Texto básico da exposição feita
no Painel "O Livro dos Espíritos - Princípios Filosófico
-Espíritas para uma nova Sociedade" no 4º Congresso
Espírita Mundial, realizado em Paris, França, no dia 3
de outubro de 2004
1. Ética e Moral
A Ética (do grego ethika)
é a parte da Filosofia que estuda os valores morais e os princípios
ideais da conduta humana (Dicionário Michaelis) (1).
Relaciona-se com os costumes, sendo chamada ciência da conduta
e ciência da moral, cujo objetivo é o julgamento
e a distinção entre o bem e o mal. A Ética teve
origem na Grécia, com Aristóteles (384-322 a.C.), o qual
utilizou esse nome pela primeira vez em seu livro Ética a Micômaco.
Afirma Marilena Chauí (2): "Toda
cultura e cada sociedade institui uma moral, isto é,
valores concernentes ao bem e ao mal, ao permitido
e ao proibido e à conduta correta e incorreta (...). No entanto,
a simples existência da moral não significa a presença
explícita de uma ética, entendida como filosofia moral,
isto é, uma reflexão que discuta, problemize e interprete
o significado dos valores morais."
A distinção entre ética
e moral é, todavia, tênue. Já
na Roma antiga, Cícero (106-43 a.C.) dizia que eles denominavam
moral o que os gregos chamavam de ética.
Com Jesus Cristo, os conceitos éticos
assumiram nova dimensão, como se depreende das palavras
do Espírito Carlos Torres Pastorino, no recente
livro Impermanëncia e Imortalidade (3), cap. "Ética
e razão"':
"Foi Jesus que apresentou o amor como fundamental
para a vida, dando início ao primado do dever e da moral como
essenciais à felicidade humana. Antes dEle, os princípios
da ética moral eram graves, especialmente em Israel, atados às
leis severas, estabelecidas por homens cruéis, mais interessados
em punir, em vingar-se do que em educar e corrigir. Desde a Pena de
Talião, que Ele substituiu pela do perdão, mediante o
qual é concedido ao infrator a reabilitação, não
ficando isento da responsabilidade do erro e das suas conseqüências,
mas facultando-lhe possibilidades de retribuir à sociedade em
bens os males que praticou."
Surge, assim, a ética cristã,
fundamentada nos ensinos do Mestre Nazareno. Pedro e seus companheiros
vivenciam o amor e praticam a caridade na Casa do Caminho. Paulo de
Tarso dá-lhe consistência, traçando diretrizes de
ordem comportamental aos gentios em suas memoráveis Epístolas,
das quais destacamos estes preceitos: "Não te deixes vencer
do mal, mas vence o mal com o bem" (Romanos, 12:21); "Todas
as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas
são lícitas, mas nem todas edificam" (I Coríntios,
10:23); e reforça com seu exemplo: "Estou crucificado com
Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive
em mim" (Gálatas, 2:19-20).
Com o correr do tempo e o predomínio da Igreja,
depois, com a Reforma Protestante, a ética cristã foi
sendo adaptada às concepções da Teologia, na medida
em que o comportamento humano era influenciado pelo temor a Deus, pela
crença no pecado, nas penas eternas, em que a salvação
da alma era condicionada à submissão aos dogmas e sacramentos,
ou à fé em Cristo.
Iniciada no século XVII a Era da Razão,
a partir de René Descartes (1596-1650), passando pelos filósofos
do Iluminismo, até Jean-Jacques Rousseau (1712-1799) e Emmanuel
Kant (1724-1804), no século XVIII, as reflexões
éticas prepararam o pensamento humano para o advento
do Consolador prometido por Jesus, destinado a reconduzir a ética
cristã à sua pureza original.
2. Ética e Doutrina Espírita
Em nossa pesquisa, não encontramos menção
à Ética nas obras da Codificação Kardequiana
e na Revista Espírita. Todas as referências se reportam
à Moral, cujo conceito espírita
se confunde com o de Ética, como podemos conferir nas
respostas dos Espíritos Reveladores às questões
629 e 630 de O Livro dos Espíritos (Ed. FEB), formuladas
por Kardec:
629. Que definição se pode dar
da moral
A moral é a regra de bem proceder, isto é, de
distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da lei de Deus.
O homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então
cumpre a lei de Deus.
630. Como se pode distinguir o bem do mal?
O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus; o
mal, tudo o que lhe é contrário. Assim, fazer o bem é
pro ceder de acordo com a lei de Deus. Fazer o mal é infringi-Ia.
