Espiritualidade e Sociedade



Paulo Henrique de Figueiredo


>   A História não Contada da Seleção Natural

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Paulo Henrique de Figueiredo
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Há mais de um século a injustiça impera na ciência biológica, afinal você não estudou Alfred Russel Wallace na escola, não é?

A mais simples estrutura natural, como uma folha ou uma mosca, revela uma combinação de alta tecnologia e o uso profundamente inteligente das leis naturais, ofuscando o mais avançado computador. Entretanto, nos últimos dois séculos, milhares de cientistas lutam desesperadamente para afastar da Humanidade a idéia da existência de Deus. Como disse Herculano Pires:

“A inteligência da natureza contrasta chocantemente com a estupidez do homem”.

Mirabolantes teorias afirmam uma tremenda coincidência em que apenas o acaso criou a formidável combinação da Natureza, desde o simples átomo até mesmo a consciência humana.

A ciência materialista surgiu para afastar a razão da hipótese dogmática da Igreja. Segundo a interpretação dos homens sacerdotes, Deus miraculosamente intervêm nos mínimos detalhes, adaptando as circunstâncias aos seus interesses. As confirmações, pela ciência, das leis eternas e imutáveis no Universo, sujeitariam os cientistas a aceitar miraculosas intervenções, subvertendo as leis rejeitadas pela razão.

Mas existe uma terceira alternativa. Ela ao mesmo tempo se submete à prova da experimentação e da pesquisa científica, pois é científica. E, ao mesmo tempo, respeita as exigências lógicas da filosofia, admitindo a causa primária para a Natureza. A teoria da seleção natural segundo o naturalista Alfred Russel Wallace leva em consideração a existência de um mundo espiritual material, etéreo e, até agora, não diretamente perceptível para nós. Seres humanos superiores, e mais antigos que nossa civilização, conduzem a evolução das espécies, respeitando as leis naturais para o surgimento da raça humana. No entanto, por seu caráter espiritualista, sofreu o preconceito e a discriminação dos materialistas, e tem suportado um impiedoso desprezo e esquecimento da comunidade científica.

Para recuperá-la é preciso fazer um resgate do que podemos chamar de “a história não contada da evolução das espécies pela seleção natural”.


QUEM DESCOBRIU A TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL?

Ao se perguntar quem descobriu a teoria da evolução por seleção natural, invariavelmente se ouvirá como resposta que foi o naturalista inglês Charles Darwin. Contudo, pesquisas historiográficas recentes têm revelado outra versão.

A doutrina espírita teve início com a publicação de o Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1858. Nele os espíritos afirmaram, sobre as relações entre as espécies:

“Tudo na Natureza é transição, por isso mesmo que uma coisa não se assemelha a outra e, no entanto, todas se prendem umas as outras”.

Entretanto, os homens iriam conhecer formalmente a teoria da seleção natural e a origem das espécies somente no ano seguinte, 1858, com a apresentação formal do bem elaborado artigo de Alfred Russel Wallace no Jornal de Sociedade Lineana de Londres, no artigo intitulado Da tendência das espécies em se afastarem indefinidamente das que as originaram – On the tendency of varirties to depart indefinitely from the original type.

Darwin era um homem honesto e de bom coração, mas não estava preparado para abrir mão de seu pioneirismo em relação à teoria da seleção natural. Seu grande amigo, conselheiro, crítico e divulgador Joseph Dalton Hooker já havia feito uma visita para informá-lo que um naturalista inglês, Alfred Russel Wallace, até então desconhecido, havia publicado em 1855 um artigo, Sobre a lei que regulou a introdução de novas espécies, que ia no caminho da sua teoria. Wallace estudava a distribuição geográfica dos animais e plantas da Malásia e concluiu que “todas as espécies haviam surgido coincidentemente, no tempo e no espaço, com alguma espécie preexistente e estreitamente aliada”.

O naturalista Charles Lyel, outro importante conselheiro de Darwin, insistiu para que o amigo publicasse logo para não ficar para trás. Darwin escreveu em 1856:

“Na verdade, detesto a idéia de escrever almejando a prioridade, mas decerto ficaria aborrecido se viessem a publicar minhas teorias antes de mim”.

Nessa época ele achava seu livro infindável: “Espero viver para terminá-lo”. Darwin começou a se corresponder com Wallace, que estava pesquisando nas ilhas da Indonésia. E chegou a receber contribuições teóricas e, inclusive, animais enviados por Wallace, para auxiliar suas pesquisas. Em 1857, Darwin chegou a confidenciar para Wallace:

“No momento estou preparando meu trabalho para publicação, embora eu tenha redigido muitos capítulos, não creio que possa levá-los ao prelo em menos de dois anos”. É importante destacar que, em nenhum momento, Darwin e Wallace conheciam a extensão e detalhes da pesquisa um do outro.


WALLACE CONCLUI SUA PRIMEIRA DESCOBERTA

Wallace havia feito sua descoberta independente da pesquisa do naturalista Charles Darwin. Este tinha pesquisado o assunto nos vinte anos anteriores, sem conseguir concluir uma apresentação formal de sua teoria. Nada havia publicado até então. Quando Wallace terminou sua pesquisa, elaborou sua tese e concluiu seu artigo. O enviou para Darwin, pedindo que fosse apresentado ao famoso naturalista – protetor de Darwin – Charles Lyell. Escreveria então Darwin a Lyell:

“Parece-me muito digno de ser lido. Tuas palavras, quando disseste que alguém se anteciparia a mim, confirmaram-se num grau incomum. Nunca vi coincidência mais impressionante. É claro que escreverei de imediato e me oferecerei a enviá-lo a qualquer periódico. Portanto, toda a minha originalidade, importe ela no que importar, estará arruinada”.

