Silvio Seno Chibeni

>    Filosofia: Noções introdutórias

Artigos, teses e publicações

Compartilhar
Silvio Seno Chibeni
>    Filosofia: Noções introdutórias

 

Embora aparentemente simples, as questões do que é e para que serve a filosofia estão entre as que mais dificuldades e divergências causam entre os filósofos. Esse mero fato, porém, já indica algo importante sobre a natureza da filosofia: o questionamento sistemático, incessante e profundo de tudo o que se afirma.

É comum caracterizar-se a filosofia como aquilo que fazem os grandes filósofos: Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes, Locke, Hume, Kant, entre tantos outros. Embora pareça circular, essa definição também ajuda a delinear o domínio dessa disciplina, desde, é claro, que se estudem as obras desses homens. Quando fazemos isso damo-nos conta de que existe uma ampla variação nos problemas, teses e métodos que se consideram pertinentes à filosofia.

Voltando às origens da filosofia na Grécia Antiga, notamos que, pela própria etimologia do termo, a filosofia era entendida como o amor ao saber, ou a busca da verdade. Naquela época e, em certa medida, por muitos séculos da era cristã, a filosofia englobava todos os ramos do conhecimento puro (em contraste com as artes e ofícios). Só gradualmente é que alguns deles foram se tornando autônomos, como a matemática, a astronomia, a história, a biologia, a física. Em particular, a distinção entre filosofia e ciência é bem recente, esboçando-se no início do período moderno, no século XVI, e acentuando-se nos séculos seguintes.

Hoje em dia costuma-se considerar pertencentes ao tronco principal da filosofia as disciplinas da estética, lógica, ética, epistemologia e metafísica, sendo que as duas primeiras mostram tendência à autonomização. De forma muitíssimo simplificada, pode-se dizer que a estética examina abstratamente a beleza e a feiúra; a lógica investiga o encadeamento formal das proposições; a ética estuda questões relativas ao bem e ao mal, aos direitos e deveres; a epistemologia ocupa-se do conhecimento, suas origens, fundamentos e limites, enquanto que a metafísica procura especular sobre a natureza última das coisas. Fora esses ramos fundamentais, há ainda diversos outros que resultam de suas interconexões e especializações, como por exemplo a filosofia política, a filosofia da linguagem, a filosofia da ciência, a teologia.

Uma das principais correntes filosóficas contemporâneas propõe que a filosofia não deve ser entendida como a formulação ou defesa de teses ou conjuntos de teses sobre o que quer que seja, mas simplesmente como o desenvolvimento de métodos de análise crítica e sistemática, a serem aplicados especialmente ao chamado conhecimento científico. Nessa perspectiva, o filósofo seria alguém que tenta explicitar os conceitos, os pressupostos, a estrutura lógica e as implicações das teorias científicas, políticas, religiosas, etc. Semelhante atitude crítica - mas não de uma crítica leviana, estouvada ou interesseira - seria a essência da filosofia, o elemento comum que permearia a grande variedade de linhas filosóficas já concebidas.

Embora quando se olhe para as abstrações e sutilezas tipicamente discutidas pelos filósofos se possa concluir que a filosofia para nada serve ¾ e não poucos filósofos concordariam com isso -, a referida proposta talvez permita encontrar, num plano seguramente afastado do das necessidades materiais cotidianas, uma finalidade útil para a filosofia: a clarificação das bases, métodos e implicações das ciências e de outras disciplinas intelectuais, contribuindo-se assim para a identificação de fundamentos falsos ou inseguros, de falácias argumentativas, de dogmas encobertos.

Ensinando, ou pelo menos convidando, o homem a refletir criticamente sobre tudo o que se afirma ou faz em todos os setores, a filosofia de alguma forma auxilia o aprimoramento de seu intelecto e, talvez, de seus sentimentos, que o diferenciam de um mero animal que come, bebe, dorme e se reproduz.

 


Sugestão de leitura:
RUSSELL, B. The Problems of Philosophy. Oxford, Oxford University Press, 1983. (Ver, especialmente os capítulos 14 - The limits of philosophical knowledge e 15 - The value of philosophy.)

Original: http://www.ditext.com/russell/russell.html
Tradução de Jaimir Conte: http://www.cfh.ufsc.br/~conte/russell.html

 


Fonte
: http://www.unicamp.br/~chibeni/textosdidaticos/filosofia.htm




topo

 

Leiam outros textos Silvio Seno Chibeni


->  As acepções da palavra 'Espiritismo' e a preservação doutrinária
->  Algumas noções sobre o Formalismo Quântico
->  Os acréscimos e modificações na 13a edição francesa do Livro dos Espíritos
->  Algumas abordagens recentes dos fenômenos espíritas
->  Caracteres da Revelação Espírita
->  Características Conceituais Básicas da Física Clássica
->  Caridade e Amor
->  Ciência Espírita
->  A "ciência oficial"
->  O enobrecimento do Movimento Espírita
->  Entrevista
->  Epistemologia: Noções introdutórias
->  A Errata do O Livro dos Espíritos
->  O Espiritismo em seu tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso
->  A Excelência Metodológica do Espiritismo
->  Filosofia: Noções introdutórias
->  Kuhn e a Estrutura das Revoluções Científicas
->  Notas de aula de introdução à filosofia da ciência
->  Notas históricas e bibliográficas sobre edições francesas de O Livro dos Espíritos

->  Notas sobre tipos de argumentos
->  Notas sobre lógica: O condicional
->  Observações sobre as relações entre a ciência e a filosofia
->  A página de rosto da segunda edição do Livro dos Espíritos
->  As paixões: uma breve análise filosófica e espírita
->  A Pesquisa Científica do Espírito
->  A Pesquisa científica espírita
->  Por que Allan Kardec?
->  O paradigma espírita
->  O prefácio de Kardec à segunda edição francesa de O Livro dos Espíritos
->  O que é ciência?
->  Questões acerca da natureza do Espiritismo
->  As relações da ciência espírita com as ciências acadêmicas
->  A Religião Espírita
->  Resenha: Le Livre des Esprits
->  Revisão da terminologia espírita?
->  Ser Espírita
->  Sinopse dos principais fatos referentes às origens do Espiritismo
->  The Spiritist Paradigm

->  O Surgimento da Física Quântica
->  Teorias construtivas e teorias fenomenológicas
->  O Texto Acadêmico
->  Os Trabalhadores da Última Hora

Chibeni, Silvio Seno & Almeida, Alexander Moreira
->  Investigando o desconhecido: filosofia da ciência e investigação de fenômenos “anômalos” na psiquiatria

Chibeni, Silvio Seno & Chibeni, Clarice Seno

-> >  Estudo sobre a mediunidade

Chibeni, Silvio Seno & Chibeni, Silvia Seno
->  A concepção espírita de fatalidade

Chibeni, Silvia Seno
->  Estudo sobre o passe


topo