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ALEXANDRE FONTES DA FONSECA
UM ENSAIO
SOBRE MATÉRIA E ENERGIA
No cap. 9 da obra “E a Vida
Continua”, de André Luiz, o irmão Cláudio
diz: “Qualquer aprendiz de ciência elementar, no Planeta,
não desconhece que a chamada matéria densa não
é senão a energia radiante condensada. Em última
análise, chegaremos a saber que a matéria é luz
coagulada, substância divina, que nos sugere a onipresença
de Deus.”[1] (Grifos em itálico originais). No cap. 1º
de “Evolução em Dois Mundos”, André
Luiz diz que: “... na essência, toda a matéria é
energia tornada visível e que toda a energia, originariamente,
é força divina de que nos apropriamos para interpor os
nossos propósitos aos propósitos da Criação,
...”[2].
É comum, no movimento espírita,
ouvirmos a idéia de que matéria pode ser transformada
em energia e vice-versa. Nós mesmos, outrora, afirmamos isso[3],
mas um estudo mais rigoroso sobre como a Física interpreta os
fenômenos de desmaterialização, de aniquilamento
de pares de partículasantipartículas, ou reações
de fissão ou fusão nucleares revelam o equívoco
desta idéia. O objetivo desta matéria, portanto, é
esclarecer como a Física entende matéria, energia e tais
fenômenos de transformação. Após, discutiremos
como essas idéias se relacionam com o que ensina o Espiritismo.
A palavra energia é tão antiga quanto Aristoteles, e seu
conceito moderno emergiu de estudos de Leibniz[4]. Nas palavras de um
dos maiores físicos do século passado, o conceito de energia
pode ser entendido como:
“Existe um fato, ou se desejar, uma lei que governa todos os fenômenos
naturais conhecidos até o presente. Não existe exceção
a esta lei; ela é exata até onde se sabe. Esta lei é
chamada de conservação de energia; ela diz que existe
uma certa quantidade que chamaremos energia, que não se altera
perante as diversas alterações a que a natureza está
sujeita. Esta é uma idéia completamente abstrata porque
ela é um princípio matemático que diz que existe
uma quantidade numérica que não se altera quando alguma
coisa acontece. A energia não é uma descrição
de um mecanismo ou de algo concreto; é apenas um fato estranho
que calculamos um número, e quando terminamos de observar a natureza
realizando seus truques e calculamos o número de novo, ele é
o mesmo.”
Richard Feynman[4] (tradução nossa).
Foto: Wikipedia Commons Estátua de Gottfried
Wilhelm Leibniz em Leipzig commons.
wikimedia.org
A definição mais comum de matéria é a de
qualquer coisa que tenha massa e ocupe volume de espaço[5]. Segundo
a Física Moderna, a ocupação de espaço por
parte da matéria decorre do fato dos elétrons, que possuem
uma propriedade magnética intrínseca chamada spin de valor
semi-inteiro igual a 1/2, não poderem ocupar as mesmas regiões
espaciais em torno do núcleo de um átomo. Isso causa a
sensação de repulsa entre dois objetos. Partículas
que possuem spin de valor semiinteiro (1/2, 3/2, 5/2, etc.) são
chamadas de férmions, e os constituintes da matéria ordinária
que conhecemos, como os prótons, neutrons e elétrons,
são férmions. A teoria quântica demonstra que os
férmions não podem ocupar os mesmos estados quânticos
num sistema, incluindo-se a posição no espaço,
explicando, assim, a concepção de que “dois corpos
não podem ocupar o mesmo lugar”.
Entretanto, na natureza existe, também,
outro tipo de partículas chamadas bósons. Elas tem a propriedade
de possuir spin de valor inteiro (0, 1, 2, etc.). Ao contrário
dos férmions, e por mais incrível que possa parecer, os
bósons podem ocupar o mesmo estado quântico, incluindo
ocupar a mesma região do espaço. Por causa dessas propriedades,
os bósons são considerados pela Física como as
partículas “que carregam a força”. O fóton,
por exemplo, que é um “quantum” de radiação
eletromagnética, é o bóson que “carrega”
a força eletromagnética. Vários fótons de
diferentes radiações eletromagnéticas podem ocupar
o mesmo espaço, a prova disso é o fato de termos num mesmo
ambiente ondas de rádio, TV, celular, etc., sem que uma interfira
na outra.
