Espiritualidade e Sociedade



... João de Deus / Nino Denani

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Patologias


Com uma freqüência irritante venho me pegando envolto em maus pensa­mentos. Me vejo coberto por aquela nuvem negra que sufoca a todos os que se deixam levar, por descuido ou por von­tade. Nesses momentos, passo a ou­vir as conversas ao meu redor e a sentir enjôo. E fico mais e mais irritado. Me perturba a negatividade dos conver­san­tes, a passividade de alguns ou a atividade exacerbada de outros. Me irrita a intole­rância, ou a tolerância excessiva de ou­tros. Em suma; tudo me irrita. Percebo então que uma coisa está levando a outra e que quem escurece meu céu não é ninguém a não ser eu mesmo. Paro e penso, tentando resgatar o momento preciso em que essa fúria enrustida nasceu. Uma topada na guia que quase me fez cair, um olhar torto de alguém, uma palavra rude na rua. Tento pensar, então, qual é o real motivo daquilo, as vezes a vida nos prega peças. Humm... alguém foi grosseiro comigo... será isso mesmo? Ou ele só não correspondeu às minhas expectativas? O que o levou a ser assim, a tomar uma atitude tão seca comigo? Quase sempre a resposta nos trás o sentimento de frustração. Foi isso?

A frustração é um sentimento que é quase patológico nos dias globalizados e egoístas de hoje, e age como um vírus, é transmitido pelo ar.

Cada um age de uma certa forma, que é decidida através de uma série de variantes que, por sua vez, são implan­tadas em nosso subconsciente durante o que chamamos de “infância”. Como cada um tem uma vida única, ou seja, uma linha de experiências e sensações, objetivos e caminhos únicos, é pratica­mente impossível que duas pessoas tenham as mesmas ações para um mesmo evento, pelo menos inconscientemente.

Mas não é ai que está o problema. A tragédia acontece quando esperamos que uma pessoa tenha a mesma reação que nós teríamos naquele caso. A frus­tração acontece quanto alguém não atua conforme o script que redigimos e que, sem querer, não o entregamos para que fosse ensaiado.

Essa frustração logo é transformada em ira e, sem pensarmos, passamos o agente patogênico adiante. Sim, porque não importa o que queremos em nossas vidas, não importa o script que escreve­mos, nunca ninguém colocaria raiva nas pa­la­vras que deseja escutar. E é exata­mente assim que agimos quando contraí­mos esse vírus, pois como qualquer vírus ele tende a se reproduzir e se alastrar.

Começo a achar graça de mim mesmo. Lembro de alguns casos que ou­vi sobre esse tipo de coisa. Casais que vivem verdadeiras histórias de terror, as vezes com um terceiro envolvido, as ve­zes com um quarto, as vezes só entre os dois. Histórias de brigas seculares, cau­sa­das unicamente por uma exposição pro­longada ao vírus-ira. No escritório, na sala de aula, no trem. E ele não é trans­mitido unicamente pelo toque, basta você respirar o mesmo ar sem as devidas proteções que já pode ser contaminado. Duvido que você nunca tenha ficado ner­voso após ter presenciado uma dis­cussão acalorada, mesmo que você não tenha nada a ver com o assunto. É como ficar resfriado. E como o resfriado, abre suas defesas para uma série de outros males, enfraquece seu “sistema imuno­ló­gico espiritual” para os chamados “verdugos” se aproximarem, ou para outras energias baixas se somatizarem ao seu campo energético. Uma coisa leva a outra e logo você nem sabe mais por onde começou. E o vírus já nem é mais o mesmo, é uma mutação muito mais poderosa e perigosa.

Mas calma! Não se desespere! Existem remédios e se você se tratar desde o início é capaz que nem restem seqüelas. O diagnóstico é difícil, depende de fatores que, as vezes são externos a nós. Um ami­go sincero, por exemplo: aconteceu al­guma coisa? Você está nervoso.

Mas é possível, também, o auto-diagnóstico. Será que estou abalado? Aquilo que aconteceu mexeu com os meus nervos? Sinceridade também é importan­te. Enxergar em si mesmo o problema é o pri­meiro passo para a cura. Ora, ninguém to­ma remédio se não souber que está doente!

A partir daí, ou seja, detectado o ví­rus-ira em si próprio, temos que tratar de expulsá-lo. Às vezes é difícil, às vezes vergonhoso. Às vezes sai em forma de lon­gas conversas, às vezes em forma de lágrimas, mas sempre é um ato solitário. Mesmo dialogando com alguém, a escolha entre deixar o vírus sair ou não é feito de si para si mesmo. Caso contrário ele pode ficar até mais forte e mais perigoso.

Assim que a extração for decidida, deixe-se levar. Deixe-se sentir o vírus escoando para fora de seu corpo. Chore se for o caso. E deixe-se amparar pois, nes­se momento mágico, sempre haverá alguém de coração aberto ao seu lado.

Carta de João de Deus – 13/02/2007


por - Médium - Nino Denani -


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