Alexandre Cumino

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"Sou apenas um caboclo brasileiro"

"Se é preciso que eu tenha um nome digam que sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois não haverá caminhos fecha­dos para mim. Venho trazer a Umbanda, religião que harmo­nizará as famílias e que perdurará até o final dos séculos" ...

"Umbanda é a manifestação do espírito para a caridade"...

"Nós aprenderemos com aqueles espíritos que souberem mais e ensinaremos os que souberem menos e a nenhum viraremos as costas ou diremos não."

Com estas palavras, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, incorporado em seu médium Zélio Fernandino de Moraes, que na época contava com 17 anos, fundou a religião de Umbanda, tendo se manifestado dentro da recém fundada Federação Espírita de Niterói, no dia 15 de Novembro de 1908.

No dia seguinte, na casa da Família Moraes, o Caboclo se manifesta fundando ali a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, porque assim como Nossa Senhora acolheu Jesus em seus braços, a Umbanda haveria de acolher os filhos seus. No mesmo dia se apresentou Pai Antônio e juntos, o Caboclo e o Preto Velho, marcaram as duas principais linhas a se manifestar na Umbanda. Logo viriam as Crianças, a Linha de Ogum, os Exus sob doutrina e outros que se mesclam nestas linhas que trabalham juntas na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.

A influência kardecista na tenda seria grande, contando inclusive com uma "mesa branca" para os trabalhos de desobsessão.

Zélio de Moraes dedicou todos os dias de sua vida à Umbanda até o ano de 1975, quando se deu o seu desencarne. Foram inúmeros casos de orientação espiritual, desobsessões e curas que vão das mais simples até as milagrosas.

Durante os seus 67 anos de trabalho voltado para a Umbanda, Zélio fundou dezenas de Tendas e ajudou a fundar centenas delas. Das tendas fundadas por ele, que se mantinham sob seu comando indireto, continua ativa ainda a Tenda Espírita São Jorge, sob o comando do Sr. Pedro Miranda, também presidente da União Espírita de Umbanda do Brasil, que já se chamou Federação Espírita de Umbanda do Brasil, a primeira Federação da nossa religião fundada em 1939 por orientação do Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Zélio de Moraes era homem de um coração e bondade que pouco se vê, comparado apenas aos grandes Mestres Iluminados que já passaram por esta Terra.

Muito se fala sobre a origem da palavra Umbanda, podemos citar aqui pelo menos três prováveis origens:

Pode ter vindo do kimbundo, língua falada em Angola, onde significa a arte de cura ou a prática espiritual do Sacerdote Xamã Kimbanda. Alguns acreditam que a palavra teria vindo do sânscrito Aum­bhandã, traduzido por Conjunto das Leis de Deus. Há ainda uma teoria mais popular e até simpática para o significado da palavra onde o Um é Deus e a Banda somos nós, logo Umbanda seria nós e Deus, ou a Banda do Um.

Podemos dizer ainda que Caboclos e Pretos-Velhos já incorporavam em outras práticas e rituais como nos Catimbós, Encantarias, Tambor de Mina, Cabula, nas "Macumbas Cariocas" e outros, no entanto não caracterizava um ritual de Umbanda como define pai Ronaldo Linares: "Umbanda é uma religião espírita, ritmada, ritualizada, de origem euro-afro-brasileira".

Esta é a Umbanda e da forma como está estabelecida ou, da forma como a reconhecemos, ela nasce com o ritual do Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois o que define sua origem não é a data nem a origem do nome Umbanda, muito menos o fato de caboclos ou pretos velhos incorporarem em outros locais, o que define sua origem é o ponto de partida onde surgiu o ritual que chamamos e identificamos como Umbanda.

Zélio deixou um legado para seus descendentes: A mais antiga tenda de Umbanda existe e funciona até os dias de hoje na Travessa Zélio de Moraes em Boca do Mato, no município de Cachoeiras de Macacu, onde funciona também a Cabana de Pai Antônio.

À frente dos trabalhos hoje está a neta carnal de Zélio de Moraes a Sra. Lygia Cunha. Mãe Zilméia de Moraes Cunha (Mãe carnal de Lygia) se encontra na flor dos seus 93 anos de idade com uma lucidez de impressionar qualquer pessoa.

Mãe Zilméia é uma senhora de uma grande simpatia e muita simplicidade no modo de viver. A forma como expressa seus sentimentos a caracterizam como a pessoa mais amorosa que este simples escrevente teve o prazer de conhecer.

Pai Antônio sempre a chamou de carneirinho, por suas madeixas douradas e seu jeito doce de lidar com as pessoas. Mãe Zilméia se emociona ao lembrar de tantos anos ao lado de seu Pai na lida espiritual e sempre que relata alguns dos casos e histórias que envolvem sua vida espiritual costuma dizer: "Não me arrependo de nada, faria tudo outra vez;" "Nasci para ser espírita!", "Papai sempre dizia..."

Não há quem não se sinta ao lado de uma Mãe ou de uma Avó muito querida, quando tem a oportunidade de trocar algumas palavras com esta querida, de todos nós mãe, Zilméia, filha carnal de Zélio de Moraes.

 

Fonte: Jornal de Umbanda Sagrada



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