A teoria da Física que, nos
dias de hoje, estuda as propriedades de todos os tipos de partículas
é chamada Modelo Padrão [5]. Segundo o Modelo Padrão,
a matéria dita ordinária (isto é, a matéria
que conhecemos) é composta por partículas elementares,
isto é, partículas que não possuem estrutura interna
e, por isso, são chamadas de elementares. Por exemplo, os prótons
não são partículas elementares pois são
formados por três quarks. Estes, por sua vez, não seriam
formados por outras partículas sendo, portanto, elementares.
Os chamados léptons, a cuja classe pertence o elétron,
também são partículas elementares. O Modelo Padrão
foi desenvolvido em 1970 e tem grande aceitação entre
os físicos. Sua única limitação, atualmente,
é não descrever ainda a força de interação
gravitacional devido às massas das partículas. Acredita-se,
que a descoberta do chamado bóson de Higgs possa esclarecer esse
ponto dentro do contexto desta teoria [5].

Foto: YE2 do Banco de Imagens Flickr www. flickr.com
- Grandes bobinas são utilizadas em aceleradores de partículas
para provocar colisões que permitam estudar o mundo subatômico.
A foto dá uma idéia das dimensões dos equipamentos
usados no CERN na Suiça.
Segundo o Modelo Padrão e, portanto, de acordo com o conhecimento
da Física atual, a matéria ordinária é tudo
que é formado de férmions elementares, isto é,
de quarks e léptons que possuem spin de valor semiinteiro. Como
os elétrons são léptons e os prótons e neutrons
são formados por quarks, todos os átomos conhecidos que
formam a matéria que conhecemos são formados de quarks
e léptons, e portanto, de férmions.
Mas, e os fótons e outros bósons que a Física de
Partículas já descobriu? Não seriam matéria?
O que seriam? O Modelo Padrão simplesmente não as chama
de matéria, mas apenas de bósons. São, de fato,
partículas reais, que fazem parte da natureza física que
conhecemos, mas apenas não são consideradas matéria
ordinária. Poder-se-ia inventar um nome para elas, mas comumente
os físicos as chamam de “partículas mediadoras”,
pois elas são responsáveis por carregar e transmitir a
mensagem da força entre os férmions. Dentro do sentido
que empregamos a palavra matéria no Espiritismo, os bósons
podem ser considerados como “matéria”, porém
com propriedades distintas dos objetos materiais que conhecemos.
Cabe aqui uma questão oportuna.
O que seria a chamada antimatéria? Antimatéria é
matéria formada por antipartículas dos férmions.
O que são “antipartículas”? Antipartículas
são as mesmas partículas com uma única diferença:
possuem carga elétrica de sinal inverso ao da respectiva partícula.
Por exemplo, um antielétron, também chamado de pósitron,
é um elétron com carga elétrica positiva. Um antipróton
é um próton negativo. Portanto, em essência, antimatéria
é o mesmo que matéria, isto é, tem todas as mesmas
propriedades da matéria, pode formar corpos idênticos aos
que conhecemos e estão sujeitos às mesmas leis da matéria.
Sabe-se que quando uma partícula e uma antipartícula se
tornam muito próximas, elas sofrem uma reação chamada
de aniquilação. Nesta reação, as partículas
são ditas desmaterializadas e dois fótons são produzidos.
A reação inversa também é possível.
Antigamente se acreditava que os fluidos espirituais fossem formados
de antimatéria. Com base no que foi exposto acima, podemos perceber
o equívoco dessa idéia, como já demonstrado pelo
amigo Ademir Xavier[6].
Outra pergunta importante: o que é
a luz? A luz não é algo real, que vemos e sentimos de
diversas formas? A luz é, de fato, algo real. Ela é radiação
eletromagnética de determinada frequência. A radiação
eletromagnética, por sua vez, é uma oscilação
sincronizada dos campos elétrico e magnético que se propagam
no vácuo, isto é, no espaço vazio. A luz, como
todo sistema físico, possui comportamento regido pela conhecida
dualidade onda-partícula da Mecânica Quântica que
diz que dependendo da forma como observamos ou preparamos um experimento
com a luz, o comportamento do sistema será do tipo ondulatório
ou do tipo corpuscular. O fóton, que como dissemos é a
menor unidade de radiação eletromagnética, é
observado em fenômenos onde o aspecto corpuscular da luz ocorre.
