A INTUIÇÃO
NO PROCESSO DO CONHECIMENTO
1. HIPÓTESES APARENTEMENTE ABSURDAS
Muitas hipóteses levantadas pelos físicos
são rejeitadas "instintivamente" pelas
pessoas (inclusive cientistas), sob a alegação de que
são idéias "absurdas".
Na lista de filosofia da UOL, discutindo com um colega sobre o fluxo
do tempo (estava eu a defender a hipótese, sustentada por Roger
Penrose, de que o fluxo temporal é
apenas uma sensação, que o tempo, como uma quarta coordenada
do espaço, na verdade não flui), meu interlocutor argumentou
que o cientista deve, em algumas situações, considerar
o que lhe diz a intuição, para não
ficar postulando disparates, absurdos, bobagens sem limites.
A minha contra-argumentação foi a seguinte:
«A intuição é muito útil
para nos orientar neste mundo mediano em que vivemos, situado entre
o muito pequeno e o extremamente grande. A propósito, é
bom lembrar que o nosso aparelho mental é, antes de tudo, um
instrumento de sobrevivência, e que esse conhecimento antepredicativo
que temos da realidade - o conhecimento dito "intuitivo" -
não é outra coisa que o momento subjetivo da mais imediata
forma de atividade que o indivíduo desenvolve na natureza e na
sociedade e com vista à mera reprodução da sua
existência.
Ora, não é no mundo subatômico que o indivíduo
humano labora, e nem necessita ele, para manter-se vivo, de se deslocar
mais de algumas centenas de milhares de quilômetros durante toda
a sua vida - uma vida que dura, em média, 70 anos. De sorte que
o que se passa no mundo dos quarks, léptons e fótons,
bem como naquele outro mundo cuja unidade de medida é o megaparsec,
ou, dito em outros termos, o que se passa além das fronteiras
desse nosso mundo medíocre em que os objetos se movem a uma velocidade
muito inferior a da luz é, realmente, de desorientar os sentidos
e dar curto-circuito em neurônios.
Nosso cérebro não foi projetado para "compreender"
a realidade dos "quanta" ou a macroestrutura do espaço-tempo.
Querer que este mundo que não é o mundo da nossa atividade
do dia-a-dia condiga com a nossa intuição é querer
o impossível.
Einstein, graças à sua imaginação e criatividade,
teve grandes "insights" acerca da natureza do espaço,
do tempo, da matéria e da energia. No entanto, sua intuição
o fez aferrar-se à crença de que, nos fenômenos
quânticos, existem parâmetros ocultos, isto é, o
conhecimento "intuitivo" de que tudo tem uma causa e que a
cada causa corresponde um único efeito o fez defender a idéia
de que existem determinadas variáveis ainda não acessíveis
ao conhecimento humano, e que é precisamente o desconhecimento
desta causalidade subjacente que faz com que a realidade quântica
nos pareça indeterminista. Vale dizer, Einstein, por causa da
sua intuição acerca da relação causa-efeito,
não aceitou a incerteza como algo intrínseco ao mundo
dos "quanta". Bohr, ao contrário, não só
aceitou como demonstrou que os fenômenos subatômicos podem
ser "explicados" satisfatoriamente sem que seja necessário
recorrer ao determinismo laplaceano.
Mas é bom que se ressalve que o termo "incompreensível"
não é sinônimo de "inexplicável".
O mundo do infinitamente pequeno e o do incomensuravelmente grande podem
ser explicados, sim, porém não com os meios que dispõe
a linguagem ou mesmo (talvez) a lógica aristotélica. Essas
realidades extremas e inóspitas deixam-se revelar através
da matemática, que, segundo Galileu, é a linguagem da
Natureza. Infelizmente, Johann Von Neumann tem razão quando diz
que "em matemática você não compreende as coisas.
Simplesmente se acostuma a elas."
