GUY DEUTSCHER - Na ponta da língua: O idioma dá forma
ao pensamento?
RESUMO
Após décadas de ceticismo, a
ideia de que a língua materna molda a maneira como pensamos volta
a ganhar força, embasada na comparação entre os
sistemas de orientação espacial de línguas europeias
e do guugu yimithirr, idioma de aborígines australianos que não
se vale das noções de "esquerda", "direita",
"frente" e "trás".

RAFAEL CAMPOS ROCHA
SETENTA ANOS atrás, em
1940, uma revista de ciência popular publicou um artigo curto
que deu origem a uma das modas intelec-?tuais mais influentes do século
20. À primeira vista, o artigo não prenunciava a celebridade
que viria a adquirir. Nem o título, "Ciência e Linguística",
nem a revista, a "Technology Review", do Instituto de Tecnologia
de Massachu-?setts (MIT), nos EUA, tinham nenhum tipo de glamour. E
o autor, um engenheiro químico que trabalhava para uma companhia
de seguros e ganhava algum dinheiro extra dando aulas de antropologia
na Universidade Yale, era um improvável candidato ao estrelato
intelectual.
Benjamin Lee Whorf, no entanto, teve uma ideia faiscante acerca do poder
da linguagem sobre a mente, e sua prosa sedutora levou toda uma geração
a acreditar que nossa língua materna restringe o que somos capazes
de pensar.
IMAGEM DA REALIDADE
Whorf afirmava, em especial, que os idiomas dos indígenas norte-americanos
impunham a seus falantes uma imagem da realidade completamente diferente
da nossa, e que os falantes dessas línguas não seriam
capazes de compreender alguns de nossos conceitos básicos, como
o fluxo do tempo ou a distinção entre objetos (como "pedra")
e ações (como "queda").
Por décadas, a teoria de Whorf deslumbrou tanto acadêmicos
quanto o público em geral. À sombra de suas ideias, estudiosos
apresentaram uma longa série de argumentos criativos sobre o
suposto poder da linguagem, que variavam da asserção de
que "os idiomas indígenas americanos conferiam a seus falantes
uma compreensão instintiva do conceito de Einstein sobre o tempo
como uma quarta dimensão" à teoria de que "a
natureza da religião judaica era determinada pelo sistema de
tempos verbais do hebraico antigo".
A teoria de Whorf veio a despencar, sob o peso de fatos concretos e
de um sólido bom senso, quando surgiram sinais de que jamais
houve provas que sustentassem sua fantástica argumentação.
A ?reação foi tão dura que, por décadas,
quaisquer tentativas de estudar a influência da língua
materna sobre nossos pensamentos ficaram relegadas aos rincões
menos respeitáveis e mais amalucados do mundo acadêmico.
NOVAS PESQUISAS Passados
70 anos, porém, é chegada a hora de superar o trauma com
relação a Whorf. Nos últimos anos, novas pesquisas
revelaram que, ao aprendermos nossa língua materna, nós
de fato adquirimos determinados hábitos de pensamento que dão
forma às nossas experiências de maneira significativa,
volta e meia surpreendente.
Whorf, como agora sabemos, cometeu muitos erros. O mais grave foi presumir
que a língua materna restringe a nossa mente e inibe a nossa
capacidade de pensar determinados pensamentos. O pilar de sua argumentação
era a alegação de que, se um idioma não tem palavra
para determinado conceito, as pessoas que o falam não são
capazes de compreender o conceito. Se um idioma não tem um tempo
verbal futuro, por exemplo, seus falantes não são capazes
de compreender o nosso conceito de tempo futuro.
É quase incompreensível que essa linha de argumentação
tenha conquistado tamanho sucesso, dado o imenso volume de provas em
contrário que surgem a olhos vistos, por todos os lados. Se você
perguntar, em inglês perfeitamente normal, e no presente, "você
vem amanhã?", vai sentir que o seu domínio do conceito
de futuro se esvai? Os anglófonos que jamais ouviram a palavra
alemã "Schadenfreude" têm dificuldade para compreender
o conceito de "alegrar-se com o infortúnio alheio"?
