Artigo publicado na revista Reformador, de
Junho de 2006. De lá para cá (2010) o termo "panenteísmo"
popularizou-se muitíssimo, sendo empregado em diversos artigos
espíritas, embora nem sempre corretamente. Também surgiram
por parte de católicos e protestantes "acusações
de panenteísmo" contra o Espiritismo, escritos estes que
deixam entrever uma concepção antropomórfica tão
grosseira que acabam por fazer apologia ao que pretendiam combater.
Em geral o panenteísmo firmou-se como a concepção
superior e mais avançada da teologia deste início de século,
em todas as denominações cristãs.
***
Tanto para a filosofia quanto para
a teologia e mesmo para o misticismo a relação entre Deus
e a Substância do Universo é um dos pontos mais relevantes
para uma teoria da religião.
Antes mesmo de considerar as implicações morais da existência
de Deus enquanto supremo legislador é preciso investigar teoricamente
as “condições de Sua existência”, tarefa
que ocupou filósofos e teólogos desde o início
dos tempos, uma vez que destas concepções derivam os conceitos
e o entendimento mesmo da relação homem/Deus, Deus/Mundo,
Deus/destino, e outras implicações que constituem o cerne
da Religião.
Para se ter ideia da importância deste assunto lembramos que o
ateísmo é fruto da revolta contra uma péssima imagem
de Deus, o Deus humano e exterior, escondido em algum recanto dos céus.
Uma compreensão filosófica simplista ou deturpada da natureza
de Deus pode, portanto, resultar nos maiores absurdos quanto a interpretação
de Sua influência no Mundo, gerando doutrinas baseadas no medo,
na expectativa, na dicotomia da vida, que resultam invariavelmente em
angústia, descrença e rebeldia.
Ainda na raiz das tradições religiosas mais avançadas
da Antigüidade, tais quais as da Índia, do Egito, da Mesopotâmia,
da Judéia e da Grécia, vê-se uma multiplicidade
de perspectivas que variam entre o dualismo radical, doutrina que se
manifesta ainda nas igrejas cristãs arcaicas e no Islamismo institucional,
até as manifestações monistas mais complexas.(1)
Na tradição ocidental o dualismo, doutrina que opera irreconciliável
cisão entre espírito e matéria, Deus e Mundo, normalmente
opondo-os, ocasionando inclusive desprezo e demonização
do aspecto terreno da existência, foi sempre associado ao antropomorfismo
e a aspectos mais populares da Religião. E a ideia de dois mundos,
o dos deuses e o dos homens, com distintas naturezas, casou-se perfeitamente
com as elaborações primitivas de deuses humanóides,
com traços físicos e psicológicos similares aos
humanos.
Por sua simplicidade estas idéias ganharam terreno em todas as
culturas, enquanto os princípios mais espiritualizados da Religião
permaneceram nos cultos iniciáticos. De espírito simples,
os homens daquele tempo, como muitos de hoje, precisavam representar
por imagens fortes e distintas as duas esferas da realidade humana,
usando a imaginação para preencher as lacunas de conhecimento
sobre a vida espiritual, e opondo de maneira simplista os “dois
mundos”, como se fossem antagônicos, e não se dividiam
também os deuses em forças do mal e do bem, do céu
e da terra, estando esta última invariavelmente entregue ao mal.
Mesmo nos textos de Platão, malgrado sua compreensão da
matéria como cópia de modelos arquetípicos preexistentes,
o que denota um monismo de princípio, nota-se uma certa depreciação
do elemento material como impuro e oposto ao Bem.
Tal concepção colabora com a imagem de um Deus separado,
alheio ao mundo material, como se a este não houvesse também
criado e nele não se revelasse.
Foi decerto no Egito e na Índia que surgiu a idéia do
Pan-en-teísmo (2),
expressão cunhada no século XIX por Karl C. F. Krause
para designar a compreensão filosófica de Deus sempre
presente e atuante na Natureza, como mantenedor e vivificador eficaz
e perene de tudo o que existe. Não confundir com a doutrina do
Panteísmo, que afirma que “Tudo-é-Deus”, e
que foi rejeitada pelos Espíritos nas perguntas 14, 15 e 16 de
“O Livro dos Espíritos”, pois a afirmação
de que tudo seja Deus gera decréscimo ou de Deus ou do homem
à algo sem individualidade definida, visto que sendo a mesma
coisa um dos dois torna-se atributo do outro.
De um ponto perdido no tempo a Índia e o Egito parecem ser os
nascedouros da religião filosófica, e por nosso registro
cultural ocidental somos obrigados a nos concentrar no segundo de onde
parte a ciência e a sabedoria de nossa tradição.
As marcas que o faraó Ramsés II, o Akhenaton, e Hermes
Trimegisto deixaram para a posteridade nos indicam a sombra da sabedoria
egípcia em seu esplendor original.
Fundamentado na consciência clara da ligação entre
todas as coisas da Natureza, sua dependência direta de Deus, o
Sol dos mundos, o Vivificador de Tudo, Trimegisto proclama que todas
as coisas são uma substância desprendida de Deus, e que
as diferenças existentes entre as manifestações
desta emanação se devem ao teor vibratório que
elas atingiram, ou seja, o grau em que se agitam impulsionados pela
crescente Vontade que todos os seres possuem, a força da vida
que cresce neles até torná-los plenos de vida, pensamento,
ação.
Após o contato com o Egito os judeus transformaram a sua crença
patriótica do deus guerreiro numa religião avançada
e espiritualizada. Embora a imagem antropomórfica apareça
em alguns livros da Bíblia, a Cabala hebraica conserva no conceito
de Ensof a idéia de que Deus vive e atua em todos os lugares,
todos os seres, todos os povos.