Na obra Filosofia Espírita da Educação
(vol. 1) (4) Ney Lobo acentua que, como "existe
a Filosofia Espírita, deve, forçosamente, corresponder-lhe
determinada ética, a Ética Espírita".
Os princípios da Doutrina Espírita,
em seu tríplice aspecto - Filosofia, Ciência e Religião
- fundamentam-se na moral do Cristo, que é a mais elevada expressão
da Ética.
A concepção de Deus - justo e misericordioso
para com todos os seus filhos -, como a "inteligência suprema,
causa primeira de todas as coisas"; a certeza da vida futura e
o conhecimento do mundo espiritual, confirmados, através da mediunidade,
pelas comunicações dos Espíritos; a origem, evolução
e destinação do Espírito imortal; a pluralidade
das existências e dos mundos habitados; a compreensão da
justiça e da misericórdia divinas pelo funcionamento da
lei de causa e efeito; o princípio de responsabilidade decorrente
do exercício do livre-arbítrio; a concepção
espírita das penas e gozos terrestres e futuros - repercutem
na consciência moral do homem, levando-o a formular e praticar
uma nova filosofia de vida, uma nova conduta ética.
Nas Leis Morais, da Parte
3a de O Livro dos Espíritos, a Ética
Espírita apresenta-se em sua plenitude. No capítulo
1, Kardec reúne o ensino dos Espíritos sobre a lei divina
ou natural, examinando os caracteres e o conhecimento dessas leis; coloca
as questões acerca do bem e do mal e apresenta (q. 648) a divisão
da lei natural em dez partes (cap. II a XI), que compreendem as leis
de adoração, trabalho, reprodução, conservação,
destruição, sociedade, progresso, igualdade, liberdade
e, por fim, a de justiça, amor e caridade. Afirmam os Espíritos
que "essa última lei é a mais importante, por ser
a que faculta ao homem adiantar-se mais na vida espiritual, visto que
resume todas as outras."
Ainda sobre a última lei moral, Kardec enfatiza,
na Conclusão (IV) de O Livro dos Espíritos. "O progresso
da Humanidade tem seu principio na aplicação da lei de
justiça, de amor e de caridade, lei que se funda na certeza do
futuro."
Além da questão acima (648), três
outras merecem destaque, por seu significado ético:
621. Onde está escrita a lei de Deus?
Na consciência.
625. Qual o tipo mais perfeito que Deus tem
oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo?
Jesus.
647. A Lei de Deus se acha contida toda no preceito
do amor ao próximo, ensinado por Jesus?
Certamente esse preceito encerra todos os deveres dos homens,
uns para com os outros. (...).
O Codificador termina o estudo das leis morais com
a abordagem de um aspecto fundamental da Ética em geral e da
Ética Espírita em particular - a Perfeição
Moral. As primeiras questões apresentadas tratam das
virtudes e dos vícios. Indaga ele (q. 893) sobre qual a mais
meritória das virtudes, e recebe por resposta: "Toda virtude
tem seu mérito próprio, porque todas indicam progresso
na senda do bem. (...) A sublimidade da virtude, porém, está
no sacrifício do interesse pessoal em favor do próximo,
sem pensamento oculto. A mais meritória é a que assenta
na mais desinteressada caridade." (Grifamos.)
No exame das paixões, a resposta dos Espíritos
à pergunta 907 esclarece que a paixão, em sua
origem, não é má; "a paixão está
no excesso de que se acresceu a vontade, visto que o princípio
que lhe dá origem foi posto no homem para o bem, tanto que as
paixões podem levá-lo à realização
de grandes coisas. O abuso que delas se faz é que causa o mal".
O egoísmo é o vício mais
radical (q. 913), dele derivando todo o mal. "Estudai
todos os vícios e vereis que no fundo de todos há egoísmo.
(...) Quem quiser, desde esta vida, ir aproximando-se da perfeição
moral, deve expurgar o seu coração de todo sentimento
de egoísmo, visto ser o egoísmo incompatível com
a justiça, o amor e a caridade. Ele neutraliza todas as outras
qualidades."
Fénelon responde de forma admirável
à indagação - Qual o meio de destruir-se o egoísmo?
(q. 917). Eis alguns trechos do seu pensamento: "De todas as imperfeições
humanas, o egoísmo é a mais difícil de erradicar-se
(...). O egoísmo se enfraquecerá à proporção
que a vida moral for predominando sobre a vida material e, sobretudo,
com a compreensão, que o Espiritismo vos faculta, do vosso estado
futuro, real e não desfigurado por ficções alegóricas."
