Este artigo examina brevemente alguns aspectos das relações
entre a ciência espírita e as ciências acadêmicas,
destacando-se a esclarecida e firme postura de Allan Kardec a esse respeito.[1]
Questão:
Na época do surgimento do Espiritismo alguém que se dedicasse
à pesquisa dos fenômenos mediúnicos e não
se inclinasse a considerá-los como fantasias ou fraudes arriscava-se
a cair em descrédito nos meios científicos e acadêmicos.
Houve alguma mudança nessa postura? Ainda existe antagonismo
entre ciência e espiritualismo? A ciência é necessariamente
materialista?
Resposta:
Existe, como está implícito nas considerações
feitas no artigo precedente, um certo grau de conservadorismo na “ciência-comunidade”,
e as análises filosóficas contemporâneas reconhecem
aí um requisito importante de uma ciência madura. A compreensão
desse ponto paradoxal requer estudos especializados. Em alguns artigos
sobre a ciência espírita (ver referências bibliográficas)
procurei indicar o papel daquilo que o filósofo da ciência
Imre Lakatos chamou de “heurística negativa” de uma
ciência. Trata-se, de forma simplificada, da decisão metodológica
explícita ou tácita dos membros de uma comunidade científica
de preservar, tanto quanto possível, o núcleo de leis
fundamentais de seu programa científico de pesquisa.
Lakatos argumentou convincentemente que sem essa política
conservadora moderada e racional o desenvolvimento científico
ficaria inviabilizado. É somente quando condições
excepcionais se reúnem, envolvendo o fracasso sistemático
do programa de pesquisa em resolver problemas teóricos e de ajuste
empírico que o núcleo do programa é revisto ou
rejeitado. Na atividade normal da ciência os ajustes e desenvolvimentos
teóricos se dão em partes menos centrais da malha teórica,
que Lakatos denominou de “cinturão protetor” de leis
auxiliares.
Menciono isso para ressaltar que a relutância
da comunidade científica em aceitar uma nova teoria sobre o ser
humano, como é o caso do Espiritismo, é natural e esperada.
Cumpre notar que o Espiritismo trata de coisas que escapam ao domínio
das ciências ordinárias, cujo objeto de estudo são
os fenômenos e leis pertinentes à matéria. Detenhamo-nos
um pouco mais sobre esse ponto.
Um elemento central na análise da ciência
é a distinção entre teoria, método e objeto
de estudo. As diversas ciências distinguem-se entre si,
em primeira instância, por seus objetos de estudo, os conjuntos
de fenômenos que investigam. Fenômenos mecânicos,
elétricos, magnéticos e nucleares, por exemplo, são
do escopo da física; a formação e dissociação
de moléculas constitui objeto de estudo da química; a
vida, em muitas de suas expressões, é examinada pela biologia.
Existem, naturalmente, pontos de contato, interseções
e hibridações entre as ciências, mas isso não
dilui a distinção fundamental entre elas.
Ora, dada a diversidade de objetos de estudo, haverá
diferenças expressivas nos métodos e características
teóricas das várias ciências. A identificação
de elementos comuns entre elas é tarefa mais difícil do
que à primeira vista parece, constituindo um tópico dos
mais importantes da área da filosofia denominada filosofia da
ciência.
Nos artigos mencionados procurei apresentar alguns traços
importantes dessa disciplina, em conexão com o exame do aspecto
científico do Espiritismo. Uma tese central neles defendida é
que o Espiritismo, tal como estruturado por Allan Kardec, exibe todas
as características de uma genuína ciência, à
luz da filosofia da ciência contemporânea. Não se
deve, porém, confundir o fato de o Espiritismo ser uma ciência
com a suposição falsa de que ele é parte das ciências
acadêmicas, que tratam de fenômenos referentes à
matéria.
