Espiritualidade e Sociedade



Pedro Camilo

>   Minha Experiência com Hermínio Miranda

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Pedro Camilo
>    Minha Experiência com Hermínio Miranda

 

Ainda muito novo, com 13 anos de idade, conheci e apaixonei-me pelo Espiritismo. E para quem diz que paixão é coisa que não passa de dois anos, afirmo que a minha já dura quase 19 anos...

Muitos motivos eu tenho para manter, viva e acesa, essa paixão, sobretudo graças ao trabalho e à vida de alguns espíritas notáveis, tal o próprio Allan Kardec, Yvonne Pereira, Chico Xavier, José Herculano Pires e Lamartine Palhano Júnior, para citar alguns. E, claro, não poderia ficar de fora dessa lista o nome singular de Hermínio Corrêa de Miranda.

Assim que ingressei na prática mediúnica, em maio de 1995, graças ao afloramento mediúnico, fiz de Diálogo com as sombras um livro de cabeceira. Anos mais tarde, vim a saber, pelo próprio Hermínio, que essa obra era considerada, por Yvonne Pereira, “o livro que Kardec não escreveu”. Yvonne sabia das coisas, e como sabia!

Após descobrir o Diálogos..., outros “diálogos” vieram parar em minhas mãos, nos livros Histórias que os espíritos contaram e A dama do Vizir, em que pude aprender com ele a arte de conversar com os espíritos, também despertando em mim o vivo interesse pela pesquisa espírita, que ele tão bem soube empreender.

A partir daí, muito fui aprendendo com seus livros, com sua seriedade e sua escrita fácil e criteriosa, que encantam a quantos o leem.

Em 1999, quando Yvonne surgiu para mim e decidi pesquisar sua vida, o que resultou nos estudos iniciados com Yvonne Pereira: uma heroína silenciosa, troquei algumas cartas com Hermínio. Descobri que foram amigos graças ao livro Cânticos do coração, de autoria da médium e cujo prefácio é do nosso escriba (era assim que Hermínio gostava de referir a si próprio). Aliás, foi esse livro que me ajudou a constatar que era, de fato, Yvonne o espírito que estava por perto... Mas esta é uma história que conto outro dia, em outro texto.

Voltemos a Hermínio. Sabendo da amizade de ambos, aproveitei da presença de alguns confrades no Congresso Espírita que aconteceu na Bahia, no mês de abril daquele 1999, para tentar colher informações. Dentre muitos, Suely Caldas Schubert foi procurada, afirmando que não conhecera Yvonne pessoalmente e que poderia, caso eu quisesse, fornecer o endereço de Hermínio, para troca de correspondência. Não só aceitei, como telefonei para ela, na semana imediata, obtendo aquela “senha” para um contato que foi tão grato e importante para mim.

Com muita presteza, Hermínio respondeu às minhas cartas, em estilo leve, descontraído e simpático, com informações que enriqueceram as pesquisas e que se encontram registradas no meu primeiro livro.

Anos depois, em julho de 2003, remeti a obra, já publicada, para sua apreciação, dele recebendo preciosa carta de agradecimento, em que acusava ter gostado da leitura, estimulando-me a prosseguir na tarefa abraçada.

* * *

Em janeiro de 2006, a escritora Lygia Barbieri do Amaral, radicada em Caxambu, convidou-me para proferir palestra naquela cidade e em outras da região. Era a primeira vez que eu visitava Minas Gerais, e transbordava de alegria pela oportunidade.

Antes de viajar, Lygia revelara que Hermínio possuía uma casa em Caxambu. “Ele costuma passar o outono e o inverno no Rio, enquanto fica por aqui na primavera e no verão”, afirmava Lygia, completando: “quem sabe você não consegue visitá-lo?”?

Com essa esperança, fui para a jornada de palestras, num final de semana. Quando chegamos à segunda-feira, 23 de janeiro de 2006, dia em que iria para São Lourenço e, de lá, para o Rio de Janeiro, enchi-me de coragem e liguei para Hermínio. Estava completamente desestimulado, pois não foram poucos os que me disseram ser ele muito ocupado e que, por conta da sua natural timidez, não costumava receber pessoas em casa.

Apesar dos pesares, telefonei. Uma voz feminina atendeu. Apresentei-me e pedi para falar com ele, que logo foi chamado e atendeu. Que emoção! Eu não passava de um jovem, ousado e sonhador, desejando avistar-me com alguém que era uma grande referência para mim!

Falamos por alguns minutos ao telefone. Disse-lhe que estava na cidade e desejava visitá-lo, não somente para conhecê-lo de perto, agradecendo pela ajuda com o livro, bem como para ouvi-lo sobre Deolindo Amorim, sobre quem eu estava pesquisando. Hermínio e Deolindo foram amigos durante anos.

