Rita Foelker

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O século XX assistiu a grandes avanços nas relações entre psiquiatria e espiritismo

As ciências são tradicionalmente consideradas como paradigmas de racionalidade, que se faria presente desde a observação de fatos e dos experimentos até a anotação de relatos e formulação de conceitos e teorias. Isso, contudo, não pode ser encarado de maneira absoluta. Os cientistas são seres humanos que não apenas se conduzem pelos chamados valores epistêmicos (como falseabilidade, fertilidade, simplicidade, abrangência e consistência, por exemplo), mas que também se deixam influenciar por seus preconceitos, crenças, resistências e idiossincrasias.

A história da ciência é um repositório de casos que mostram como acontece tal influência na pesquisa, na descoberta e, em muitos casos, na preferência por uma teoria em detrimento de outra. E, por isso, existem ideias científicas que persistem por um tempo e angariam partidários, até mostrarem sua fragilidade.

Nessa história, encontramos o embate entre duas concepções científicas distintas que buscavam explicar um mesmo conjunto de eventos. No início do século XX, ocorrências de transe, estimuladas pelo mediunismo praticado em muitas religiões, despertaram grande interesse da comunidade psiquiátrica brasileira. A psiquiatria e o espiritismo possuíam visões diferentes sobre os fenômenos mediúnicos e anímicos. Enquanto o espiritismo mencionava a condição de sermos espíritos encarnados (que podiam libertar-se parcialmente do organismo físico e eventualmente comunicar-se com os desencarnados, como ponto de partida para a compreensão de uma série de fatos), a psiquiatria via nesses casos indicadores de estados patológicos.

Mediunidade ou delírio?

Segundo os autores do artigo “O olhar dos psiquiatras brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão” (ver referência no final do artigo), na primeira metade do século XX, “a comunidade psiquiátrica pertencente ao eixo Rio de Janeiro/São Paulo (...) enfatizou o papel das religiões mediúnicas como causa de loucura, chegando a considerá-la a terceira maior causa de alienação mental”.

Em 1929, o aluno João Coelho Marques apresentou à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro sua tese de doutorado em psiquiatria, intitulada “Espiritismo e ideias delirantes”, segundo a qual “o combate ao espiritismo deve ser igualado ao que se faz à sífilis, ao alcoolismo, aos entorpecentes (ópio, cocaína etc.), à tuberculose, à lepra, às verminoses, enfim, a todos os males que contribuem para o aniquilamento das energias vitais, físicas e psíquicas do nosso povo, da nossa raça em formação”. E ele não estava só, já que muitos trabalhos acadêmicos do período apresentaram essa tendência, como observa o professor Artur Cesar Isaia, da Universidade Federal de Santa Catarina.

Alguns anos antes, outro aluno defendera na mesma instituição carioca um ponto de vista diverso. Em 1922, Brasílio Marcondes Machado apresentou sua tese “Contribuição ao estudo da psiquiatria (espiritismo e metapsiquismo)”, que propunha a aceitação da sobrevivência da alma e a possibilidade de um diálogo entre o espiritismo e a psiquiatria, e que foi reprovada. Tal rejeição não se baseava em critérios puramente científicos. Henrique Belfort Roxo, então catedrático em medicina psiquiátrica da faculdade, pensava que as questões da alma não deveriam ser objeto de estudo da psiquiatria, já que as considerava resquícios de uma metafísica morta e enterrada pelo positivismo. Para ele, era possível pensar o surgimento de uma modalidade de doença mental a partir de um delírio desenvolvido “pela frequência de sessões de espiritismo”, chamada de delírio espírita episódico, o qual ele associava a uma preconceituosa visão das crenças e rituais praticados pelos afrodescendentes. O médico, assim como o aluno João Coelho Marques, defenderia medidas públicas de combate ao avanço da alienação mental no país pela erradicação de três fatores: a sífilis, o alcoolismo e o espiritismo.


