Espiritualidade e Sociedade





Wilson Czerski

>    Análise espírita sobre o acidente com o avião da Gol

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Wilson Czerski
>   Análise espírita sobre o acidente com o avião da Gol

 

Sempre que ocorre uma tragédia com muitas vítimas fatais, seja proveniente das forças da natureza (terremotos, furacões, tsunamis) ou provocada pelo homem, certas perguntas são inevitáveis. Por que acontecem? É fatalidade, destino, imprevidência humana? Era vontade de Deus que acontecesse? Por que uns se salvam e outros não se todos são filhos de Deus e, portanto, onde fica a sua justiça?

Recorremos ao Livro dos Espíritos para esclarecer algumas destas dúvidas, lembrando que muitos casos, embora possam guardar semelhanças gerais, possuem também particularidades que não podem ser desprezadas. Cada ser humano é uma individualidade, criatura de Deus sem igualdade absoluta com nenhum outro. Causas internas e externas se somam para culminar em certos resultados e a teoria geral que explica o fato em si pode não contemplar aspectos especiais de cada pessoa.

Na questão 851 da obra citada, é-nos explicado que a fatalidade só existe quanto às escolhas que a própria alma faz antes de reencarnar, traçando para si uma espécie de destino. Dizem com isso que, em linhas gerais, é o próprio homem que, mediante o livre-arbítrio, determina o tipo de experiências que deseja e/ou necessita vivenciar para o bem de seu progresso espiritual.

Acrescentam os Espíritos na Q. 866 que mesmo a fatalidade aparente, às vezes observada nos fatos materiais – visto que nos morais, decididamente ela não existe; por exemplo, ninguém nasce predestinado a matar alguém, cometer um estupro – aqueles acontecimentos decorrem da nossa liberdade de escolha e se constituem em provas escolhidas e não necessariamente só expiações como muita gente supõe.

Mas há mais duas facetas desta problemática. Uma, contida na questão 259, quando nos é informado que apesar destas escolhas prévias chamadas de “planejamento reencarnatório”, pelas quais determinamos nosso futuro, nem todas as atribulações que nos ocorrem foram previstas. Definimos os pontos-chave, o gênero das provas e/ ou expiações, mas os detalhes serão elaborados ao longo da vida, conforme a dinâmica de cada momento e situação.

A Q. 860 traz-nos a segunda faceta mencionada. O homem, mediante seu livre-arbítrio, pode mudar muitos dos acontecimentos previstos desde que não implique em rompimento com o planejamento básico anterior. Podemos desertar de compromissos assumidos, de missões que julgávamos ser capazes de cumprir e agora titubeamos. Provas e expiações podem ser atenuadas, adiadas e mesmo canceladas, a depender da nossa conduta atual, disposições interiores, esforço e mérito no caminho do bem. Não podemos esquecer que, se por um lado, estamos sujeitos a colher hoje reações de atos praticados no passado, no presente também executamos novas ações que, por sua vez, trarão reflexos no futuro. Resumindo: nem tudo é carma como se diz.

No caso da colisão aérea entre o Boeing da Gol e o Legacy, várias falhas humanas e técnicas podem ter ocorrido. Falha do transponder, descumprimento da mudança de nível de vôo do jatinho depois de passar por Brasília, não determinação do controle para que o da Gol mudasse o próprio nível e outras. Mas a pergunta é: Deus não pode tudo? Os Espíritos que o auxiliam na administração do universo não poderiam ter intuído os envolvidos para corrigir os erros a tempo? Todos os que morreram “tinham” que morrer? E por quê?

Deus não determinou a ocorrência que poderia ser evitada. Mas, em tudo ele extrai benefícios onde o homem só enxerga desgraça e dor. Deus não intervém diretamente em tudo o que ocorre. Para isso estabeleceu leis sábias e justas, imutáveis, porém flexíveis. Se houve imprudência, imperícia, negligência, má-intenção, desrespeito às normas de navegação aérea, Deus não pode ser culpado por isso. Os responsáveis serão penalizados proporcionalmente ao seu grau de culpabilidade, quer pela justiça terrena, quer pela divina.

Deus permitir que algo aconteça não significa que desejasse sua ocorrência. Pode-se alegar que se Ele sabia que poderia acontecer e podendo intervir não o fez, então foi omisso e indiferente ao sofrimento de algumas centenas de suas criaturas. Fatos como este são muito trágicos e dolorosos e ninguém tem o direito de tripudiar sobre o sentimento de dor experimentado pelas vítimas - pois que continuam a viver conscientes na outra dimensão -, familiares e amigos. Mas Deus a tudo provê com sua visão infinita. Para a grandiosidade de sua obra e mesmo da evolução de cada ser, o acidente não passou de um incidente isolado que em nada afetará o conjunto.

Nestas ocorrências quase sempre há exceções. Adultos, um bebê ou um idoso encontrado vivo, muitos dias após, nos escombros de um terremoto; pessoas “salvas” por contratempos triviais como um pneu furado, etc. E há o inverso. No vôo 1907 da Gol estava uma mulher que já sofrera uma queda de avião na infância. Outra antecipou a viagem com o filho em um dia; o marido não os acompanhou. Um passageiro decidiu adiar o vôo devido ao número de escalas. Fora poupado pela segunda vez, pois escapara de outro acidente em 2004, no Mato Grosso, quando 33 pessoas pereceram.

Deus não deu preferência para poupar uns e outros não; não há milagres. Apenas o planejamento reencarnatório deste ou daquele não previa a partida da vida física neste momento. Os que sobrevivem não é por privilégio divino ou questões de fé. Foram afastados da circunstância porque seu destino era diferente. Suas experiências no corpo ainda não haviam chegado a termo.

Outra interrogação. Se o fato ocorreu por falhas humanas, se estas não tivessem ocorrido, as 154 pessoas não morreriam? A questão 738 de O Livro dos Espíritos esclarece que Deus pode empregar outros meios para cumprimento de suas leis e objetivos, visando sempre ao aprimoramento da humanidade. Leis que são sempre educativas e não punitivas, objetivando proporcionar o progresso espiritual que conduzirá o homem à verdadeira felicidade.

O respeito do Criador para com o livre-arbítrio e necessidades dos homens perpetra condições da execução apropriada. Se não fosse em grupo seria individualmente. Se não de avião talvez de automóvel; se não naquele dia, em outro qualquer. Esta questão esclarece também que o conceito que os seres libertos do corpo físico possuem da vida material é muito diferente do que o nosso. Não lhe emprestam o mesmo valor superlativo porque sabem que todos somos imortais, que já tiveram e terão muitas outras existências carnais.

Se eventualmente uma ou mais pessoas que ali desencarnaram não tivessem que perecer, “...estas encontrarão em outra existência larga compensação aos seus sofrimentos desde que saibam suportá-los sem murmurar.”.

Resumindo: algumas vítimas ali devem estar “pagando” dívidas contraídas no passado enquanto outras podem estar “adquirindo créditos” para o futuro.



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Fonte: Comunicação Espírita - Novembro/Dezembro de 2006

- http://aeradoespirito.sites.uol.com.br/

 



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