Com efeito, sempre que um fenômeno subatômico é comunicado
na linguagem corrente, deparamo-nos com paradoxos do tipo "uma
partícula está e não está em vários
lugares ao mesmo tempo". Isso é um disparate, porém
um disparate que a matemática "explica" e a experiência
comprova.»
Em miúdos: para mim, o que tem coerência matemática
e ainda não foi (ou não pode ser) refutado pela experiência
encerra uma possibilidade de verdade.
2. A INTUIÇÃO NAS CIÊNCIAS
SOCIAIS
Em outro ensaio, argumentei que o processo do conhecimento
é análogo ao processo de trabalho, sendo a matéria-bruta
os dados sensórios; os instrumentos "de trabalho" -
no caso, instrumentos de cognição - as formas inatas do
pensamento e da linguagem; e o produto final o conhecimento. Disse também
que o que forjou a "identidade" entre a estrutura da mente
humana e a estrutura da realidade objetiva (sem essa identidade não
haveria como o juízo se adequar ao fato, isto é, não
existiria a "verdade", essa poderosa arma de sobrevivência)
foi o mesmo mecanismo responsável pela adaptação
dos organismos vivos ao meio ambiente, a saber: a seleção
natural.
Mas será que existe alguma maneira alternativa de se
aceder à verdade? Ou seja, será que existe uma outra forma
de gnose que não seja essa combinação experiência/raciocínio
lógico-matemático?
Penso que sim, e acho que tal alternativa - a intuição
- tem um papel importante naquelas ciências cujo objeto de investigação
é precisamente os "universais formais" do pensamento
e da linguagem. Por quê? Ora, se há em nossas mentes formas
e princípios inatos e a priori, então o conhecimento de
tais princípios é, em larga medida, um reconhecimento.
Os matemáticos e os lógicos, cientistas que se distinguem
pelo acentuado pendor ao catesianismo, são também, via
de regra, homens altamente intuitivos.
A bem da verdade, a intuição é essencial em todas
as ciências "humanas", dado que, nessas ciências,
o ser humano é ao mesmo tempo sujeito e objeto do conhecimento.
Ou seja, o que distingue a metodologia das ciências naturais da
metodologia das ciências humanas é, precisamente, a função
de destaque que a intuição desempenha nesta última.
Com efeito, um físico, ao olhar para o céu, não
sabe o que lá vai encontrar: aquele ponto luminoso pode ser uma
estrela, um planeta, uma galáxia distante, um longínquo
quasar ou algo absolutamente desconhecido. Somente após um laborioso
processo de confronto com uma profusão de dados já registrado
é que o físico começará a ter uma idéia
do que seja tal ponto de luz. Já um cientista da sociedade, um
economista, por exemplo, ao debruçar-se sobre o objeto de estudo
"mercadoria", já sabe de antemão do que se trata;
ou seja, antes mesmo de uma análise minuciosa, tem ele uma idéia
- vaga, sem contornos, "intuitiva" - do que seja uma mercadoria.
Dito em outros termos, nas ciências humanas o ponto de partida
do processo cognitivo é sempre uma idéia vaga e imprecisa,
uma verdade meramente esboçada, aquilo que Kant denominou de
conhecimento "antepredicativo" da realidade - em oposição
ao conhecimento "teórico-predicativo", que advém
após os procedimentos da análise.
No plano epistemológico, o que distingue um racionalista de um
irracionalista não é o fato de os racionalistas menosprezarem
a intuição como "momento" do processo cognitivo.
Todos os "bons" racionalistas conhecem a função
da intuição em tal processo. Para eles, a antítese
intuição/razão é uma falácia. Aliás,
quem busca a verdade sabe, por intuição, que a verdade
existe, não é mesmo?
Marx, que, sem sombra de dúvida, foi um grande pensador racionalista
do século XIX, quer concorde com ele ou não, disse certa
vez que "tudo que é humano não me é estranho".
Significa dizer que, ao menos nas ciências da sociedade e do espírito,
o cientista jamais parte do absolutamente zero.