Tudo evolui

Contudo, “o espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal”, afirma Allan Kardec em O que é o espiritismo. Ela se apoia em fatos nos quais o elemento espiritual manifesta-se no âmbito mediúnico, anímico e psicossomático e, como ciência, atende satisfatoriamente aos valores epistêmicos citados no início desse artigo: falseabilidade, fertilidade, simplicidade, abrangência e consistência. Em outras palavras, o espiritismo possui afirmações testáveis, isto é, refutáveis pela observação e experiência; ele permite levar o pesquisador a novas descobertas a partir de seus postulados; oferece explicações simples para os fatos a que se refere; oferece explicações para um grande número de questões levantadas pela pesquisa; e faz afirmações que não se contradizem entre si.

O fato de ser rejeitado por alguns representantes da chamada “ciência oficial” das academias não significa que ele seja frágil ou tenha poucos argumentos. “Ciência oficial” é apenas um modo de nos referirmos a teorias predominantemente aceitas num determinado período, visto que, como recorda o professor Silvio Seno Chibeni, da Unicamp, “felizmente, não existe na ciência um Conselho Supremo (como o de certas religiões, partidos ou governos) que decida qual é a ortodoxia. É inerente à natureza da ciência contemporânea a distribuição do poder de avaliação em múltiplas instâncias, entre as quais se encontram as academias, departamentos universitários, institutos de pesquisa, agências de fomento e, principalmente, os periódicos especializados”.

O espiritismo ainda continua sujeito a alguns preconceitos extracientíficos. Na psiquiatria, atualmente, contudo, os preconceitos encontram-se mais reduzidos e localizados. O discurso psiquiátrico mudou, e uma nova compreensão da fenomenologia mediúnica conquistou espaço nas universidades.

Se antes havia preconceito e rejeição, hoje se tornou possível estabelecer um diálogo que enriquece ambas as pesquisas, a psiquiátrica e a espírita, exatamente porque a ciência não é um corpo rígido de conhecimentos, mas um conhecimento e uma atividade que evoluem.
Mas houve sempre aqueles que se adiantaram e, de maneira quase visionária, antecipando os passos futuros. Como foi o caso de Bezerra de Menezes, para quem a loucura deveria ser compreendida como um fenômeno mórbido de duplo caráter: material e imaterial, e contar com um tratamento “moral e terapêutico”: Afirma Bezerra: “No princípio, enquanto os fluidos maléficos do obsessor não têm produzido lesão cerebral, deve-se procurar elevar os sentimentos do obsidiado, incutindo-lhe na alma a paciência, a resignação e o perdão para seu perseguidor, e o desejo humilde de obtê-lo, se em outra existência foi ele o ofensor”. Enquanto tantos psiquiatras ainda acreditavam na loucura como resultado de origem orgânica ou de influência do ambiente, encontramos aqui uma explicação espiritual do problema e a proposta terapêutica condizente, iluminada por princípios de paciência, amor e perdão, que é baseada na filosofia e na ciência espíritas.


Para saber mais:

- A ciência oficial. Questões acerca da natureza do Espiritismo – IV. Por Silvio Seno Chibeni. Disponível em: http://www.espirito.org.br/portal/artigos/geeu/quest4.html

- Fé contagiosa. Por Artur Cesar Isaia para a Revista de História, 09/06/2008. http://migre.me/b5MAQ

- O discurso médico psiquiátrico em defesa do espiritismo na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro nos anos 1920. Por Artur César Isaia. http://migre.me/b5MJ2

- O olhar dos psiquiatras brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão. Revista de Psiquiatria Clínica. Por Angélica A. Silva de Almeida, Ana Maria G. R. Oda e Paulo Dalgalarrondo. http://migre.me/b5MOk

 

Fonte: http://cienciadoinvisivel.blogspot.com.br/2013/02/dialogo-entre-as-ciencias.html




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