Ou então pense no seguinte: se o estoque de palavras disponíveis
no seu idioma determina quais conceitos você será capaz
de compreender, como é que você faria para aprender coisas
novas?
DIREÇÃO OPOSTA
Já que não existe prova de que qualquer idioma proíba
seus falantes de pensar coisa alguma, é preciso olhar em direção
oposta para descobrir de que maneira nossa língua materna altera
nossa experiência do mundo.
Por volta de 50 anos atrás, o renomado linguista Roman Jakobson
assinalou um fato crucial sobre as diferenças entre idiomas,
por meio de uma máxima incisiva: "Os idiomas diferem essencialmente
naquilo que devem transmitir, e não naquilo que podem transmitir".
A máxima nos dá a chave para compreender a força
verdadeira da língua materna: caso idiomas diferentes influenciem
nossa mente de modos diferentes, isso não acontecerá por
causa daquilo que nosso idioma nos permite pensar, e sim por aquilo
que ele costuma nos obrigar a pensar.
AMBIGUIDADE Considere
esse exemplo: suponha que eu lhe diga, em inglês, que "I
spent yesterday evening with a neighbor" [Passei a noite de ontem
com um(a) vizinho(a)].
Você pode muito bem especular se a minha companhia era homem ou
mulher e eu posso lhe dizer educadamente que isso não é
da sua conta.
Mas se estivéssemos conversando em francês ou alemão,
eu não teria o privilégio de manter essa ambiguidade,
porque seria obrigado a escolher, pela gramática do idioma, entre
"voisin" ou "voisine", "Nachbar" ou "Nachbarin".
Os idiomas me compeliriam a lhe informar o sexo da pessoa que me acompanhou
na noite passada, ainda que eu considere que isso não seja da
sua conta.
Isso não significa, evidentemente, que os falantes de inglês
sejam incapazes de perceber as diferenças entre noites passadas
com vizinhos ou vizinhas; significa que não precisam levar em
conta o sexo de vizinhos, amigos, professores e de uma série
de outras pessoas cada vez que são mencionados numa conversa,
enquanto os falantes de outros idiomas são obrigados a fazê-lo.
CONTEXTO O inglês,
por sua vez, nos obriga a especificar determinados tipos de informação
que, em outros idiomas, podem ser deixados para o contexto. Se quero
falar, em inglês, sobre um jantar com alguém que mora na
vizinhança, posso não especificar o sexo dessa pessoa,
mas preciso informar sobre o momento do evento: preciso decidir se jantamos,
se estávamos jantando, se íamos jantar e assim por diante.
Já o chinês não obriga seus falantes a especificar
dessa maneira o tempo exato da ação, pois a mesma forma
verbal pode ser usada para ações presentes, passadas ou
futuras. Uma vez mais, isso não significa que os chineses sejam
incapazes de compreender o conceito de tempo. Significa que não
precisam pensar no tempo ao descrever uma ação.
Nos casos em que o seu idioma rotineiramente o obriga a especificar
certos tipos de informação, ele o força a prestar
atenção a certos detalhes e a certos aspectos da experiência
nos quais falantes de outros idiomas talvez não sejam forçados
a pensar o tempo todo. E uma vez que esses hábitos de fala são
cultivados desde cedo, é natural que se tornem hábitos
mentais, que vão além do idioma e afetam experiências,
percepções, associações, sentimentos, memórias
e orientação no mundo.
Mas há provas de que isso aconteça na prática?
GÊNEROS Voltemos
aos gêneros. Línguas como espanhol, francês, alemão
e russo não só obrigam o falante a pensar no sexo de amigos
e vizinhos como associam os gêneros masculino ou feminino a objetos
inanimados, sob critérios muitas vezes arbitrários. O
que, por exemplo, existe de especialmente feminino na barba ("la
barbe") de um francês? Por que a água russa é
feminina, e por que ela se torna "ele" quando colocam um saquinho
de chá lá dentro?