(...).
No longo e elucidativo comentário sobre essa
questão, Kardec afirma ser necessário combater o egoísmo
na sua raiz "pela educação, não por essa educação
que tende a fazer homens instruídos, mas pela que tende a fazer
homens de bem. A educação, convenientemente entendida,
constitui a chave do progresso moral".
Sobre a educação à luz do Espiritismo,
Ney Lobo (5) enfatiza: "A Ética Espírita
é a argamassa que cimenta a Filosofia com a Educação
Espírita, articulando-as funcionalmente num enlace perfeito e
doutrinário: a Filosofia fornece a Ética para a Educação
realizá-la."
3. Comportamento ético-espírita
A Ética Espírita, aliando a fé
à razão - e pelo seu caráter educativo -, leva
o homem, à mudança positiva de comportamento. Daí
a exortação do Codificador (6) "Reconhece-se o verdadeiro
espírita pela sua transformação moral e pelos esforços
que emprega para domar suas inclinações más.”
Retomando o citado capítulo sobre a Perfeição
Moral, encontramos o modelo de comportamento ético-espírita
na questão 918, em que Kardec, no seu comentário,
apresenta os caracteres do homem de bem e declara:
"Verdadeiramente, homem de bem, é o que pratica
a lei de justiça, amor e caridade na sua maior pureza".
Ele desdobra esse tema no capítulo XVII de O Evangelho segundo
o Espiritismo, descreve a conduta do homem de bem, e conclui - referindo-se
aos bons espíritas - que o Espiritismo leva aos resultados por
ele obtidos que "caracterizam o verdadeiro espírita, como
o cristão verdadeiro, pois que um o mesmo é que outro
". (Grifamos.)
* * *
A Ética Espírita foi enriquecida,
no século XX, com o apostolado mediúnico de Francisco
Cândido Xavier, através do qual a Espiritualidade
Superior canalizou para o homem contemporâneo valiosas diretrizes
de ordem comportamental, sob a visão evangélico
doutrinária da Terceira Revelação. Destacamos desse
tesouro as mensagens de Emmanuel que compõem
a série (editada pela FEB) Caminho, verdade e Vida, Pão
Nosso, Vinha de Luz e Fonte Viva, assim como as de André
Luiz, cujo livro Conduta Espírita é um repositório
de orientações a quantos queiram ter um comportamento
éticocristão. Esta contribuição do
Mundo Espiritual é acrescida pelas obras de Joanna de
Ângelis sobre o homem integral e a psicologia profunda,
psicografadas por Divaldo Pereira Franco.
O comportamento ético-espírita
não pode limitar-se aos momentos em que estamos na Casa
Espírita ou no atendimento às carências do próximo.
Ele deve constituir o nosso modo de ser e de agir em todas as circunstâncias
da vida.
Ao espírita compete manter uma conduta ética
no cotidiano, em todas as relações que estabelece com
o seu semelhante e a sociedade, ainda que em detrimento de seu interesse
pessoal. Cabe-lhe viver e exemplificar a conduta ética no lar,
na vida profissional, nos negócios, na política, na administração
pública, bem como nas outras situações apresentadas
pelo Espírito André Luiz7, consultando sempre a sua consciência,
onde está escrita a lei de Deus.
Referências Bibliográficas
1 MICHAELIS: Moderno Dicionário da Língua
Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 1998, 2.267 p., p. 908.
2 CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo:
Editora Ática, 2003, 424 p., p. 310.
3 FRANCO, Divaldo Pereira. Impermanência e Imortalidade, pelo
Espírito Carlos Torres Pastorino. Rio de Janeiro: FEB, 2004,
224 p., "Ética e razão", p. 215-222.
4 LOBO, Ney. Filosofia Espírita da Educação. Rio
[de Janeiro]: FEB, 1989, v. l, p. 50.
5 ld., ibid., p. 53.
6 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 120. ed. Rio [de
Janeiro]: FEB, 2002, 435 p., cap. XVII, p. 274.
7 VIEIRA, Waldo. Conduta Espírita, pelo Espírito André
Luiz. 5. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1974, 155 p.
Estudo originalmente publicado na Revista Internacional
de Epiritismo, Ano LXXX, No 02, Matão, Março 2005
http://br.geocities.com/luz_espirita/etica_espirita.doc
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