. Estudai, comparai,
aprofundai. Temos dito incessantemente que o conhecimento da verdade
só se obtém a esse preço.” (destaque em maiúsculas,
nossos). Vê-se daí que para todo e qualquer assunto novo
dentro do Movimento Espírita há que aprofundemos no seu
estudo para não haver o risco de aceitarmos uma falsidade como
disse Erasto. No caso, então, de controvérsias, contradições
e polêmicas, a necessidade de aprofundamento é ainda maior!
4. Falhas e o caráter progressivo:
Como a Ciência é uma atividade
humana, falhas ocorrem e de vez em quando a mídia divulga casos
de fraudes científicas. Mas, o próprio método de
divulgação dos trabalhos de pesquisa permite que erros
anteriores sejam corrigidos. Para isso, os pesquisadores procedem à
realização de novos estudos demonstrando os erros ou confirmando
acertos de resultados anteriores ou, ainda, propondo novas idéias
e teorias que complementam de maneira adequada os conhecimentos anteriores,
promovendo assim o progresso da respectiva área.
O Espiritismo também é progressista. Kardec (ítem
55 de A Gênese 5) diz “Caminhando
de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado,
porque, se novas descobertas lhe DEMONSTRASSEM estar em erro acerca
de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade
nova se revelar, ele a aceitará.” (grifos em maiúsculas,
nossos). Destacamos a palavra “demonstrassem” para enfatizar
aos leitores que não existe maneira de demonstrar uma coisa sem
realizar um estudo aprofundado!
Como o Movimento Espírita é uma atividade humana, assim
como a Ciência, ele é passível de erros e às
vezes vemos artigos, mensagens, publicações e outros assuntos
que causam controvérsias, contradições ou polêmicas
junto aos espíritas. Mas, assim como a Ciência tem seus
mecanismos de correção, o Espiritismo oferece-nos maneiras
de buscarmos a verdade perante assuntos duvidosos.
Exemplos de assuntos controversos são encontrados dentro da relação
Ciência e Espiritismo como, por exemplo, propostas de atualização
do Espiritismo de acordo com a Ciência ou se a Física Quântica
está de fato contribuindo para o entendimento de verdades espíritas;
o emprego ou não de atividades de medicina alternativa nas casas
espíritas; a identidade de personalidades conhecidas em mensagens
mediúnicas, etc. O que o Espiritismo nos ensina é que
antes de lançarmos anátema ou aceitarmos sem questionar,
devemos nos aprofundar no assunto, meditar e observar por longo tempo
esses pontos controversos para não corrermos o risco daquilo
que Erasto previu a 153 anos atrás: o de aceitarmos falsidades
ou teorias errôneas.
Por fim, como o Espiritismo é a doutrina que recomenda a fé
raciocinada, concluímos esse estudo lembrando de Jesus ao dizer
“E conhecereis a verdade e ela vos libertará” 6
e que além do “amai-vos” nós espíritas
temos como mandamento o “instruí-vos” (Espírito
de Verdade no ítem 5 do cap. VI de O Evangelho Segundo o Espiritismo
7). O segundo mandamento não pode
ocorrer sem seriedade, método e aprofundamento.
Referências
1. A. Kardec, O Livro dos Médiuns, Ed. FEB, 1ª
Edição, Rio de Janeiro (2008).
2. A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Ed. FEB,
1ª Edição, Rio de Janeiro (2006).
3. A. F. da Fonseca, Aula 4: Tópicos de pesquisa
multidisciplinar entre algumas Ciências e o Espiritismo. O método
de análise por pares, Boletim do GEAE 486 (2004).
Homepage: http://www.geae.inf.br/pt/boletins/geae486.html
4. A. F. da Fonseca, Aula 14:O que é um Projeto
de Pesquisa?, Boletim do GEAE 496 (2005).
Homepage: http://www.geae.inf.br/pt/boletins/geae496.html
5. A. Kardec, A Gênese, Ed. FEB, 34ª Edição,
Rio de Janeiro (1991).
6. João 8:32.
7. A. Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Ed.
FEB, 112ª Edição, Rio de Janeiro (1996).
Artigo Publicado no Reformador N. 2180 de Novembro
de 2010, pp. 18-20.