Mark Twain escreveu uma famosa diatribe sobre o comportamento errático
dos gêneros, reclamando das tulipas no feminino e das virgens
no gênero neutro, em "The Awful German Language" [A
Horrível Língua Alemã]. Embora Twain tenha argumentado
que existe algo de particularmente perverso no sistema de gêneros
do idioma alemão, é o inglês, na verdade, que se
mostra incomum, ao menos entre as línguas europeias, por não
tratar tulipas e chás como masculinos ou femininos.
Idiomas que tratam objetos inanimados como "ele" ou "ela"
forçam seus falantes a se referir a esses objetos como se fossem
homens ou mulheres. E, como poderia lhe dizer qualquer pessoa cuja língua
materna faça distinções de gênero, quando
o hábito pega, é impossível abandoná-lo.
Quando falo inglês, refiro-me a uma cama em gênero neutro,
dizendo que "it" é bem macia; sendo porém o
hebraico minha língua materna, sinto que "ela" é
bem macia, na verdade. "Ela" se mantém no feminino
por todo o caminho, dos pulmões à glote, e só se
torna neutra ao chegar à ponta da língua.
ASSOCIAÇÕES
Nos últimos anos, diversas experiências demonstraram que
os gêneros gramaticais são capazes de influenciar sentimentos
e associações dos falantes em relação aos
objetos que os cercam. Na década de 90, por exemplo, psicólogos
compararam as associações entre falantes de alemão
e espanhol. Há muitos substantivos inanimados cujos gêneros
se invertem de um idioma para outro. No alemão, uma ponte ("die
Brücke"), por exemplo, é feminina, mas "el puente"
é masculino em espanhol; o mesmo vale para relógios, apartamentos,
garfos, jornais, bolsos, ombros, selos, ingressos, violinos, o sol,
o mundo e o amor.
Já para os alemães uma maçã é masculina,
mas feminina para os espanhóis; o mesmo vale para cadeiras, vassouras,
estrelas, mesas, guerras, chuva e lixo. Quando os falantes foram convidados
a classificar os objetos segundo características diversas, os
espanhóis definiram pontes, relógios e violinos como portadores
de mais "propriedades másculas", como a força,
enquanto os alemães tendiam a vê-los como mais esguios
ou elegantes. No caso de objetos como cadeiras ou mesas, que são
"ele" no alemão e "ela" em espanhol, o efeito
se inverte.
VOZES Em outra experiência,
falantes de espanhol e francês foram convidados a associar vozes
humanas a diversos objetos que apareciam num desenho animado. Quando
os franceses viam a imagem de um garfo ("la fourchette"),
a maioria preferia atribuir ao objeto uma voz feminina; já os
espanhóis, para os quais "el tenedor" é masculino,
preferiam lhe conferir voz masculina e rouca.
Mais recentemente, psicólogos conseguiram demonstrar que os "idiomas
com gêneros" imprimem na mente de seus usuários os
traços de gênero dos objetos com tamanha força que
essas associações chegam a obstruir a capacidade do falante
para armazenar informações na memória.
É evidente que nada disso significa que falantes de espanhol,
francês ou alemão sejam incapazes de compreender que objetos
inanimados não têm sexo biológico -uma mulher alemã
raramente confunde seu marido com um chapéu, e homens espanhóis
não confundem a cama com algo que possa estar deitado nela. Mesmo
assim, uma vez que as conotações de gênero foram
impressas em mentes jovens e impressionáveis, farão com
que falantes de idiomas dotados de gêneros vejam o mundo inanimado
por lentes coloridas de associações emocionais que os
anglófonos -aprisionados em seu monocromático deserto
de "its"- ignoram completamente.
Será que os gêneros opostos de "ponte" em alemão
e espanhol, por exemplo, influenciaram de alguma forma os projetos de
pontes na Espanha e na Alemanha? Será que os mapas emocionais
impostos pelo sistema de gêneros têm maiores consequências
comportamentais em nossa vida cotidiana? Influenciarão preferências,
modas, hábitos e gostos?