Na Gália, na Península Ibérica, na Britânia,
na Germânia e nos Balcãs adoravam-se os carvalhos, as flores,
os porcos, os cervos e os trovões como divinos que são,
obras das forças harmônicas e presentes em tudo que eles
não conceituavam, mas pressentiam como sendo a própria
Natureza e o próprio Universo.
Orfeu, poeta grego da era pré-clássica, bebeu desta fonte
e trouxe à Grécia tanto a teoria da metempsicose quanto
a visão de um Universo animado e sustentado pela Vontade Absoluta.
Pitágoras aprendeu de Orfeu e dos próprios sacerdotes
egípcios, com os quais viveu cerca de trinta anos, chegando a
um extrato bastante puro da antiga sabedoria. Entendeu que as diversas
substâncias do mundo se diferenciam pelo grau de complexidade
que atingiram, que uma harmonia perfeita se manifesta na natureza como
Leis, e na mente como Razão.
Sócrates e Platão coroam o ensinamento antigo pré-cristão
com a moralização da doutrina panenteísta, vendo
Deus como Sol das almas, a Verdade alcançável pelo intelecto
virtuoso e conhecedor de si mesmo, que lança luz sobre as sombras
dos vícios e ilusões, extinguindo-os. Pregam a reforma
da personalidade como via de regeneração da natureza real
da alma e divulgam a essência da filosofia antiga para toda a
coletividade.
Faltava ainda ao mundo o exemplo da vitória completa da personalidade
e da possibilidade de se chegar a uma virtude e pureza divinas. Quando
Jesus veio ao mundo a humanidade viu que a luz divina pode brilhar através
de um de nós. Vislumbrou-se o destino das criaturas terrenas
e a meta do longo progresso. Seus apóstolos dão testemunho
registrado de sua doutrina e vida. Resguardadas as diferenças
intrínsecas entre as duas esferas de existência, os apóstolos
nos dizem que “vivemos e nos movemos em Deus”, que “nós
somos deuses”, que “os mansos herdarão a Terra”,
tudo isso referindo-se a este mundo. Uma visão bem diferente
do pessimismo dualista que o enxerga como maldito e impuro.
Os heróis da era cristã tentaram resgatar a pureza e a
sublimidade da ideia filosófica de Deus que se apagou sob o julgo
da Igreja de Roma, malgrado os esforços de Plotino e da escola
de Alexandria no início da Era Cristã. Francisco de Assis
viu pedras, animais e plantas como seres divinos. Na Renascença
uma série de intelectuais, sendo Bruno o maior deles, reavivam
as doutrinas da sabedoria antiga, do infinito, dos muitos mundos habitados,
do Deus que se mostra em todas as coisas. A Reforma nas mãos
de Huss e Lutero proclamam uma vida cheia de Deus, a simplicidade dos
evangelhos e a liberdade da consciência, dom divino que dignifica
o homem e faz dele verdadeira imagem de Deus.
Na modernidade Paracelso, Böhme, mestre Eckhart, Espinosa e Leibniz
defenderam a ideia da unidade fundamental do Mundo como substância
emanada de Deus, em distintos graus de perfeição, mas
em harmonia entre si no Todo da natureza. A revolução
silenciosa da religião na Europa, ao contrário de suas
lutas intestinas em espaço público, levou quatro séculos
para atingir seu apogeu na poesia de Goethe e na filosofia de Hegel,
na Alemanha, e culminarem na sistematização da Doutrina
Espírita na França.
A doutrina Espírita nos diz que o Espírito também
é composto de matéria, embora quintessenciada, que o vida
dorme no mineral, para atravessar progressivamente as carreiras vegetal
e animal até despertar plenamente na inteligência do Espírito.
André Luiz nos diz, em “Evolução em dois
Mundos”, que o Universo é a condensação do
hausto do Criador. León Denis nos fala claramente em “Depois
da Morte”:
“O que a ciência derruiu para sempre foi a noção
de um Deus antropomorfo, feito à imagem do homem, e exterior
ao mundo físico. Porém, a essa noção veio
substituir uma outra mais elevada, a de Deus, imanente, sempre presente
no seio das coisas.”
Sim, o Espiritismo é também um Panenteísmo, pois
afirma que tudo promana de Deus, e portanto tudo é bom e divino.
O desprezo pela matéria é despropositado em nossa doutrina.
Ela também nos diz, como a antiga sabedoria, que vivemos e nos
movemos em Deus.
Bibliografia:
DENIS, León – Depois da Morte / FEB, Rio de Janeiro. 1974
DURANT, Will. _ A História da Filosofia. in: Os pensadores /
Nova Cultural, São Paulo. 1996
_______, Will. _ O livro de Ouro dos Heróis da História
/ Ediouro, São Paulo. 2001
KARDEC, Allan _ A Gênese / FEB, Rio de Janeiro. 1999
______, Allan _ O Livro dos Espíritos / FEB, Rio de Janeiro.
2003
REALE, Giovanni e Dario ANTISERI – História da Filosofia
. Vol. II / Paulos, São Paulo. 1990
XAVIER, Francisco Cândido & André Luiz – Evolução
em dois mundos / FEB, Rio de Janeiro. 1977
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1 Doutrinas que professam a unidade e conexão
de todas as coisas a partir de sua origem em Deus.
2 Pan=tudo; Teo= Deus. Pan-en-teísmo literalmente significa Tudo
em Deus
Fonte: http://filosofiaespiritismo.blogspot.com/2010/11/e-o-espiritismo-um-panenteismo.html
humbertoschubert@yahoo.com.br
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