Entretanto Darwin não conseguiu se conter. Uma semana depois ele escreveu novamente a Lyell:

“Há mais ou menos um ano, enviei um pequeno resumo de minhas idéias, do qual tenho uma cópia, a Asa Gray de modo que poderia afirmar e provar que não tirei nada de Wallace. Eu ficaria extremamente feliz, neste momento, em publicar um esboço de minhas concepções gerais, com cerca de dez páginas. Mas não consigo convencer-me de que possa fazê-lo de forma honrada. Mas, visto que eu não tencionava publicar nenhum resumo, será que posso fazê-lo honradamente, pelo fato de Wallace me haver remetido um esboço de sua Doutrina? Não creio, minimamente, que ele tenha concebido suas idéias a partir de nada que eu possa ter-lhe escrito (...) estou exausto de tanto meditar”.


UMA SOLUÇÃO DE DUVIDOSA HONRADEZ

Alguns dias depois, seguindo as sugestões insinuadas por Charles Darwin, Hooker e Lyell sugeriram que o artigo de Wallace fosse apresentado à Sociedade Lineana de Londres, juntamente com a carta de Darwin ao naturalista botânico norte-americano, Asa Gray, e ainda com um resumo escrito por Darwin em 1844. Apesar de os textos serem incompletos e não elaborados para essa finalidade, Darwin enviou o documento para Hooker.

“Envio o esboço de 1844 unicamente para que possas ver, por tua própria letra que de fato o leste. Na verdade não suporto olhar para ele. Não desperdices muito tempo. É reles de minha parte dar qualquer importância a prioridade. Eu faria um esboço semelhante, porém mais curto e mais preciso para o Jornal Lineana de Londres. Farei qualquer coisa”.

Lyell e Hooker apresentaram à Sociedade Lineana de Londres a carta de Darwin junto ao artigo de Wallace. Dias depois escreveria Darwin a Hooker (13 de julho de 1858):

“Sempre julguei muito possível que alguém se antecipasse a mim, porém imaginava ter uma alma suficientemente nobre para não me importar; entretanto descobri-me equivocado e punido. Apesar disso eu estava bastante resignado e já escrevera metade de uma carta a Wallace para lhe conceder toda a prioridade e decerto não a teria modificado, não fosse pela extrema bondade tua e de Lyell. Estou muito mais do que satisfeito com o que aconteceu na Sociedade Lineana de Londres. Eu havia suposto que tua carta e a que eu escrevi a Asa Gray seriam apenas um apêndice do artigo de Wallace”.

Imediatamente Darwin começou a trabalhar num resumo não tão completo e fundamentado como desejava.

Enquanto tudo isso acontecia, Wallace continuava suas pesquisas na Indonésia. Espírito desprendido e cordial, não se importou, e se declarou satisfeito com a decisão da apresentação formal na Sociedade Lineana de Londres. Em janeiro de 1859, Darwin ainda escreveria a Wallace dizendo, politicamente:

“Embora eu não tenha tido nada, absolutamente nada, a ver com o que levou Lyell e Hooker ao que eles julgaram ser o curso de ação correto, é natural que não pudesse deixar de me sentir ansioso de saber qual seria a vossa impressão (...). Todas as pessoas com quem estive julgaram vosso artigo muito bem redigido e interessante. Ele deixa ofuscados os meus excertos (escritos em 1839, já se vão vinte anos!), os quais, devo dizer à guisa de desculpa, nunca foram, nem por um instante, destinados à publicação”.

No entanto, registrou a história, o foram.

Somente em novembro de 1859, Charles Darwin apressaria a impressão de um único volume, "A Origem das Espécies", em vez de publicar o longo tratado que havia planejado. No entanto, o livro de Darwin, apesar de seu título, em nenhum momento tratou da origem das espécies! Como afirmou Camille Flammarion:

“Contenta-se em explicar a variabilidade possível de um certo número de tipos primitivos, e é uma nota no mínimo singular, que, em obra tão volumosa e opulenta sobre a origem dos seres, não se trate absolutamente dessa origem!”.


MATERIALISTAS IGNORAM WALLACE

Pode-se perguntar então o motivo de os livros e publicações, ignorando tantas evidências históricas, manterem no anonimato a carreira e a descoberta de Wallace, exaltando, por outro lado, a pesquisa de Darwin isoladamente. Uma hipótese muito provável está relacionada com as pesquisas posteriores dos dois naturalistas, na divulgação e elaboração das conseqüências de suas descobertas. Darwin, do dogmatismo religioso caminhara para uma explicação materialista, apesar de continuar a acreditar em Deus. E Wallace, de materialista convicto tornara-se espírita! Essas suas convicções influenciaram a conclusão de suas pesquisas e determinaram também o destino de suas carreiras, quando submetidos aos caprichos da nascente ciência materialista.

Darwin, apesar de acreditar em Deus como causa primária de tudo, em seu livro "A Origem das Espécies" ofereceu embasamento teórico para os materialistas, principalmente os alemães, na mesma época em que surgia o Espiritismo na França.

