Todo o tipo
de espiritualismo, que não deve ser confundido com religião,
possui vantagens e desvantagens muito particulares. Isto porque o espiritualismo
é um conjunto de princípios filosóficos que se
propõe a explicar o cosmo em contraposição ao materialismo.
Esta contraposição resume-se tão somente em defender
a existência de um elemento espiritual no universo, seja intelectual
ou apenas volitivo.
Schopenhauer e Nietzsche, embora ateus, não são de modo
algum materialistas, senão marcadamente espiritualistas, pois
acreditam numa força imaterial (e, portanto, espiritual) intrínseca
ao universo, a vontade. O Budismo, além de apresentar vertentes
ateístas nega também uma realidade concreta ao intelecto
e a vontade conforme as entendemos, mesmo assim também pode ser
considerado espiritualista, pois para os budistas a matéria é
um subproduto da natureza mental-volitiva do eu. A maioria dos espiritualistas,
porém, crê em Deus ou numa força absoluta, dotada
de realidade concreta.
Os espiritualistas concordam quanto à insuficiência dos
sentidos na apreensão da realidade. Para eles, é necessária
uma espécie de intuição ou sensibilidade especial
para o elemento sutil da vida enquanto tal que transcende a materialidade,
e, portanto, os sentidos físicos. Nietzsche identificava através
desta sensibilidade metafísica uma pulsão vital, a vontade
de poder, que orientaria a evolução das espécies
e produziria formas cada vez mais fortes, até culminarem no super-homem.
Já os Yogis acreditam investigar diretamente a energia sutil
através de técnicas refinadas de meditação
e controle respiratório, de modo a adquirirem suas habilidades
extraordinárias, especialmente a resistência a todo o tipo
de desconforto e privação material. Judeus, cristãos
e muçulmanos acreditam numa espécie de capacidade intuitiva
para reconhecer a validade dos profetas, de modo que o “espírito
reconhece o espírito”, e suas escrituras compartilham um
elemento bem seletivo que identifica as almas propensas à recepção
da mensagem divina como dotadas de “olhos e ouvidos espirituais”.
O Espiritismo leva ao extremo o enfoque na sensibilidade espiritual,
apontando para o intercambio permanente entre o mundo físico
e o além, para a interconexão entre todos os seres, vivos
ou mortos, e enfatizando a capacidade universal de movimentar energias
sutis através de qualquer ato mental.
Todas as formas de espiritualismo, exatamente por trabalharem com esta
sensibilidade para os fenômenos mais discretos e sutis da natureza,
correm o risco de superexcitar a imaginação, dando margem
a todo tipo de superstição e crendice. É, portanto,
um risco grave para os espiritualistas a falta de cautela em relação
a novidades, modismos e personalismos. O Espiritismo em particular prega
o trato científico dos elementos espirituais da natureza, buscando
evitar exatamente a proliferação de crenças e dogmas
conflitantes quão ineficazes. E conquanto seja difícil
manter o Espiritismo sob a tutela de rigores científicos, estando
ele difundido em todas as camadas da sociedade, as referencias mínimas
ao método crítico permanecem questão de urgência
se o que se pretende é evitar a progressiva fragmentação
em seitas esotéricas.
Fique bem entendido que não apoio qualquer discriminação
contra grupos que comportam novidades e particularidades, mas a definição
de esotérico é a mais apropriada neste caso. Isto porque
esotérico corresponde àquelas comunidades privilegiadas
por um conhecimento que outros não possuem, ou com tradições,
práticas e regras que só são conhecidas ou restritas
a esta comunidade. Esotérico não é um equivalente
para insensato ou irracional, mas para alguém ou alguma sociedade
que acredita estar em posse de uma revelação especial.
Embora isto seja possível, não é recomendável,
pois quem se acredita na posse de um privilégio destes não
tem como averiguar sua veracidade de forma racional.
