Sem preconceitos
Observadas em todo reino animal e mais freqüentes entre espécimes
em cativeiro, relações sexuais entre indivíduos
do mesmo sexo podem ser uma forma de aliviar o stress, dissipar tensões
sociais e obter ajuda para proteger os filhotes
por Emily V. Driscoll
Roy e Silo, dois pingüins nativos da Antártida, se encontraram,
em 1998, num tanque do zoológico Central Park, em Nova York.
Tão logo se viram, começaram a se exibir um para o outro.
Primeiro se empoleiraram numas pedras, de onde mergulhavam na água.
Depois se aproximaram, enroscaram os pescoços, emitiram grunhidos
e acasalaram. Por fim, construíram um ninho e, juntos, esperaram
pelo ovo que nunca viria: afinal, ambos são machos.
O zelador do zoológico, Robert Gramzay, assistiu
a tudo com curiosidade. E resolveu ajudar a dupla, roubando um ovo de
um verdadeiro casal de pingüins heterossexual, que não estava
conseguindo chocá-lo. Gramzay o colocou no ninho de Roy e Silo,
que se alternaram na tarefa de aquecer a futura cria debaixo de seus
ventres gordos, até que depois de 34 dias, o filhote rompeu a
casca e enxergou pela primeira vez o mundo. Era uma fêmea cinza
e penugenta, que recebeu aconchego e alimento com a mesma dedicação
observada em duplas formadas por machos e fêmeas.
Os pesquisadores estão descobrindo que este tipo
de casal, constituído por indivíduos do mesmo sexo, é
surpreendentemente comum no reino animal. Roy e Silo pertencem a uma
das cerca de 1.500 espécies de animais já observadas,
em que há evidências de homossexualidade, seja no ambiente
selvagem, seja em cativeiro. Alguns estudos indicam ainda que essas
relações podem acontecer tanto entre machos, como entre
fêmeas, jovens e idosos, espécies de hábitos solitários
ou sociais, e em todos os níveis da escala evolutiva animal:
de insetos a mamíferos.
Mas, ao contrário do que fazemos em relação
às pessoas, não podemos dizer com certeza que esses bichos
são gays, pois um animal que participa de uma prática
homossexual não necessariamente evita relações
heterossexuais. Tudo indica, aliás, que relações
entre indivíduos do mesmo sexo sejam algo esperado na vida em
sociedade de várias espécies, embora não haja sujeitos
estritamente gays. Muitos deles poderiam ser classificados, portanto,
como bissexuais. “Para os animais não existe identidade
sexual. Eles só se importam com o sexo”, diz o sociólogo
Eric Anderson da Universidade de Bath, Reino Unido.
O estudo das relações homossexuais em
diversas espécies pode elucidar as origens evolutivas desse comportamento.
Pesquisadores estão revelando, por exemplo, que os indivíduos
podem se unir a outros do mesmo sexo para dissipar tensões sociais,
proteger seus filhotes, manter a fertilidade quando parceiros do sexo
oposto são escassos – ou simplesmente porque é divertido.
Essas observações sugerem, para alguns, que a bissexualidade
é natural entre animais e, possivelmente também para o
Homo sapiens. “As categorias gay e heterossexual são construídas
social e culturalmente pelos seres humanos”, observa Anderson.

Casais homossexuais são comuns entre pingüins
de
zoológico; escassez de parceiros do sexo oposto
parece influenciar aproximação
FALTA DE OPÇÃO
É verdade, porém, que em muitas espécies
(como os pingüins) a homossexualidade é bem mais comum no
cativeiro do que no habitat nativo. Segundo alguns cientistas, a explicação
pode ser a escassez de parceiros do sexo oposto. Além disso,
ambientes restritos aumentam o stress do animal, que pode recorrer ao
sexo como um impulso para aliviar suas tensões. Isso a que os
especialistas chamam “homossexualidade circunstancial” costuma
ser observado também em seres humanos, em ambientes em que predomina
um sexo, como nas prisões.
Os primeiros estudos sobre homossexualidade animal datam
do fim do século XIX e se concentraram na observação
de insetos e animais pequenos. Em 1896, por exemplo, o entomólogo
francês Henri Gadeau de Kerville, da Sociedade dos Amigos das
Ciências Naturais e do Museu de Rouen, publicou um desenho de
dois besouros escaravelhos copulando. Durante a primeira metade do século
XX, vários pesquisadores relataram observações
semelhantes em macacos babuínos, cobras e pingüins, entre
outros. Obviamente, os cientistas daquela época consideravam
anormal esse tipo de comportamento. E, em certos casos, os animais eram
submetidos à castração ou à lobotomia.