Por sua vez, Wallace caminhava na direção oposta, quando, referindo-se aos fenômenos espíritas, declarou:

“Eu era um materialista tão completo e convicto que não podia haver no meu espírito lugar para existência espiritual e para qualquer outro agente universal, senão a matéria e força. Os fatos, porém, são coisas bem teimosas. A minha curiosidade foi, a princípio despertada por alguns fenômenos ligeiros, mas inexplicáveis, que se produziam numa família de minhas relações, e o meu desejo de saber e o amor pela verdade forçaram-me a prosseguir nas investigações. Os fatos tornaram-se cada vez mais exatos e variados, e ao mesmo tempo distantes de tudo que a Ciência moderna ensina e de todas as especulações da filosofia atual. Os fatos venceram-me!”.

Wallace, na busca da verdade, a encontrara nos fenômenos do magnetismo animal, do sonambulismo provocado e da mediunidade no espiritualismo moderno.


DARWIN ERA EVOLUCIONISTA ATORMENTADO E INSEGURO


A insegurança de Darwin em publicar suas idéias tinha um motivo. Darwin quase chegara a se tornar um pregador anglicano. Seu pai, um famoso e rico médico queria que ele seguisse a sua profissão. Entretanto Darwin não suportava o ambiente médico da época. Numa ocasião fugira repentinamente quando assistia a uma operação de amputação de uma criança, naquela época feita sem anestesia. A outra opção ofertada por seu pai havia sido a, também lucrativa, carreira eclesiástica. Essa opção era exclusivamente financeira, pois seu pai chegava mesmo a duvidar dos postulados cristãos. O irmão de Darwin, seu avô e outros componentes de sua família também eram avessos ao dogmatismo religioso. No entanto, ele não chegou a abraçar a carreira. Cursou teologia sem muito interesse e logo iniciou suas viagens de pesquisa. Seu desejo era o de seguir como pesquisador independente de ciência natural, como seu irmão Erasmus.

Em sua autobiografia Darwin afirmou:

“Eu era ortodoxo na época em que estive a bordo do navio Beagle. Lembro-me de provocar gargalhadas em vários oficiais por citar a Bíblia como uma autoridade incontestável”.

Entretanto sua crença ingênua e cega na interpretação dogmática das Escrituras foi sendo abalada conforme ele estudava biologia. Sigilosamente foi escrevendo um livro secreto sobre suas idéias. Darwin tinha casado com sua prima Emma e passou a ter em casa uma rigorosa vigilante religiosa. Todavia, continuava em sua autobiografia:

“Eu não estava disposto a desistir de minha crença com facilidade. Mas eu tinha uma dificuldade cada vez maior, soltando as rédeas de minha imaginação, de inventar provas suficientes para me convencer. Fui tomado lentamente pela descrença, que acabou sendo completa. A lentidão foi tamanha que não senti nenhuma aflição, e desde então, nunca duvidei de que minha conclusão foi correta. Aliás, mal consigo entender como alguém possa desejar que o Cristianismo seja verdadeiro”.

Os dogmas tomaram um caráter irracional, afinal Deus devia governar por leis e não por meio de intervenções incompreensíveis.

“Podemos permitir que satélites, planetas, sóis, o Universo e ainda sistemas inteiros de universos sejam governados pr leis, mas querem que o menor inseto seja criado imediatamente por um ato especial”, refletia Darwin.

A interpretação literal de Bíblia, inaceitável pelo pensamento racional de Darwin, estava levando-o a se tornar um atormentado e confuso pensador sobre religião e a origem da vida.

“Se o Cristianismo fosse verdadeiro, a linguagem clara do texto parece mostrar que os homens que não tem fé serão eternamente castigados. Isso incluiria, por exemplo, meu pai, meu irmão e quase todos os meus melhores amigos. Essa é uma doutrina execrável”.

A imposição dogmática causava a destruição de suas convicções quando confrontada com a razão, abrindo caminho para a incredulidade.

Todavia Darwin não se interessou pelo estudo científico do espiritualismo. Numa carta endereçada a seu primo, Willian Darwin Fox, ele comentou:

“Falaste da homeopatia, que é um assunto que me deixa mais irado até mesmo do que a clarividência: a clarividência transcende a fé a tal ponto que as faculdades comuns do indivíduo são postas fora de discussão, mas, na homeopatia, o bom senso e a observação corriqueira entram em jogo, e ambos estão fadados a se desperdiçar, para que aquelas doses infinitesimais surtam o menor efeito”.

Ele considerava seu médico pessoal um crédulo ingênuo, quando fez uso de uma vidente, um magnetizador mesmerista e da homeopatia para recuperar a saúde de sua filha. No entanto, quando a própria filha de Darwin teve os seus problemas físicos em ternos descritos minuciosamente pela vidente sonâmbula, imaginou “alguma insinuação inconsciente” provocada pela presença de seu médico.

Na sua autobiografia seu conflito íntimo é evidente:

“No passado, tinha firme convicção da existência de Deus e da imortalidade da alma. Lembro-me de minha convicção de que existem mais coisas no homem do que a mera respiração de seu corpo”.

Mas enfim ele chegou a definir ao que se reduzira a crença:

“Sito-me obrigado a buscar uma causa primária, dotada de uma mente inteligente e até certo ponto, análoga a do homem, e mereço ser chamado de teísta” (crença em qualquer deus).

Definitivamente Darwin acreditava numa causa primária. No entanto não via como provar a sua convicção cientificamente. Não encontrava meios de expor o espiritualismo positivamente. E então concluiu:

“Não tenho a pretensão de lançar luz sobre esses problemas obscuros. O mistério do início de todas as coisas nos é insolúvel. Devo contentar-me em permanecer agnóstico”.

Ou seja, não acreditava ser possível confirmar positivamente a existência de Deus e da alma.