Realmente, o que distingue o racionalista do irracionalista é
que este último tende a exagerar o papel da intuição
no processo do conhecimento, às vezes negligenciando por completo
os rigores da análise. Para essa turma, todo conhecimento "profundo"
da realidade é sempre fruto de uma grande "sacação".
E como as sacações geniais pressupõem gênios,
os irracionalistas estão sempre idolatrando "grandes homens",
sendo Nietzsche, atualmente, o dileto guru. Diante de um Nietzsche,
o irracionalista queda-se hipnotizado, absolutamente desprovido de senso-crítico,
que é o que distingue o filósofo verdadeiro do seu arremedo.
3. A INTUIÇÃO NO PROCESSO DO CONHECIMENTO
"Newton contemplou a natureza com conhecimentos
adquiridos em seus estudos, o que é diferente de "observar"
um fenômeno sem conhecimento algum." (Alberto Mesquita; Física
e Teorização)
Com certeza observamos o mundo não apenas com nossos sentidos,
mas também com a memória. Percepção = sensação
+ memória.
Sabe-se, no entanto, que temos dois tipos de memória: uma memória
que se forma no transcurso da vida individual, mediante a interação
do indivíduo com o meio e através do processo de aprendizado;
e uma outra memória, mais primitiva, que se transmite de uma
geração a outra por meio da herança genética.
Trata-se esta última de uma memória "arquetípica",
que começou a se formar no exato momento em que o primeiro organismo
vivo surgiu sobre a face da Terra (logo, uma memória que, em
larga medida, é anterior ao gênero humano), e por meio
daqueles mecanismos mais gerais: a mutação genética
e a seleção natural.
Essas informações arquetípicas do meio ambiente
que, antes de constarem no cérebro, já estavam presentes
nos genes, constituem aquele conhecimento "a priori" da realidade
("a priori" com relação ao indivíduo,
frise-se) que, para a imensa maioria das pessoas, é inquestionável.
Quando falo em intuição, refiro-me àquela
percepção do mundo intimamente associada à esse
conhecimento inato: um conhecimento cuja função é
orientar o indivíduo "dentro das fronteiras do seu habitat"
e que é, portanto, "um instrumento de sobrevivência".
Essas informações genéticas são, para nós,
"evidências" (para Descartes, a intuição
é a visão da evidência). Mas tais evidências,
tais verdades "apriorísticas" são, em larga
medida, verdades "regionais", isto é, verdades atinentes
aos fatos do nosso mundo mediano (alguns diriam, newtoneano), situado
entre o mundo dos quanta e o dos aglomerados de galáxias. É
por isso que os físicos, ao estudarem o mundo subatômico
ou a macroestrutura do espaço-tempo, devem ter o máximo
cuidado com sua intuição "primária".
Claro que podemos falar de uma intuição "secundária",
associada aos conhecimentos "culturais" que obtemos graças
à nossa interação com o mundo ou que nos são
transmitidos pela sociedade através da linguagem.
A intuição "secundária", ao meu ver,
e neste ponto também concordo com o Mesquita, não é
um ato, mas um "processo" perceptivo subconsciente (nada a
ver com "inconsciente") em que o sujeito se vale mais da imagem
e menos do conceito. Ademais, a intuição é um raciocínio
não tanto por indução ou por dedução,
mas por "abdução".
A "abdução" é um raciocínio por
analogia. Foi o semioticista Peirce quem primeiro utilizou o termo "abdução"
para designar esse tipo de raciocínio, que em inglês significa
"rapto", "rapinagem". Umberto Eco, em seu ensaio
A Abdução em Uqbar, explica essa modalidade de operação
mental do seguinte modo: "Se tenho um resultado curioso num campo
de fenômenos ainda não estudado, não posso procurar
uma Lei daquele campo (…). Preciso 'raptar' ou 'tomar emprestada'
uma lei noutro lugar. Como vêem, devo raciocinar por analogia."