Um desses trabalhos pioneiros foi além da mera
descrição e discutiu as possíveis origens da homossexualidade
animal. Em um experimento realizado em 1914, o psicopatologista americano
Gilbert van Tassel Hamilton relatou relações homossexuais
em 20 macacos-do-japão e dois babuínos, destacando que,
na maioria das vezes, o comportamento era adotado por inimigos do mesmo
grupo para fazer as pazes. No Journal of Animal Behavior, Hamilton escreveu
que as fêmeas de babuíno ofereciam sexo às líderes
do grupo. “O comportamento homossexual- é relativamente
freqüente nas fêmeas quando ameaçadas por outras fêmeas,
e raramente se manifesta como resposta ao apetite sexual.” Nos
machos, ele escreveu que “as alianças entre machos jovens
e maduros podem ter valor de proteção para os últimos,
pois garantem o auxílio de um defensor adulto no caso de um ataque”.

Triângulo amoroso em Vicky Cristina Barcelona,
de Woody Allen
Mais recentemente, alguns pesquisadores chegaram a conclusões
semelhantes ao estudar macacos bonobos. Pelo menos metade das relações
sexuais destes primatas (muito promíscuos, por sinal) são
com parceiros do mesmo sexo. As fêmeas costumam esfregar os órgãos
genitais umas nas outras com tanta freqüência que alguns
cientistas sugeriram que sua genitália deve ter evoluído
para facilitar esse contato. “O clitóris delas localiza-se
frontalmente, talvez porque a seleção tenha favorecido
uma posição que tornasse mais intensa a estimulação
durante a fricção”, escreveu a ecologista comportamental
Marlene Zuk, da Universidade da Califórnia em Riverside, no livro
Sexual selections – what we can and can’t learn about sex
from animals, de 2002. Já os machos de bonobo foram observados
montando e acariciando uns aos outros, bem como fazendo sexo oral.
No livro Bonobo – The forgotten ape, o primatólogo
Frans de Waal conta que quando uma fêmea ataca uma jovem e a mãe
desta última vem em sua defesa, o problema pode ser resolvido
por intenso esfregamento de genitais entre as duas adultas. De Waal
observou centenas de casos como esse, sugerindo que relações
homossexuais sejam uma estratégia geral para manter a paz. “Quanto
mais comum a prática homossexual, mais pacífica é
a espécie”, afirma o biólogo Petter Bockman, do
Museu de História Natural da Universidade de Oslo, Noruega. “Os
bonobos, por exemplo, são muito pacíficos”, sustenta.
Tais atos parecem ser tão essenciais para a socialização
dos bonobos que constituem um rito de passagem das jovens fêmeas
para a idade adulta. Esses animais vivem em grupos de cerca de 60 indivíduos,
num sistema matriarcal. As fêmeas deixam o clã durante
a adolescência e são admitidas em outro, onde são
cuidadas por fêmeas com quem têm encontros sexuais. Esses
comportamentos criam laços sociais e dão às novatas
benefícios como proteção e comida.

Entre ostraceiros selvagens, são comuns
os triângulos
(com dois machos), o que aumenta a chance de sobrevivência dos
filhotes
CASOS DE POLIGAMIA
Em algumas espécie de pássaros, as
uniões do mesmo sexo, em particular entre machos, podem ter evoluído
como uma estratégia de cuidado dos filhotes para aumentar sua
taxa de sobrevivência. “Entre os cisnes negros, se dois
machos se encontram e fazem um ninho, eles podem ser mais bem-sucedidos
para criar um órfão porque são maiores e mais fortes
do que um macho e uma fêmea com uma cria biológica”,
diz Bockman.
Em outras situações, as uniões
homos-sexuais entre fêmeas aumentam a chance de sobrevivência
da cria quando pares macho-fêmea não são possíveis.
Nos ostraceiros, aves que habitam zonas costeiras e rochosas, a intensa
competição por companheiros machos deixaria muitas fêmeas
sozinhas se não fosse a existência de trios polígamos.
Em um artigo publicado na revista Nature, em 1998, o zoólogo
Dik Heg e o geneticista Rob van Treuren, da Universidade de Groningen,
Holanda, observaram que aproximadamente 2% dos grupos de procriação
dos ostraceiros eram formados por duas fêmeas e um macho. Os pesquisadores
descobriram que, em alguns deles, elas cuidavam de ninhos separados
e brigavam pelo macho; mas, em outros, todos os três pássaros
zelavam por um único ninho. No último caso, elas criavam
laços montando tanto no macho como em outra fêmea. Os triângulos
cooperativos produziam mais filhotes que os tradicionais, porque seus
ninhos eram mais bem cuidados e protegidos de predadores.
Tais arranjos apontam para a vantagem adaptativa dos
relacionamentos sociais estáveis, qualquer que seja seu tipo.