POR QUE DEUS CRIOU A LEI DA SELEÇÃO NATURAL?

Duas questões haviam ficado em aberto depois da publicação dos trabalhos de Darwin e Wallace. Qual a finalidade, o propósito, da lei de seleção natural e qual a posição da espécie humana quanto à sua origem: era um caso especial na Natureza ou uma espécie criada pelo acaso, entre tantas outras? Essas duas questões definiram claramente os caminhos seguidos pelos dois naturalistas descobridores da teoria, e das conclusões finais de suas pesquisas. A fuga dos dogmas religiosos, no início da formação da ciência, oferecia dois caminhos opostos: o materialismo e o espiritualismo científico. Darwin foi arrebatado pelo primeiro e Wallace convencido, por sua razão, pelo segundo.

Segundo Wallace, a seleção natural foi criada por Deus como instrumento para o surgimento da raça humana. Para isso, no entanto, não haveria uma intervenção direta de Deus na matéria para corrigir os desvios causados pelo acaso, isso teria feito por espíritos superiores, habitantes de outros universos materiais compostos por fluídos etéreos. O homem é, na visão de Wallace, um ser especial, destinado por Deus para uma evolução espiritual até que possa cumprir sua missão como co-criador do Ser Supremo. Wallace chegou a essas conclusões por meio de suas pesquisas sobre o mesmerismo, sonambulismo provocado e espiritualismo moderno. Muitas de suas idéias foram inspiradas pela investigação sobre as declarações dos espíritos comunicantes em sessões espíritas.

Já Darwin, como fruto de seu conflito, titubeava em explicações contraditórias, tentando conciliar sua crença religiosa natural com o assédio dos materialistas ateus, que repudiava. Entretanto, homens como o médico e pensador alemão Ludwig Büchner, Carl Vogt e Ernest Haekel eram ávidos em colocá-lo como mentor de suas conclusões materialistas.


OS CAMINHOS DA FILOSOFIA E DA CIÊNCIA

A ciência do século 18 era predominantemente metafísica. E foi apenas no século 19 que começou a prevalecer a hipótese materialista mecanicista. Na mesma época em que Kardec desenvolvia a doutrina espírita em seus aspectos filosóficos, científicos e religiosos na França – dando sanção ao pensamento científico espiritualista do século anterior – surgia na Alemanha um grupo de pensadores materialistas portadores de um programa que, coincidência ou não, combatia todos os postulados básicos da filosofia espírita. Esses homens foram os fundadores da ciência materialista dogmática que impera desde então, e ainda hoje, nos meios acadêmicos e científicos.

Naquela época, pensadores como o alemão Ernest Haekel, lutavam radicalmente contra a Igreja, e com isso eliminavam tudo o que para eles nascia dos dogmas. “O dogma antropocêntrico tem por ponto culminante que o homem é o centro, o alvo final previamente consignado a toda a vida terrestre”, disse o alemão. Para ele, também eram dogmas a crença da criação do Universo, a imortalidade da alma, o fluído vital, o livre-arbítrio do homem, as idéias inatas, a alma dos animais. Entretanto, não expôs em suas obras refutações racionais, limitando-se basicamente a simplesmente negar.

A Igreja, todavia, pouco tinha a argumentar contra a investida dos materialistas. “Uma das acusações perpétuas da Igreja contra a ciência, é que esta é materialista. Eu desejaria fazer notar de passagem que a concepção eclesiástica da vida futura foi sempre e é ainda o materialismo mais puro, o corpo material deve ressuscitar e habitar um céu material”, afirmou Savage (citado por Haelkel).

Quando Haekel analisou a reencarnação, o corpo espiritual e os fenômenos sonambúlicos, em seu livro Os Enigmas do universo, considerou apenas negativas e desconsiderações, sem nenhuma argumentação lógica. Quanto a reencarnação: “O que há de infantil e de ingênuo nessas teorias da alma, salta aos olhos. Mencioná-los somente aqui, porque, apesar do seu absurdo, exerceram maior influência sobre a história do pensamento”. E é só! Quanto à imortalidade da alma faz ele apenas uma conclusão: “A crença na imortalidade da alma humana é um dogma, que se encontra em contradição insolúvel com os dados experimentais mais certos da ciência moderna”. Mas não fez uso de nenhuma pesquisa ou fundamentação científica para fundamentar sua opinião.

Contudo, Camille Flammarion demonstra a ligação entre a pesquisa de Darwin (mesmo contra sua vontade) e os materialistas. O físico inglês Isaac Newton havia afirmado que a descrição anatômica do globo visual, pela sua complexidade, demonstrava a existência de uma inteligência conhecedora da ótica. Por sua vez, Darwin acreditava que somente o acaso tinha criado o mecanismo da visão. “O olho formou-se por si ´mesmo!”, disse ele.

Mas para Flammarion, essa conclusão era ingênua e oferecia subsídios para a argumentação materialista de Büchener. “Este fato importante é a aquisição dessa meia-ciência, realizada em duas fases, a primeira com Darwin e a segunda com Büchner. Este nos diz que ao escrever, há sete anos, sobre a inexistência de Deus, não esperava que os progressos constantes da Natureza lhe fornecessem, tão cedo, provas tão exatas e convincentes, em apoio de sua doutrina; e essas provas é Darwin que se encarrega de as editar. ‘Está enfim provado (?) que o olho, órgãos dos mais perfeitos do corpo animal desenvolveu-se insensivelmente de uma simples nervo sensitivo!’. O senhor Büchner exulta de alegria com esse feito, ou por melhor dizer, com essa teoria que lhe prova, ao seu ver, a inexistência de Deus”.


