Espiritualidade e Sociedade



Alexandre Cumino

>    Umbanda : Matriz Religiosa Brasileira

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Alexandre Cumino
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Dia 13 de Novembro de 2008 publiquei o texto UMBANDA: MATRIZ RELIGIOSA BRASILEIRA, no Jornal de Umbanda Sagrada, e por incrível que pareça até esta data não encontrei nenhuma publicação umbandista que aborda-se o tema. Também não recebi, até a data citada, nenhum e-mail que se refere desta forma à Umbanda, ou seja nenhum documento chegou à minhas mãos que apresenta-se outro irmão umbandista abordando ou defendendo esta questão impar para a religião de Umbanda.

Afinal o uso do termo Matriz Religiosa Brasileira é novo e faz parte do contexto de Sociologia da Religião, mais precisamente um termo cunhado pelo sociólogo José Bittencourt Filho, que aparece como tese no livro Matriz Religiosa Brasileira, Ed. Vozes, 2003.

Por ser um estudo especifico da área de Sociologia da Religião ou de Ciências da Religião é compreensivo que poucos tivessem tido acesso ao mesmo, afinal sempre que se fala de Umbanda costuma-se defini-la como religião de Matriz Afro-Brasileira, um termo que se aplica corretamente ao Candomblé.

Por ter uma raiz afro é que se costuma colocar a Umbanda entre as religiões de Matriz Afro-Brasileiras, mas a Umbanda não tem também uma raiz indígena e outra européia (na influencia católica e “kardecista”)? Então também seria de Matriz Indígena e Européia?

Segundo BITTENCOURT, citando a fonte correta, existe uma Matriz Brasileira no que diz respeito à cultura brasileira que é, esta sim, formada pelas diversas culturas que aqui chegaram com a colonização e a Matriz Religiosa Brasileira está inserida dentro da Matriz Cultural Brasileira.

Esta é uma abordagem nova, digna e muito importante para quem segue uma religião brasileira, pois é partindo deste ponto que alcançaremos um entendimento maior do que também é chamado de “caldo cultural brasileiro”.

A Matriz Religiosa Brasileira, ao contrário do que pode parecer não é um simples sincretismo do branco-negro-indio, ela se formou de forma tardia pois além destas três culturas seu ultimo elemento formador aportou no Brasil apenas no século XIX, que é o “kardecismo” (Espiritismo).

Graças ao irmão Cássio Ribeiro e Sandra Santos, chegamos à Câmara dos Deputados em Brasilia, no dia 10 de Novembro, onde fui convidado para apresentar o texto, que foi lido pelo Deputado Vicentinho.

Por meio da irmã Sandra Santos enviei três textos: Matriz Religiosa Brasileira ; XV de Novembro ; Cem Anos de Umbanda

Foi escolhido o texto Cem Anos de Umbanda, que junto do texto Matriz Religiosa Brasileira, fazem parte do livro UMBANDA: TRAGETÓRIA DE UMA RELIGIÃO, que será lançado em 2009, em parceria com a Editora Madras.


Um dos objetivos deste livro é apresentar esta Matriz Religiosa Brasileira e os caminhos que conduzem a este raciocínio ou seja quais foram os estudos que antecederam a este e como uma tese é defendida em cima das idéias propostas por outro autor que a antecede.

Sempre ouvimos falar que Umbanda é sincretismo e todos nós defendemos esta idéia, no entanto há agora uma mudança de paradigma (ponto de partida ou ponto de vista), que também é nova, no entanto foi defendida por Renato Ortiz em 1975 (Tese de Doutorado em Paris, orientada por Roger Bastide) e publicada no Brasil com o titulo de A Morte Branca do Feiticeiro Negro (São Paulo: Ed. Brasiliense).

Este novo paradigma, defendido por Renato Ortiz, diz que a Umbanda é muito mais que sincretismo, Umbanda é a síntese do povo brasileiro, juntando ORITIZ com BITENCOURTT temos então a faca e o queijo na mão para entender e defender a Umbanda como Religião Brasileira.

Igualmente ao termo Matriz Religiosa Brasileira ainda não é costume do umbandista entender a Umbanda como “síntese do povo brasileiro”, pois até nossos dias o que mais ouvimos é “sincretismo de culturas” como definição para a Umbanda.

No dia 18 de Novembro de 2008 tive a oportunidade de palestrar na Câmara Municipal de São Paulo, a convite do Pai Guimarães e neste dia, graças aos Orixás com casa cheia, pude então apresentar as teses de que “Umbanda é mais do que sincretismo é a síntese do povo brasileiro” (tese de Renato Ortiz, devidamente citado no dia) e que “Umbanda é religião de Matriz Religiosa Brasileira” (tese de José Bittencourt Filho, também citado devidamente no dia), passando por Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Roger Bastide, Câmara Cascudo, Renato Ortiz e José Bittencourt.

Agora mais surpreso ainda fiquei eu ao saber que o irmão Roger Tausing irá apresentar o tema “Matriz Religiosa Brasileira: Passado, Presente e Futuro da Umbanda” no dia 9 de Dezembro em um seminário com o tema “Centenário da Umbanda: Matriz Religiosa Brasileira”, deve ser uma feliz coincidência.