No estado atual do conhecimento sobre o cérebro, não se
trata de algo que possa ser mensurado com facilidade num laboratório
de psicologia. Mas seria surpreendente que não influenciassem.
LINGUAGEM ESPACIAL
A área que viu surgirem as provas mais notáveis da influência
dos idiomas no pensamento é a linguagem espacial -como descrevemos
a orientação do mundo em redor.
Suponha que você queira explicar a alguém como chegar à
sua casa. Poderia dizer "depois do sinal, vire na primeira à
esquerda, depois na segunda à direita; você vai dar numa
casa branca, nossa porta é a da direita". Mas, em tese,
também poderia dizer "depois do sinal, siga para o norte,
depois vire a leste no segundo cruzamento e, quando vir uma casa branca
a leste, a nossa será a porta sul".
São dois conjuntos de instruções que descrevem
a mesma rota, mas dependem de diferentes sistemas de coordenadas. O
primeiro emprega coordenadas "egocêntricas", que dependem
do nosso corpo: o eixo direita-esquerda e o eixo frente-trás,
disposto de maneira ortogonal com relação ao outro. O
segundo sistema emprega coordenadas geográficas fixas, que não
nos acompanham quando nos viramos.
É útil adotar coordenadas geográficas para caminhar
em campos abertos, por exemplo, mas as coordenadas egocêntricas
dominam completamente a nossa fala quando descrevemos espaços
em pequena escala. Não dizemos: "Quando sair do elevador,
caminhe para o sul e bata na segunda porta a leste".
A razão para que o sistema egocêntrico seja tão
dominante em nossa linguagem é que parece mais fácil e
mais natural. Afinal, sempre sabemos onde ficam "frente" e
"trás". Não precisamos de mapa ou bússola
para compreender; basta sentir, pois as coordenadas egocêntricas
se baseiam diretamente em nosso corpo e nosso campo visual imediato.
GUUGU YIMITHIRR Mas
então foi descoberto um remoto idioma aborígine australiano,
o guugu yimithirr, do norte de Queensland, e com ele a perturbadora
constatação de que nem todos os idiomas se conformam ao
que invariavelmente tomamos como "natural". O guugu yimithirr
não usa de modo algum as coordenadas egocêntricas. O antropólogo
John Haviland e, mais tarde, o linguista Stephen Levinson demonstraram
que o guugu yimithirr não emprega palavras como "direita",
"esquerda", "frente" ou "trás"
para descrever a posição de objetos.
Nos casos em que costumamos usar o sistema egocêntrico, o guugu
yimithirr emprega os pontos cardeais. Se a ideia é que você
abra um pouco mais de espaço no banco do carro, um falante de
guugu yimithirr dirá "vá um pouquinho para leste".
Para dizer onde exatamente deixou um objeto em casa, ele dirá
"deixei na ponta sul da mesa oeste". Ou alertará: "Cuidado
com aquela formigona bem ao norte do seu pé". Mesmo quando
veem um filme na TV, descrevem-no com base na orientação
da tela. Se a TV estivesse voltada para o norte e um homem na tela se
aproximasse, eles diriam que ele está "vindo rumo ao norte".
PESQUISA Quando essas
peculiaridades do guugu yimithirr foram descobertas, inspiraram um projeto
de pesquisa em larga escala sobre a linguagem espacial. E isso deixou
claro que o guugu yimithirr não representa uma ocorrência
excepcional; idiomas que se valem primordialmente de coordenadas geográficas
estão espalhados mundo afora, da Polinésia ao México,
da Namíbia a Bali.
Para nós, poderia parecer o cúmulo do absurdo que uma
professora de dança dissesse "erga sua mão norte
e mova sua perna sul para o leste". Mas algumas pessoas não
perceberiam a piada: Colin McPhee, musicólogo canadense-americano
que passou muitos anos em Bali na década de 30, conta a história
de um menino que mostrava grande talento para a dança. Como não
havia professores em sua aldeia, McPhee conseguiu que um instrutor de
outra aldeia aceitasse o garoto.