UMA VISITA INCONVENIENTE

Em 1881, Charles Darwin recebeu um telegrama secreto dizendo que o doutor Büchner estava em Londres e desejava ter a honra de visitá-lo. Isso causou uma perturbação na família. Darwin assumira uma posição heróica. Büchner julgava estar saudando um nobre aliado. Darwin ficou constrangido. Sua esposa Emma, estarrecida, propôs convidar um pastor amigo da família para conter a conversa dos ateus. Na conversa após o jantar, Darwin diria a Büchner: “Por que você deveria ser tão agressivo? Diz respeito a impor novas idéias às pessoas?”.

Darwin passou a acreditar que todos os órgãos corporais e mentais de todos os seres foram desenvolvidos através de uma seleção natural. Nesse sentido o pensamento seria fruto do uso do cérebro. Não imaginava como poderia existir uma realidade extra-física. Sua formação o afastava de tudo o que considerava sobrenatural, irracional. Darwin não tolerava o espiritualismo. Ele chegou a participar de uma sessão de efeitos físicos. Sentou-se ao lado do médium, segurando sua mão e apoiando-se sobre seu pé. Quando iriam iniciar os fenômenos surpreendentemente deixou a mesa e recolheu-se aos seus aposentos. Logo após, a mesa flutuaria pela sala e flores se materializariam sem contar com o seu testemunho. Quando Wallace afirmou: “Espero que não tenhas assassinado totalmente o teu e o meu filho”.

Mas o naturalista Alfred Wallace estava bastante consciente dos resultados de suas pesquisas científicas e espíritas. Colocava sua convicção racional acima das perseguições que sofria. “Não é exagero afirmar que os fatos principais da realidade espiritual estão hoje tão bem caracterizados e são também tão facilmente verificáveis quanto quaisquer outros fenômenos excepcionais da Natureza, ainda não reduzidos a uma lei”, afirmou em 1874.

Wallace já conhecia o sonambulismo provocado e estudara os livros de Mesmer, Puységur e outros pesquisadores da ciência do magnetismo animal. Fazia experimentações sonambulisando seus alunos e, quando de sua passagem pelo Brasil, levou ao transe índios do Belém do Pará. Em busca de compreender a natureza do ser humano, empreendeu investigações e pesquisas sobre a mediunidade em todas as suas modalidades. Cada vez mais esclarecido, estudou as declarações dos espíritos e chegou a formular uma união de sua descoberta sobre a evolução das espécies com as revelações espirituais, sem, no entanto, conhecer a filosofia espírita de Kardec: “Deve existir um mundo invisível do espírito que faz com que ocorram mudanças no mundo da matéria; e a evolução deste planeta deve receber orientação e auxílio externos, de inteligências superiores e invisíveis, às quais o homem é suscetível enquanto ser espiritual. Além disso, essas inteligências muito provavelmente existem em seres de grau superior a nós”, explicou Wallace em sua obra The World of Life.


A ORIGEM DO HOMEM

Em setembro de 1857, alguns meses depois do lançamento de o Livro dos Espíritos, Wallace perguntou se Darwin iria discutir o homem em seu trabalho. Darwin respondeu-lhe: “Creio que evitarei todo esse assunto, por ser muito cercado de preconceitos, embora reconheça plenamente que ele é o problema supremo e mais interessante para um naturalista”. Realmente, em seu livro Origem das Espécies, Darwin apenas citou, num dos últimos parágrafos, que “nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história” e nada mais.

Já Alfred Russel Wallace fez uso de seu notável senso científico mergulhando numa extensa, detalhada e fundamental pesquisa do Espiritismo científico, filosófico e religioso. A publicação de sua obra The scientific aspect os supernatural (O aspecto científico do sobrenatural[1] - Ver nota), em 1866, despertou o preconceito da ciência materialista. Sua pesquisa se estendeu até as conseqüências morais da filosofia espírita: “Após a morte, o espírito humano sobrevive em um corpo etéreo, dotado de novas capacidades, mas sendo mental e moralmente o mesmo indivíduo que era quando vestido de carne: que ele inicia, a partir de certo momento, um curso de progressão aparentemente sem fim cuja velocidade está na medida que as suas faculdades mentais e morais são exercitadas e cultivadas enquanto se acha na Terra; que suas alegrias ou suas misérias relativas irão depender inteiramente dele mesmo”.

Somente em 1871, Darwin trataria do assunto. Publicou, então, um enorme tratado denominado A origem do homem e a seleção sexual, na qual chegou à conclusão oposta de Wallace. “A diferença entre o homem e os animais superiores, por maior que seja, certamente é de grau e não de gênero (...). Poderíamos traçar um gráfico, partindo da mente de um homem completamente idiota, que fica mais embaixo na escala do que aquela do mais primitivo dos animais, até chegar a mente de um Newton”, exemplificou Darwin. Entretanto os espíritos já haviam afirmado, há mais de uma década, em O Livro dos Espíritos. “Há entre a alma dos animais e a do homem distância equivalente à que medeia entre a alma do homem e Deus”.

Em sua obra A Gênese, publicada em janeiro de 1868, Allan Kardec consideraria a hipótese da evolução da raça humana a partir da encarnação de espíritos em corpos animais, confirmando a hipótese de Wallace: “Da semelhança, que há, de formas exteriores entre o corpo do homem e do macaco, concluíram alguns fisiologistas que o primeiro é apenas uma transformação do segundo. Bem pode dar-se que corpos de macaco tenham servido de vestidura aos primeiros espíritos humanos. (...) Vestiu-se então da pele do macaco, sem deixar de ser espírito humano, como o homem não raro se reveste da pele de certos animais sem deixar de ser homem. (...) A semelhança do corpo do homem com o do macaco não implica paridade entre seu espírito e o do macaco”. Nesta citação poderíamos substituir “macaco” por “primata ancestral”.