E é isso o que a Física diz, que a luz é uma radiação
eletromagnética que em determinadas condições,
se comporta como se fosse formada por um feixe de partículas
chamadas de fótons. A Física não chama a luz ou
os fótons de matéria pois a luz não ocupa espaço
nem possue massa. Além disso, os fótons são bósons
e a matéria ordinária é considerada pela Física
como sendo formada de férmions. Dentro da consideração
que fizemos anteriormente do conceito de matéria no Espiritismo,
a luz pode ser também considerada como “matéria”.
Como se isso não bastasse, a
Ciência descobriu a existência de outros tipos de matéria
que não são formadas nem por férmions nem por bósons.
As chamadas matéria e energia escuras são exemplos de
matéria cujas propriedades escapam ao que expomos até
aqui. Antes, porém, que nos sintamos tentados a associar essas
matérias diferentes ao conceito de fluido universal (FU) ou fluidos
espirituais, é preciso lembrar que as propriedades de ambas ainda
não satisfazem àquilo que se espera do FU, conforme estudos
já publicados na revista FidelidadESPÍRITA [7]. De modo
análogo, independente do que a Física venha a descobrir
como sendo a constituição íntima dessas matérias
diferentes, dentro do conceito de matéria do Espiritismo, elas
podem ser consideradas como “matéria”.

Foto: Wikipedia Commons - Foto de Einstein em
1921
tirada por F. Schmutzer commons. wikimedia.org
Antes de analisarmos a questão sobre a possibilidade de podermos
transformar matéria em energia, vamos ver o que a Física
entende por massa. Massa é normalmente entendida como sendo a
medida da inércia, isto é, da dificuldade de alterar-se
a dinâmica de um objeto. Einstein, com sua famosa equação,
E=mc2, demonstra a relação entre a energia E e a massa
m de um objeto, onde c é a velocidade da luz. Porém, de
que energia e de que massa a teoria de Einstein está falando?
Entender isso é extremamente importante para descobrirmos se
energia pode se transformar em matéria e, posteriormente, analisarmos
se podemos chamar os fluidos espirituais de energias. Os artigos das
referências 8 e 9 apresentam uma discussão história
muito rica sobre o assunto. Vamos aqui apresentar apenas as conclusões
desse estudo.
Einstein demonstrou que se um corpo de massa m perder ou ganhar energia
no valor E, a sua massa total diminui ou aumenta na proporção
m=E/c2. Daí a equação E=mc2. Assim, Einstein mostra
que existe uma correlação direta entre a energia, dita
de repouso de um corpo e a medida de sua inércia, de sua massa
de repouso. Notem que usamos o adjetivo “repouso”, pois
existe uma confusão entre os físicos a respeito da possibilidade
da massa de um corpo poder aumentar em função da sua velocidade.
O prof. Valadares mostra [8,9] que essa é uma interpretação
errada da Teoria da Relatividade de Einstein e que, na verdade, não
importa quão veloz é uma partícula, sua massa é
sempre a mesma. Por exemplo, um próton se deslocando a velocidades
muito altas, próximas da velocidade da luz, terá massa
idêntica a de um próton em repouso. Einstein demonstrou
que no processo de conservação da energia total de um
sistema, cada partícula possui uma energia intrínseca
chamada “energia de repouso”, dada pela equação
E=mc2. Uma consequência dessa teoria é que a massa de um
corpo não é necessariamente igual à soma das massas
das partículas que o compõem (grifamos para enfatizar).
Em um dado processo, o que se conservam, segundo a Física, é
o chamado momento (ou quantidade de movimento) e a energia total do
sistema. A massa total só se conserva se a definimos de modo
diferente do usual, o que deixamos para o leitor mais interessado verificar
nos artigos das referências 8 e 9.
Diante do que foi exposto acima, pode
energia se transformar em matéria, ou viceversa? Para responder
isso, considere como exemplo uma reação de desmaterialização
ou aniquilamento ocorrida com um sistema formado por um elétron
e um pósitron, isolados do resto do universo, como sugere o prof.
Valadares[8]. Nesse processo, o momento e a energia total se conservam.
Em outras palavras, antes da desmaterialização, o par
elétronpósitron possui determinado valor para a energia,
momento e massa totais. Após a desmaterialização,
dois fótons são produzidos e a energia, momento e massa
totais permanecem com o mesmo valor, cada. Que a energia e o momento
se conservam, isso entendemos perfeitamente. Mas como a massa total
se conserva, se o elétron e o pósitron foram destruídos
e no lugar dois fótons, que possuem massa de repouso nula, surgiram?