O Espiritismo nega firmemente a ideia de uma revelação
restrita ou especial para um grupo étnico ou religioso qualquer,
e isto por motivos científicos e filosóficos. Científicos
porque um fenômeno natural tem de apresentar-se universalmente,
e não apenas para os crentes. Filosófico porque este privilégio
contraria a justiça divina, senso absurdo supor que um conhecimento
benéfico ao gênero humano fosse reservado a um grupo de
eleitos. Quando os romanos se queixaram a Paulo, alegando que os judeus
tinham uma tradição profética que facilitava a
vida regrada, o apóstolo dos gentios rebateu como absurda a ideia
de que Deus só revelara suas leis aos judeus:
“Porque
os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como
também a sua própria divindade, claramente se reconhecem,
desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das cousas
que foram criadas. Tais homens são por isso indesculpáveis;
porquanto, tendo conhecimento de Deus não o glorificam como
Deus... antes se tornaram nulos em seus próprios raciocínios,
obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se
por sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do
Deus incorruptível em semelhança da imagem do homem
corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis...
Pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo
a criatura, em lugar do Criador...”
ROMANOS: I, 20.
O que Paulo já estabelecia nas
epístolas só aumenta com o surgimento da ciência
e a Idade da Razão. A revelação não pode
contrariar o conhecimento comum, nem a fé contradizer a lógica
e a observação mundana. Por mais que haja formas complementares
de conhecimento, todos devem submeter-se aos critérios de validade
pública para que possam integrar um corpo doutrinário
coerente. Ao assumir uma revelação exclusiva estaremos
cortando os laços com os critérios de validade universal
do conhecimento, que consistem na exposição e discussão
pública dos fenômenos. O fenômeno mediúnico
já é por demais melindroso para que descuidemos de uma
averiguação cuidadosa.
Para evitar os personalismos e a criação de facções
esotéricas, cada qual pretendendo gozar de informações
específicas e privilegiadas sobre o mundo dos espíritos,
Kardec formulou cláusulas científicas e racionais muito
precisas. Entre elas citamos só de passagem o controle universal
do ensino dos espíritos e as repetidas afirmações
de Kardec e dos espíritos sobre o privilégio da dúvida
sobre a certeza.
O controle universal do ensino dos espíritos é o fio da
balança científica de Kardec. Como a maioria dos fenômenos
é de caráter intelectual, e a sua medição
física impossível, o julgo científico da doutrina
espírita não pode prescindir de um controle comparativo
das comunicações em si. Ao tempo de Kardec já haviam
inúmeras teorias e até mesmo crenças enraizadas
sobre a natureza do mundo espiritual, de modo que ele identificou suas
contradições e os perigos de mistificação
inerentes a prática da mediunidade. A resposta técnica
para o problema foi o da amostragem geral das comunicações
espíritas em diferentes cidades e países, por diferentes
médiuns e preferencialmente através de comunicações
espontâneas. Desta forma elimina-se toda a possibilidade de personalismo,
pois os julgamentos são baseados na maioria dos resultados, e
não naqueles peculiares a este ou aquele grupo. A semelhança
ou unanimidade em relação a temas muito complexos, a identidade
de terminologias, metáforas, exemplos e hipóteses vindos
de médiuns desconhecidos e em condições incomunicáveis,
depõem contra qualquer possibilidade de adotar-se uma concepção
formulada por influencia do meio ou da personalidade dos médiuns.
Adicionalmente ao controle universal das informações Kardec
propunha a postura crítica mais rigorosa mesmo em relação
aqueles conhecimentos que parecessem unânimes majoritários
entre os médiuns.
Longe de adotá-los apenas segundo o critério “democrático”
do controle universal, expunha-os ao crivo da razão e questionava
a sua pertinência, coerência, aplicabilidade e se a teoria
em questão acrescentava algo ao que já se sabia.