A história da ciência tem sido contada pelo ponto de vista materialista desde o último século. A ciência materialista só vê um lado das coisas. No entanto, não é a única maneira de se compreender a Natureza. Nem mesmo será a última. Podemos afirmar que o materialismo e mesmo o positivismo são apenas “uma das fórmulas temporárias da evolução filosófica, pois os séculos não sucederam aos séculos, não se acumularam as obras dos sábios e dos filósofos para tudo ficar limitado à teoria do desconhecido. O pensamento humano avança, desenvolve-se e, dia a dia, penetra mais além. O que hoje é ignorado não o será amanhã. A carreira do espírito humano não está terminada. Fixar-lhe um limite, é desconhecer a lei do progresso, é falsear a verdade”, afirmou Léon Denis em Depois da morte.

E então concluímos com o raciocínio lúcido de Léon Denis: “Tempo chegará em que todos esses vocábulos: materialista, positivista, espiritualista, perderão sua razão de ser, porque o pensamento estará livre das peias e barreiras que lhe impõem escolas e sistemas. Quando perscrutarmos o fundo das coisas, reconhecemos que matéria e espírito não passam de meios variáveis e relativos para expressão do que existe unicamente de positivo no universo, isto é – a força e a vida, que, achando-se em estado latente no mineral, se vão desenvolvendo progressivamente do vegetal ao ente humano, e, mesmo acima deste, nos degraus inumeráveis da escala superior”.

No entanto, é importante ressaltar que não nos cabe aguardar pela nossa evolução, mas sim construí-la.

 

PARA SABER MAIS

- Origem das espécies, Charles Darwin. Editora Itatiaia
- As cartas de Charles Darwin: uma seleta, 1825-1859. Editora Unesp
- Autobiografía, 1809-1882, Charles Darwin. Contraponto
- Darwin, a vida de um evolucionista atormentado, Adrian Desmond e James Moore. Geração Editorial
- Deus na natureza, Camille Flammarion. FEB http:///www.wku.edu/~smithch/index1.htm. Um site completo com textos originais, biografia, fotografias, todo sobre Alfred Russel Wallace. Em Inglês.

 

Quadro 1

TEORIA DA EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES

A teoria da evolução das espécies teve como primeira alternativa, ao criacionismo, as idéias de Jean Baptista Lamarck (1774-1829). Em 1809 ele publicou o livro Filosofia Zoológica, no qual a evolução se dava por duas leis fundamentais: o princípio do uso e desuso, e o da transmissão de caracteres adquiridos. A primeira, afirmava que o uso intensivo de determinadas partes do corpo do organismo, fariam com que estas se desenvolvessem; já o desuso, as atrofiariam. E a segunda se dava pela transmissão das características que haviam sido alteradas pelo uso e desuso, aos descendentes. As girafas, por exemplo, teriam o pescoço longo, porque seus ancestrais, de pescoço curto, precisaram buscar alimentos em folhagens cada vez mais altas. O esforço para buscar comida, de geração em geração, esticou o pescoço. Esse alongamento chegou às atuais girafas. Uso e desuso e transmissão de características. Essa teoria não é mais aceita pela simples comprovação de que as características adquiridas não são hereditárias. A biologia verificou que as alterações nas células somáticas (do corpo) dos indivíduos não interferem nas informações genéticas das células germinativas (do óvulo e espermatozóide).

Em 1858, é colocada em pauta, por Wallace e Darwin, a teoria atual da evolução das espécies. Diferente proposta de Lamarck, a teoria demonstra uma competição acirrada entre os organismos de uma mesma espécie; esses indivíduos apresentam variações, não sendo idênticos em suas características. Só o mais forte sobrevive, originando filhos mais capazes de se adaptar ao meio ambiente. Os princípios se dão por alguns termos. Todo organismo tem grande capacidade de reprodução, produzindo muitos descendentes. Contudo apenas uma pequena parte destes chega à idade adulta. Os que alcançam a maturidade são aqueles com condições mais favoráveis de adaptação no meio em que vivem. Esses organismos adultos, com essas variações vantajosas, produzem descendentes. As características hereditárias são, então, transmitidas de pais para filhos e por isso os filhotes apresentam as variações. A nova geração passa pelo mesmo processo, e assim sucessivamente. É um ciclo interminável, cada geração é bem mais preparada que a anterior. Vejamos o exemplo das girafas. Neste caso haviam animais de pescoço curto e longo e suas características eram transmitidas a seus filhos. Mas as de pescoço mais longos sobreviviam em maior número, pois conseguiam se alimentar melhor. De geração a geração, as de pescoço curto foram se extinguindo. Na luta pela vida, só as de pescoço alongado sobreviveram; afinal, para elas não faltava alimento. Ocorreu a seleção natural.