É aí que precisamos prestar maior atenção
para entender como a Física interpreta o fenômeno de reação
de desmaterialização e verificar se houve ou não
transformação de matéria em energia.
O argumento chave para entender o que
acontece é: “se a energia total se conservou, isto é,
se ela permaneceu a mesma, então nem se ganhou nem se perdeu
energia”. Portanto, se tivesse ocorrido a transformação
de matéria em energia, teríamos um aumento na energia
total do sistema isolado. Como isso não ocorre no fenômeno
de desmaterialização, não houve conversão
nem de matéria, nem de coisa alguma em energia! Apesar de sutil,
é um erro dizer que matéria pode ser transformada em energia,
e vice-versa. O que de fato houve foi uma transformação
de duas partículas, o elétron e o pósitron, em
outro tipo de partícula: fótons. Em outras palavras, objetos
reais e concretos como o elétron e o pósitron, de acordo
com a Física, só podem se transformar em outros objetos
reais e concretos, como os fótons. Objetos reais não podem
se transformar em entes abstratos como a energia. Como lemos na explicação
de Feynman, energia é um conceito puramente abstrato. Energia,
por sua vez, pode ser transformada em outros tipos de energia ou transferida
de um sistema físico a outro, mas energia não pode ser
transformada em matéria. Nesse cálculo desse “número”
a que chamamos energia, a fórmula E=mc2 precisa ser levado em
conta para que a lei de conservação da energia seja verificada
no fenômeno de aniquilamento de par de partícula-antipartícula.
O mesmo raciocínio é
válido com relação à massa, porém
com a observação de que a soma das massas de um sistema
não necessita ser igual à massa total do sistema, como
mencionado anteriormente. Esse é o caso dos fótons que
são criados na reação de desmaterialização.
Cada fóton, separadamente, possui massa de repouso nula, mas
o sistema formado por dois fótons possui massa total igual à
massa de dois elétrons. A explicação formal para
isso se encontra nos artigos das referências 8 e 9 e não
extenderemos aqui por razões de espaço.
Retornemos às frases contidas
nas duas obras de André Luiz citadas no primeiro parágrafo
deste artigo, numerando-as:
1) “matéria densa não é senão a energia
radiante condensada”,
2) “matéria é luz coagulada”; e
3) “na essência, toda a matéria é energia
tornada visível”.
Essas frases tem relação com os conceitos de matéria,
massa e energia de repouso de uma partícula, bem como com a interpretação
de processos de aniquilamento ou desmaterialização.
Sendo rigorosos com relação
à Física, nenhuma das três frases acima está
rigorosamente
correta. As frases 1) e 3) estão em conflito com o que a Física,
hoje, diz pelas razões explicadas nos parágrafos anteriores.
A frase 2) parece correta em vista do fenômeno de aniquilamento
de um par partícula-antipartícula, onde partículas
com massa de repouso não nula se transformam em fótons,
que são quanta de luz. Apesar da frase 2) ser a que melhor se
aproxima do entendimento atual dos físicos, não é
correto deduzir que a “matéria é luz coagulada”.
O fato da matéria poder se transformar em fótons não
significa que as partículas sejam fótons “coagulados”
ou “condensados” antes do fenômeno de transformação.
A matéria, de acordo com o Modelo Padrão da Física
de Partículas, é todo sistema físico formado por
partículas elementares. Essas partículas são elementares
porque não possuem estrutura interna, o que equivale a dizer
que elas não são internamente fótons, “luz
coagulada”, ou qualquer outra coisa. Elas já são
os tijolos básicos da matéria. Elas possuem características
individuais próprias como massa, carga elétrica, energia
de repouso e outras propriedades físicas fixas. No caso da relação
entre massa e energia (que é a que sugere que matéria
pode ser transformada em energia, e viceversa), o que podemos dizer,
nas palavras do próprio Einstein, é que “A massa
de um corpo é uma medida do seu conteúdo energético”[8].
Uma partícula, então, contém energia na medida
proporcional à sua quantidade de massa, mas ela, a partícula,
em si não é energia.
