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Daniel C. Dennett

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Daniel C. Dennett
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(trecho inicial)

 

1. É a ciência uma religião?

É a matemática realmente uma religião? E a ciência? Hoje em dia ouve-se muitas vezes dizer que a ciência é «apenas» mais uma religião. Há algumas semelhanças interessantes. A ciência oficial, tal como a religião oficial, tem as suas burocracias e hierarquias entre funcionários, as suas instalações grandiosas e esotéricas sem qualquer utilidade aparente para os leigos, as suas cerimônias de iniciação. Tal como uma religião decidida a alargar a sua congregação, a ciência tem uma enorme falange de missionários — que não se chamam a si mesmos missionários, mas professores.

Eis uma fantasia engraçada: um observador mal informado presencia o trabalho de equipe, intrincado e formal, necessário para preparar uma pessoa para a parafernália esotérica de uma tomografia axial computadorizada — um exame T.A.C. — e supõe tratar-se de uma cerimônia religiosa, um sacrifício ritual, porventura, ou a investidura de um novo arcebispo. Mas estas semelhanças são superficiais. E quanto às semelhanças mais profundas que têm sido defendidas? A ciência, tal como a religião, tem as suas ortodoxias e as suas heresias, não tem? Não é afinal a crença no poder do método científico um credo, tal como os credos religiosos, no sentido em que em última análise é de uma questão de fé, tão incapaz de confirmação independente ou fundamento racional como qualquer outro credo religioso? Repare-se que a pergunta ameaça autodestruir-se: ao contrastar a fé com a confirmação independente e com o fundamento racional, negando que a ciência como um todo possa usar os seus próprios métodos para assegurar o seu próprio triunfo, a pergunta presta homenagem a esses mesmos métodos. Parece existir uma assimetria curiosa: os cientistas não apelam à autoridade de quaisquer líderes religiosos quando os seus resultados são contestados, mas muitas religiões atuais adorariam poder garantir o aval da ciência. Algumas dessas religiões têm nomes que manifestam esse desejo: os cientistas cristãos e os cientologistas, por exemplo. Temos também uma palavra para a veneração da ciência: «cientismo». Acusam-se de cientismo aqueles cuja atitude entusiástica perante as proclamações da ciência é muito semelhante às atitudes do devoto: em vez de ser cauteloso e objetivo, tem uma postura de adoração, é acrítico ou até fanático.

Se o summum bonum ou máximo bem dos cientistas é a verdade, se os cientistas fazem da verdade o seu Deus, como já foi defendido, não será esta uma atitude tão situada quanto o culto de Jeová, de Maomé, ou do Anjo Moroni? Não, a nossa fé na verdade é, verdadeiramente, a nossa fé na verdade — uma fé partilhada por todos os membros da nossa espécie, mesmo que exista grande divergência nos métodos admitidos para a obter. A assimetria acima referida é real: a fé na verdade tem uma primazia que a distingue de todas as outras fés.

 

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Daniel C. Dennett
Dept of Philosophy
Tufts University, USA

 

Fonte: Trata-se de uma das Oxford Amnesty Lectures, proferida pelo autor em Oxford em Janeiro de 1997.

 



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