Para minha surpresa, Hermínio disse um “passe aqui pela tarde”, assim, com toda simplicidade e naturalidade. E eu, sem pensar duas vezes, passei...

Cheguei lá por volta das 15h. Às 17h, os confrades me conduziriam a São Lourenço.

Que dizer daquelas duas horas de conversa? Falamos de muitas coisas: de sua vida, de sua obra, da vida e da obra de Deolindo, do Movimento Espírita... Pude ouvi-lo, com os ouvidos e o gravador bem atentos, até o último momento, aproveitando sua grande simpatia e seu encantamento. Ele, que sempre se furtava a palestras públicas por afirmar não ser bom com a palavra falada, era, na verdade, um excelente comunicador oral, pois o seu carisma e sua vivacidade prendiam o interlocutor de forma impressionante!

Saí dali extremamente agradecido, a Deus e a Hermínio, por uma tarde tão agradável!

* * *

Em meados de 2011, cheguei a casa no final da tarde. Como de hábito, abri o notebook e consultei meus e-mails. Em meio a tantas mensagens, uma de Izabel Vitusso, a querida amiga, responsável pela Editora Correio Fraterno.

Consultando o conteúdo da mensagem, meus olhos ficaram fixos e, durante algum tempo, não tive palavras. Minha esposa, no sofá, acompanhava a cena, entre preocupada e curiosa, perguntando o que acontecera. Passados alguns minutos, tive coragem de dizer: era o convite para prefaciar a obra "O que é fenômeno anímico", de Hermínio Miranda, que a Correio Fraterno publicaria até o final do ano.

- Como “eu” vou prefaciar um livro de Hermínio? – perguntava a Alana, entre surpreso e descrente. – No máximo, seu sempre sonhei em ter um livro prefaciado por ele. Mas eu prefaciá-lo? Com que direito?

Apresentei o mesmo questionamento a Izabel, tentando declinar do convite, mas fui peremptoriamente impedido por ela e Eliana Hadad, que insistiam, lembrando a minha pesquisa – ainda em andamento – sobre o animismo e os fenômenos anímicos.

Fiz o prefácio como preito de amizade, gratidão e reconhecimento. Hermínio era um homem simples, sábio e humilde, cuja grandeza dispensa homenagens e louvaminhas. Por isso, não ousei violar sua timidez e seu jeito de ser.

Em maio de 2012, ele, em um ato de extrema gentileza, embora já com a saúde abalada e sem muitas condições de trabalho, deu-me as linhas do prefácio do meu "Mediunidade: para entender e refletir". Após o texto que consta no livro, Hermínio ainda escreveu, para mim e para Izabel, que lia o e-mail em cópia, as seguintes palavras, recheadas de bom humor, modéstia e jovialidade:

< Pedro Camilo e Izabel Vitusso
Caros amigos e confrades:

Aí vai o prefácio solicitado. Devo confessar-lhes, honestamente, que não me agrada meu próprio texto, mas foi o que consegui produzir, vencendo minhas limitações. Decididamente, não sei escrever prefácios. Além disso, o texto precisa de cuidadosa revisão gramatical, com as vírgulas no devido lugar, como querem os gramáticos e filólogos.

Não é a toa que Erico Verissimo declarou, um dia, que se tornava cada vez mais difícil escrever. E que Monteiro Lobato – outro ícone meu – também se queixava de seus tropeços na pontuação. Chegou mesmo a pensar em botar ao pé de cada página, uma batelada de vírgulas, pontos-e-vírgulas, pontos finais, de interrogação e de exclamação para que leitoras e leitores se servissem à sua vontade da notação de seu gosto.

Foi ele mesmo, o querido Lobato que contou história do homem que se casou com a mulher errada porque a pediu ao pai em carta que continha um pronome mal colocado. O infeliz tornou-se gramático, escreveu um respeitável tratado sobre o assunto e morreu enfartado, porque a revisão deixou passar um imperdoável erro gramatical. Novamente com um fatídico pronome.

A esta altura nem sei se meu texto servirá aos propósitos de autor, editora e leitores em geral.

Cordialmente,

Hermínio C. Miranda >


Como não serviria, Hermínio? Seus textos serviram, servem e sempre servirão a todos nós, que aprendemos a amá-lo e respeitá-lo, por sua vasta contribuição à Causa do Espírito e por sua vida, toda ela uma trajetória reta e ascensional, rumo à conquista da paz!

Que hoje, nos braços de sua querida mãe e de Paulo de Tarso, que certamente o orientava e supervisionava sua tarefa, você possa merecer não o famoso “descanso dos justos”, mas a “renovação de forças e de tarefas” tão próprias de quem soube dignificar a vida e o viver.

