Como este texto pretendemos abrir caminho para discussões e exposições
de fatos incontestavelmente mediúnicos, seja na exposição
de obras da literatura clássica, seja no processo de sua escrita.
É bem conhecida a importância dos poetas e literatos de
todas as épocas sobre a religião e a cultura. Muitas vezes
são indivíduos positivamente inspirados, além de
trazerem grande bagagem de conquistas na área da sensibilidade
e da memória, como freqûentemente ocorre entre artistas.
A vantagem da literatura está em que este campo da Arte situa-se
na fronteira entre a pura Arte, de um lado, e as Ciências Humanas
e a Filosofia, de outro. O argumento, portanto, está presente
na grande obra literária, a discursividade, a exposição
mais ou menos racional dos temas, enfim, elementos que pôem a
Literatura em condição privilegiada para a transmissão
de uma mensagem, mais do que apenas um sentimento.
Sob o termo literatura também se englobam relatos menos artísticos,
ensaios e trabalhos de caráter mais teórico, de modo que
os diálogos de Platão (428/427-348/347 a.C.) ou os livros
da Bíblia estão perfeitamente inseridos sob este
termo.
Uma boa mostra da forte presença da mediunidade entre os gregos,
e que nos ajuda a compreender como eles tinham consciência do
fenômeno, é a passagem do diálogo platônico
Timeu, onde os ministros do Deus Supremo, os deuses menores
ou "demônios", deveriam seguir a ordem de criar o corpo
humano de modo que ele fosse o mais próximo possível do
Deus Supremo. Neste próposito, deram ao homem um órgão
(supostamente o fígado) que percebe a inspiração
divina, destacando-se que a inspiração não acomete
aos homens mais sábios, mas aos mais tolos ou que parecem loucos:
Nenhum homem em sua sobriedade atinge
o estado de inspiração divina profética, mas
quando ele recebe a palavra profética, ou a sua inteligência
é afastada pela dormência, ou ela se torna equívoca
pelo estado de posssessão, e aquele que quiser interpretar
as palavras divinas, seja obtidas em sonho ou acordado, ou determinar
racionalmente o significado das visões de aparições,
compreendendo os resultados destes fenômenos para o bem ou o
mal dos homens, no passado, presente ou futuro, deve primeiramente
recuperar sua sobriedade.
No entanto, continua Platão:
Nem sempre um homem se lembra daquilo
que disse em estado profético, de modo que é conveniente
haver uma ou mais testemunhas durante a profecia e as visões.
Assim, aqueles que estão em seu estado de perfeita sobriedade,
podem interpretar melhor a narrativa daqueles que estiverem inspirados.
(http://www.classicallibrary.org/plato/dialogues/17_Timaeus.htm)
Observa-se claramente que Platão
não está defendendo um argumento, está meramente
descrevendo um fato, tal era a naturalidade com que lidava com fenômenos
deste tipo.
Igualmente clara é a conclusão a que ele chega no Íon:
E assim Deus arrebata a mente dos poetas,
e os utiliza como seus ministros, assim como também usa adivinhos
e os santos profetas, de modo que nós que os escutamos sabemos
que a sua fala não provém deles, e eles não pronunciam
palavras vazias neste estado de inconsciência, mas é
o próprio Deus quem fala, e através deles Ele conversa
conosco.
(http://www.classicallibrary.org/plato/dialogues/8_Ion.htm)
Somando-se os dois relatos percebemos que
o estado profético ou inspirado, descrito pelo filósofo,
tem importantes implicações científicas. Como Kardec,
ele (ou talvez seu mestre Sócrates) parece ter avaliado rigorosamente
o processo a ponto de formular uma compreensão teórica
bastante correta da fenomenologia mediúnica. Estão perfeitamente
descritos o estado de passividade do médium e o fato de a comunicação
não provir dele, o caráter transcendente da comunicação,
o fato de poder se processar no sonho ou no estado de transe, o fato
de a mediunidade ser, muitas vezes, uma missão atribuída
aos "ministros de Deus".
Platão também dava a entender, nestas e em outras obras,
que o estado profético destes inspirados podia ser utilizado
por outros para obter informações sobre a realidade maior,
para além do mundo dos sentidos. Muitos dos conhecimentos platônicos
parecem ter sido obtidos por esta via, conforme ele mesmo admite, embora
os historiadores prefiram imaginar que ele os obteve alhures, da Ásia
Menor, da Índia, do Egito.