Quando visitou a aldeia para verificar como estava indo o estudo, o
menino estava desanimado, e o professor, irritado. Quando instruído
a dar "três passos para o leste" ou "se curvar
para o sudoeste", ele não sabia o que fazer. Em sua aldeia
natal, instruções assim não seriam problema, mas,
como a paisagem na nova aldeia lhe era completamente desconhecida, ele
ficava desorientado e confuso.
Por que o instrutor não empregou outro método de instrução?
Ele provavelmente responderia que dizer "dê três passos
para a frente" ou "curve-se para trás" seria o
cúmulo do absurdo.
FALAR E PENSAR Assim,
idiomas diferentes nos fazem falar sobre o espaço de jeitos muito
diferentes. Mas será que isso realmente significa que pensamos
sobre o espaço de forma diferente? É preciso cautela,
pois, mesmo que uma língua não tenha uma palavra como
"para trás", isso não significa necessariamente
que seus falantes sejam incapazes de compreender esse conceito.
Em vez disso, devemos procurar as possíveis consequências
daquilo que as linguagens geográficas obrigam seus falantes a
expressar. Devemos ficar especialmente atentos a quais hábitos
mentais podem ser desenvolvidos pela necessidade de especificar direções
geográficas o tempo todo.
A fim de falar um idioma como o guugu yimithirr, a pessoa precisa saber
onde estão os pontos cardeais a cada momento de sua vida. É
preciso ter uma bússola mental que opere o tempo todo, dia e
noite, sem pausas para o almoço ou folgas em fins de semana,
pois, de outra forma, a pessoa não seria capaz de comunicar as
informações mais básicas nem de compreender o que
os outros dizem.
SENSO DE ORIENTAÇÃO
Os falantes de idiomas geográficos ?realmente parecem dotados
de um senso de orientação quase sobre-humano. A despeito
das condições de visibilidade, estejam em mata fechada
ou planície aberta, em ambientes abertos ou cobertos, e até
mesmo no interior de cavernas, parados ou em movimento, eles têm
um senso de direção infalível.
Não param para olhar o sol antes de dizer que "tem uma formiga
ao norte do seu pé". Apenas sentem onde ficam o norte, o
sul, o leste e o oeste, da mesma forma que pessoas com ouvido absoluto
sentem qual é cada nota, sem que precisem calcular os intervalos.
Não faltam histórias sobre o que a nós pareceriam
incríveis prodígios de orientação, mas que
entre os falantes de idiomas geográficos são corriqueiros.
Uma delas conta sobre um falante do idioma tzeltal, do sul do México,
que teve os olhos vendados e foi girado em torno de si mesmo por mais
de 20 vezes, numa casa escura. Mesmo vendado e zonzo com os giros, ele
foi capaz de apontar sem hesitação os quatro pontos cardeais.
INDÍCIOS
Como isso funciona? A convenção da comunicação
por meio de coordenadas geográficas compele os falantes a, desde
cedo, prestarem atenção a indícios oferecidos pelo
ambiente físico (a posição do sol, o vento etc.)
a cada segundo e a desenvolver memórias precisas sobre suas mudanças
de rumo a todo instante.
Assim, a comunicação cotidiana num idioma geográfico
oferece o exercício mais intenso que se possa imaginar em termos
de orientação geográfica (estima-se que perto de
10% das palavras usadas numa conversa em guugu yimithirr sejam "norte",
"sul", "leste" e "oeste", acompanhadas
de gestos manuais precisos).
O hábito de manter consciência da direção
geográfica é inculcado desde muito cedo; estudos demonstram
que, nessas sociedades, as crianças já começam
a utilizar direções geográficas aos dois anos,
e, aos sete ou oito, já dominam o sistema. Com um treino tão
precoce e intenso, o hábito logo se torna uma segunda natureza,
inconsciente e involuntário. Quando os falantes de guugu yimithirr
foram questionados sobre como sabiam onde ficava o norte, não
foram capazes de explicar, assim como você não seria capaz
de explicar como sabe onde fica "atrás".