Por outro lado, em vista da sutileza
da interpretação atual da Física dos conceitos
de matéria, massa, energia e dos fenômenos como o de aniquilamento,
e sabendo que na época em que as frases 1), 2) e 3) foram publicadas
pela primeira vez, os físicos não tinham a compreensão
de agora (o Modelo Padrão foi desenvolvido em 1970, enquanto
as obras de André Luiz foram escritas e primeiramente publicadas
nas décadas de 40 e 50), precisamos reconhecer que essas frases
estavam corretas no contexto do conhecimento científico da época,
exprimindo a idéia do fenômeno de desmaterialização
ou de aniquilamento de um par partícula-antipartícula,
mas acima de tudo enfatizando que a Ciência já reconhecia
que a matéria não é algo rígido, duro e
perpétuo como nossos cinco sentidos poderiam sugerir. Se a forma
dessas frases não está correta perante o que ensina a
Física de hoje, a mensagem que seus autores pretenderam transmitir
de que a matéria não é algo absolutamente rígido
é atual e confirmada por essa mesma ciência. Além
disso, é preciso ter em mente, como aliás nos lembra André
Luiz no prefácio da obra Mecanismos da Mediunidade [10], que
a Ciência do futuro substituirá a atual, e que é
cedo para considerar que as teorias atuais da Física sejam a
palavra final sobre o que é a matéria.

Foto: Kardec com o Livro dos Espiritos. Enviada
por colega da LIHPE.
Encontada também na biografia publicada pela FEB e no site www.ephphata.net
Vamos, agora, analisar o que a Doutrina Espírita ensina sobre
a matéria. É oportuno reproduzirmos a questão 22
de O Livro dos Espíritos[11]:
22. Define-se geralmente a matéria
como aquilo que tem extensão, que pode impressionar os nossos
sentidos, que é impenetrável. Essas definições
são exatas?
“Do vosso ponto de vista são exatas, porque não
falais senão do que conheceis. Mas a matéria existe em
estados que vos são desconhecidos. Pode ser, por exemplo, tão
etérea e sutil que nenhuma impressão vos cause aos sentidos.
Contudo, é sempre matéria, embora para vós não
o seja.”
Essa resposta dos Espíritos tem um valor muito grande. Ela adianta
em mais de meio século o que a Ciência viria a descobrir
sobre a natureza da matéria. De fato, matéria existe em
estados que eram desconhecidos da humanidade à época de
Kardec. Não somente a
descoberta dos bósons, mas mesmo entre os férmions existem
partículas bastante sutis. Por exemplo, a partícula chamada
neutrino, que é um lépton elementar, é tão
leve que se acreditava não possuir massa, e é tão
sutil que trilhões deles são capazes de atravessar o planeta
Terra inteiro como se não existisse nada. Trilhões de
neutrinos atravessam nosso corpo sem causar a menor sensação.
Embora não percebamos a sua existência, concordamos com
os Espíritos: o neutrino é sempre matéria.
Na questão 29, os Espíritos dizem que a ponderabilidade
é um atributo da matéria que conhecemos, mas “não
da matéria considerada como fluido universal”. Eles dizem
também que “A matéria etérea e sutil que
forma esse fluido é imponderável para vós, mas
nem por isso deixa de ser o princípio da vossa matéria
pesada”. Neste momento, o Espiritismo apresenta uma informação
que é nova para a Ciência. Os Espíritos afirmam
que o FU é o princípio elementar da matéria que
conhecemos. Essa afirmativa contradiz o Modelo Padrão que diz
que as partículas elementares não são formadas
de outra coisa. Isso nos sugere algumas questões. Seriam as partículas
elementares o FU? Ou estaria a Física comprovando erros no Espiritismo?
Em nosso ponto de vista, não podemos responder a essas questões
pois as teorias da Física, como o Modelo Padrão, possuem
limitações e sofrerão novos desenvolvimentos que
podem culminar com novas teorias. Um exemplo é a busca experimental
por uma partícula que seria a causa da massa de todas as outras,
o bóson de Higgs. Além disso, outras teorias como a de
supercordas propõem que cada partícula elementar é
um tipo de corda que oscila em determinada frequência. Não
é um procedimento científico a simples comparação
entre o Modelo Padrão e o Espiritismo, para então concluir
que as partículas elementares são o FU. Seria preciso
trabalhar na demonstração de que tudo o que o Espiritismo
diz do FU é satisfeito pelas partículas elementares. Por
exemplo, dizem os Espíritos (questão 27) que sem o FU,
a matéria estaria num perpétuo estado de divisão.
Como encaixar isso com as teorias da Física de Partícula?
Apenas um trabalho de pesquisa rigoroso pode vir a responder isso.