Em um ensaio que escrevi há uns sete anos (e que jaz incompleto
e a criar bolor em algum lugar do meu disco rígido), tem um trecho
em que falo das "abduções de Darwin". Sabe-se
que o grande "insight" de Darwin adveio após ter ele
lido o livro de Malthus sobre população. Segue o texto:
«Darwin, ao regressar da sua viagem a bordo do Beagle, e tendo
em mãos uma riquíssima coletânea de dados a respeito
da fauna e da flora de várias regiões do mundo, pôs-se
então a refletir mais acuradamente sobre aquilo tudo. Mas, diante
de tão rico catálogo, seu cérebro reagia não
como uma tábula rasa; ao contrário, por trás da
rigorosa análise científica dos fatos operava, também,
a sua intuição, ou seja, aquilo que Edmond Husserl chamou
de consciência antepredicativa, esta muito mais sintética
do que analítica, e que, segundo as palavras de André
Dartigues, define-se como "o liame que liga a ciência ao
mundo da vida, isto é, ao mundo cotidiano em que vivemos, agimos,
fazemos projetos, entre outros, o da ciência, em que somos felizes
ou infelizes." Pois bem, o mundo cotidiano de Darwin - que, com
toda certeza, funcionou como pano de fundo da sua pesquisa - não
era outro que a industriosa Inglaterra do Século XIX; um mundo
caracterizado por um dinamisno jamais visto, dinamismo este fundado
em leis tão objetivas quanto as que presidem o movimento dos
astros, o que equivale a dizer que não foram criadas "deliberadamente"
pelo homem (ou seja, não foram outorgadas à sociedade
pelas suas instituições de estado). Em outros termos,
o mundo de Darwin é este nosso mundo capitalista regido pelas
"férreas" e impiedosas leis da oferta e da procura;
leis que, como as regras de qualquer jogo de azar, dividem os homens
em vencedores e perdedores (estes a grande maioria); que transformam
a sociedade humana num cruel campo de batalha, mas que, graças
aos antagonismos que criam, reproduzem sempre de uma forma ampliada
a riqueza dos homens, conferindo deste modo à história
um sentido que ela antes não tinha: o sentido do progresso.
"A abdução de Darwin consistiu, pois, em atribuir
à vida em geral o modus vivendi dos seus compatriotas; ele entreviu
no mundo tumultuoso das criaturas vivas a mesma luta encarniçada
pela existência e a "sobrevivência dos mais aptos"
que então imperava em sua Inglaterra vitoriana. Aquela ilação
de Adam Smith que, em resumo, traduz-se na máxima "cada
um por si e o mercado por todos" foi reelaborada muito criativamente
por Darwin, que passou a enunciá-la mais ou menos nos seguintes
termos: na natureza, cada organismo vivo age "egoisticamente",
isto é, unicamente em benefício próprio e tendo
por meta otimizar a propagação do seu plasma germinativo
- tal como o homo oeconomicus que subordina a sua vida à consecução
de um único objetivo: a maximização do lucro da
sua atividade empresarial -. Quanto à harmonia do Todo, a ordem
que jaz sob a desordem aparente da biosfera, o que a garante é
um mecanismo denominado "seleção natural" -
o equivalente biológico das leis do mercado -, que, como a própria
expressão sugere, consiste em que, nesse conflito que envolve
todos os viventes, somente os mais aptos sobrevivem e conseguem disseminar
seus genes, ao passo que os inaptos ou são mortos e comidos ou
então são transformados em objeto de exploração
- uma analogia aos resultados da concorrência intercapitalista,
a saber: a quebra e subseqüente proletarização dos
ineficientes, a distribuição desigual da riqueza, etc.»
(Manuel Bulcão; A Gênese do Sentido)
http://www.odialetico.hpg.ig.com.br/Membros/MBULCAO/intconhec.htm
topo