No parágrafo 7 da Introdução
de O Livro dos Espíritos Kardec discorre lucidamente
sobre o assunto, de uma perspectiva filosófica bem avançada
para sua época, concluindo seguramente que “o Espiritismo
não é da alçada da ciência”, isto é,
das ciências acadêmicas. Retoma essa análise de forma
mais extensa em O que é o Espiritismo, onde
encontramos, por exemplo, este interessante raciocínio no capítulo
I, segundo diálogo, seção “Oposição
da ciência”:
As ciências vulgares repousam sobre as propriedades
da matéria, que se pode, à vontade, manipular; os fenômenos
que ela produz têm por agentes forças materiais.
Os do Espiritismo têm como agentes inteligências
que possuem independência, livre-arbítrio e não
estão sujeitas aos nossos caprichos; por isso eles escapam
aos nossos processos de laboratório e aos nossos cálculos,
e, desde então, ficam fora dos domínios da Ciência
propriamente dita.
A Ciência enganou-se quando quis experimentar
os Espíritos como o faz com uma pilha voltaica; foi mal sucedida,
como devia ser, porque agiu pressupondo uma analogia que não
existe; e depois, sem ir mais longe, concluiu pela negação,
juízo temerário que o tempo se encarrega de ir emendando
diariamente, como já fez com tantos outros [...].
As corporações científicas
não devem, nem jamais deverão, pronunciar-se nesta questão;
ela está tão fora dos limites do seu domínio
como a de decretar se Deus existe ou não; é, pois, um
erro tomá-las aqui por juiz.
No primeiro capítulo de A Gênese,
parágrafo 16, Kardec salienta, a esse propósito, que
estudando domínios diferentes e complementares “o Espiritismo
e a ciência completam-se reciprocamente”.
A autonomia do Espiritismo com relação às ciências
ordinárias parece estar suficientemente demonstrada (não
aqui, neste breve resumo, evidentemente, mas nos extensos estudos feitos
por Kardec e outros pensadores espíritas). Preocupa a incompleta
percepção desse ponto por muitos espíritas em nossos
dias, aqueles que pretendem, como dizem, “trazer a ciência
para o Espiritismo”. Não se dão conta adequadamente
de que o Espiritismo já constitui por si uma ciência independente
e vigorosa, e que, ademais, a peculiaridade de seu objeto de estudo
torna fora de propósito qualquer hibridação fundamental
com as ciências da matéria. Há, é claro,
áreas periféricas de contato, como por exemplo, o estudo
das enfermidades psicossomáticas, onde pode e deve haver contribuições
mútuas.
Não se deve confundir o que estou dizendo com
as justificadas críticas já avançadas por Kardec
a pessoas que, em nome da ciência ou não, julgam o Espiritismo
sem haver examinado atentamente todos os fatos de que trata, bem como
sua estrutura teórica. Isso é inadmissível filosófica
e cientificamente. Tal atitude infelizmente continua sendo comum, inclusive
nos meios acadêmicos. A especialização que caracteriza
a formação científica parece mesmo favorecê-la,
com também notou Kardec no referido item de O Livro dos Espíritos:
Aquele que se fez especialista prende todas as suas
idéias à especialidade que adotou. Tirai-o daí
e o vereis sempre desarrazoar, por querer submeter tudo ao mesmo cadinho:
conseqüência da fraqueza humana.
Na pergunta formulada alude-se também à
questão mais geral da posição da ciência
acerca do espiritualismo. Conforme em outras palavras ressaltou Aécio
Chagas em alguns de seus artigos mencionados na lista de referências,
não faz muito sentido discutir se as ciências acadêmicas,
enquanto conhecimento, são materialistas ou não. Foram
concebidas expressamente para descrever e explicar exclusivamente os
fenômenos materiais, não tendo nada a dizer sobre a disputa
materialismo versus espiritualismo, que gira em torno da questão
da existência de algo além da matéria.
Se se pergunta agora se a comunidade científica
acadêmica é materialista ou não, a questão
faz sentido, mas só admite resposta estatística, visto
que a convicção pessoal de cada um de seus integrantes
acerca desse problema filosófico não constitui critério
necessário ou suficiente para a sua admissão na profissão.