TEMPO Mas os efeitos
de um idioma geográfico vão além, pois o senso
de orientação precisa se estender no tempo e ir além
do presente imediato. Se você fala uma língua do tipo guugu
yimithirr, precisa armazenar todas as suas lembranças tendo os
pontos cardeais como parte do quadro.
Um falante de guugu yimithirr foi filmado enquanto contava aos amigos
uma história de sua juventude, quando seu barco virou em águas
infestadas de tubarões. Ele e uma pessoa mais velha foram apanhados
por uma tempestade, e o barco virou. Os dois saltaram na água
e conseguiram retornar à costa, depois de nadar por uns cinco
quilômetros. Ao chegar, descobriram que o missionário para
quem trabalhavam estava mais preocupado com a perda do barco do que
aliviado com o salvamento milagroso.
Além do teor dramático, o mais notável na história
é ter sido recordada inteiramente com base em orientações
geográficas: o narrador saltou para a água pelo lado oeste
do barco, e seu companheiro pelo lado leste; viram um grande tubarão
nadando ao norte; e por aí vai.
Teriam os pontos cardeais sido acrescentados para aquela narrativa específica?
Pois bem, por acaso, a mesma pessoa foi filmada anos mais tarde, contando
a mesma história. Os pontos cardeais bateram precisamente nos
dois relatos. Ainda mais notáveis eram os espontâneos gestos
manuais que acompanhavam a história. Por exemplo, a direção
em que o barco virou foi indicada por um gesto na orientação
geográfica certa, independentemente da direção
em que o narrador estivesse nas duas ocasiões em que foi filmado.
ROTAÇÕES
Experiências psicológicas demonstraram também que,
sob certas circunstâncias, os falantes de idiomas como o guugu
yimithirr chegam a lembrar "a mesma realidade" de modo diferente
do nosso. Há debates candentes sobre a interpretação
de algumas dessas experiências, mas uma constatação
que parece convincente é a de que, enquanto somos treinados a
ignorar as rotações direcionais ao guardar uma história
na memória, os falantes de idiomas geográficos são
treinados a não fazê-lo.
Isso pode ser compreendido ao imaginar que você vai viajar na
companhia de um falante de um idioma geográfico e que os dois
vão se hospedar num hotel de uma grande rede. O seu amigo está
no apartamento em frente ao seu e, se você for ao apartamento
dele, verá uma réplica exata: a mesma porta de banheiro
à esquerda, o mesmo guarda-roupa com porta espelhada à
direita, o mesmo quarto de dormir, com a cama à esquerda, uma
escrivaninha idêntica na parede à direita, em cima dela
a mesma TV, no canto esquerdo, e o telefone, no canto direito. Ou seja,
você viu o mesmo quarto duas vezes.
Mas quando o seu amigo entra no seu quarto, vê algo bem diferente,
pois tudo está invertido em sentido norte-sul. No quarto dele,
a cama está ao norte e, no seu, está ao sul; o telefone,
no seu quarto, fica a oeste, e o do amigo, a leste; e por aí
vai. Enquanto você vê e se lembra do mesmo quarto duas vezes,
o falante de um idioma geográfico vê e se lembra de dois
quartos diferentes.
GRADE Não é
fácil para nós conceber como os falantes de guugu yimithirr
experimentam o mundo, com uma grade de pontos cardeais sobreposta a
cada imagem mental e a cada porção de memória gráfica.
Tampouco é fácil especular de que modo os idiomas geográficos
afetam outras áreas de experiência que não a orientação
espacial -por exemplo, se influenciam o senso de identidade de seus
falantes, ou se resultam numa visão de mundo menos egocêntrica.
Mas um indício é revelador: se você vir um falante
de guugu yimithirr apontando para o próprio peito, naturalmente
vai presumir que deseja chamar a atenção para si. Na verdade,
ele estará indicando um ponto cardeal que está às
suas costas. Enquanto nós estamos sempre no centro do mundo e
jamais nos ocorreria que apontar em nossa própria direção
pudesse significar outra coisa além de chamar a atenção
para nós mesmos, um falante de guugu yimithirr aponta em sua
própria direção para indicar aquilo que está
atrás dele, como se ele fosse ar, e sua existência, irrelevante.
