Renato Costa

>    O Problema é Doutrina

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Operamos por vários anos uma lista na Internet visando divulgar a Doutrina Espírita e trocar idéias sobre a Reencarnação e assuntos correlatos com seguidores de outros credos e sistemas de crenças espalhados pelo mundo. Aprendemos muito com essa atividade, pois se, em um meio onde todos seguem os mesmos ensinamentos e partilham da mesma cultura, as diferenças de interpretação podem ocorrer, muito mais se dá em outro onde as pessoas seguem ensinamentos distintos e pertencem a culturas das mais diversas espalhadas pelo planeta.

O assunto que escolhemos para título deste trabalho foi o tema de uma discussão que ocorreu faz um bom tempo na lista que operávamos. Um membro da lista tinha colocado suas dúvidas sobre o que ocorria com ele e, como sempre fazíamos, tínhamos respondido com o cuidado de dizer que nossa resposta estava em conformidade com nosso sistema de crenças, a Doutrina Espírita. Um outro membro, também espírita e que mora nos EUA, respondera logo após de nós à mensagem inicial, dando uma interpretação um pouco diferente da que havíamos dado. Então, comentamos o que havia dito o irmão, identificando-o como sendo, como nós, um seguidor da Doutrina Espírita. Foi o que bastou para que uma colega recém ingressa na lista afirmasse, logo a seguir, que havia descoberto o problema (com a interpretação do nosso amigo espírita). O problema, segundo ela afirmava, era “Doutrina”. Segundo dizia, e continuou dizendo após muitas tentativas nossas de esclarecê-la sobre o Espiritismo, doutrinas fecham as portas das pessoas para o conhecimento, pois são conjuntos de regras inquestionáveis que têm que ser obedecidas cegamente por quem a elas queira seguir. Ela dizia ter conhecido várias doutrinas e nos assegurava falar por experiência própria. Incapazes de por em dúvida o que ela dizia baseada em sua experiência, ficamos apenas mostrando o quanto o Espiritismo não era como ela pensava, convidando-a a ler a Codificação, etc.. Tudo em vão.

Quem nos salvou, encerrando a discussão, foi nossa boa amiga Annie, a mesma Ann L. Goldman que revisou algumas versões em inglês de nossos modestos artigos na Revista Internacional de Espiritismo, quando teve a feliz idéia de consultar o dicionário Merrian-Webster e constatar que estávamos diante de um problema de semântica. Enquanto nós entendíamos – e entendemos – que Doutrina é apenas um conjunto de ensinamentos sobre uma área do conhecimento que, por mais completo que seja, é sujeito à evolução, a colega entendia que Doutrina é um conjunto de princípios (dogmas) sobre um ramo do conhecimento ou sobre um sistema de crenças. Em nossa visão, uma Doutrina é uma lente através da qual podemos ver o mundo, podendo movê-la, se desejarmos olhar para esta ou aquela direção, e não uma viseira que nos impede de olhar para o lado e só nos deixa ver o que um condutor nos permite.

Trouxemos este assunto à apreciação dos amáveis leitores porque achamos que ele tem algo importante a nos ensinar com respeito ao estudo da nossa Doutrina.

* * *

Falemos da questão das construções nas dimensões espirituais, às quais nos familiarizamos inicialmente através de André Luiz e, posteriormente, pelo que disseram diversos outros autores espirituais. Ora – poderíamos perguntar -, se existem cidades e veículos nas dimensões espirituais, por que não se fala nada disso na Codificação? Tudo o que se sabe, lendo o Pentateuco Espírita, é que, quando desencarnamos, ficamos na erraticidade. Logo, será toda essa história de construções no plano espiritual pura fantasia?

Qualquer um que faça uma leitura superficial da obra Doutrinária chegará a essa conclusão. Mas, como entendemos nossa Doutrina não como um conjunto fechado de princípios, mas um conjunto aberto de ensinamentos em contínua evolução, preferimos partir do pressuposto de que André Luiz e os outros falaram a verdade e, assim, nos propomos a estudar mais a fundo a Codificação para ver se ela nos traz alguma informação que passa despercebida a uma primeira leitura.

Examinando o item 3 do Cap. XIV de A Gênese, quando o Codificador discorre sobre a natureza e as propriedades dos fluidos, encontraremos claros sinais de que Kardec tinha da erraticidade um entendimento muito mais complexo do que a princípio o nome por ele escolhido parece indicar. Leiamos, pois, com muita atenção, o que ele diz:

“No estado de eterização, o fluido cósmico não é uniforme; sem deixar de ser etéreo, sofre modificações tão variadas em gênero e mais numerosas talvez do que no estado de matéria tangível. Essas modificações constituem fluidos distintos que, embora procedentes do mesmo princípio, são dotados de propriedades especiais e dão lugar aos fenômenos peculiares ao mundo invisível.