E que Jesus o abençoe, hoje e sempre!

 

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A seguir, o prefácio que Pedro Camilo escreveu para o livro O QUE É FENÔMENO ANÍMICO, de Hermínio Miranda, pela Editora Correio Fraterno. Serve para ajudar a conhecer um pouco mais de sua obra tão importante para o Espiritismo. Hermínio desencarnou hoje.


PREFÁCIO

Décadas atrás, a Editora Correio Fraterno iniciou um instigante projeto editorial: a “Série Começar”. A iniciativa tinha, por objetivo, tratar dos temas fundamentais do Espiritismo e de sua prática, partindo-se sempre de uma afirmativa que, em verdade, revela um caráter interrogativo, característico daqueles que desejam mergulhar fundo nas discussões para desvendar a sua essência: “o que é...”.

Naquela ocasião, entendeu-se que se a ideia era começar a compreender o Espiritismo. Nada mais adequado, pois, do que “começar pelo começo”, seguindo os passos de Kardec no caminho das primeiras descobertas. Assim, o livro inaugural se desenhou na perspectiva dos fenômenos mediúnicos, a partir dos quais foi possível atingir uma compreensão mais clara e ampla da realidade espiritual.

A primeira obra da série, "O que é fenômeno mediúnico", foi confiada à pena de Hermínio Corrêa de Miranda. Já conhecido, à época, como escritor espírita, Hermínio tomou para si a incumbência e soube relacionar, em páginas breves e textos enxutos, uma coleção de fatos registrados desde os mais recuados tempos até os dias de então, traçando curioso panorama do fenômeno mediúnico e de seus prodígios.

Com a publicação de "O que é fenômeno mediúnico", a “Série Começar” começou, embora tenha sido interrompida! Variados fatores fizeram com que não somente o projeto fosse adiado, como também o livro estivesse esquecido, apesar de seu valor.

Entretanto, após passar por uma profunda reformulação, a Editora Correio Fraterno, respeitada por suas publicações de qualidade, resolveu recomeçar a série. Voltando aos caminhos da mediunidade, propôs-se a abordar uma variável por demais encontrada e pouco explorada na prática espírita, que são os fenômenos anímicos, para, assim, nos oferecer "O que é fenômeno anímico".

A fim de retomar o projeto, os editores convidaram, mais uma vez, Hermínio Corrêa de Miranda. E, para alegria de seus leitores, Hermínio aceitou o convite.

* * *

Ninguém melhor do que Hermínio Corrêa de Miranda para nos falar sobre "O que é fenômeno anímico".

Hermínio conta nada menos do que nove décadas na existência atual, sendo pelo menos cinco delas dedicadas ao estudo dos inquietantes problemas do Espírito.

Passamos a conhecê-lo, no Movimento Espírita, a partir dos artigos publicados na Revista Reformador, da Federação Espírita Brasileira. Grande parte desse material foi transformada em livro, posteriormente, ganhando eco nas páginas de Reencarnação e Imortalidade, Sobrevivência e comunicabilidade dos Espíritos, Candeias na noite escura e As mil faces da realidade espiritual, para citar alguns, cujo repertório é pleno de cultura e conhecimento doutrinário.

Ao longo de sua trajetória de “escriba”, como a si mesmo costuma referir, vamos surpreendê-lo em projetos ousados, marcados por alta versatilidade, revelando um espírito amadurecido pela luz dos séculos e antenado com o seu tempo e com todos os tempos. Assim, podemos relacionar que:

• de suas buscas em torno do Evangelho e do Cristianismo, surgiram Cristianismo: a mensagem esquecida, O Evangelho gnóstico de Tomé e Os Cátaros e a heresia católica;

• das investigações no campo da regressão de memória, área de destaque da sua produção, apareceram Eu sou Camille Desmolins e Viagens psíquicas ao Egito;

• das reflexões em torno dos complexos meandros da mente, da memória e do existir, brotaram A memória e o tempo, Autismo: uma leitura espiritual, Memória Cósmica, Condomínio Espiritual e o recente O enigma e o estigma;

• da paixão pela pesquisa em torno de personalidades históricas e suas várias aparições no solo de nosso planeta, sua análise ousada revelou A noviça e o faraó, Negritude e genialidade, As marcas do Cristo e Guerrilheiros da Intolerância;

• das vivências e pesquisas mediúnicas, nasceram Diversidade dos Carismas, em que o tema mediunidade é tratado de forma leve, descomplicada e profunda, bem como Histórias que os espíritos contaram e A dama do vizir, dentre outros.


Ainda mais extensa, sua produção bibliográfica ainda conta com biografias e traduções, sobretudo da língua inglesa para a portuguesa, sítio de domínio de sua inteligência singular.