Quadro 2

CHARLES ROBERT DARWIN

O inglês nasceu na cidade de Shrewsburry, no dia 12 de fevereiro de 1809. Quinto filho de uma família aristocrata fazia seu pai, Robert Darwin, um bem sucedido médico, ficar horrorizado com sua coleção de besouros e sua “caça aos ratos”. Robert desejava que Darwin seguisse a mesma carreira que ele e seu pai, fazendo uma terceira geração de médicos. E lá foi em 1925, para Edimburgo estudar medicina. Sua paixão pelas ciências naturais, foi despertada com toda força. Contudo, após dois anos de estudo, ao observar a operação de um paciente sem anestesia, Darwin descobriu que não tinha vocação para a área médica. Seu pai logo o incentivou a uma outra carreira: a eclesiástica, pela Igreja Anglicana. E novamente, a ciência natural, veio ao seu encalço. Teve como professor o botânico John Stevens Henslow e como amigo o geólogo Adam Sedgwick. O primeiro lhe incentivou a exercer seu dom para o naturalismo, explicando a importância da observação e o recolhimento de espécies para estudo. Já o segundo lhe ensinou a analisar as rochas e os solos. E foi seu professor que conseguiu embarcar Darwin no navio de investigação cartográfica e exploratória, HMS Beagle. Era 1831, Darwin havia acabado de se formar e pôde praticar seus conhecimentos em todos os Continentes. Foram cinco anos de viagens ao redor do mundo. Nesse período, ele veio ao Brasil mais de uma vez. Ao voltar para a Inglaterra, em 1836, tinha coletado mais de 1500 espécies. Suas considerações foram publicadas com o título de Zoologia no Beagle. A partir desse momento Darwin inicia sua procura pela prova que conferia a mudança das espécies, pois observou em sua viagem que os mesmos animais apresentavam características distintas conforme o local onde habitavam. Em 1939, casou-se com sua prima Emma, com quem teve dez filhos. Nesse período, os primeiros sintomas de Chagas começaram a se manifestar, ele havia sido picado em sua extensa viagem. Também nessa época, ele escreveu diversos tratados geológicos, sendo o mais importante deles a explicação sobre o bosque petrificado dos Andes.

Após ser pressionado para publicar suas hipóteses antes de outro pesquisador que chegara a conclusões semelhantes, lançou em 1859, A Origem das Espécies. A obra, revolucionária, para a época que tinha o criacionismo como idéia da origem da vida, levou Darwin a diversos debates e polêmicas, criando inimizades, principalmente dentro da Igreja. Para fundamentar sua teoria, Darwin escreveu mais três livros sobre o assunto. Faleceu de um ataque cardíaco em 1882.

 

Quadro 3

ALFRED RUSSEL WALLACE

A pesquisa científica sobre as comunicações com os espíritos para provar os fenômenos mediúnicos tornou Wallace alvo do preconceito da comunidade científica materialista, sendo injustamente colocado, por décadas, à margem da história da ciência. Com sua irmã Fanny, ele freqüentava sessões mediúnicas, nas quais os espíritos demonstravam materializações, transporte de objetos, escrita direta sobre pranchetas e se comunicavam por meio de batidas e psicografia. Os mais renomados médiuns daquela época passaram pelo seu senso crítico. Wallace desenvolveu um sistema metodológico para dar estrutura à pesquisa da nova fenomenologia. Sua crença impediu por muito tempo seu acesso a cargos públicos e pensões, apesar de ser merecedor por seus trabalhos científicos.

Alfred Russel Wallace, nasceu em Usk, Monmouthshire, País de Gales, no dia 08 de janeiro de 1823. Inicialmente interessado por botânica, passou ao estudo dos insetos e animais por influência do naturalista britânico Henry Walter Bates. Em 1848, ambos empreenderam uma expedição pela Amazônia, que durou dois anos, sobre a qual Wallace escreveu o livro Narrative of travels on the Amazon and Rio Negro, publicado em 1853. No seu retorno à Inglaterra, o navio em que viajava incendiou e afundou. Apesar de ter perdido as diversas espécies que havia coletado durante a viagem, Wallace e a tripulação do navio conseguiram escapar e foram recolhidos por um outro barco, nove dias depois.

Após a ida à Amazônia, Wallace foi explorar o Arquipélago Malaio (atual Indonésia), onde permaneceu de 1854 a 1862, realizando um extraordinário trabalho de observações e de coleta. Ele recolheu cerca de 124.000 espécimes, na sua grande maioria insetos, dos quais milhares eram desconhecidos pela ciência. Depois dessa viagem voltou definitivamente para a Inglaterra. Entre vários livros importantes devem ser lembrados O Arquipélago Malaio (1869), Os Milagres e o Espiritualismo moderno (1875), Distribuição Geográfica dos animais (1876) e a sua autobiografia Minha Vida (1905).

Os temas sociais também preocupavam Wallace. Manifestou-se contra os cercamentos na Inglaterra e, na política, defendeu o voto feminino. Escreveu um visionário plano de manejo da floresta Epping, uma das últimas reservas naturais dos arredores de Londres, que estava sendo destruída pelos loteamentos – pelo qual ele bem poderia receber o título de fundador do ambientalismo moderno. Também defendeu a nacionalização das ferrovias e o socialismo. No final da vida estava estudando astronomia para provar sua tese sobre a intervenção de uma inteligência superior na evolução das espécies, contra a tese de Darwin, que impugnava ao acaso.

Segundo o professor Charles Snith, na época de seu desencarne (1913), Wallace era o mais famoso cientista do mundo. A imprensa o denominava como: “O maior naturalista inglês vivo”; “Uma das duas mais importantes e significativas figuras do século 19”; “Uma figura que pode se chamar única”; “O último dos gigantes ingleses da ciência do século 19”.