Aproveito esta oportunidade para dar os parabéns aos irmãos que conquistaram esta data na Câmara dos Deputados, todas as comemorações em homenagem ao centenário engrandecem a religião de Umbanda, e marcam definitivamente no inconsciente coletivo e também no consciente desta nação que Umbanda tem história e é uma religião brasileira.

Ofereço como colaboração o texto que foi publicado dia 13 de Novembro de 2008 no Jornal de Umbanda Sagrada (Umbanda: Matriz Religiosa Brasileira), já que nenhum umbandista, que eu saiba, tenha abordado o tema até aqui, creio que toda colaboração é valida, segue o texto:


UMBANDA: Matriz Religiosa Brasileira

Por Alexandre Cumino


Eduardo Refkalefsky, Doutor em Comunicação e Cultura e professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ao lado da aluna de graduação (ECO/UFRG) Cyntia R. J. Lima, apresen­taram o tema POSICIONA­MENTO E MAKETING RELIGIO­SO IURDIANO: UMA LITUR­GIA SEMI-IMPORTADA DA UMBAN­DA, onde faz considerações importan­tes para este nosso estudo:

(...) a Umbanda representa melhor do que qualquer outra religião, culto ou doutrina os elementos da “Matriz Religiosa Brasileira”, termo criado pelo sociólogo José Bittencourt Filho (2003). A Matriz Religiosa é parte da Matriz Cultural Brasileira, fruto do processo de colonização. No processo de formação da nacionalidade brasileira, o que em demografia representa a miscige­nação , se traduz no campo religioso como sincretismo.

Do ponto de vista conceitual, a Matriz compreende:

(...) formas, condutas religiosas, estilos de espiritualidade, e condutas religiosas uniformes evidenciam a presença influente de um substrato religioso-cultural que denominamos Matriz Religiosa Brasileira. Esta expressão deve ser apreendida em seu sentido lato, isto é, como algo que busca traduzir uma complexa interação de idéias e símbolos religiosos que se amalgamaram num decurso multissecular, portanto, não se trata stricto sensu de uma categoria de definição, mas de um objeto de estudo. Esse processo multissecular teve, como desdobramento principal, a gestão de uma mentalidade religiosa média dos brasileiros, uma representação coletiva que ultrapassa mesmo a situação de classe em que se encontrem. (...) essa mentalidade expandiu sua base social por meio de injunções incontroláveis (...) para num determinado momento histórico, ser incorporada definitivamente ao incons­ciente coletivo nacional, uma vez que já se incorporara, através de séculos, à prática religiosa [BITENCOURT, 2003, p. 42s].

As características principais da Matriz Religiosa Brasileira e da Umbanda, em especial, são:

a) o contato direto com o sagrado (através das incorporações de “espíritos”);
b) o uso intensivo de elementos sincréticos, provenientes de várias origens religiosas;
c) o caráter de magia prática para solução de problemas cotidianos;
d) a relação de trocas (“eu te ajudo para que você me ajude”) com estas entidades e o Sagrado, de modo geral;
e) a prática de uma religiosidade individual, à margem das instituições eclesiásticas; e
f) uma moral “franciscana” (LIMA FILHO, 2005), que privilegia atitudes e comportamentos “simples”, “líricos”, quase animistas em relação à natureza, avessos à cultura letrada, ao intelectualismo, mercantilismo (a modernidade de Weber) e defensores dos “fracos e oprimidos”.

Estas são conclusões inevitáveis a quem estuda religião de forma séria, mesmo que não conhecêssemos a história de Zélio de Moraes ainda assim Umbanda seria uma religião brasileira, pois em lugar nenhum, no tempo e no espaço se reuniu os elementos que são presentes na Umbanda da forma como a conhecemos. Pois a Umbanda não prescinde de cada um dos elementos das diversas culturas presentes nesta matriz. A História do Zélio faz confirmar a nacionalidade de Umbanda.

Não encontraríamos a integridade de todos elementos apenas em uma ou outra cultura, portanto o nascimento se dá do encontro ou síntese de todas elas. O que temos são raízes ou “origens” diversas que se combinam. Quanto a uma suposta origem na Lemuria, Atântida ou Índia a resposta é simples, não há umbanda sem o Preto-velho (negro que foi escravo no Brasil, batizado com nome português como João, José, Benedito...) e quem é este preto-velho nestas supostas origens? A Umbanda não antecede quem a formou O Caboclo e o Pretp-velho. Assim podemos entender esta suposta origem e a teoria do AUMBANDHÃ como um “Mito Fundante” criado ou “forjado” para colocar a Umbanda em posição privilegiada. Eu particularmente não creio neste mito, respeito quem acredita, mas devo como sempre fundamentar porquê não creio... Por fim a teoria de “religião primordial” e “religião verdadeira” (“religio-vera”?) foram teorias católicas adaptadas para a Umbanda, também é uma teoria que se inspira na Teosofia como origem de todas as religiões.

Hoje sabemos que o que sempre houve na humanidade foi experiência religiosa e não esta ou aquela religião, não há uma religião superior à outra.

A Umbanda é apenas a nossa firma de praticar religião, uma forma brasileira...

AXÉ a todos que batem cabeça no congá de Oxalá e que o Caboclo das Sete Encruzilhadas nos inspire palavras e pensamentos que dignifiquem a religião fundamentada por ele um século atrás.

Alexandre Cumino



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