No entanto, duas obras de sua lavra merecem ser lembradas com uma atenção especial: "Nossos filhos são espíritos" e "Diálogo com as sombras". A primeira, nascida de uma proposta-desafio que Espíritos amigos lhe lançaram, tornou-se best-seller entre nós, já tendo alcançado a marca de mais de duzentos mil exemplares, como obra de referência que se tornou para compreensão do tema.

Quanto à segunda, que foi a sua primeira produção a ser publicada, podemos seguramente afirmar que, ao lado de "O livro dos médiuns", "Diálogo com as sombras" representa obra cuja leitura e estudo é indispensável a quem se debruça sobre a prática da mediunidade e o diálogo com os Espíritos. Pretender desincumbir-se dessas duas tarefas, com responsabilidade e eficazmente, sem conhecer as duas obras referidas, caracteriza uma grande temeridade a que as almas prudentes certamente não se expõem.

Não foi sem razão que a médium Yvonne do Amaral Pereira, após a leitura cuidadosa e criteriosa de Diálogo com as sombras, confidenciou ao autor algo que o motivaria a nunca mais deixar de escrever, como afirmado por ele próprio:

- Diálogo com as sombras é o livro que Kardec não escreveu...


* * *

Embora pequeno no tamanho e sucinto nas abordagens, "O que é fenômeno anímico" é pleno de clareza e profundidade. Hermínio consegue, em seu tom leve e descontraído, conduzir o leitor, de forma muito sutil, a uma compreensão dilatada e a uma ampliação de horizontes, permitindo que se situe o animismo e seus fenômenos onde, por vezes, não os suspeitamos, além de clarificar falsas percepções e as localizar nos devidos lugares.

Assim, vamos acompanhar seu resgate das lições de Kardec em torno do tema em "O livro dos espíritos", as pesquisas de regressão de memória com Luciano dos Anjos e Cesar Burnier, a análise do autismo e dos casos de síndrome das personalidades múltiplas, as experiências de quase-morte e os curiosíssimos fenômenos de psicometria. Todos esses assuntos e outros tantos, de elevado interesse, são apresentados nesta obra singular, conduzindo-nos a importantes reflexões sobre a riqueza que o mundo do animismo pode apresentar ao observador atento e cuidadoso.

Escrito no mesmo estilo do primeiro, ou seja, "O que é fenômeno mediúnico", Hermínio vai lançando as bases do seu pensamento à medida que conversa com o leitor, transmitindo a clara impressão de estar bem perto, sentado no sofá ao lado, num bate-papo descontraído, mas pleno de informações que nos fazem parar, refletir, avaliar e concluir com clareza e simplicidade.

Ao ler o livro para preparar este prefácio, tive a sensação de regressar à sala de visitas de sua casa, na bucólica cidade mineira de Caxambu. A visita surgiu a propósito de me encontrar em palestras pela região, a convite de Ligia Barbieri do Amaral, e foi motivada pelos breves contatos por carta, trocadas ao tempo em que preparava meu primeiro livro, Yvonne Pereira: uma heroína silenciosa, e a ele recorri, por sabê-lo amigo da médium biografada.

Recordo-me de que amigos me disseram ser difícil estar com ele, em face dos seus muitos afazeres. Contudo, ao telefonar, apresentando-me e revelando o interesse em vê-lo, fui surpreendido ao escutar dele um “passe aqui pela tarde”. Lá estando, encontrei um homem discreto, agradável e extremamente simples.

Ao apreciar a obra, recomendo ao leitor que não se engane com a sua extensão ou mesmo com sua abordagem direta e objetiva. A brevidade é atributo dos simples, a simplicidade é característica dos sábios e a verdadeira sabedoria é irmã da humildade!

E todas essas qualidades estão reunidas em Hermínio Corrêa de Miranda, a quem passo a palavra para conduzir os nossos passos, a partir de agora, pelo mundo instigante dos fenômenos anímicos.

Pedro Camilo
Salvador / São Paulo, 23 de outubro de 2011.

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Pedro Camilo e Hermínio Miranda

 


Pedro Camilo (Salvador/BA)
Advogado. Mestre em Direito Público pela Universidade Federal da Bahia. Professor Auxiliar de Direito Penal e Processual Penal da Universidade do Estado do Bahia. Escritor e expositor espírita. Trabalhador do Núcleo Espírita Telles de Menezes, de Salvador, Bahia.

Escreveu os livros "Yvonne Pereira: uma heroína silenciosa", "Devassando a mediunidade" e "Mediunidade: para entender e refletir"; organizou o livro "Pelos caminhso da mediunidade serena"; mediunicamente, o Espírito Bento José escreveu, por seu intermédio, "Mente Aberta".

 

Fonte: https://www.facebook.com/pedro.camilo.33?hc_location=timeline


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