A pesquisadora Joan E. Roughgarden, da Universidade Stanford, acredita
que os biólogos evolutivos costumam aderir com excessivo entusiasmo
à teoria da seleção sexual de Darwin, ignorando
a importância de laços e amizades para as sociedades animais
e a sobrevivência de seus filhotes. “Darwin igualava a reprodução
a encontrar um companheiro, em vez de prestar atenção
em como a prole é cuidada”, diz a bióloga.
Proteger os filhotes, criar laços sociais e evitar
conflitos, porém, podem não ser os únicos motivos
pelos quais os animais se engajam em relações homossexuais.
Talvez muitos deles façam isso apenas “porque querem”,
diz Bockman. “As pessoas vêem os animais como robôs
que se comportam como os genes mandam, mas eles também têm
preferências, e reagem de acordo com elas.”
Um estudo recente indica que o comportamento homossexual
pode ser tão comum porque tem sua raiz no cérebro do animal.
Bem, pelo menos no caso das moscas-das-frutas. Em artigo publicado no
início de 2008 na Nature Neuroscience, o neurocientista David
E. Featherstone, da Universidade de Illinois, Chicago, descobriu que
podia manipular a orientação sexual desses insetos por
meio do gene responsável por uma proteína que regula a
comunicação entre neurônios que secretam o neurotransmissor
glutamato.

ENTRE IGUAIS: pintura em parede de túmulo
na colônia grega de
Paestrum, Itália, de 480 a.C., mostra casais de homens
Os machos que carregavam uma determinada variante desse
gene eram atraídos de maneira atípica pelos sinais químicos
exalados por outros machos. Como resultado, esses mutantes cortejaram
os machos e tentaram copular com eles. A descoberta sugere que moscas-de-fruta
selvagens podem ter tendências tanto para o comportamento heterossexual
como o homossexual, afirmam os autores. Essa arquitetura cerebral talvez
permita que a atração pelo mesmo sexo venha à tona
com mais facilidade, apoiando a noção de que é
capaz de conferir uma vantagem evolutiva em determinadas circunstâncias.
Em algumas espécies menos sociais, o comportamento
homossexual é quase desconhecido na natureza, embora possa ser
observado em cativeiro. Coalas selvagens, quase sempre solitários,
parecem ser estritamente heterossexuais quando estão em seu habitat
natural. No entanto, um estudo de 2007 realizado pelo veterinário
Clive J. C. Phillips, da Universidade de Queensland, Austrália,
mostrou 43 ocorrências de atividade homossexual entre fêmeas
que viviam numa área cercada no Santuário de Coalas Lone
Pine. Elas também emitiam chamados de acasalamento tipicamente
masculinos e acasalavam umas com as outras, algumas vezes participando
de múltiplos encontros com até cinco animais.
Phillips acredita que as fêmeas agiam dessa maneira
em parte por causa do stress. A falta de machos provavelmente é
um dos principais fatores estressantes, segundo o veterinário.
Quando as fêmeas de coala estão no cio, seus ovários
liberam o hormônio sexual estrogênio, que ativa o comportamento
de acasalamento – quer os machos estejam presentes ou não.
Esse ímpeto de copular, mesmo com uma parceira, pode ser adaptativo.
“Esse comportamento preserva a função sexual, permitindo
ao animal manter seu preparo físico reprodutivo e o interesse
na atividade sexual”, diz Phillips. Nos machos, esse benefício
é ainda mais óbvio: o comportamento homossexual estimula
a produção contínua de fluido seminal.

Ao montarem umas nas outras, as vacas se mostram
disponíveis para acasalar com touros
COESÃO DA EQUIPE
Acredita-se que a falta de parceiros do sexo oposto
também possa explicar a predominância de homossexualidade
em pingüins de zoológico. Além de Roy e Silo nos
Estados Unidos, 20 outras uniões homossexuais já foram
observadas no Japão. “Mas isso é bastante raro nos
habitats naturais dos pingüins”, diz o ecologista Keisuke
Ueda, da Universidade Rikkyo em Tóquio. Segundo ele, esse comportamento
é resultado da proporção desigual entre machos
e fêmeas nesses ambientes. Alguns pesquisadores vêm estudando
também as relações homossexuais de rebanhos de
gado – algo muito comum, segundos os criadores. Entre as vacas,
o comportamento não serve apenas para aliviar o stress, é
uma forma de sinalizar receptividade sexual. Ao montarem umas nas outras,
as fêmeas indicam sua disponibilidade para acasalar com machos,
e o criador aproveita a dica para trazer o touro mais adequado para
perto dela.
A cópula homossexual é bem mais rara em
rebanhos selvagens, afirma Phillips, baseado numa pesquisa com gauros
(espécie de boi selvagem asiático) na Malásia.
