Espiritualidade e Sociedade





Márcio Costa

>     Mediunidade na Infância

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Márcio Costa
>   Mediunidade na Infância

 

Uma pergunta recorrente nos Grupos de Estudos de Pais trata da possível mediunidade que os filhos destes apresentam em situações corriqueiras do dia-a-dia. Alguns relatam visões que os filhos tiveram de supostos Espíritos, outros falam das brincadeiras isoladas com amigos imaginários, e ainda algumas passagens sobre contatos realizados com parentes já desencarnados. Em meio a estes e tantos outros potenciais exemplos, encontra-se a figura do pai e da mãe, ou do responsável, preocupados com as ações que devem tomar diante de tais fatos.

Não há como esgotar em poucas linhas este assunto abrangente, cuja relevância é fundamental para que uma família possa conduzir com primor os primeiros anos de seus filhos. Como dizemos na Doutrina Espírita, “cada caso é um caso” e não há como propor soluções conclusivas que poderiam ser adotadas por todos. No entanto, podemos resumir ao leitor alguns dos fundamentos encontrados no Espiritismo.

Na Revista Espírita de fevereiro de 1865, Kardec publica uma comunicação recebida de um Espírito protetor em uma reunião realizada na Sociedade de Paris, em 6 de janeiro de 1865. Dentre os vários pontos interessantes do texto, destaco a ideia de que no período da infância a ação do Espírito reencarnado sobre a matéria ainda é “pouco sensível”. O corpo ainda não exige do Espírito toda a sua interação intelectual para conduzir as atividades básicas da fase pueril. Logo, os laços que o ligam à carne ainda estão sendo estreitados, o que permite à criança a perceber com muito mais facilidade o plano espiritual ao qual fazia parte de forma recente. Isto também é a oportunidade que os Espíritos protetores têm de continuar o trabalho de preparação e encorajamento daquela alma para a reta condução do planejamento de vida realizado antes do berço.

Nos livros “Nos Domínios da Mediunidade” e “Religiões dos Espíritos”, ambos psicografados por Francisco Cândido Xavier, os Espíritos André Luiz e Emmanuel, respectivamente, fazem uma alusão à idade aproximada de sete anos para que se completem os mecanismos da reencarnação. Assim, é como se a criança até esta idade ainda estivesse aprendendo a viver em nosso mundo, sem perder a sua percepção do plano Espiritual. Sua visão e sua sensibilidade podem estar muito mais afloradas para presenças e situações, por vezes, imperceptíveis aos sentidos dos pais.

De acordo com o Livro dos Médiuns, em seu capítulo XVIII, ainda há crianças que, mesmo após esta fase, ainda apresentam características de mediunidade, seja ela de escrita, visão ou de efeitos físicos. Nestes casos, estes fenômenos demonstram que a criança já traz em sua natureza a espontaneidade de tais faculdades. Para estas crianças tais efeitos são encarados como normais e, geralmente, elas dão pouca importância ao fato, o que à leva ao esquecimento, se não for estimulada.

Um exemplo típico era o do médium Francisco Cândido Xavier. Em sua infância morava com a madrinha, a qual lhe imprimia maus tratos severos. O que lhe dava conforto era o Espírito da mãe desencarnada com a qual conversava naturalmente e lhe estimulava a não desanimar. Em suas prosas, ela dizia para o menino que um “anjo bom” viria confortá-lo de tais sofrimentos. Anos depois, o pai de Francisco, após a viuvez, desposa novamente com Cidália Batista. Esta percebe as marcas de torturas no ventre do menino e o abraça calidamente. Neste momento, ela o pergunta se ele sabe quem ela é. E Chico responde que ela era o “anjo bom” prometido pela mãe desencarnada. Tudo isso na maior naturalidade por parte dele.

Por mais bela, curiosa e instigadora que seja a mediunidade demonstrada pela criança, cabe ressaltar que este dom nada possui de trivial. A atividade mediúnica plena somente deve ser exercida por pessoas experientes e que já tenham se desenvolvido física e moralmente. Expor a criança ao incentivo no emprego de tais talentos é uma atividade muito perigosa, pois o organismo e a mente da criança ainda não estão preparados para a “excessiva sobreexcitação” de tais práticas, conforme nos alerta O Livro dos Médiuns.

Além disso, devido ao seu mundo girar em torno de diversão, nada impede de que em algum momento a criança sozinha possa querer brincar com tais conceitos, o que pode expô-la a situações indesejáveis de envolvimento com Espíritos inferiores que se comprazem em iludir os seus comunicantes. De acordo com o item XII da Introdução do Livro dos Espíritos, tais entidades já buscam ludibriar adultos. Então, por que não o fariam com uma criança?

O Livro dos Médiuns orienta que os pais ou responsáveis devem afastar as crianças das ideias de mediunidade, procurando não tocar no referido assunto no que tange diretamente a ela. A menos que seja para apresentar as suas consequências morais, caso seja necessário. E se houver uma notória mediunidade, esta não deve ser incentivada e tratada com naturalidade.

Um leitor poderá levantar a questão sobre a frequência de uma criança na Evangelização Espírita e se esta não seria um incentivo ao desenvolvimento da mediunidade. E a resposta seria negativa, pois na Evangelização somente são trabalhados os princípios cristãos e as noções doutrinárias compatibilizadas com a idade da criança.

Em todos os casos, observar, se instruir e buscar uma orientação Espírita adequada é fundamental para melhor orientar a criança. Ainda como propostas edificantes, reitera-se a ideia de participação da criança na Evangelização Espírita da Infância, no passe ministrado de forma correta e, para Espíritas ou não, a busca sincera da aplicação contínua dos princípios cristãos.

Mediunidade não é brinquedo.

 


Referências:

KARDEK, Allan. O Livro dos Médiuns. 49. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1944. 577 p.
REVISTA ESPÍRITA: Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, França: Instituto de Difusão Espírita, v., junho 1865. Mensal.
André Luiz; XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. 34. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2010. 352 p.
EMMANUEL. Religiões dos Espíritos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2008. 376 p. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.
KARDEC, Allan. Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004.

 

Fonte: http://www.agendaespiritabrasil.com.br/2014/10/06/mediunidade-na-infancia

 



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