Sem condenar o esoterismo, podemos afirmar categoricamente que ele não
pertence à prática espírita, e que inclusive a
confronta. Por estas razoes somos forcados a reconhecer que toda a forma
de esoterismo constitui uma agressão dos princípios mais
básicos do Espiritismo. Não obstante, as influencias esotéricas
são perceptíveis e até frequentes entre adeptos
do Espiritismo.
Com base na definição feita até aqui discriminamos
com segurança alguns dos elementos esotéricos que não
poderiam figurar entre os ensinos e práticas dos espíritas:
1- Os rituais: Pois
todo tipo de ritual é, por definição, uma imposição
comportamental que prescinde de justificação. O passe
a fluidificação da água, por exemplo, são
amplamente justificados dentro dos conceitos espíritas referentes
aos fenômenos naturais, e se estabeleceram por confirmação
de seus resultados positivos através da experiência.
A preferência por roupas ou adereços da cor branca, por
outro lado, não possui nenhuma destas prerrogativas, sendo
difundida de modo dogmático e ritualístico, por forca
de tradição e argumentos de autoridade. É, pois,
uma prática esotérica, na medida em que seus defensores
alegam haver razoes para o seu uso, mas estas razoes não são
justificáveis racionalmente, apenas aceitas como revelação
dos espíritos.
2- Todas as revelações provenientes de uma só
fonte: Uma vez que só podemos garantir uma análise
racional de informações amplamente verificadas através
de vários médiuns sem predisposição prévia
a determinadas ideias. Assim, todas as informações extras
transmitidas por via mediúnica devem ser colocadas primeiramente
sob suspeita até que se comprove a sua suficiente justificação
racional, não importando para isto o renome do médium.
Desta forma, a revelação dos casos de licantropia, claramente
um acréscimo em relação às informações
de que já se dispunha na época de Kardec, só
estabeleceu-se como plausível por sua concordância lógica
com a Doutrina dos Espíritos, já que se sabe que o perispírito
é elemento plástico submisso ao pensamento e que imagens
e fixações patológicas podem imprimir-lhe condensações
energéticas de longo prazo, e também porque esta informação
foi repetida por múltiplas fontes seguras e independentes.
Por outro lado, revelações que não possuam sintonia
direta com a Doutrina dos Espíritos e que se liguem exclusivamente
a um médium ou espírito devem ser desconsideradas sem
maiores preocupações como não-espíritas.
Enquanto não se firme racional e empiricamente toda a inovação
nas revelações mediúnicas deve ser tida como
esotérica, ou seja, incomprovada, restrita a classe de revelações
especiais a determinado grupo ou pessoa, o que não quer dizer
que seja obrigatoriamente falsa.
3- Toda a informação importada de outro sistema
não científico: É comum entre os espiritualistas
flertar com outras denominações análogas. Mística
indiana, sobretudo o yoga, acumpultura, tai chi, umbanda, xamanismo,
cartomancia e outras práticas são todas mais ou menos
enquadráveis como esotéricas. Novamente isto não
implica a sua falsidade, apenas a sua insuficiência em justificar-se
racional e cientificamente. Os seus praticantes e os espíritas
simpatizantes devem ter a honestidade de não atribuir a estes
processos o nome de ciência, a não ser de modo muito
genérico, como conhecimento e experiência adquirida.
Alguns destes possuem até um aspecto científico, mas
abraçam elementos rituais, revelações não
racionalizadas, simbolismos e hábitos injustificados transmitidos
por autoridade da tradição, sendo desta forma, ao menos
parcialmente, esotéricos. Na medida em que sejam esotéricas,
nenhuma doutrina espiritualista possui afinidade com o Espiritismo.
Isto não é uma condenação a estas práticas,
mas uma exigência de que se apresentem despidas de seus elementos
esotéricos, para que então possam ser aceitas de acordo
com os critérios de racionalidade do Espiritismo.
Fonte:
http://filosofiaespiritismo.blogspot.com/2010/12/mistificacao-e-esoterismo-os-riscos-do.html
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