Por outro lado, a tese espírita do FU ser o princípio
elementar de toda a matéria não é desmentida pelos
fenômenos de transformação da matéria como
o de aniquilamento de pares partícula-antipartícula. O
fato de um tipo de matéria poder se transformar em outro sugere
a existência de uma matéria prima universal que seja a
base de toda a matéria incluindo, também, aquilo que chamamos
de matérias diferentes quais sejam os bósons, a matéria
e energia escuras. Somente estudos mais profundos feitos com o rigor
científico poderão fornecer maiores certezas, como já
comentado em artigo anterior na FidelidadESPÍRITA [12].
Seria correto falar que os fluidos espirituais são energias?
É correto dizer que no passe recebemos “energias espirituais”?
Por tudo o que vimos até aqui, se o FU é a base tanto
dos fluidos espirituais quanto da matéria, então o FU
deve ser identificado com a matéria e não com energia.
Logo, não se pode dizer que os fluidos são energia. Teriam
os fluidos energia, assim como matéria carrega energia? Acreditamos
que sim, e que nos processos e fenômenos envolvendo fluidos espirituais,
leis análogas às de conservação de energia
devem existir e reger tais processos. Assim como Einstein demonstrou
uma relação entre a propriedade massa e energia de repouso
de um objeto, talvez exista uma relação análoga
entre alguma propriedade física dos fluidos espirituais (algo
relativo à sua massa) e a energia intrínseca dos mesmos.
Mas não podemos ir além disso. Devemos aguardar que os
pesquisadores da Física e do Espiritismo trabalhem para nos trazer
respostas. Não é um procedimento científico chamar
os fluidos de energia sem pesquisarmos profundamente o que são
os fluidos, como quantificar a energia contida neles, e como quantificar
os fenômenos fluídicos.
Para finalizar, observemos que os Espíritos dizem na questão
22a que a “matéria é o laço que prende o
espírito; é o instrumento de que este se serve e sobre
o qual, ao mesmo tempo, exerce sua ação.” Essa definição
de matéria é muito importante por duas razões.
Primeiro porque afirma a interação entre o espírito
e a matéria. Segundo, porque apresenta uma razão filosófica
da existência da matéria: o de servir de instrumento de
evolução espiritual para o espírito.
Referências
[1] Francisco Cândido Xavier, E a Vida Continua..., pelo Espírito
de André Luiz, FEB, 18ª edição, Rio de Janeiro,
1991.
[2] Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, Evolução
em Dois Mundos, pelo Espírito de André Luiz, FEB, 11ª
edição, Rio de Janeiro, 1989.
[3] Curso Ciência & Espiritismo, “Aula 7: Física
e Espiritismo II: energia e matéria. Referências científicas
na pesquisa espírita”, Boletim do GEAE Número 489,
(2005).
[4] http://en.wikipedia.org/wiki/Energy
[5] M. A. Moreira, “O Modelo Padrão da Física de
Partículas”, Revista Brasileira de Ensino de Física
31, 1306 (2009).
[6] Ademir L. Xavier Jr., “Algumas Considerações
Oportunas sobre a Relação Espiritismo Ciência”,
Reformador, Agosto, p.244 (1995).
[7] A. F. Da Fonseca, “Matéria e Energia Escura: não
são o Fluido Universal”, Revista FidelidadESPÍRITA
Dezembro, p. 18, (2003).
[8] J. A. Valadares, “O Conceito de Massa. I. Introdução
Histórica”, Revista Brasileira de Ensino de Física
15, 110 (1993).
[9] J. A. Valadares, “O Conceito de Massa. II. Análise
do Conceito”, Revista Brasileira de Ensino de Física 15,
118 (1993).
[10] Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, Mecanismos da Mediunidade,
pelo Espírito de André Luiz, FEB, 11ª edição,
Rio de Janeiro, 1990.
[11] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, FEB, 1ª edição
Comemorativa do Sesquicentenário, Rio de Janeiro, 2006.
[12] A. F. Da Fonseca, “O Fluido Universal e as teorias cosmológicas”,
Revista FidelidadESPÍRITA Novembro, p. 16, (2003).
[13] Os artigos das referências 5, 7 e 8 podem ser baixados gratuitamente
a partir do sítio da revista: www.sbfisica.org.br/rbef
Fonte: www.geae.inf.br/pt/boletins/geae546
PUBLICADO ORIGINARIAMENTE NA :
REVISTA FIDELIDADESPÍRITA 91 (ABRIL), P. 6 (2010); E 92 (MAIO),
P. 20 (2010).
WWW.NOSSOLARCAMPINAS.ORG.BR/SITE/CATEGORY/REVISTAS/