Tanto o stress como a maior disponibilidade também
de parceiros do mesmo sexo são fatores que aumentam as relações
homossexuais entre seres humanos quando restritos a lugares como quartéis,
prisões e ambientes esportivos. Um estudo publicado em 2008 no
periódico Sex Roles mostrou que de 40% a 49% de ex-jogadores
de futebol americano heterossexuais tiveram ao menos uma relação
homossexual, o que pode ter incluído beijos, sexo oral ou encontros
a três (com mais uma mulher). “A homossexualidade parece
aumentar a coesão dessas equipes”, afirma Anderson.
Nas últimas décadas, vários zoológicos
do mundo estão tentando minimizar o stress do cativeiro tornando
as áreas cercadas mais parecidas com os habitats naturais das
espécies. Há 50 anos, os animais viviam em jaulas sufocantes,
mas desde os anos 70 esses ambientes vêm mudando, as grades vêm
sendo evitadas, plantas fazem parte dos espaços, hoje mais amplos
e hospitaleiros pesquisadores esperam que essas melhorias afetem o comportamento
dos animais, tornando-o mais parecido com o que ocorre na natureza.
Um possível sinal das condições menos estressantes
pode ser uma taxa de homossexualidade mais semelhante à dos membros
selvagens da mesma espécie.
Algumas correntes de pesquisa e militantes de movimentos
em defesa dos direitos de homossexuais, no entanto, contestam a noção
de que mantenedores de zoológicos devem prevenir ou desencorajar
o comportamento homoerótico dos animais de que cuidam. Para alguns
especialistas, os seres humanos, assim como outros animais, são
naturalmente bissexuais.“A homossexualidade está misturada
com a heterossexualidade em várias culturas e ao longo da história”,
defende Roughgarden. Até mesmo Silo, o pingüim que durante
seis anos viveu em comunhão com Roy, mostrou essa versatilidade.
Em um belo dia da primavera de 2004, uma fêmea chamada Scrapp,
recém-chegada do SeaWorld de San Diego, arrebatou seu coração.
Ele então abandonou Roy. Já Tango, a “filha”
deles, escolheu outra fêmea, Tazuni, para compartilhar a vida.
(Tradução de Júlio Oliveira).
CONCEITOS-CHAVE
Relações homossexuais já foram
observadas em cerca de 1.500 espécies, tanto em cativeiro como
em seu habitat natural.
Em algumas espécies, a união homossexual
parece ser mais freqüente entre animais em cativeiro do que nos
de vida livre. Pesquisadores acreditam que esse comportamento seja uma
resposta ao stress causado pelos ambientes restritos e pela escassez
de parceiros do sexo oposto.
Para os animais, participar de atos homossexuais pode
ser uma forma de obter apoio do(a) companheiro(a) mais forte e de manter
a fecundidade enquanto faltarem parceiros para relações
heterossexuais.
Pesquisas mostram que os triângulos cooperativos
produziam mais filhotes que os tradicionais, porque seus ninhos eram
mais bem cuidados e protegidos de predadores.
SEDUTORAS, MAS REJEITADAS
Muitas vezes os profissionais que trabalham em zoológicos não
sabem como reagir ao observar o comportamento homossexual dos animais.
Em 2005, funcionários do Zoológico do Mar, em Bremerhaven,
Alemanha, descobriram que três de seus cinco casais de pingüins
Humboldt eram formados por indivíduos do mesmo sexo. Por se tratar
de uma espécie em extinção, apressaram-se em trazer
quatro fêmeas da Suécia, o que causou fúria em grupos
de gays e lésbicas de todo mundo. Numa carta para o prefeito
de Bremerhaven, Jorg Schulz, ativistas europeus protestaram contra o
que chamaram de “assédio organizado e forçado por
meio de fêmeas sedutoras”.
Os machos, porém, ignoraram a chegada das jovens suecas. “Eles
nem sequer olharam para elas”, disse o diretor do zoológico,
Heike Kiick, à revista alemã Der Spiegel. A solução
foi trazer outros machos para fazer companhia às fêmeas
solitárias.
PARA CONHECER MAIS
Evolução do gênero e da sexualidade.
Joan Roughgarden. Ed. Planta, 2004.
Biological exuberance: animal homosexuality and natural
diversity, Bruce Bagemihl. St. Martin’s Press, 2000.
Heterosexual and homosexual behaviour and vocalisations
in captive female koalas (Phascolarctos cinereus). Stacey Feige, Kate
Nilsson, Clive J. C. Phillips e Steve D. Johnston, em Applied Animal
Behaviour Science, vol. 103, no 1-2, págs. 131-145, 2007.
Fonte: Homossexualidade como traço adaptativo. Mente&Cérebro
185, junho de 2008.
http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/sem_preconceitos.html