Silvio Seno Chibeni

>    A Errata do Livro dos Espíritos

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Silvio Seno Chibeni
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Conforme registra a edição histórica de Le Livre des Esprits publicada pela FEB em 1998 (ver resenha em Mundo Espírita, fevereiro de 2002, p. 5), a 5a edição francesa, de 1861, trazia uma errata, com extensão de uma página. A errata apareceu somente nessa edição; na edição da FEB a errata foi reproduzida na posição original, no final da obra. Por sua importância histórica, daremos em seguida sua tradução integral. Os números de página referem-se à edição francesa (o exame comparado da errata com o texto da 2a edição, reproduzido fotograficamente pela FEB, indica que a 5a edição manteve a paginação da 2a). Para facilitar a localização em outras edições, damos, quando necessário, o item ou sub-item, entre colchetes. Teceremos depois alguns comentários sobre as alterações indicadas por Kardec.


ERRATA

Página 73, no final da nota [n° 165], acrescentar: Na morte natural, a perturbação começa antes da cessação da vida orgânica, perdendo o Espírito toda consciência de si no momento da morte. Segue-se daí que ele jamais testemunha o último suspiro. As convulsões da agonia são efeitos nervosos que quase nunca o afetam. Dizemos quase, porque em certos casos tais sofrimentos lhe podem ser impostos como expiação.

Página 109, n° 226, no final da nota, acrescentar: Entre os Espíritos não encarnados, alguns há que têm missões a cumprir e ocupações ativas, gozando de relativa felicidade, enquanto que outros vagueiam na incerteza. São estes últimos os errantes, na verdadeira acepção do termo, constituindo, de fato, aquilo que se designa pela expressão almas a penar. Os primeiros nem sempre se consideram errantes, pois fazem uma distinção entre a sua situação e a dos outros (1015).

Página 137, n° 285 [a], acrescentar: Quando necessário, podem igualmente se reconhecerem pela aparência que tinham quando vivos. Ao Espírito recém-chegado, e ainda pouco familiarizado com seu novo estado, os Espíritos que o vêm receber apresentam-se sob uma forma que lhe permite reconhecê-los.

Página 191, n° 437, acrescentar: ver o n° 257, “Ensaio teórico da sensação nos Espíritos”.

Página 210, n° 479, acrescentar: ver o Livro dos Médiuns, cap. “Da Obsessão”.

Página 252, linha 2 [n° 586, final da resposta], suprimir: e intuitiva.


Dessa errata, apenas o último item foi incorporado às edições posteriores, embora somente a partir da 10a edição. Apresenta-se aqui uma série de dúvidas de natureza histórica, cujo esclarecimento requer dados não disponíveis. Mesmo assim é útil enumerá-las, analisando-as como pudermos, para que saibamos doravante o que fazer com a errata em nossos estudos espíritas.

Por que a errata apareceu somente na 5a edição? Por que, com a apontada exceção, não foi incorporada ao texto das edições subseqüentes? Pode ser que razões econômicas tenham se anteposto a isso, pois com o sistema de impressão da época qualquer alteração que exigisse repaginação implicaria refazer todo o texto daquele ponto em diante. Inspecionando graficamente o original, no entanto, nota-se que isso ocorreria apenas com os itens 226 e 285, as demais alterações sendo incorporáveis sem repaginação. Se uma alteração foi incorporada, por que não as outras três? Pode-se supor que aqui Kardec levou em conta a natureza das alterações: a do item 586 é imperiosa, pois configura um erro – certamente um lapso, e não alguma falha de observação ou raciocínio –, enquanto que as demais são em certa medida opcionais.
Essa suposição é bem plausível no caso dos itens 437 e 479, que são meras indicações de referências cruzadas. Quanto à outra mudança que não requereria repaginação, a do item 165, trata-se de um esclarecimento bastante útil acerca do processo de desencarnação. Teria Kardec julgado que ainda faltava apoio mais sólido ao que afirmou na errata? De qualquer forma, à luz do que sabemos hoje não parece haver falhas nas afirmações feitas.
São igualmente interessantes as alterações referentes aos itens 226 e 285, cuja incorporação no texto apresentaria dificuldades gráficas. A última complementa de forma muito relevante a resposta inicial, um tanto obscura, referente ao modo de reconhecimento dos Espíritos. Essa complementação foi corroborada plenamente pelos estudos espíritas ulteriores, especialmente pelos relatos mediúnicos detalhados de que dispomos hoje, como os de André Luiz, Philomeno de Miranda, Yvonne Pereira, etc.

Finalmente, quanto ao item 226, nota-se que Kardec procurou, na errata, restabelecer o sentido próprio da expressão Espírito errante. Ora, com o desaparecimento da errata e a não incorporação dessa correção às edições subseqüentes, esse objetivo acabou não sendo alcançado. Cristalizou-se em toda a literatura espírita o significado que Kardec reconheceu como impróprio, segundo o qual Espírito errante é sinônimo de Espírito desencarnado, independentemente de sua condição.

Tentemos agora, para concluir, avaliar a errata de forma geral, para nortear nossos estudos daqui para diante, e sugerir diretrizes aos editores da obra fundamental do Espiritismo.

É inegável que o único erro propriamente dito é o do item 586, que foi corrigido por Kardec, embora tardiamente. Dele estão isentas as edições correntes em francês, português, inglês e esperanto a que tivemos acesso; devem, pois, ter se baseado em edições posteriores à 10a.

As referências cruzadas, do penúltimo e antepenúltimo item da errata, são evidentemente úteis, devendo pois ser incorporadas às novas edições. O mesmo vale, com mais forte razão, para os esclarecimentos sobre a perturbação espiritual conseqüente à desencarnação e sobre a aparência dos Espíritos desencarnados.

Quanto ao adjetivo errante, é claro que a reversão do uso corrente no meio espírita é difícil, quando não impossível, ao menos a curto prazo. Isso não impede, porém, que a observação de Kardec seja inserida nas edições futuras.

Além disso, seria interessante que os escritores e expositores espíritas levassem em conta esse ponto, o que gradualmente induziria ao restabelecimento do sentido etimológico do termo.

Resta a questão editorial: as novas edições devem reproduzir a errata no final ou incorporar as alterações ao longo do próprio texto? Não temos dúvida de que a segunda opção é preferível. Primeiro, a errata está disponível para os pesquisadores em sua versão original, na edição histórica da FEB. Depois, e mais importante, o leitor espírita médio de hoje certamente terá mais facilidade para perceber as mudanças se elas estiverem no próprio texto. É claro que neste caso deve haver notas de rodapé indicando precisamente cada alteração, com uma referência histórica geral à errata numa introdução ou apêndice do editor.

A descoberta e publicação da errata foi uma contribuição relevante para os estudos referentes ao Livro dos Espíritos, e portanto ao Espiritismo de um modo geral, não devendo, por isso, ficar confinada ao restrito círculo daqueles que puderam ler o importante volume editado pela FEB.

 


Fonte: Texto publicado em Mundo Espírita, setembro/2002, p. 10.

 


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