CORES De que outras
formas o idioma que falamos poderia influenciar nossa experiência
do mundo? Recentemente, uma série de engenhosos experimentos
demonstrou que percebemos até mesmo as cores pelo filtro de nossa
língua materna.
Há variações radicais na maneira pela qual os idiomas
dividem o espectro da luz visível; em inglês, por exemplo,
azul e verde são consideradas cores distintas, mas em muitos
idiomas são vistas como tons de uma mesma cor.
E o fato é que as cores que nosso idioma nos obriga a tratar
como distintas podem refinar nossa sensibilidade puramente visual a
determinadas diferenças de cor na realidade, de modo que nosso
cérebro seja treinado a exagerar a distinção entre
nuanças de cor, caso tenham nomes diferentes em nosso idioma.
Por mais estranho que pareça, a experiência de contemplar
um quadro de Chagall pode depender, em certa medida, de o nosso idioma
ter ou não uma palavra para o azul.
MATSES Em breve os
pesquisadores poderão também iluminar o impacto da linguagem
sobre áreas mais sutis de percepção. Por exemplo,
alguns idiomas, como o matses, do Peru, obrigam seus falantes -feito
rigorosos advogados- a especificar exatamente de que maneira vieram
a se informar sobre os fatos que estão testemunhando.
Você não pode simplesmente dizer que "um animal passou
por aqui". É preciso especificar, usando uma forma verbal
diferente, caso tenha sido por experiência direta (você
viu o animal passar), inferência (você viu pegadas), conjectura
(animais costumam passar por ali naquele horário), ouvir falar
ou coisa parecida. Se uma afirmação for feita com a "cadeia
evidenciária" incorreta, será tomada como mentira.
Assim, por exemplo, se você pergunta a um homem matse quantas
mulheres ele tem, a menos que elas estejam em seu campo de visão
no momento, a resposta virá no passado, e terá forma semelhante
a "eram duas na última vez que verifiquei".
Afinal de contas, se as mulheres não estiverem presentes, ele
não pode ter certeza absoluta de que não morreram ou fugiram
desde a última vez que as viu, mesmo que apenas cinco minutos
antes. Portanto, não pode testemunhar a situação
como fato comprovado, em tempo presente.
ESTUDOS EMPÍRICOS
Será que a necessidade de pensar constantemente sobre epistemologia,
de maneira tão cuidadosa e sofisticada, influencia as perspectivas
de vida dos falantes do idioma ou seu senso de verdade e causalidade?
Quando nossas ferramentas experimentais forem menos brutas, questões
serão levadas a estudos empíricos.
Por muitos anos, a língua materna foi tratada como um "presídio"
que restringia a capacidade de raciocinar. Quando se tornou claro que
tais alegações não tinham fundamento, passou-se
a considerar que pessoas de todas as culturas pensam genericamente da
mesma maneira.
É um erro, porém, superestimar a importância do
raciocínio abstrato em nossas vidas. Afinal, quantas decisões
tomamos a cada dia com base em lógica dedutiva, comparadas às
decisões que tomamos por instinto, intuição, emoção,
impulso ou questões práticas?
Os hábitos mentais que nossa cultura nos instila desde a infância
definem nossa orientação no mundo e nossa resposta emocional
aos objetos com que deparamos, e suas consequências provavelmente
vão muito além daquilo que foi demonstrado de modo experimental
até agora.
Podemos não saber ainda como medir essas consequências
diretamente, ou como avaliar sua contribuição para os
desentendimentos políticos e culturais. Mas, como primeiro passo
para nos compreendermos uns aos outros, seria melhor não fingirmos
que pensamos todos da mesma forma.
GUY DEUTSCHER
tradução Paulo Migliacci
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il0901201104.htm