Espiritualidade e Sociedade





Márcio Costa

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Márcio Costa
>   Fui maltratado na casa Espírita

 

Cruzava os corredores de uma das casas Espíritas que frequentei quando uma senhora me abordou dizendo que havia sido maltratada. Gesticulando as mãos junto com palavras indignadas, reclamava de uma das trabalhadoras do Centro por não tê-la recebido direito ao vim pedir uma cesta básica:

- Logo aqui, onde eu esperava ser bem tratada, “fulana” me trata com falta de educação. Só porque eu sou pobre e vim pedir doações! Que absurdo!

E assim ela saiu pelos corredores, dizendo que voltava depois quando a servidora fosse outra.

Em outra ocasião, já em diferente casa Espírita, deparei-me com uma senhora que conduzia o estudo por meio da leitura das obras básicas de Kardec. Naquela época ainda não havia o ESDE (Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita) e muitas casas faziam esse trabalho lendo capítulo por capítulo do Livro dos Espíritos, seguindo o Evangelho e as demais obras. Lembro-me que por ela se tratar de uma trabalhadora com anos de experiência naquela casa, muitas das vezes retrucava de maneira ríspida os comentários e perguntas dos novatos durante o estudo. Certa vez questionei colocações apresentadas por ela sobre uma das perguntas do Livro dos Espíritos. Como se eu tivesse cometido um pecado mortal, ela me respondeu de forma contundente o que me constrangeu junto aos demais colegas de estudo. Não sendo a primeira vez que via ela nos tratar daquela forma, e como ainda era jovem e imaturo, nenhuma colocação a mais eu fiz, afastando-me daquele trabalho e, posteriormente, daquele Centro.

Estes são apenas dois exemplos de tantos fatos que vivenciamos ou ouvimos falar em nossas casas Espíritas, como também em outras religiões. O normal é questionarmos o atendimento em estabelecimentos comerciais. No entanto, quando se trata de religião ou locais de apoio, sempre esperamos que as pessoas que estão lá para nos atender sejam anjos ou espíritos iluminados prontos para nos receber. Quando o contrário acontece, nossa indignação parece ser muito maior, o que aumenta significativamente nossa decepção.

É bem compreensível que não aceitemos este tipo de postura em locais de caráter religioso. Mas pensemos bem, quem trabalha nestas casas? No caso do movimento Espírita são, em sua grande maioria, voluntários que dedicam parte do seu precioso tempo em prol da caridade, na busca da aprendizagem e da solução de seus próprios problemas. Todos nós, a exceção de Espíritos missionários, os quais são raros, estamos ainda em um mundo de expiação e provas devido às nossas imperfeições morais e intelectuais. Muitos de nós ainda não nos desvencilhamos das doenças da alma, tais como o orgulho, a vaidade, dentre outras, as quais se exteriorizam em algumas situações e ferem corações necessitados que buscam paz. Estes são os nossos trabalhadores que nos recebem: pessoas igual a nós em um sentido mais amplo, Espíritos de terceira ordem ou Espíritos imperfeitos.

É claro que tais imperfeições não justificam atos indesejáveis. Mas nos servem de exemplo de como não agir, principalmente em locais onde o amor e paz devem estar presentes. Lembremo-nos dos princípios redentores apresentados por André Luiz no livro “Agenda Cristã”, psicografado por Francisco Cândido Xavier. Em todos os momentos não podemos esquecer que “Deus é o tema central de nossos destinos”. Desculpemos sinceramente tais irmãos. Não levantemos críticas. Desejemos a ele o bem. Muitas das vezes, aquele que nos recebe em uma instituição religiosa pode ser muito mais necessitado que nós mesmos. A diferença entre ele e cada um de nós é que já percebeu suas necessidades e busca no trabalho fraterno formas de melhorar-se a cada dia.

Pensemos bem, se Jesus, guia e modelo da humanidade, não atirou nenhuma pedra a quem possuía defeitos, quem somos nós para fazê-lo. Se nos aborrecermos com um irmão, responda com o exemplo do amor e da paz. Busque contagiá-lo com as ações que ele não esteja praticando. Talvez hoje ele não dê atenção a você, mas seu continuado exemplo poderá ajudá-lo a perceber as próprias falhas. Revidar não constrói. Façamos a nossa parte. Só assim estaremos contribuindo com a psicosfera positiva e com a harmonia do local que frequentamos. E sem perceber, também estaremos ajudando a nós mesmos.

Aos trabalhadores: o alerta! Muitas almas passam por nossas mãos todos os dias. Se nós estamos em um local empenhados em apoiar os irmãos no amor e na caridade, busquemos de maneira mais sublime conduzi-los à luz. Somos responsáveis pelo nosso progresso intelecto-moral, mas não conseguiremos ir muito adiante se continuarmos contraindo débitos no trato com os irmãos. Antes de levar a palavra, estender as mãos ou acalentar um irmão, coloque-se no lugar dele. Será desta forma que gostaríamos de ser recebidos? Este é o acalento da alma que precisamos? Busquemos as resposta na reflexão diária. Se estivermos moralmente confortáveis junto à sublime espiritualidade nos momentos de prece é porque estamos no caminho certo.

Enfim, sejamos nós trabalhadores ou necessitados, todos estamos na mesma nave, caminhando em direção ao Mundo de Regeneração. Façamos cada um a nossa parte, pois somente com o amor e a caridade é que poderemos transformar nossas casas, sejam Espíritas ou não, em lares de acolhimento espiritual, digno de nossas expectativas.


Márcio Martins da Silva Costa

 


REFERÊNCIAS:


KARDEC, Allan. Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004.
XAVIER, Francisco Cândido. Agenda Cristã (pelo Espírito de André Luiz). Federação Espírita Brasileira, 1963.

Fonte:
http://www.agendaespiritabrasil.com.br/2015/01/30/fui-maltratado-na-casa-espirita




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