Parece certo que significativa parcela dos cientistas atuais é
materialista, mas isso talvez apenas reflita o padrão geral de
crença das sociedades nas quais mais prosperam as ciências,
como sugere o Prof. Chagas.
Seja como for, nós espíritas não
devemos nos inquietar com isso, como advertiu Kardec ainda no mesmo
parágrafo de O Livro dos Espíritos, de
onde extrairei mais este trecho, para concluir:
O Espiritismo é o resultado de uma convicção
pessoal, que os cientistas, como indivíduos, podem adquirir,
abstração feita de sua qualidade de cientistas [...].
Quando as crenças espíritas se houverem
difundido, quando estiverem aceitas pelas massas humanas [...], com
elas se dará com o que tem acontecido com todas as idéias
novas que hão encontrado oposição: os cientistas
se renderão à evidência. Lá chegarão,
individualmente, pela força das coisas. Até então
será intempestivo desviá-los de seus trabalhos especiais,
para obrigá-los a se ocupar de um assunto estranho, que não
lhes está nem nas atribuições, nem no programa.
Enquanto isso não se verifica, os que, sem assunto prévio
e aprofundado da matéria, se pronunciam pela negativa e escarnecem
de quem não lhes subscrevem o conceito, esquecem que o mesmo
se deu com a maior parte das grandes descobertas que fazem honra à
Humanidade.
* * *
Referências:
Alguns artigos encontram-se disponíveis
no site do Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp: http://www.geocities.com/Athens/Academy/8482
CHAGAS, A. P. “O que é a Ciência?”,
Reformador, março de 1984, p. 80-83 e 93-95.
––. “O Espiritismo na Academia?”, Revista Internacional
de Espiritismo, fevereiro de 1994, p. 20-22 e março de 1994,
p. 41-43 .
––. “A ciência confirma o Espiritismo?”,
Reformador, julho de 1995, p. 208-11.
––. Ainda sobre as relações entre as ciências
e o Espiritismo. (Submetido para publicação.)
CHIBENI, S. S. “Espiritismo e ciência”, Reformador,
maio de 1984, p. 144-47 e 157-59.
––. “A excelência metodológica do Espiritismo”,
Reformador, novembro de 1988, p. 328-333, e dezembro de 1988, p. 373-378.
––. “Ciência espírita”, Revista
Internacional de Espiritismo, março 1991, p. 45-52.
––. “O paradigma espírita”, Reformador,
junho de 1994, p. 176-80.
KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (O Livro
dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 43a ed., Rio de Janeiro,
Federação Espírita Brasileira, s.d.)
––. Qu'est-ce que le Spiritisme. Paris, Dervy-Livres, 1975.
(O que é o Espiritismo. s. trad. 25a ed., Rio de Janeiro, Federação
Espírita Brasileira, s.d.)
––. La Genèse, les Miracles et les Prédictions
selon le Spiritisme.Paris, La Diffusion Scientifique, s.d. (A Gênese,
os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Trad.
Guillon Ribeiro, 23a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita
Brasileira, s. d.)
Notas
[1] O conteúdo do texto
corresponde, com adaptações, a parte de entrevista concedida
por mim ao GEAE (Grupo de Estudos Avançados de Espiritismo),
pioneiro na divulgação do Espiritismo pela Internet. A
entrevista foi publicada no Boletim n. 300 (edição extra),
que circulou em 7/7/1998, podendo ser encontrado no site http://www.geae.org.
Gostaria de agradecer ao GEAE a anuência para o aproveitamento
desse material nesta série de artigos. Sou especialmente grato
aos seus membros Ademir L. Xavier Jr., pela iniciativa da entrevista,
e Carlos A. Iglesia Bernardo, por haver reunido as relevantes e oportunas
questões.
Artigo publicado em Reformador, novembro de 1999, pp. 344-346.
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