Dentro da relatividade de tudo, esses fluidos têm para os Espíritos, que também são fluídicos, uma aparência tão material, quanto a dos objetos tangíveis para os encarnados e são, para eles, o que são para nós as substâncias do mundo terrestre. Eles os elaboram e combinam para produzirem determinados efeitos, como fazem os homens com os seus materiais, ainda que por processos diferentes.

Lá, porém, como neste mundo, somente aos Espíritos mais esclarecidos é dado compreender o papel que desempenham os elementos constitutivos do mundo onde eles se acham. Os ignorantes do mundo invisível são tão incapazes de explicar a si mesmos os fenômenos a que assistem e para os quais muitas vezes concorrem maquinalmente, como os ignorantes da Terra o são para explicar os efeitos da luz ou da eletricidade, para dizer de que modo é que veem e escutam.”

Como poderemos ver, após analisarmos atentamente o que diz Kardec, veremos que o que André Luiz e outros tantos Espíritos relataram sobre construções, jardins, veículos, armas, etc, nas dimensões espirituais está em total sintonia com o que nos ensina a Codificação.

A erraticidade para Kardec não era um lugar vazio onde os Espíritos ficavam errando, isto é, vagando sem destino para um ou outro lado, já que tudo ali era igual. Não, a erraticidade para Kardec era tão rica de detalhes quanto os Espíritos que nela estivessem a fizessem, conscientes ou não de que eram eles que assim estavam fazendo. E mais, para o Codificador, os Espíritos evoluídos compreendiam como eram obtidos os efeitos da manipulação dos fluidos ao passo que os mais atrasados, não.

Há que se levar em conta, sem dúvida, que, ao falar conosco de formas, objetos e seres existentes no plano espiritual, os Espíritos são forçados, muitas vezes, a usar o mesmo nome daquilo que existe em nosso plano de modo a nos facilitar a visualização e não por ser, o que lá existe, rigorosamente igual ao que conhecemos aqui. No entanto, após um atento estudo da Codificação e uma leitura isenta das obras posteriormente escritas, não pode restar dúvida de que não há conflito entre a primeira e as demais.

Como pudemos ver, uma postura dogmática adotada após um estudo superficial pode gerar desnecessárias discussões em nosso meio. Mas, poderíamos perguntar, e se o que disser um Espírito, encarnado ou não, não estiver de acordo com o que diz a Codificação? Devemos, a nosso ver, seguir o exemplo do Mestre de Lyon.

Allan Kardec foi um missionário, um sábio singular que veio ao mundo para resgatar ensinamentos esquecidos ou dispersos em muitas tradições, colocar ordem em tudo, esclarecer o que estava obscuro e, com ajuda e sob a inspiração de uma plêiade de Espíritos de escol sob a regência de Jesus, deixar um maravilhoso manual de vida para que nós pudéssemos, em o utilizando, trilhar com segurança os caminhos da evolução nos passos deixados pelo nosso amado Mestre. Com missão de tal envergadura, Kardec só podia ser um livre pensador no sentido mais puro da palavra. Fosse ele um dogmático, jamais teria investigado as mesas falantes, jamais teria rompido com idéias consolidadas, jamais teria enfrentado a ortodoxia vigente e, por isso, certamente não teria sido o escolhido para tão nobre missão.

Se quisermos seguir o exemplo e as recomendações de Kardec, portanto, temos que ser abertos aos novos conhecimentos, estudar sempre as novas conquistas de todas as áreas da ciência, sem nunca deixar de submeter, no entanto, tudo o que estudarmos à razão e ao bom-senso antes de incorporá-lo ao nosso entendimento.

Entendermos que toda a verdade está explícita na Codificação ou que tudo o que não estiver abordado nela de modo sistemático deva ser ignorado é tornar dogmática nossa Doutrina. Kardec jamais a engessou e, se vivo estivesse, estaria hoje falando do que há de mais moderno em todas as áreas da ciência e submetendo tudo aos seus rigorosos critérios de análise para posterior publicação em sua Revue Spirite.

Bibliografia

KARDEC, Allan. A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. 36.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1994.
Id. O Livro dos Espíritos. 74.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995
Id. O Livro dos Médiuns. 62.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1996.
Id. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 112.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1996.
Id. O Céu e o Inferno. 40.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995.

 

Fonte: Artigo originalmente publicado na Revista Internacional de Espiritismo, Ano LXXX, no 04, Maio de 2005




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