 

Quadro 4

ALLAN KARDEC CONSIDERA A EVOLUÇÃO DA ESPÉCIE HUMANA

Em 1868, a sociedade mundial ainda discutia a teoria da evolução. Ao publicar A Gênese, Allan Kardec considerou a tese de Wallace e Darwin, conforme descrito no XI capítulo dessa obra, no subtítulo hipótese sobre a origem do corpo humano. Acompanhe um trecho:

“Da semelhança, que há, de formas exteriores entre o corpo do homem e do macaco, concluíram alguns fisiologistas que o primeiro é apenas uma transformação do segundo. Nada aí há de impossível, nem o que, se assim for, afete a dignidade do homem. Bem pode dar-se que corpos de macaco tenham servido de vestidura aos primeiros espíritos humanos, forçosamente pouco adiantados, que viessem encarnar na Terra, sendo essa vestidura mais apropriada às suas necessidades e mais adequadas ao exercício de suas faculdades, do que o corpo de qualquer outro animal. Em vez de se fazer para o espírito um invólucro especial, ele teria achado um já pronto.

Vestiu-se então na pele do macaco, sem deixar de ser espírito humano, como o homem não raro se reveste da pele de certos animais, sem deixar de ser homem.

Fique bem entendido que aqui unicamente se trata de uma hipótese, de modo algum posta como princípio, mas apresentada apenas para mostrar que o origem do corpo em nada prejudica o espírito, que é o ser principal, e que a semelhança do corpo do homem com o do macaco não implica paridade entre o seu espírito e o do macaco.

Admitida essa hipótese, pode dizer-se que, sob a influência e por efeito da atividade intelectual do seu novo habitante, o envoltório se modificou, embelezou-se nas particularidades, conservando a forma geral do conjunto. Melhorados, os corpos, pela procriação, se reproduziram nas mesmas condições, como sucede com as árvores de enxerto. Deram origem a uma espécie nova, que pouco a pouco se afastou do tipo primitivo, à proporção que o espírito progrediu. O espírito macaco, que não foi aniquilado, continuou a procriar, para seu uso, corpos de macaco, do mesmo modo que o fruto da árvore silvestre reproduz árvores dessa espécie, e o espírito humano procriou corpos de homem, variantes do primeiro molde em que ele se meteu. O tronco se bifurcou: produziu um ramo, que por sua vez se tornou tronco.

Como na Natureza não há transições bruscas, é provável que os primeiros homens aparecidos na Terra pouco deferissem do macaco pela forma exterior e não muito também pela inteligência. Em nossos dias ainda há selvagens que, pelo comprimento dos braços e dos pés e pela conformação da cabeça, tem tanta parecença com o macaco, que só lhes falta ser peludos, para se tornar completa e semelhante.

 

Quadro 5

TEORIA ANTES DA EVOLUÇÃO

Até o século 19 a teoria para a origem das espécies era criacionista/catastrofista. Assim como está descrito na Bíblia, todas as espécies foram criadas de uma só vez pelo Senhor Supremo, Deus. É nisso que acreditavam a maioria dos cientistas da época. E baseavam sua tese com o catastrofismo, dessa forma explicavam as mudanças na formação básica da Terra, já observada, e mostravam que a Terra teria sofrido diversas criações de vida animal e vegetal, por causa das catástrofes sucessivas. A última delas havia sido o dilúvio universal, só sobrevivendo a ele as espécies que estavam na Arca de Noé.

Agora imagine aparecer uma teoria que ausentava Deus das modificações sofridas por organismos vivos. O retirava da intervenção nas transformações das espécies, nas coisas do mundo, diminuindo seu “poder supremo”. Realmente foi uma revolução. Para se ter idéia, a teoria da evolução só foi aceita, após admitir as idéias de Mendel, que em 1965 apresentou a tese da característica hereditária, aceita 30 anos depois, em 1905. (ATENÇAO PARA ESSAS DATAS, NÃO SERIA 1875 E 1905? Fiquei em dúvida, por isso não corrigi)
Foi somente em 1997 que a Igreja Católica, pelo Papa João Paulo II, acatou a teoria da evolução das espécies.

 

Quadro 6

O ASPECTO CIENTÍFICO DO SOBRENATURAL

[1] Alfred Russel Wallace – Publicações Lachâtre – O primeiro contato do autor com os fenômenos espiritualistas aconteceu com 21 anos, em 1844, quando lecionava numa escola em Midland – Inglaterra. Naquele ano, ele assistiu as conferências do escritor Spencer Hall sobre o mesmerismo. Spencer havia aprendido a sonambulizar com o famoso pesquisador do magnetismo animal, Lafontaine, e passou a viajar pela Inglaterra divulgando o assunto. A partir dessa época, Wallace aprofundou suas pesquisas sobre o naturalismo e espiritualismo. Sua primeira obra a respeito de fenômenos do magnetismo animal da clarividência e do espiritualismo moderno, foi publicada em 1866, The scientifc aspect of the supernatural. Apesar de ter tratado o assunto com rigor científico, e de já ser conhecido como destacado naturalista, a obra foi recebida com desprezo pela comunidade científica inglesa. Até os últimos anos de vida, Wallace publicou centenas de artigos e livros, como o clássico: Os milagres e o espiritualismo moderno; tornando-se um importante divulgador da ciência espírita. A edição revisada e aumentada por Wallace, em 1875, acaba de ser publicada, traduzida para a língua portuguesa com o título: O aspecto científico do sobrenatural. Esse livro é um importante passo para romper o silêncio criado pelos historiadores da ciência e revelar a profundidade e seriedade da pesquisa do autor sobre o espiritualismo.

 

Fonte: revista Universo Espírita, número 7, março 2004, página 28

 


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