Lembramos também que era costume entre os gregos consultar as
pítias (ou pitonisas), seja no famoso oráculo de Delfos,
seja em lugares e seitas menos famosos. Os relatos de Heródoto
(482-420 a.C) e a literatura grega deixam a entender que as sacerdotisas
do templo profetizavam tanto por "encomenda" quanto espontaneamente.
Também não nos perderemos na imensidão dos relatos
mitológicos, que entre uma fantasia e outra sugerem fenômenos
de vista mediúnica, incorporação, previsões,
etc.; nem na evidência direta da inspiração através
das "musas". Atentamos tão somente, a título
de exemplo, à obra madura de Homero (c.850 a.C), a Odisséia,
onde ele dá importantes indícios de que as práticas
mediúnicas lhe eram comuns.
No Canto XI, quando Odisseu (ou Ulisses) tem de descer ao Hades, ele
encontra a sombra de sua mãe. Após as apresentações
e explicações necessárias o herói tenta
abraçá-la três vzes, e não a podia tocar,
percebendo que ela se desvanecia como uma sombra ou como se fora "feita
de sonho". Indignado, ele pergunta à mãe o que ocorre,
e ela lhe responde:
(...) Está é a condição
de todo homem mortal quando morre, pois os nervos já não
unem mais carne e ossos:
A potente energia do fogo o consome todo quando toda a vida abandona
a branca ossada e o princípio vital se nos torna o mesmo que
um sonho.
Mas procura volver o quanto antes à luz, e recorda de tudo
isto, de modo que possa contá-lo à tua esposa.
(Homero, Odisea. Buenos Aires: Planeta,
2007. p. 195)
Percebem-se diversas características
interessantes neste encontro. A primeira é o modo com que ambas
as personagens se expressam sobre a substância da mãe,
que "parece um sonho", sugerindo claramente que a viagem de
Odisseu ao Hades não foi feita em sonho, mas que ele estava desperto
diante dos mortos e podia constatar serem eles formados de outra substância.
A segunda informação importante é a recomendação
da mãe de que ele deveria recordar do que se passou, recomendação
importante, considerando-se que o próprio Platão já
havia dito em sua análise da mediunidade que "[...] ou a
sua inteligência é afastada pela dormência, ou ela
se torna equívoca pelo estado de possessão [...]".
Homero, muito antes de Platão, apresenta a mesma idéia
, sugerindo a necessidade de um esforço posterior ao contato
com os mortos, no sentido de se recordar do ocorrido.
Por fim, não é menos importante, embora sutil, a recomendação
da mãe de Odisseu para que ele "conte à esposa"
o que se passou. É o caráter prático da comunicação,
e denota o interesse caritativo do Espírito em instruir e alertar
os encarnados. Em toda a literatura, seja a mais artística ou
mais ensaística, os relatos mediúnicos geralmente recomendam
a divulgação ou a transmissão da informação
a outros. Só em raríssimos casos, quando a informação
envolve riscos para alguém, há recomendações
para que se mantenha o segredo.
A obra de Homero tem duas grandes vantagens: a de ser uma obra de formação
da própria cultura helênica, estabelecendo paradigmas da
própria religião a partir daí, e a de expressar
um virtuosismo literário até hoje admirável, dando
idéia de quão impressionante deve ter sido para a Grécia
num momento em que ela sequer havia estabelecido a sua civilização.
A viagem de Odisseu ao Tártaro também se tornou um paradigma
na literatura ocidental. Virgílio (c. 70-19 a.C.) faz o seu Enéias
descer ao mundo dos mortos, cerca de oito séculos depois de Homero,
e depois Dante (1265-1321 d.C.) descreve na Divina Comédia
uma viagem ao Inferno, passando pelo Purgatório, ao Céu,
tomando a sombra de Virgílio como guia nesta inusitada peregrinação,
mais de mil anos depois de seu conterrâneo da Roma Antiga.
Por este motivo, a Odisséia tem a prerrogativa de haver
despertado as intuições latentes de inúmeros outros
pensadores e artistas, os quais a partir de então estariam sempre
mais próximos de semelhante viagem ao mundo dos mortos.
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